O Reverso da Medalha
Sidney Sheldon


O Reverso da Medalha

Sinopse

A personagem principal de #O Reverso da medalha#, Kate Blackwell, tem
algumas caractersticas de mulheres de outros romances de Sidney Sheldon
. Ela  to sensual quanto Noelle de #O outro lado da meia-noite#; to
bela quanto Elizabeth de #A herdeira# e to impetuosa quanto Jennifer de
#A ira dos anjos#. A histria comea em Dark Harbor, no Maine, uma
colnia de super-ricos, e se desloca para os campos de diamantes da
frica do Sul, as ruas bomias de Paris, as manses imponentes da
Inglaterra, as salas de reunies e as alcovas da Amrica, onde se
realizam as transaes que representam milhes e milhes de dlares.
Todo o trama do livro  um jogo pelo poder e Kate s joga pra ganhar.
Uma mulher to cobiada quanto os diamantes que lhe deram fortuna. .. .. 


CRCULO DE LEITORES

Ttulo original: MASTER OF THE GAME
Traduo de: EDUARDO SAL
Sobrecapa de: MANUEL DIAS

Sidney Sheldon
Fotocomposto em Times 10 10 por Fototexto, l da..
Impresso e encadernado por Printer Portuguesa. Ind.
(Grfica. no ms de Fevereiro de 1984
Nmero de edio: 1352
Segunda edio: 2000 exemplares
Depsito legal nmero: 3879 84





S  permitida a venda aos Scios do Crculo de Leitores









http://groups.google.com/group/digitalsource
Reviso e formatao: Evelly
Sumrio

PRLOGO        6
Kate 1982        6
PRIMEIRA PARTE        10
Jamie 1883-1906        10
Captulo I        10
Captulo II        31
Captulo III        39
Captulo IV        46
Captulo V        65
Captulo VI        74
Captulo VII        89
Captulo VIII        103
Captulo IX        117
Captulo X        129
Captulo XI        136
SEGUNDA PARTE        141
Kate e David 1906-1914        141
Captulo XII        141
Captulo XIII        155
Captulo XIV        164
Captulo XV        170
TERCEIRA PARTE        181
Kruger-Brent, Ltd. 1914-1945        181
Captulo XVI        181
Captulo XVII        187
QUARTA PARTE        205
Tony 1946-1950        205
Captulo XVIII        205
Captulo XIX        223
Captulo XX        229
Captulo XXI        247
Captulo XXII        255
QUINTA PARTE        257
Eva e Alexandra 1950-1975        257
Captulo XXIII        257
Captulo XXIV        263
Captulo XXV        271
Captulo XXVI        284
Captulo XXVII        301
Captulo XXVIII        307
Captulo XXIX        314
Captulo XXX        329
Captulo XXXI        343
Captulo XXXII        351
Captulo XXXIII        363
Captulo XXXIV        371
Captulo XXXV        386
EPLOGO        396
Kate 1982        396
Captulo XXXVI        396
Captulo XXXVII        399














A meu irmo Richard,
Corao de Leo


A minha gratido vai para 
Miss Geraldine Hunter, 
pela sua pacincia infinita e auxlio
na preparao deste manuscrito.


"E eis que uma paixo dominante no peito, 
Como a serpente de Aaro, devora o resto."
Papa Alexandre,
Ensaio sobre o Homem, Epstola II


"Os diamantes resistem s pancadas numa tal extenso que
um martelo de ferro se pode partir em dois e at a bigorna
se pode deslocar. Esta fora invencvel, que desafia as duas
foras mais violentas da Natureza, o ferro e o fogo, pode
dominar-se com sangue de cordeiro. Mas deve embeber-se
em sangue novo e quente e, mesmo assim, so necessrias
muitas pancadas."
Plnio, o Antigo















PRLOGO



                Kate 1982



        O vasto salo de baile estava cheio de fantasmas familiares que tinham acudido para ajudar a celebrar o aniversrio dela. Kate Blackwell via-os misturarem-se 
com as pessoas de carne e osso e, no seu esprito, a cena constitua uma fantasia de sonho, enquanto os visitantes de outra poca e lugar deslizavam em torno da 
rea de dana com os convidados, despreocupados, de gravata preta e vaporosos vestidos de noite. Havia uma centena de pessoas na festa em Cedar Hill, Dark Harbor, 
Maine. "Sem contar com os fantasmas", refletia Kate Blackwell, com uma ponta de malcia.
        Era uma mulher esguia, de estatura mediana e porte majestoso, que a fazia parecer mais alta. Possua um rosto que perdurava na memria das pessoas com as 
quais convivia: traos faciais irrepreensveis, olhos cinzento-alvorada e queixo voluntarioso, fuso de antepassados holandeses e escoceses. Tinha cabelos brancos, 
acetinados, que outrora deviam ter sido uma cascata negra exuberante, e, em contraste com as pregas graciosas do vestido de veludo-marfim, a pele apresentava a translucidez 
suave que a velhice por vezes proporciona.
        "No me sinto com noventa", pensava ela. "Para onde foram todos os anos? Eles sabem", prosseguiu, contemplando os fantasmas que danavam. "Estavam presentes. 
Fizeram parte daqueles anos, da minha vida." Avistou Banda, o rosto negro altivo e sorridente. E l estava tambm o seu David, o David querido, alto, jovem e bem-parecido, 
com o aspecto que tinha quando se enamorara dele. Ao v-lo sorrir-lhe, ela pensou: "J falta pouco, meu amor!" E deplorava que no tivesse vivido o suficiente para 
conhecer o bisneto.
        Os olhos de Kate esquadrinharam o salo at que o localizaram. Encontrava-se perto da orquestra, entretido a observar os msicos. Era um garoto, que se podia 
considerar bonito, quase com oito anos, cabelos louros, envergando casaco de veludo preto e cala de tart. Robert era uma rplica do trisav, Jamie McGregor, que 
se achava representado na tela por cima da lareira de mrmore. Como se pressentisse os olhos da bisav pousados nele, Robert voltou-se e Kate chamou-o com um movimento 
ondulatrio dos dedos, em que cintilava o diamante de vinte quilates que o pai retirara de uma praia arenosa, havia quase cem anos, agora realado pelo claro do 
candelabro de cristal. Enquanto o petiz abria caminho por entre os pares de danarinos, ela observava-o com prazer.

        "Sou o passado", admitia para consigo. "Ele  o futuro. O meu bisneto assumir, um dia, a direo da Kruger-Brent International." Por fim, Robert encontrou-se 
a seu lado e Kate desviou-se um pouco para que ele pudesse sentar-se.
        - Ests a gostar da tua festa de aniversrio, bisav?
        - Muito. Obrigada, Robert.
        -  uma orquestra formidvel. Acho o chefe mesmo "mau"...
        Ela olhou-o em confuso momentnea e acabou por sorrir.
        - Isso deve querer dizer que  bom.
        - Exato - e o garoto sorriu igualmente. - Ningum te d noventa anos.
        - Aqui para ns - replicou Kate, com uma risada -, no os sinto.
        Ele pegou-lhe na mo e conservaram-se imersos em silncio de felicidade, em que a diferena de oitenta e dois anos nas idades lhes proporcionava uma afinidade 
reconfortante. Kate moveu a cabea para ver a neta danar. Ela e o marido eram, sem dvida, o par mais atraente que se movia ao ritmo da orquestra.
        A me de Robert viu este e sua av sentados juntos e pensou: " uma mulher incrvel. Parece intemporal. Ningum diria as vicissitudes que conheceu."
        A orquestra interrompeu a atuao e o chefe anunciou:
        - Minhas senhoras e meus senhores, tenho o prazer de lhes apresentar o menino Robert.
        Este apertou a mo da bisav, levantou-se e aproximou-se do piano. Aps breve hesitao, sentou-se de expresso grave e concentrada, e os dedos principiaram 
a mover-se rapidamente no teclado. Tocava Scriabin e dir-se-ia o ondular do luar na gua.
        A me escutava e refletia: " um gnio. H-de tornar-se um grande msico." J no era o seu beb. Pertenceria ao mundo. Quando Robert chegou ao fim, os aplausos 
foram entusisticos e sinceros.
        Algumas horas antes, o jantar fora servido ao ar livre. O jardim espaoso e formal apresentava uma decorao festiva, com lanternas, fitas e bales. Os msicos 
tocavam no terrao, enquanto empregados de libr se moviam em torno das mesas, silenciosos e eficientes, para se certificarem de que os copos de Baccarat e os pratos 
de Limoges se mantinham cheios. Foi lido um telegrama do presidente dos Estados Unidos. Um juiz do Supremo Tribunal props um brinde a Kate.
        O governador enalteceu-a: "...Uma das mulheres mais notveis da histria desta nao. Os donativos de Kate Black-well a centenas de instituies de caridade 
de todo o mundo so lendrios. A Fundao Blackwell contribuiu para a sade e o bem-estar de pessoas de mais cinquenta pases. Parafraseando o falecido Winston Churchill, 
"Nunca tantos deveram tanto a to poucos." Tive o privilgio de conhecer Kate Blackwell..."
        "Lrias!", cogitava Kate. "Ningum me conhece. O fulano parece que se refere a uma santa. Que diria toda esta gente se conhecesse a verdadeira Kate Blackwell? 
Concebida por um ladro e raptada quando ainda no tinha um ano de idade. Que pensariam se lhes mostrasse as cicatrizes de balas no meu corpo?"
        Moveu a cabea e fixou o olhar no homem que outrora tentara mat-la. Os seus olhos deslocaram-se para alm dele e cravaram-se num vulto na sombra, que usava 
vu para encobrir o rosto. Tendo um trovo distante como contraponto, Kate ouviu o governador terminar a alocuo e apresent-la. Ela levantou-se com lentido e, 
em voz firme e grave, proferiu:
        - Vivi mais que qualquer dos presentes. Como diria um jovem de hoje, "grande avaria!". No entanto, alegra-me ter chegado a esta idade, porque de contrrio 
no estaria entre tantos amigos. Sei que alguns de vs vieram de pases distantes para se encontrarem junto de mim, esta noite, e devem sentir-se fatigados da viagem. 
No posso esperar que todos possuam a minha energia.
        Registou-se uma gargalhada geral e aplausos.
        - Estou-lhes profundamente grata por este memorvel sero. Jamais o esquecerei. Os aposentos encontram-se preparados, se algum deseja ir descansar. Quanto 
aos outros, segue-se baile no salo.
        Soou novo trovo, agora mais prximo.
        - Sugiro que entremos, antes que sejamos surpreendidos por uma das nossas famosas tormentas do Maine.
        Agora, o jantar e o baile tinham terminado, os convidados achavam-se nos quartos e Kate ficara s com os seus fantasmas. Estava sentada na biblioteca, mergulhada 
gradualmente no passado, e, de sbito, sentiu-se deprimida. "J no h ningum para me chamar Kate. Partiram todos." O seu mundo mirrara. No fora Longfellow quem 
dissera: "As folhas das recordaes produzem um sussurro lgubre nas trevas"? Ela penetraria nas trevas dentro em breve, mas no imediatamente. "Ainda tenho de executar 
o ato mais importante da minha vida. S paciente, David. No tardarei a estar a teu lado."
        - Bisav...
        Kate estremeceu e descerrou as plpebras. A famlia entrara na sala. Ela contemplou-os, um a um, os olhos convertidos numa objetiva implacvel, sem perder 
um pormenor. "A minha famlia. A minha imortalidade. Uma assassina, um ser grotesco e um psicopata. Os esqueletos Blackwell. Foi nisto que redundaram todos os anos 
de esperana, dor e sofrimento?"
        - No te sentes bem, av? - a neta encontrava-se na sua frente.
        - Apenas um pouco cansada. Vou-me deitar.
        Kate levantou-se e principiou a mover-se para a porta, no momento em que explodia um trovo violento e a tormenta irrompia espetacularmente, a chuva incidindo 
nas janelas com a impetuosidade de rajadas de metralhadora. A famlia observava, enquanto a anci alcanava o topo da escada com o aprumo habitual. Um relmpago 
rasgou a atmosfera e soou novo trovo. Kate Blackwell voltou-se para os contemplar e, quando falou, empregou o sotaque dos antepassados:
        - Na frica do Sul, chamvamos a isto uma donderstorm. O passado e o presente comearam a fundir-se uma vez mais, e ela atravessou o corredor em direo 
aos seus aposentos, rodeada pelos fantasmas familiares confortveis.











PRIMEIRA PARTE



                Jamie 1883-1906


         Captulo I



        - Isto  mesmo uma donderstorm, meu Deus! - exclamou Jamie McGregor.
        Crescera entre as violentas tempestades das Terras Altas escocesas, mas nunca presenciara um espetculo to impressionante como aquele. O cu da tarde fora 
repentinamente obliterado por densas nuvens de areia que transformaram o dia em noite de um momento para o outro. Ao mesmo tempo, o espao era iluminado pelos clares 
dos relmpagos, weer-lif, segundo a denominao dos Africnderes - que queimavam a atmosfera, seguidos do donderslag, trovo. Em seguida, o dilvio. Lenis de chuva 
que esmagavam o exrcito de tendas e cabanas de estanho e convertiam as ruas de terra batida de Klipdrift em torrentes impetuosas de lama. O cu estava transformado 
num pandemnio com o ribombar quase incessante, como o troar da artilharia numa guerra espacial.
        Jamie McGregor deu um salto rpido para o lado, no instante em que uma casa de tijolos crus se dissolveu em lama, e perguntou a si prprio se a cidade de 
Klipdrift sobreviveria.
        No fundo, no se tratava de uma cidade, mas de uma aldeia de lona, uma massa compacta de tendas, cabanas e carroas que se acumulavam ao longo das margens 
do rio Vaal, habitada por sonhadores alucinados atrados  frica do Sul de todos os recantos do mundo pela mesma obsesso: diamantes.
        Jamie McGregor era um dos sonhadores. Acabava de completar dezoito anos, um rapaz bem-parecido, alto, de cabelos louros e olhos cinzento-claro. Deixava transparecer 
uma candura atraente, uma ansiedade por agradar que resultava cativante. Tinha um temperamento despreocupado e uma alma repleta de otimismo.
        Viajara quase doze mil quilmetros, desde a herdade do pai, nas Terras Altas da Esccia, at Edimburgo, Londres, Cidade do Cabo e agora Klipdrift. Renunciara 
 sua parte na propriedade que ele e os irmos haviam cultivado com o pai, mas no estava arrependido. Sabia que obteria a recompensa largamente. Trocara a segurana 
da nica vida que sempre conhecera por aquele lugar distante e desolador, porque estava disposto a enriquecer. O trabalho duro no o assustava, mas o produto do 
cultivo da herdade ao norte de Aberdeen era escasso. Mourejara do nascer ao pr-do-Sol, com os irmos, a irm, Mary, e os pais, e no se podiam vangloriar de haverem 
arrecadado proventos dignos de meno. Uma vez, visitara uma feira em Edimburgo e contemplara as coisas extraordinrias que o dinheiro permitia comprar.         
Na 
verdade, tornava a vida fcil, quando se possua com abundncia. Jamie assistira  vida e morte na misria de demasiados amigos para duvidar disso.
        Recordava-se da sua excitao quando se inteirara da ltima corrida aos diamantes na frica do Sul. Fora encontrada na areia a maior pedra preciosa que se 
conhecia, e constava que a rea constitua uma vasta arca de tesouros  espera que a abrissem.
        Comunicou a notcia  famlia numa noite de sbado, aps o jantar, quando se sentavam em torno da mesa da cozinha.
        - Vou partir para a frica do Sul,  procura de diamantes... - anunciou com um misto de timidez e orgulho.
        Cinco pares de olhos fixaram-se nele, como se acabasse de dar provas irrefutveis de loucura incurvel.
        -  procura de diamantes? - ecoou finalmente o pai. - No deves regular bem. Tudo isso que contam so balelas, uma tentao do demnio para impedir os homens 
de ganhar a vida honestamente.
        - Porque no nos explicas onde vais arranjar o dinheiro para a viagem? - interps o irmo lan. - Isso fica do outro lado do mundo e no tens vintm.
        - Se tivesse dinheiro no precisava de procurar diamantes - retorquiu Jamie. - Nenhum dos homens que l esto  rico. Serei igual aos outros. Tenho miolos 
e braos fortes. Hei-de alcanar o meu objetivo.
        - Annie Cord vai ficar desapontada - lembrou Mary. - Espera casar contigo um dia.
        Jamie adorava a irm, que era mais velha, aparentando quarenta anos, embora acabasse de completar vinte e quatro, e nunca possura uma coisa bela na sua 
vida. "Hei-de alterar isso", prometeu a si prprio.
        A me, por seu turno, sem proferir palavra, pegou na caarola que continha o estufado que sobrara e afastou-se para o fogo.
        Mais tarde, naquela noite, procurou Jamie, quando se encontrava deitado. Pousou-lhe a mo no ombro, e a sua voluntariedade transmitiu-se ao filho.
        - Faz o que te parecer justo. No sei se h diamantes l em baixo, mas se houver hs-de descobri-los - introduziu a mo no avental e puxou de uma pequena 
bolsa de cabedal. - Consegui economizar umas libras, apesar de tudo. No digas nada aos outros. Que Deus te abenoe, Jamie.
        Quando partiu para Edimburgo, ele levava cinquenta libras na algibeira.
        A viagem at  frica do Sul no foi agradvel, e Jamie McGregor necessitou de quase um ano para a completar. Arranjou um emprego como criado de mesa de 
um restaurante de Edimburgo, at juntar mais cinquenta libras ao seu peclio. A seguir, transferiu-se para Londres, cujas dimenses e movimento o deixaram boquiaberto. 
Havia cabrioles por toda a parte, que transportavam belas mulheres de chapus de abas largas, saias de fole e sapatos reluzentes. Ele observava-as com admirao, 
quando se apeavam para fazer compras na Burlington rcade, onde se achavam expostos os artigos mais atraentes e dispendiosos.
        Encontrou alojamento numa casa de Fitzroy Street, 32, onde lhe cobravam dez xelins por semana, mas era o mais barato que conseguira descobrir. Passava os 
dias nas docas, em busca de um navio que o levasse  frica do Sul, e as noites nas artrias londrinas, para admirar a vida noturna de longe. Certa vez, divisou 
Eduardo, o prncipe de Gales, quando este entrava para um restaurante perto de Covent Gar-dens pela porta lateral, com uma mulher vistosa pelo brao, a qual usava 
um chapu florido, que James pensou que assentaria bem na cabea da irm.
        Assistiu a um concerto no Crystal Palace, construdo especialmente para a Grande Exposio de 1851. Visitou Drury Lane e, no intervalo, introduziu-se no 
Teatro Savoy, onde haviam instalado a primeira iluminao eltrica num edifcio pblico britnico. Algumas ruas eram iluminadas por eletricidade, e James ouviu dizer 
que havia possibilidade de falar com algum do outro lado da cidade atravs de uma nova mquina maravilhosa a que chamavam telefone. Ao contemplar tudo aquilo, afigurava-se-lhe 
que se debruava sobre o futuro.
        Apesar de todas as inovaes e atividades, a Inglaterra atravessava uma crise econmica crescente, naquele Inverno. As ruas achavam-se repletas de desemprega-dos 
e pessoas famintas e registravam-se manifestaes e reencontros com as autoridades. "Tenho de sair daqui", decidiu Jamie. "Vim para fugir  pobreza." No dia seguinte, 
foi admitido como criado de bordo no Walmer Castle, que partia para a Cidade do Cabo, na frica do Sul.
        A viagem pelo mar durou trs semanas, com paragens na Madeira e em Santa Helena, para reabastecimento de carvo. Foi um percurso duro, no auge do Inverno, 
e Jamie enjoou virtualmente a partir do momento em que subiu para bordo. No obstante, nunca perdeu a coragem, pois cada dia que passava colocava-o mais prximo 
da sua arca de tesouros. A medida que o navio se acercava do Equador, o clima modificava-se. Miraculosamente, o Inverno comeou a ceder gradualmente o lugar ao Vero 
e, com a proximidade da costa africana, os dias e as noites tornaram-se mais quentes e midos.
        O Walmer Castle chegou  Cidade do Cabo ao amanhecer, movendo-se prudentemente ao longo do estreito canal que dividia o vasto e leproso aglomerado populacional 
de Robben Island do continente, at que fundeou em Table Bay.
        Jamie surgiu na coberta antes do nascer do Sol, para observar, mesmerizado, a dissipao lenta da neblina matinal e o espetculo admirvel de Table Mountain, 
sobranceira  cidade. Chegara ao seu destino.
        Assim que o navio acostou ao cais, as cobertas fora invadidas por uma horda de pessoas de aspecto estranho. Havia corretores de todos os hotis - indivduos 
negros, amarelos, castanhos e vermelhos, que se ofereciam freneticamente para transportar a bagagem - e garotos que corriam de um lado para o outro com jornais, 
doces e fruta para vender. Condutores de cabrioles que eram mestios; parses ou negros vociferavam a ansiedade por que contratassem os seus servios. Vendedores 
impelindo pequenos carros de mo apregoavam os artigos mais variados. A atmosfera estava cheia de moscas enormes. Marinheiros e empregados de bordo abriam caminho 
por entre a multido com dificuldade, enquanto os passageiros desenvolviam esforos desesperados para manter a bagagem junta e sob as suas vistas. Imperava uma babel 
de vozes e rudos. As pessoas falavam umas com as outras num idioma que Jamie nunca ouvira.
        - Yulle kom van de Kaap, neh?
        - Het julle mine papa zyn wagen gezien?
        - Wat bedui'di?
        - Huistoe!
        No conseguia entender uma palavra.
        A Cidade do Cabo era totalmente diferente de tudo o que Jamie vira at ento. No havia duas casas iguais. Ao lado de um largo armazm de dois ou trs pisos, 
de tijolos ou alvenaria, viam-se uma pequena cantina de ferro galvanizado, uma ourivesaria, uma mercearia e uma tabacaria.
        Sentia-se impressionado com os homens, mulheres e crianas que percorriam as ruas. Viu um cafre, de calas de xadrez e casaco de um tecido que parecia serapilheira, 
que se movia atrs de dois chineses, de mos dadas, trajados de uma forma no menos extica. Agricultores beres conduzindo carroas carregadas de batatas, milho 
e vrios legumes. Homens de casacos de veludo e chapus de feltro, caminhando, altivos, ao lado de mulheres ataviadas de forma mais modesta. Lavadeiras parses com 
volumosas trouxas de roupa  cabea abriam caminho por entre militares de uniforme vermelho e capacete. Na realidade, era um espetculo fascinante.
        A primeira coisa que ele fez foi procurar uma penso pouco dispendiosa que lhe fora recomendada por um marinheiro do navio em que viajara. A proprietria, 
uma mulher de meia-idade, busto avultado e faces rechonchudas, examinou-o dos ps  cabea e inquiriu:
        - Zoek yulle goud?
        - Desculpe, mas no compreendo - balbuciou ele, corando.
        - Ah,  ingls? Veio  procura de ouro? Diamantes?
        - Sim, diamantes.
        - Vai gostar disto - afirmou ela, convidando-o a entrar. - Tenho todas as comodidades para jovens como voc - e fez uma pausa, enquanto Jamie perguntava 
a si prprio se se trataria de uma comerciante de prazeres de alcova. - Sou Mistress Venster, mas os amigos tratam-me por Dee-Dee - e sorriu, revelando um dente 
de ouro. - Pressinto que nos vamos entender muito bem. Pea tudo o que quiser.
        -  muito amvel. Onde posso obter um mapa da cidade?
        Munido do mapa, Jamie iniciou as exploraes. Num dos lados da cidade, encontravam-se os subrbios de Ronde-bosch, Claremont e Wynberg, que se estendiam 
ao longo de quilmetros de plantaes e vinhedos. No outro, situavam-se os arrabaldes martimos de Sea Point e Green Point. Ele percorreu a zona residencial dos 
ricos, por Strand Street e Bree Street, admirando as imponentes construes de dois pisos que exsudavam opulncia por todos os poros. A excurso foi terminada prematuramente 
pelos densos enxames de moscas que povoavam as ruas e lhe pareceram reproduzidos no momento em que entrou no quarto da penso, onde cobriam as paredes, a mesa e 
a cama.
        Abismado com o que se lhe deparava, resolveu procurar a dona da penso.
        - Mistress Venster, pode fazer alguma coisa acerca das moscas no meu quarto? So positivamente...
        No entanto, ela interrompeu-o com uma risada e uma palmada cordial no ombro.
        - Myn magtib. H-de habituar-se, ver.
        O saneamento bsico da Cidade do Cabo era primitivo e inadequado e, quando o Sol se punha, um vapor odorfero envolvia a atmosfera como um cobertor nocivo, 
insuportvel. No obstante, Jamie sabia que o suportaria. Necessitava de mais dinheiro antes de iniciar a etapa seguinte, pois tinham-no advertido de que no sobreviveria 
nos campos de diamantes sem o mnimo de fundos, em virtude de os preos e a explorao praticados excederem tudo o que se podia conceber.
        No seu segundo dia na Cidade do Cabo, encontrou trabalho sob a forma de conduo de uma parelha de cavalos para uma firma de transportes. No terceiro, comeou 
a lavar loua num restaurante, aps o jantar. Alimentava-se dos restos que conseguia pr de parte e levava para a penso, embora tivessem um sabor estranho que o 
levava a sentir saudades dos petiscos da me. De qualquer modo, no se lamentava, mesmo a si prprio, enquanto sacrificava a alimentao e o conforto para aumentar 
as suas economias. Tomara uma deciso inabalvel, da qual nada o desviaria. Entretanto, sentia-se profundamente s. No conhecia ningum naquela cidade estranha 
e custava-lhe suportar a ausncia da famlia e dos amigos. Conquanto gostasse da solido, a sensao de isolamento constitua uma amargura constante.
        Por fim, chegou o dia mgico. A sua bolsa continha a magnfica quantia de duzentas libras. Estava, pois, preparado para o empreendimento supremo. Partiria 
da Cidade do Cabo na manh seguinte, rumo aos campos de diamantes.
        As reservas de lugares para as carruagens de passageiros com destino aos campos de diamantes de Klipdrift eram asseguradas pela Inland Transport Company, 
num pequeno barraco perto das docas. Quando Jamie chegou, s sete da manh, havia tanta gente em volta que nem sequer conseguiu aproximar-se. Calculou estarem reunidas 
vrias centenas de pesquisadores de fortunas, empenhados em obter lugar num dos prximos transportes. Provinham de pontos distantes como a Rssia, a Amrica, a Austrlia, 
a Alemanha e a Inglaterra e vociferavam numa dezena de idiomas diferentes, implorando aos vendedores de passagens que encontrassem espao para si. Jamie avistou 
um corpulento irlands que acabava de transpor a sada e abordou-o.
        - Desculpe, mas que se passa l dentro?
        - Nada - grunhiu o outro, em voz rouca. - As malditas carruagens tm a lotao esgotada para as prximas seis semanas - e apercebendo-se da expresso de 
desalento do interlocutor, acrescentou: - O pior no  isso, amigo. Os bandidos exigem cinquenta libras por cabea.
        Era incrvel!
        - Deve haver outra maneira de chegar aos campos de diamantes.
        - H duas: o Expresso holands ou a p.
        - O que  o Expresso holands?
        - Um transporte de gado, que se desloca a trs quilmetros horrios. Quando se chega l, j no h diamantes.
        Jamie McGregor no estava disposto a aguardar at que as pedras preciosas desaparecessem, pelo que passou o resto da manh  procura de um transporte alternativo. 
E encontrou-o, pouco antes do meio-dia. Passava diante de uma cocheira de aluguel que ostentava uma tabuleta com a indicao "Depsito do Correio", quando, obedecendo 
a um impulso, entrou, para enfrentar o homem mais magro que jamais vira entretido a arrumar malas postais numa carruagem de duas rodas. Depois de observar a operao 
por um momento, resolveu interpel-lo:
        - Transportam correio para Klipdrift?
        - Sim,  este que estou a carregar.
        - E passageiros? - inquiriu, dominado por uma sbita rstia de esperana.
        - s vezes - o outro voltou-se e observou Jamie. - Que idade tem?
        - Dezoito. Porqu?
        - No costumamos levar pessoas com menos de vinte e um ou vinte e dois anos.  saudvel?
        - Sem dvida.
        - Ento, fica combinado. Parto dentro de uma hora. A passagem so vinte libras.
        - Estupendo! - Jamie quase no queria acreditar. - Vou buscar a mala e...
        - Nada de bagagem. S h espao para uma camisa e escova de dentes.
        Examinou a carruagem com curiosidade. Era pequena e de construo rudimentar, e o corpo formava uma espcie de poo onde a correspondncia ficava acondicionada. 
A um nvel superior a este ltimo, havia um espao estreito em que uma pessoa se podia sentar de costas para o condutor. Seria uma viagem a todos os ttulos desconfortvel; 
no entanto, declarou:
        - De acordo. Vou buscar a camisa e a escova de dentes.
        Quando regressou, o condutor engatava um cavalo  carruagem aberta, ao lado da qual se viam dois jovens corpulentos - um baixo e moreno e o outro alto e 
louro -, que entregavam dinheiro ao homem.
        - Um momento - protestou Jamie. - Voc disse que eu podia ir.
        - Vo todos - anunciou o condutor. - Subam.
        - Os trs?
        - Exato!
        Jamie no fazia a mnima idia de como o outro esperava que coubessem no pequeno espao, mas sabia que se encontraria l no momento da partida. Por fim, 
com um encolher de ombros de resignao, apresentou-se aos companheiros de viagem:
        - Chamo-me Jamie McGregor.
        - Wallach - informou o moreno.
        - Pederson - disse, por sua vez, o louro.
        - Tivemos sorte em descobrir isto, nem? Ainda bem que nem toda a gente o conhece.
        - Conhece - replicou Pederson. - O que acontece  que poucos renem condies fsicas e desespero suficiente para se aventurarem num transporte destes.
        Antes que Jamie pudesse pedir-lhe que se explicasse melhor, o condutor disse:
        - Estamos a perder tempo!
        Os trs homens, com Jamie no meio, espremeram-se no assento, as costas exercendo forte presso no espaldar do banco do condutor. No havia espao para se 
moverem ou respirar. Em todo o caso, Jamie tentou convencer-se de que podia ser pior.
        - Segurem-se bem! - advertiu o condutor.
        No momento imediato, atravessavam as ruas da Cidade do Cabo velozmente, rumo aos campos de diamantes de Klipdrift.
        Nos transportes normais, a viagem era relativamente confortvel. As carruagens que conduziam passageiros da Cidade do Cabo aos campos de diamantes dispunham 
de espao suficiente, com cobertura de lona para proteo do sol escaldante de Inverno. Cada uma comportava doze passageiros e era puxada por parelhas de cavalos 
ou mulas, alm de que, em paragens regulares, havia bebidas e refeies ligeiras, o que amenizava o percurso de dez dias.
        O transporte do correio era diferente. Nunca parava, exceto para mudar de cavalo e condutor. O andamento desenrolava-se em pleno galope, num piso a que nem 
o mais otimista chamaria regular. Como se isso no bastasse, a carruagem no dispunha de molas, pelo que cada solavanco se transmitia aos passageiros como o coice 
de uma mula caprichosa. Entretanto, Jamie rangia os dentes e pensava: "Hei-de aguentar at  noite, quando pararmos para dormir. De manh, aps o sono reparador 
e uma boa refeio, estarei como novo!" Todavia, ao anoitecer, registrou-se uma pausa de dez minutos para a substituio do cavalo e do condutor, aps o que o galope 
foi reatado, o que o levou a perguntar:
        - Quando paramos para comer?
        - No h paragem nenhuma para isso - informou o novo condutor. - O correio tem de chegar a horas ao seu destino.
        A corrida prosseguiu ao longo da noite, atravs de estradas sulcadas de buracos, curvas apertadas e desnveis quase constantes. Jamie sentia cada centmetro 
quadrado do corpo maltratado, como se acabasse de sofrer a tortura medieval mais maquiavlica, estava exausto e no conseguia adormecer. Cada vez que o sono parecia 
na iminncia de o dominar, era chamado  realidade por um dos solavancos excruciantes. Por outro lado, assolavam-no cibras dolorosas e no havia o mnimo espao 
para se espreguiar. Esforava-se por no ponderar quantos dias decorreriam antes da sua prxima refeio, tratava-se de uma viagem de quase mil quilmetros e ningum 
lhe garantia que a completaria vivo. E,  medida que o tempo passava, comeava a duvidar que lhe interessasse que tal acontecesse.
        No final do segundo dia o tormento convertera-se em agonia e os companheiros achavam-se no mesmo estado, incapazes de se lamentar por escassez de energias. 
Jamie compreendia agora a razo pela qual se insistia em que os passageiros fossem jovens e robustos.
        Na terceira alvorada, imergiram no Great Karroo1*, onde principiava a verdadeira desolao. Prolongando-se at ao infinito, a monstruosa savana apresentava 
um aspecto hostil sob o sol inclemente. Os passageiros no tardaram a ser flagelados pelo calor, a poeira densa e as moscas.
        Ocasionalmente, por entre um vu miasmtico, Jamie descortinava grupos de homens que avanavam penosamente a p. Havia tambm cavaleiros solitrios e dezenas 
de carros puxados por bois, que transportavam produtos hortcolas, tendas, apetrechos para escavar, foges de lenha, sacos de farinha e carvo e lanternas de petrleo. 
Constituam a fonte de abastecimento dos pesquisadores de fortunas instalados em Klipdrift.

* Planalto elevado na frica do Sul, estril e seco quando no h chuvas.
(N. do T.)


        S quando a carruagem cruzou o rio Orange se registrou uma modificao na monotonia letal da savana. A vegetao comeou a apresentar-se mais alta e trocou 
a tonalidade parda pela verdejante. O solo era mais vermelho e principiaram a surgir rvores frondosas.
        "Hei-de chegar l", prometia Jamie a si prprio. "Hei-de chegar l!"
        E, ao mesmo tempo, sentia a esperana infiltrar-se no corpo extenuado.
        Havia quatro dias e noites consecutivos que tinham partido da Cidade do Cabo, quando finalmente atingiram os arrabaldes de Klipdrift.
        Jamie no sabia exatamente o que se lhe depararia, mas o cenrio em que fixou os olhos fatigados e congestionados no se assemelhava a coisa alguma que o 
esprito lhe pudesse sugerir. Klipdrift era um vasto panorama de tendas e carruagens alinhadas nas ruas principais e nas margens do rio Vaal. A estrada de acesso 
estava repleta de cafres, de casacos curtos como nica indumentria, e pesquisadores barbudos, alm de carniceiros, padeiros, ladres e professores. No centro da 
povoao, fiadas de barraces de madeira e ferro serviam de instalaes a lojas, cantinas, salas de bilhares, restaurantes, departamentos de compra de diamantes 
e escritrios de advogados. Numa esquina, erguia-se o Hotel Royal Arch, que continha uma longa sequncia de quartos sem janelas.
        Jamie saltou da carruagem e no conseguiu aguentar-se nas pernas. Conservou-se reclinado no cho por uns minutos, at que se sentiu com vigor suficiente 
para se levantar. Em seguida, cambaleou at ao hotel, abrindo caminho com dificuldade por entre a multido que enchia os passeios. O quarto que obteve era pequeno, 
escaldante e repleto de moscas. No entanto, dispunha de um catre, no qual ele se deixou cair, para adormecer instantaneamente.
        Quando acordou, aps dezoito horas de sono ininterrupto, tinha o corpo dorido, mas a alma em festa. Chegara ao ambicionado destino! Em seguida, loucamente 
faminto, procurou um lugar para comer. O hotel no servia refeies, mas havia um pequeno e concorrido restaurante do outro lado da rua, onde Jamie proporcionou 
ao estmago motivos mais que suficientes para no continuar a protestar.
        No entanto, fez uma pausa a meio, ao notar uma reao desagradvel, devida  ausncia de alimento durante tanto tempo, e aproveitou o ensejo para olhar em 
volta. Nas mesas que o circundavam, pesquisadores discutiam febrilmente o tpico que dominava os espritos de todos: diamantes.
        - ...Ainda h alguns para os lados de Hopetown, mas o maior filo encontra-se em New Rust1-        
        -... Kimberley tem mais habitantes que Jofurg...
        -... Quanto  descoberta da semana passada em Dutoits-pan, dizem que h mais diamantes ao que um homem pode transportar...
        -...Descobriu-se um filo em Christiana e tenciono partir para l amanh.
        Ento, sempre era verdade. Havia diamantes por toda a parte! Jamie sentia-se to excitado que quase no conseguiu terminar a refeio. A conta deixou-o assombrado: 
duas libras e trs xelins por um almoo! "Tenho de ser cauteloso...", refletiu, enquanto se encaminhava de novo para a rua.
        - Continuas empenhado em enriquecer, McGregor? - proferiu uma voz atrs dele.
        Voltou-se e avistou Pederson, o louro que fora seu companheiro de viagem.
        - Com certeza - replicou, sem vacilar.
        - Ento, vamos para onde esto os diamantes - declarou Pederson indicando uma direo. - O rio Vaal fica para aqueles lados.
        E comearam a caminhar juntos.
        Klipdrift situava-se numa bacia, rodeada por colinas, e at onde a vista alcanava tudo era rido, sem uma folha de relva ou um arbusto. Por outro lado, 
levantava-se constantemente uma poeira vermelha, que dificultava a respirao. O rio Vaal distava quinhentos metros dali e,  medida que eles se aproximavam, o ar 
tornava-se mais fresco. Centenas de pesquisadores alinhavam-se ao longo das duas margens, uns  procura de diamantes, outros peneirando pequenas pedras e outros 
ainda procedendo  sua escolha em mesas improvisadas. O equipamento variava de aparelhos de lavar terra cientficos a caixas metlicas e ps. Os homens apresentavam-se 
crestados pelo sol, barbudos e quase andrajosos, sendo notrio que o banho no era uma das operaes que lhes tomava mais tempo durante o dia.
        Jamie e Pederson acercaram-se da orla da margem e viram um rapaz e um homem mais velho esforando-se por afastar um rochedo, para poderem explorar a terra 
em volta. Perto deles, dois outros carregavam com terra um carro de mo, a fim de a peneirarem.
        - Parece fcil - comentou Jamie, com um sorriso.
        - No te fies nisso. Conversei com alguns pesquisadores que se encontram aqui h mais tempo. Desconfio que fomos levados.
        - Que queres dizer?
        - Sabes quantos pesquisadores h nestas redondezas, todos esperanados em enriquecer? Vinte mil! No existem diamantes que cheguem para todos e, de qualquer 
modo, duvido que merea a pena o trabalho. Uma pessoa coze no Inverno, gela no Vero, fica alagado at aos ossos com as malditas donderstorms e, ainda por cima, 
tem de enfrentar o p, as moscas e a porcaria. No se consegue um banho ou uma cama decente e no h esgotos nesta malfadada cidade. Contam-se s dezenas os casos 
de afogamento no rio Vaal, todas as semanas. Alguns so acidentes, mas confidenciaram-me que, para outros, trata-se da nica fuga possvel a este inferno. Confesso 
que no compreendo por que motivo esta gente continua aqui.
        - Compreendo eu - e Jamie fez uma pausa, fitando o interlocutor com uma expresso enigmtica. - Nunca se sabe o que a prxima recolha de terra poder conter.
        No obstante, enquanto regressavam  cidade, via-se forado a reconhecer intimamente que Pederson tinha razo. Passavam diante de carcaas de bois, ovelhas 
e cabras imolados que apodreciam  entrada das tendas, ao lado de trincheiras abertas que serviam de instalaes sanitrias. De fato, o local tresandava quase insuportavelmente.
        - Que pensas fazer? - inquiriu o louro, que o observava com curiosidade.
        - Comprar alguns apetrechos de prospeco.
        No centro da cidade, havia uma loja com uma tabuleta metlica oxidada que indicava: "Salomon van der Merwe - Armazm de Artigos Gerais". Um negro alto, de 
idade aproximada  de Jamie, descarregava uma galera diante da porta. Tinha ombros largos, msculos turgentes e o semblante mais bem-parecido que Jamie vira at 
ento. Os olhos eram negro-fuligem, o nariz aquilino e o queixo voluntarioso. Levantou um pesado caixote com espingardas, colocou-o ao ombro e, quando se voltou, 
escorregou numa folha que cara de um cabaz de hortalia. Jamie estendeu os braos instintivamente para lhe valer, mas o outro ignorou-o e entrou na loja. Um pesquisador 
ber, que engatava uma mula a uma carroa, cuspiu desdenhosamente e disse:
        -  Banda, da tribo Barolong, que trabalha para Van der Merwe. No percebo porque mantm o escarumba ao seu servio. Esses danados Bantos julgam que a Terra 
lhes pertence.
        No interior da loja, a temperatura era agradvel, constituindo um alvio em contraste com a rua quente e ruidosa, impregnada de odores exticos. Jamie ficou 
com a impresso de que cada centmetro quadrado de espao estava superlotado de mercadoria. Havia alfaias agrcolas, latas de cerveja e leite condensado, pacotes 
de manteiga, sacos de cimento, dinamite e plvora juntamente com rastilhos, peas de olaria, mobilirio, armas, tintas e vernizes, presunto e fruta seca, artigos 
de perfumaria, bebidas alcolicas, papel de carta, acar, ch, tabaco, rap, etc. Umas dez prateleiras achavam-se cheias de camisas de flanela, cobertores, sapatos, 
bons, chapus, alforges e selas. "O dono disto  rico, sem dvida", cogitou.
        - Em que lhe posso ser til? - articulou uma voz suave.
        Jamie virou-se e deparou-se-lhe uma jovem que no aparentava mais de quinze anos. Tinha um rosto interessante, de traos regulares, em forma de corao, 
nariz arrebitado e olhos verdes.
        - Sou pesquisador - anunciou, por fim. - Queria comprar algum equipamento.
        - De que necessita?
        Por razes que no conseguia determinar, sentia que precisava de impressionar a rapariga, pelo que replicou, hesitante:
        - Bem... o costume.
        - Importa-se de explicar o que considera o costume? - insistiu ela, com uma ponta de malcia.
        - Uma p, por exemplo.
        - Nada mais?
        Compreendendo que pretendia desfrut-lo, Jamie sorriu e confessou:
        - Para ser franco, no tenho calo disto. No sei do que necessito...
        - Depende de que pretende pesquisar, Mister...?
        - McGregor, Jamie McGregor.
        - Chamo-me Margaret van der Merwe - esclareceu ela, lanando um olhar apreensivo para o fundo da loja.
        - Tenho muito prazer em conhec-la, Miss Van der Merwe.
        - Chegou h pouco?
        - Ontem. No transporte do correio.
        - Deviam t-lo prevenido, antes de partir - a expresso dela era agora a de uma adulta. -         Houve quem morresse durante a viagem - acrescentou, com 
uma expresso indignada.
        - No me surpreende nada - redarguiu ele, com novo sorriso. - Mas continuo bem vivo, felizmente.
        - E disposto a procurar mooi klippe.
        - Mooi klippe?
        -  a nossa expresso holandesa para diamantes. Pedras bonitas.
        -  holandesa?
        - A minha famlia veio da Holanda.
        - Eu sou da Esccia.
        - V-se logo - redarguiu a rapariga olhando de novo para o fundo da loja. - H por a muitos diamantes, Mister McGregor, mas deve ter cuidado onde os procura. 
A maior parte dos pesquisadores anda s voltas, perseguindo a sua prpria cauda. Quando algum faz uma descoberta, os outros exploram os restos. Se pretende enriquecer, 
deve encontrar um local virgem.
        - Como se faz para conseguir isso?
        - Meu pai pode ajud-lo. Conhece todos os truques. Est livre dentro de uma hora.
        - Nesse caso, voltarei depois - prometeu Jamie. - Obrigado, Miss van der Merwe.
        Regressou  rua escaldante, dominado por profunda euforia e esquecido das dores e dos tormentos da recente viagem. Se Salomon van der Merwe lhe indicasse 
onde devia procurar diamantes, nada o impediria de os descobrir. E soltou uma gargalhada, dominado pela alegria de ser jovem, estar vivo e prestes a enriquecer.
        Jamie percorreu a rua principal, passando diante de um ferreiro, de uma sala de bilhares e de meia dzia de saloons. Quando avistou uma tabuleta  entrada 
de um hotel de aspecto decrpito, deteve-se e leu:
        "R.-D. MILLER, BANHOS FRIOS E QUENTES. ABERTO DIARIAMEN- TE DAS 6 S 20. TODO O CONFORTO DE UMA SALA ESMERADA E LIM- PA".
        "Quando tomei banho pela ltima vez?", perguntou-se. "Cederam-me um balde de gua para o efeito no navio. Isso foi..." Apercebeu-se repentinamente de que 
exalava um cheiro quase nauseabundo. Recordou-se dos banhos semanais na cozinha de sua casa e da recomendao da me: "No te esqueas de lavar as extremidades, 
Jamie!"
        Decidiu entrar e descortinou duas portas no pequeno vestbulo: uma para as mulheres e a outra para os homens. Transps esta ltima e abordou o empregado 
idoso, para perguntar:
        - Que preo tem o banho?
        - Dez xelins frio e quinze quente.
        Hesitou por um momento. A ideia de um banho quente aps a longa viagem era quase irresistvel.
        - Frio - resolveu finalmente, refletindo que no podia desperdiar dinheiro em luxos, pois necessitava-o para o equipamento.
        O empregado estendeu-lhe uma pequena barra de sabo amarelado e uma toalha quase transparente e apontou para uma porta.
        - Pode entrar.
        Jamie viu-se num pequeno cubculo que continha apenas uma banheira de ferro galvanizado e alguns ganchos na parede, em vez de cabides. O homem, com um balde, 
comeou a encher a banheira de gua fria e, por ltimo, anunciou:
        - Pronto, amigo. Pendure a roupa nesses ganchos. Jamie aguardou que ele sasse e principiou a despir-se. Em seguida, baixou os olhos para o corpo quase imundo 
e introduziu um p na banheira. A gua estava de fato fria, como fora prometido, e ele rangeu os dentes enquanto mergulhava at  cintura, a fim de se ensaboar furiosamente. 
Quando se considerou satisfeito, a gua encontrava-se negra. Secou-se o melhor possvel com a toalha e comeou a vestir-se. As calas e a camisa achavam-se quase 
rgidas de tanta porcaria acumulada e foi com relutncia que voltou a vesti-las. Precisava de comprar uma muda de roupa, o que lhe recordou uma vez mais o escasso 
dinheiro que possua. E a fome tornava a atorment-lo.
        Quando se encontrou na rua, olhou em volta por um momento e encaminhou-se para um saloon denominado Sun-downer, onde pediu a ementa do dia e uma cerveja. 
Serviram-lhe costeletas de carneiro com molho de tomate, pur de batata, salada e picles e, enquanto comia, Jamie prestava ateno ao que diziam em redor.
        - ...Consta que encontraram uma pedra com o peso de vinte e um quilates, perto de Colesberg. Portanto, deve haver muitas mais nas redondezas...
        - ...Apareceram muitos diamantes em Heborn. Estou a pensar ir at l...
        - No sejas parvo. Os diamantes grandes esto no rio Orange...
        No bar, um indivduo barbudo, de camisa de flanela listrada e cala de belbutina, fixava o olhar melanclico numa caneca de cerveja e murmurava:
        - Fiquei limpo em Heborn. Preciso de arranjar uma fonte de subsistncia.
        - Quem  que no precisa? - grunhiu o bartender, um homem calvo, de faces rubicundas. - Assim que juntar dinheiro suficiente nesta espelunca, sigo para o 
rio Orange - continuou ele, fazendo circular um pano mido ao longo da superfcie do balco. - Se quer um conselho de amigo, procure Salomon van der Merwe.  o dono 
do armazm de artigos gerais e de metade da cidade.
        - Que ganho com isso?
        - Se simpatizar consigo, talvez o apoie.
        - Parece-lhe? - o barbudo exibiu uma expresso de esperana.
        - J o fez a vrios fulanos que conheo. Voc entra com o trabalho e ele com o dinheiro. No fim, dividem o resultado a meias.
        Os pensamentos de Jamie McGregor adquiriram um ritmo mais acelerado. Chegara com a convico de que as cento e vinte libras que lhe restavam bastariam para 
adquirir o equipamento e a comida de que necessitava para sobreviver, mas os preos praticados em Klipdrift eram incrveis. Na loja de Van der Merwe, observara que 
uma saca de cinquenta quilogramas de farinha da Austrlia custava cinco libras. Meio quilograma de acar, um xelim. Uma cerveja, cinco xelins. As bolachas, seis 
xelins o quilograma, e os ovos, sete, a dzia. Portanto, o seu dinheiro no tardaria a esgotar-se. "Na Esccia, podamos alimentar-nos durante um ano com o preo 
de trs refeies daqui", refletiu, apavorado. No entanto, se conseguisse o apoio de algum endinheirado, como Van der Merwe... Apressou-se a pagar a conta e a visitar 
de novo o armazm de artigos gerais.
        Salomon van der Merwe encontrava-se atrs do balco, retirando as espingardas de um caixote de madeira. Era um homem pequeno, de rosto esguio e patilhas 
abundantes, com cabelos cor de areia, olhos negros minsculos, nariz bolboso e lbios comprimidos. "A filha deve parecer-se com a me", deduziu Jamie para consigo.
        - Desculpe... - aventurou, hesitante.
        - J? - inquiriu o outro, erguendo a cabea.
        - Mister Van der Merwe? Chamo-me Jamie McGregor. Vim da Esccia para procurar diamantes.
        - Ah, sim?
        - Ouvi dizer que, s vezes, ajuda os pesquisadores.
        - Myn Magtig - grunhiu o homem. - Quem espalhar essas coisas? Bastou-me estender a mo a dois ou trs para me julgarem um Mecenas.
        - Economizei cento e vinte libras - prosseguiu Jamie, com ansiedade. - Mas acabo de descobrir que no chegam para ir muito longe. Irei para o mato s com 
uma p, se for necessrio, embora reconhea que terei melhores possibilidades se dispuser de uma mula e equipamento apropriado.
        - Wat denk ye? - Van der Merwe observava-o com uma ponta de curiosidade. - Quem lhe meteu na cabea que era capaz de encontrar diamantes?
        - Percorri metade do mundo e no saio daqui sem ter enriquecido. Se h diamantes na regio, hei-de descobri-los. Caso queira ajudar-me, ficaremos ambos ricos.
        O holands voltou a emitir um grunhido, virou as costas a Jamie e recomeou a retirar as espingardas do caixote. Transcorrido um longo momento, perguntou 
de chofre:
        - Veio num transporte de gado?
        - No. No do correio.
        Fitou-o novamente e acabou por inclinar a cabea, como se tomasse uma deciso.
        - Vamos trocar impresses sobre o assunto.
        Na verdade, trocaram impresses, naquela noite, na dependncia ao fundo da loja, que constitua o local de habitao de Van der Merwe e acumulava as funes 
de cozinha, sala de estar e quarto, com um reposteiro que separava dois catres. A parte inferior das paredes era de barro e pedra e o resto forrado com carto de 
caixas que haviam contido provises. Uma abertura rectangular numa delas exercia as funes de janela e, em caso de chuva, podia ser encerrada por meio de uma tbua. 
A mesa das refeies consistia numa longa prancha apoiada em dois caixotes. Uma caixa empinada funcionava como aparador. Ao abarcar todos estes pormenores, Jamie 
refletiu que Van der Merwe no devia sentir inclinao para as despesas, ainda que necessrias.
        A rapariga movia-se em silncio de um lado para o outro, preparando o jantar. De vez em quando, lanava uma olhadela ao pai, mas evitava Jamie ostensivamente. 
"Porque estar to assustada?", perguntava-se ele.
        Por fim, sentaram-se  mesa e Van der Merwe principiou:
        - Oremos. Agradecemos-te, Senhor, a bondade que recebemos de tuas mos. Estamos-te gratos por nos perdoares os pecados, indicares o bom caminho e livrares 
das tentaes. Manifestamos-te a nossa gratido por uma vida longa e frutuosa e por semeares a morte entre todos os que te ofendem. Amm! - e, quase sem uma pausa 
nem mudana de tom, pediu  filha: - Passa-me a carne.
        A refeio era frugal: carne de porco assada em quantidade reduzida, trs batatas cozidas e salada. Os dois homens conversaram enquanto comiam e Margaret 
mantinha-se silenciosa.
        Quando consumiram tudo o que tinham nos pratos, para o que no foi necessrio muito tempo, o holands proferiu com uma ponta de orgulho:
        - O jantar estava excelente, filha - e em seguida, virando-se para Jamie: - Vamos ento tratar de negcios?
        - Perfeitamente.
        Retirou um longo cachimbo de barro de cima do aparador improvisado, encheu-o do tabaco aromtico contido numa pequena bolsa e aproximou-lhe um fsforo aceso, 
ao mesmo tempo que observava o rapaz com intensidade.
        - Os pesquisadores daqui so imbecis. Os diamantes escasseiam e eles abundam. Uma pessoa pode quebrar as costas durante um ano e obter apenas chlenters.
        - Desculpe, mas no estou familiarizado com esse termo.
        - Diamantes falsos. Sem valor. Est a compreender?
        - Sim, senhor. Mas qual  o caminho a seguir?
        - Os Grcuas.
        - Perdo...
        -  uma tribo africana do Norte. Esses fulanos costumam encontrar diamantes enormes e s vezes trazem-mos, para negociarmos - e Van der Merwe baixou a voz 
em tom conspiratrio. - Sei onde h muitos.
        - Porque no vai o senhor mesmo busc-los?
        - Infelizmente, no posso abandonar a loja. Roubavam-me tudo. Preciso de algum da minha confiana para ir at l. Quando encontrar esse homem, fornecer-lhe-ei 
todo o equipamento necessrio - e fez uma pausa para chupar o cachimbo.
        - E hei-de indicar-lhe a localizao dos diamantes.
        Jamie ps-se de p num salto, sentindo o corao palpitar com intensidade.
        - No precisa de procurar mais longe. Sou a pessoa indicada. Garanto-lhe que trabalharei dia e noite - declarou o rapaz com a voz alterada pela excitao. 
- Hei-de trazer-lhe mais diamantes do que os que poder contar.
        O holands estudou-o em silncio, demoradamente, e, por ltimo, inclinou a cabea, limitando-se a pronunciar uma palavra:
        - J!
        Jamie assinou o contrato na manh seguinte e verificou que estava redigido em africnder.
        - Vou explicar-lhe o contedo - disse Van der Merwe. - Somos scios e eu contribuo com o capital e voc com o trabalho. Partilharemos tudo em partes iguais.
        O rapaz fixou o olhar na folha de papel e, no meio do arrazoado de palavras estrangeiras, reconheceu apenas as que indicavam uma quantia: "duas libras".
        - O que  isto? - perguntou, apontando-as.
        - Significa que, alm de ficar com metade dos diamantes que encontrar, ganhar duas libras por cada semana de trabalho. Apesar de eu ter a certeza de que 
esto l, existe a possibilidade de no os encontrar. Assim, obter alguma coisa pelo que fizer.
        No havia dvida de que o homem se mostrava de uma lealdade a toda a prova, e Jamie no pde deixar de lhe agradecer.
        - Agora, tratemos do equipamento - props Van der Merwe.
        Foram necessrias duas horas para escolher os apetrechos que acompanhariam Jamie: uma pequena tenda, um saco-cama, utenslios para cozinhar, dois crivos, 
uma picareta, duas ps, trs baldes e uma muda de roupa. Tambm no faltavam um machado, uma lanterna, leo de parafina, fsforos, sabo, alimentos enlatados, fruta, 
acar, caf e sal. Por fim, ficou tudo preparado. O criado negro, Banda, sem proferir palavra, ajudou Jamie a acondicionar tudo, e este ltimo depreendeu que no 
falava ingls. Margaret, por seu turno, encontrava-se na loja para atender os clientes, sem parecer interessada na presena do rapaz.
        - A mula j se encontra l fora - anunciou Van der Merwe. - Banda ajuda-o a carregar as coisas.
        - Muito obrigado.
        Consultou um pedao de papel coberto de algarismos e informou:
        - Deve-me cento e vinte libras.
        - Como? - Jamie arregalou os olhos, incrdulo. - Mas assinamos um contrato e...
        - Wat bedui'di? - a expresso do holands toldou-se de clera. - Pensava que lhe oferecia o equipamento e uma mula estupenda, o fazia meu scio e ainda por 
cima lhe pagava duas libras por semana? Se tinha em vista obter alguma coisa em troca de nada, bateu  porta errada - e fez meno de comear a recolher os artigos.
        - No, por favor, Mister Van der Merwe! - suplicou o rapaz. -  que no tinha compreendido. Vou dar-lhe o dinheiro! - abriu a bolsa e colocou as economias 
que lhe restavam em cima do balco.
        - Assim, est bem - concedeu o outro, aps breve hesitao. - Foi um mal-entendido, hem? Esta cidade est cheia de vigaristas e preciso de conservar os olhos 
bem abertos.
        - Com certeza. Faz muito bem.
        Jamie reconhecia que a excitao o impedira de abarcar as clusulas do contrato, mas agora estava tudo esclarecido. "Tenho sorte em ele me conceder nova 
oportunidade", admitiu para consigo.
        Van der Merwe levou a mo  algibeira e puxou de um pequeno mapa amarfanhado.
        -  nesta regio que encontrar as mooi klippe - indicou. - A norte daqui, em Magerdam, na margem setentrional do Vaal.
        - Quantos quilmetros so? - perguntou Jamie, sentindo o corao voltar a palpitar com intensidade.
        - Aqui, costumamos medir a distncia em tempo. Com a mula, deve cobrir o percurso em quatro ou cinco dias. O regresso deve demorar mais, por causa do peso 
dos diamantes.
        - J! - concordou, com um sorriso.
        Quando voltou a encontrar-se nas ruas de Klipdrift, j no era um turista, mas um pesquisador, um prospector a caminho da fortuna. Entretanto, Banda acabara 
de acondicionar o equipamento e provises no dorso de uma mula de aspecto frgil e Jamie agradeceu-lhe.
        O negro olhou-o fixamente por um momento e afastou-se sem proferir palavra, enquanto o rapaz pegava nas rdeas e murmurava:
        - Vamos, companheira. 
        Abriu a caa s mooi klippe para ns. E rumaram ao norte.
        Jamie montou o acampamento junto de um ribeiro, ao anoitecer, deu de comer  mula e preparou uma refeio modesta para ele. A noite estava repleta de rudos 
estranhos. Soavam grunhidos, uivos e passos de animais selvagens nas imediaes. Achava-se desprotegido para os enfrentar, o que lhe provocava um sobressalto cada 
vez que detectava um som ominoso. Esperava ser atacado a todo o momento e pensou involuntariamente no conforto e na segurana de que desfrutava em casa. Por fim, 
dormiu sem repousar, os sonhos povoados por lees, elefantes e selvagens empenhados em lhe arrancar das mos um diamante gigantesco que encontrara.
        Ao amanhecer, quando acordou, a mula estava morta.









        Captulo II



        Jamie no conseguia acreditar no que os olhos lhe revelavam e procurou um ferimento no corpo do animal, convencido de que fora atacado durante o sono, mas 
em vo. Morrera enquanto dormia. "Mr. Van der Merwe vai responsabilizar-me pela sua morte", refletiu, apreensivo. "Mas quando vir os diamantes, esquece-se do resto."
        No podia voltar para trs. Prosseguiria em direo a Magerdam, sem a mula. De sbito, ouviu um som no ar e ergueu a cabea. Abutres gigantescos comeavam 
a descrever crculos no local, o que lhe provocou um estremecimento. Agindo com a maior rapidez possvel, recolheu tudo o que se lhe afigurava indispensvel e partiu. 
Cinco minutos depois, quando olhou para trs, viu o animal morto coberto por numerosos abutres e estugou o passo.
        Era Dezembro, Vero na frica do Sul, e o percurso atravs da savana, sob o Sol alaranjado, constitua um pesadelo. Jamie iniciara a marcha em Klipdrift 
dominado por pensamentos eufricos, mas,  medida que os minutos se convertiam em horas e estas em dias, comeava a surgir o espectro do desnimo. At onde a vista 
alcanava, a savana montona estendia-se sob o sol escaldante, parecendo infinita.
        Acampava onde descobria um pouco de gua e dormia rodeado pelos sons mais sinistros, que todavia j no o aterrorizavam. Representavam a prova de que havia 
vida naquele inferno trrido e contribuam para que se sentisse menos s. Certa madrugada, deparou-se-lhe um grupo de lees. Postado  distncia, viu a leoa mover-se 
ao lado do companheiro e das crias, com uma jovem impala na boca. Um pouco adiante, depositou-a aos ps do leo e s principiou a comer depois de ele se considerar 
saciado.
        Jamie necessitou de duas semanas para atravessar o Karroo e esteve prestes a desistir por mais de uma vez, quase convencido de que no chegaria ao fim da 
viagem. "Fui estpido. Devia ter voltado para trs e pedido outra mula a Mr. Van der Merwe. Mas ele podia rescindir o contrato. No, procedi bem assim."
        E continuou em frente, com o passo cada vez mais pesado. Um dia, avistou quatro vultos  distncia, que avanavam na sua direo, e o corao principiou 
a palpitar-lhe com ansiedade. "Estou a delirar", pensou. " uma miragem!" No obstante, os vultos continuavam a aproximar-se, e a excitao acentuou-se. "Homens! 
H vida humana, aqui!" Perguntou a si prprio se ainda saberia falar, aps tantos dias sem pronunciar uma palavra. Tentou pronunciar algumas palavras e quase no 
reconheceu a voz. Por fim, os quatro homens - pesquisadores que regressavam a Klipdrift, exaustos e decepcionados - encontraram-se na sua frente e Jamie articulou:
        - Ol!
        Inclinaram as cabeas e um deles declarou em inflexo tona:
        - No h nada, l adiante. Podemos garanti-lo, porque nos fartamos de procurar. No perca tempo. Volte para trs.
        E prosseguiram o seu caminho.
        Jamie isolou o esprito de tudo, exceto da vastido rida  sua frente. Os raios solares e as moscas eram insuportveis e no havia lugar algum para se refugiar. 
A folhagem das escassas rvores dispersas tinha sido devorada pelos elefantes. O sol cegava-o quase por completo. A pele clara achava-se avermelhada pelas queimaduras 
e acudiam-lhe tonturas constantes. Cada vez que respirava fundo, os pulmes pareciam na iminncia de explodir. J no caminhava: arrastava os ps, colocando um  
frente do outro, sem a conscincia exata do que fazia. Uma tarde, quando o Sol se encontrava quase na vertical, tirou a mochila das costas e estendeu-se no cho, 
demasiado cansado para continuar. Fechou os olhos e sonhou que estava num cadinho gigantesco e um diamante enorme emitia raios cintilantes que o queimavam e derretiam. 
Acordou a meio da noite, tremendo de frio, e esforou-se por tragar alguma coisa das parcas reservas que lhe restavam. Sabia que tinha de se levantar e reatar a 
marcha antes do nascer do Sol, enquanto a temperatura permanecia suportvel. Tentou, mas o esforo era excessivo. Resultava mais fcil manter-se deitado no cho 
e no voltar a dar nem mais um passo. No entanto, uma voz segredava-lhe que a sua misso no mundo ainda no se completara. Ainda nem sequer comeara. Por ltimo, 
logrou pr-se de p e avanar com extrema lentido, arrastando a mochila atrs dele. Mais tarde, no conseguiu determinar quantas vezes caiu na areia escaldante 
e tornou a levantar-se. Uma ocasio, gritou em voz rouca:         "Sou Jamie McGregor e hei-de viver! Ouves-me, Deus? Hei-de viver!..."         Entretanto, explodiam-lhe 
na cabea palavras do passado:
        "-  procura de diamantes? No deves regular bem. Tudo isso que contam so balelas, uma tentao do Demnio para impedir os homens de ganhar a vida honestamente.
        "- Porque no nos explicas onde vais arranjar o dinheiro para a viagem? Isso fica do outro lado do mundo, e no tens vintm.
        "- Sou a pessoa indicada. Garanto-lhe que trabalharei dia e noite. Hei-de trazer-lhe mais diamantes do que os que poder contar."
        Afinal, perdera a partida quase antes de a iniciar. "Tens duas alternativas", disse para si mesmo. "Podes continuar em frente ou ficar aqui e morrer... morrer... 
morrer..."
        As palavras ecoavam-lhe no esprito interminavelmente. "Ainda podes dar mais um passo. V, coragem, rapaz. S mais um... mais um..."
        Dois dias depois, chegou  povoao de Magerdam. As queimaduras solares tinham infectado e o corpo convertera-se numa chaga, enquanto os olhos estavam inchados, 
quase impossibilitados de se abrir. Caiu pesadamente no meio da rua, um monte de andrajos que o mantinha consolidado. Quando alguns pesquisadores, solcitos, tentaram 
alivi-lo do peso da mochila, Jamie resistiu com as energias que lhe restavam, vociferando em delrio:
        - Afastem-se dos meus diamantes! Deixem-me em paz!... Despertou num quarto pequeno, sem mveis, trs dias mais tarde, tendo como nica indumentria as ligaduras 
que lhe envolviam o corpo. A primeira coisa que viu quando descerrou as plpebras foi uma mulher de meia-idade e busto opulento sentada na borda da tarimba.
        - Que?!... - exclamou, impossibilitado de formar uma frase coerente.
        - Calma, rapaz. Esteve muito mal.
        Ela levantou-lhe a cabea com suavidade e f-lo ingerir um gole de gua de um pcaro de estanho.
        Jamie conseguiu soerguer-se, apoiado no cotovelo, e perguntar:
        - Onde... onde estou?
        - Em Magerdam. Chamo-me Alice Jardine e encontra-se na minha penso. No se preocupe, que vai ficar bom. Precisa apenas de repouso. Volte a deitar-se.
        Recordou-se dos desconhecidos que tinham tentado tirar-lhe a mochila e sentiu-se invadido por uma vaga de pnico.
        - As minhas coisas?
        Tentou endireitar-se de novo, mas a mulher impediu-o com um gesto.
        - Esto em lugar seguro - e apontou para um volume no cho, ao canto do quarto.
        Jamie reclinou-se, mais tranquilo: "Cheguei. Agora, tudo correr bem."
        Alice Jardine era uma autntica bno personificada, no s para Jamie McGregor como para metade de Magerdam. Na povoao mineira, cheia de aventureiros 
unidos por um sonho comum, fornecia-lhes alimento e coragem. Era uma inglesa que chegara  frica do Sul com o marido, o qual abandonara a ocupao de professor 
em Leeds para se incorporar na febre dos diamantes. Ele morrera de doena, cinco semanas mais tarde, mas ela decidira continuar ali, e os mineiros converteram-se 
nos filhos que nunca tivera.
        Obrigou Jamie a permanecer na cama mais quatro dias, dando-lhe de comer, procedendo  substituio das ligaduras e encorajando-o, at que ele se reconheceu 
com foras para se levantar.
        - Estou-lhe profundamente grato, Mistress Jardine. No disponho de fundos para lhe pagar. Por enquanto. Mas tenciono oferecer-lhe um diamante, num futuro 
no muito distante.  uma promessa solene de Jamie McGregor.
        Ela sorriu ante o fervor do rapaz. Ainda estava muito magro e os olhos cinzentos conservavam parte do horror que conhecera, mas irradiava uma voluntariedade 
que impressionava. " diferente dos outros...", admitiu para consigo.
Jamie saiu para explorar a povoao, que era Klipdrift numa escala mais reduzida. Havia as mesmas tendas, galeras e ruas poeirentas, lojas modestas e multides de 
pesquisadores. Quando passava diante de um saloon, ouviu um clamor e entrou, verificando que numerosos homens rodeavam um irlands de camisa vermelha.
        - Que se passa? - perguntou a um.
        - O tipo vai molhar o achado.
        - Vai qu?
        - Ficou rico, hoje, pelo que paga bebidas a toda a gente. A quantidade correspondente  que trinta homens sedentos puderem emborcar.
        Acabou por se sentar a uma mesa redonda ocupada por vrios pesquisadores de expresses desencorajadas e no tardou a entabular conversa.
        - De onde  voc, McGregor?
        - Da Esccia.
        - No sei que patranhas lhe contaram na sua terra, mas no h diamantes nesta regio em quantidade suficiente para custear as despesas.
        Em seguida, trocaram impresses acerca de outros lugares de prospeco: Gong Gong, Forlorn Hope, Delports, Poor-mans Kopje, Sixpenny Rush...
        Os pesquisadores contavam todos a mesma histria - de meses empenhados na esgotante atividade de remover rochas, escavar o solo duro e passar horas agachados 
na margem do rio com o crivo nas mos. Todos os dias eram encontrados alguns diamantes, insuficientes para enriquecer, mas em quantidade bastante para manter os 
sonhos vivos. O estado de esprito que predominava consistia numa mescla de otimismo e pessimismo. Os otimistas eram os que chegavam, os pessimistas os que partiam.
        Jamie no teve dificuldade em determinar a que grupo pertencia.
        Por fim, acercou-se do irlands de camisa vermelha, agora de olhar congestionado pela bebida, e mostrou-lhe o mapa de Van der Merwe.
        O homem lanou-lhe uma olhadela superficial e restituiu-o.
        - No vale nada. Toda a rea a indicada j foi explorada. No seu lugar, eu tentava a sorte em Bad Hope.
        Jamie no conseguia acreditar no que ouvia. Fora o mapa do holands que o atrara quela regio, a estrela que lhe prometia a riqueza.
        - Experimente em Colesberg - sugeriu outro pesquisador. -  a que aparecem os diamantes grandes.
        No entanto, as opinies no pareciam unnimes.
        - Quanto a mim, no h como Gilfillans Kop.
        - Procure em Moonlight Rush, se quer encontrar os mais valiosos.
        Aps uma noite em claro de debate consigo prprio, Jamie decidiu ignorar o mapa de Van der Merwe e, contra todos os concelhos, seguir para leste, ao longo 
do rio Moder. Assim, na manh seguinte, despediu-se de Mrs. Jardine e partiu.
Caminhou durante trs dias e duas noites e, quando se lhe deparou um local satisfatrio, montou a pequena tenda. Erguiam-se pesadas rochas em ambas as margens do 
rio, e ele, servindo-se de ramos nodosos como alavancas, principiou a remov-las penosamente, a fim de explorar o solo por baixo.
        Escavava da alvorada at ao anoitecer, em busca do barro amarelo ou do solo diamantfero azulado indicativo de que descobrira um filo. No entanto, a terra 
apresentava-se estril. Ao cabo de uma semana de pesquisas, no encontrara uma nica pedra, pelo que resolveu mudar de pouso.
        Um dia, avistou ao longe algo que parecia uma casa de prata que refulgia ao sol e receou ser vtima de uma iluso de tica resultante do calor. Mas  medida 
que se aproximava, verificou que se tratava de uma povoao, cujas casas tinham todo o aspecto de ser de prata. Multides de homens, mulheres e crianas indianos 
andrajosos enchiam as ruas, ante o olhar atnito de Jamie. As casas que refletiam os raios solares eram feitas de latas de compota espalmadas e pregadas, lado a 
lado, a pranchas. Prosseguiu em frente e, uma hora mais tarde, quando olhou para trs, ainda conseguia divisar o claro da aldeia. Era uma cena que jamais esqueceria.
Continuou a rumar para norte, acompanhando a margem do rio, onde os diamantes se poderiam encontrar, e escavando at os braos se recusarem a erguer a pesada picareta. 
 noite, dormia profundamente, como que drogado.
        No final da segunda semana, passou por uma pequena colnia de pesquisadores denominada Paardspan e, um pouco ao norte, deteve-se junto de uma curva do rio. 
Em seguida, preparou uma das refeies frugais a que se habituara e sentou-se  entrada da tenda, para contemplar as estrelas no vasto firmamento. Havia duas semanas 
que no via um ser humano e assolava-o uma vaga de solido. "Que diabo fao aqui?", perguntava-se. "Passo os dias a escavar e a peneirar terra para qu? Estava muito 
melhor na herdade. Se no encontrar um diamante at sbado, volto para casa." Fixou os olhos nas estrelas, como se pretendesse tom-las como testemunhas, e bradou:
        - Ouviram?
        "Estou a perder o juzo", receou quase imediatamente.
        Jamie notou uma pedra de dimenses apreciveis entre a terra que explorava, olhou-a por um momento e deitou-a fora. Haviam-se-lhe deparado milhares como 
aquela, sem qualquer valor, nas ltimas semanas. Como lhe chamara Van der Mer-we? Schlenters. No entanto, a de agora tinha algo que acabou por lhe despertar a ateno. 
Voltou a pegar-lhe e submeteu-a a um exame minucioso. Era muito maior do que as anteriores e apresentava uma configurao diferente. Friccionou-a na perna da cala 
para remover parte da terra que a cobria e tornou a observ-la. De fato, parecia um diamante. A nica coisa que o levava a duvidar era o tamanho, quase igual ao 
de um ovo de galinha. "Se fosse mesmo, meu Deus..." De repente, sentiu dificuldade em respirar. Dominado por uma ansiedade febril, pegou na lanterna e ps-se a esquadrinhar 
o solo  sua volta. Decorridos quinze minutos, encontrara mais quatro semelhantes. Embora no fossem to grandes, tinham dimenses suficientes para o excitar.
        Levantou-se antes de amanhecer e recomeou a escavar como um desesperado. Ao meio-dia, descobrira mais meia dzia. Consumiu a semana seguinte em pesquisas 
frenticas, das quais redundou uma quantidade aprecivel, que enterrava  noite num local seguro onde ningum os poderia encontrar por acaso.  medida que se acumulavam, 
refletia que, apesar de apenas metade do tesouro lhe pertencer, segundo as clusulas do contrato, isso bastava para o tornar mais rico do que jamais se atrevera 
a imaginar.
        No final da semana, Jamie inscreveu uma anotao no mapa e demarcou a rea que tencionava legalizar em seu nome, servindo-se da picareta para o efeito. Por 
fim, desenterrou os diamantes, ocultou-os no fundo da mochila e regressou a Magerdam.
        A tabuleta  entrada da pequena construo indicava: "Diamant Kooper".
        O rapaz entrou num pequeno gabinete sem ventilao e sentiu-se invadido por tremores irresistveis. Ouvira falar de dezenas de casos de pesquisadores convencidos 
de terem encontrado diamantes que na realidade no passavam de pedras sem qualquer valor. "E se estiver enganado?"
        O avaliador encontrava-se sentado atrs de uma secretria que conhecera melhores dias e, quando viu Jamie aproximar-se, inquiriu:
        - Em que posso ser-lhe til?
        - Gostava que avaliasse estas pedras.
        E, ante o olhar do homem, Jamie comeou a coloc-las em cima da secretria. Quando terminou, havia um total de vinte e sete, que o avaliador contemplava 
com assombro.
        - Onde... onde as encontrou?
        - Explico-lhe depois de me dizer se so diamantes.
        O exame no se prolongou muito e foi concludo com uma exclamao de incredulidade.
        - So os maiores que vi em toda a minha vida. Afinal, onde os descobriu?
        - V ter comigo  cantina dentro de um quarto de hora e informo-o - prometeu Jamie, com um sorriso.
        Recolheu as pedras, guardou-as nas algibeiras e retirou-se em direo ao departamento de registros.
        - Quero registrar um terreno nos nomes de Salomon van der Merwe e Jamie McGregor - anunciou, esforando-se por conservar a voz firme.
        O avaliador j se encontrava na cantina quando ele entrou, e tudo indicava que divulgara a novidade, porque se verificou um silncio de respeito no momento 
em que Jamie transps a porta. Pairava uma nica interrogao no formulada nos espritos de todos. Aps breve hesitao, acercou-se do balco do bar e comunicou 
ao empregado:
        - Quero molhar um achado - e voltando-se para os outros, informou: - Em Paardspan.
        Alice Jardine tomava ch, quando Jamie entrou na cozinha, e o rosto iluminou-se-lhe ao v-lo.
        - Voltou so e salvo, graas a Deus! - exclamou, mas, apercebendo-se da indumentria andrajosa do rapaz, assumiu uma expresso de pesar. - As coisas no 
correram bem, aposto. No se preocupe. Tome ch comigo e vai sentir-se melhor.
Sem uma palavra, ele introduziu a mo na algibeira e exibiu um diamante de dimenses apreciveis, que colocou na mo dela.
        - Cumpri a promessa, como v.
        Mrs. Jardine fixou o olhar na pedra por um longo momento e sentiu-se comovida.
        - No, Jamie - articulou em voz baixa. - No o quero. Se o aceitasse, estragava tudo. Procure compreender.
        Quando Jamie regressou a Klipdrift, apresentou-se de forma condigna  nova situao. Trocou um dos diamantes mais pequenos por um cavalo e uma carruagem 
e anotou meticulosamente o que gastara, para que o scio no ficasse prejudicado. O percurso foi fcil e confortvel, e ele no pde deixar de recordar as condies 
inslitas em que efetuara a viagem no sentido inverso. " a diferena entre os ricos e os pobres", refletiu. "Os pobres andam a p e os ricos de carruagem."

        Captulo III



        Klipdrift no mudara, mas no se podia dizer o mesmo de Jamie McGregor. As pessoas contemplaram-no de olhos arregalados, quando se deteve diante do armazm 
de artigos gerais de Van der Merwe. No eram os dispendiosos cavalos e a carruagem que atraam a ateno dos transeuntes, mas a expresso de jbilo do rapaz. Haviam-na 
notado anteriormente noutros pesquisadores que tinham enriquecido, o que sempre lhes incutia nova esperana.
        Achava-se  entrada o mesmo negro corpulento e bem-parecido, e Jamie saudou-o cordialmente:
        - Viva! Estou de volta.
        Banda atou as rdeas a um poste, sem responder, e entrou na loja, seguido por Jamie.
        Salomon van der Merwe atendia um cliente, mas ergueu os olhos e sorriu, e o rapaz compreendeu que j se inteirara da boa nova. Ningum o podia explicar, 
mas as descobertas de diamantes propagavam-se com a velocidade da luz.
        Quando se desembaraou do cliente, o holands inclinou a cabea na direo do fundo da loja e proferiu:
        - Vamos tratar de negcios, McGregor.
        Jamie acompanhou-o e avistou a rapariga ocupada diante do fogo, preparando o almoo.
        - Ol, Margaret.
        Todavia, ela corou e desviou os olhos.
        - Constou-me que foi bem sucedido - disse Van der Merwe, com um largo sorriso, ao mesmo tempo que se sentava  mesa e abria espao  sua frente.
        -  verdade - assentiu Jamie, orgulhosamente.
        Extraiu uma bolsa de cabedal da algibeira do casaco e sacudiu-a, para fazer brotar os diamantes refulgentes. Van der Merwe olhava-os, como que hipnotizado, 
at que pegou num, para o examinar com incredulidade. Por fim, guardou-os numa bolsa de camura, que encerrou num cofre de ferro a um canto da sala. Quando falou, 
havia uma nota de profunda satisfao na sua voz.
        - Portou-se s mil maravilhas, McGregor.
        - Obrigado. E isto  s o princpio. H centenas de outros no mesmo local. Nem sequer posso fazer uma estimativa do seu valor.
        - Registrou o terreno?
        - Sem dvida - e Jamie tornou a levar a mo  algibeira e exibiu o talo respectivo. - Nos nomes de ambos.
        O holands estudou-o por um momento e guardou-o, dizendo:
        - Merece uma gratificao. Aguarde um pouco - pediu, e comeou a mover-se para a porta de comunicao com a loja. - Vem, Margaret.
        Ela seguiu-o docilmente e Jamie pensou: "Parece uma gatinha aterrorizada!"
        Transcorridos uns minutos, Van der Merwe reapareceu s e abriu uma bolsa de cabedal, da qual retirou cinquenta libras.
        - Aqui tem.
        - Para que  isso? - perguntou Jamie, intrigado.
        - Para si.
        - No compreendo.
        - Esteve ausente vinte e quatro semanas. As duas libras por semana, so quarenta e oito, alm de que lhe dou duas de gratificao.
        - No  necessrio dar-me gratificaes. Contento-me com a minha parte dos diamantes.
        - A sua parte?
        - Os meus cinquenta por cento. Somos scios.
        - Scios? - Van der Merwe fitou o interlocutor com estranheza. - Quem lhe meteu essa idia na cabea?
        - Quem?... - a perplexidade do rapaz comeava a converter-se em alarme. -         Assinamos um contrato.
        - Precisamente. Leu as clusulas?
        - No, porque est redigido em africnder, mas o senhor disse que ramos scios em partes iguais.
        - Compreendeu mal, Mister McGregor - Van der Merwe abanou a cabea com veemncia. - No preciso de scios para nada. Limitou-se a trabalhar para mim, segundo 
o nosso acordo. Forneci-lhe o equipamento e os gneros para que descobrisse diamantes para mim.
        - Forneceu-me tudo isso em troca do dinheiro que lhe dei! - retorquiu Jamie, sentindo uma indignao crescente. - Paguei-lhe cento e vinte libras.
        - No posso perder tempo com conversa fiada. Olhe, proponho o seguinte. Dou-lhe mais cinco libras e no se volta a falar no assunto. Parece-me uma oferta 
generosa.
        - Volta a falar-se no assunto e at que o resolvamos como deve ser! - explodiu com voz trmula. - Tenho direito a metade do que se encontrar na propriedade 
que registrei. E hei-de obt-la. No registro figuram os nomes de ambos.
        - Nesse caso, tentou vigarizar-me - observou Van der Merwe, com um sorriso malicioso. - Se quisesse, podia mand-lo prender - ameaou, atirando as moedas 
para cima da mesa. - Pegue no seu dinheiro e desaparea.
        - Vou process-lo!
        - Tem recursos para pagar a um advogado? De resto, esto todos ao meu servio.
        "Isto no est a acontecer", refletia Jamie. " um pesadelo!" A agonia que sofrera, as semanas e os meses de exposio  inclemncia do deserto, o trabalho 
esgotante do nascer ao pr-do-Sol, acudiram-lhe ao pensamento em vagas avassaladoras. Quase perdera a vida, e agora aquele homem tentava priv-lo daquilo que lhe 
pertencia por direito prprio.
        Por fim, encarou o holands com uma expresso ominosa, antes de advertir:
        - No julgue que se safa com isto. Continuarei em Klipdrift e direi a toda a gente o que fez. Hei-de conseguir a minha parte dos diamantes, custe o que custar.
        - Aconselho-o a consultar o mdico - grunhiu o outro, desviando os olhos. - Desconfio que o sol lhe alterou as faculdades mentais.
        Num segundo, Jamie segurou-o pela gola do casaco e ergueu-o no ar.
        - H-de arrepender-se de me ter conhecido - prometeu. Em seguida, largou-o abruptamente, recolheu o dinheiro de cima da mesa e afastou-se em passos pesados.
Quando entrou no Sundowner Saloon, encontrou a sala quase deserta, pois a maioria dos pesquisadores j se achava a caminho de Paardspan. Jamie sentia-se assolado 
pela clera e pelo desespero. " incrvel. De um momento para o outro, passei de rico como Creso a pobre como Job. Van der Merwe  um ladro e hei-de arranjar um 
meio de me vingar. Mas como?" O holands tinha razo. No possua fundos para recorrer a um advogado. De qualquer modo, deviam encontrar-se todos por sua conta, 
como ele prprio declarara. A nica arma de que Jamie dispunha era a verdade. Assim, faria com que todos os habitantes da frica do Sul se inteirassem da ao hedionda 
de Van der Merwe.
        - Seja bem-vindo - saudou Smit, o bartender. - Pode tomar o que lhe apetecer por conta da casa, Mister McGregor. Que prefere?
        - Usque.
        O homem serviu uma dose dupla, que o rapaz fez desaparecer de um trago. No entanto, no estava habituado s bebidas alcolicas e sentiu um ardor intenso 
na garganta e no estmago.
        - Pode voltar a encher.
        -  para j. Sempre afirmei que ningum vence os escoceses, quando se trata de beber.
        A segunda dose deslizou mais facilmente. Ao mesmo tempo, Jamie recordou-se de que procurara o holands por recomendao do bartender e articulou:
        - Sabia que o velho Van der Merwe  um escroque? Quer privar-me dos meus diamantes.
        - No me diga - Smit mostrou-se compadecido. - Isso  horrvel. Nunca esperei uma coisa dessas dele.
        - Mas no se safa - e a voz de Jamie comeava a tornar-se pastosa. - Metade dos diamantes pertence-me.  um ladro e vou providenciar para que toda a gente 
o saiba.
        - Veja l no que se mete, pois trata-se de uma pessoa importante - advertiu o bartender. - Antes de tomar qualquer deciso, precisa de procurar auxlio. 
Por acaso, conheo o homem indicado. Odeia Van der Merwe tanto como voc - olhou em volta, para se certificar de que ningum ouvia. - Eu ocupo-me dos preparativos. 
Dirija-se a um velho celeiro ao fundo da rua, s dez horas.
        - Obrigado - proferiu Jamie, com sinceridade. - No me esquecerei da sua atitude.
        - No celeiro, s dez.
        O celeiro consistia numa estrutura rudimentar de chapa ondulada, para l da rua principal, nos arrabaldes da cidade, e Jamie apresentou-se  hora indicada. 
Impeliu a porta e avanou um passo, mas no descortinou vivalma na escurido.
        Aventurou-se um pouco mais e, de sbito, detectou um som atrs dele. No momento em que principiava a voltar-se, uma barra de ferro atingiu-o na clavcula, 
obrigando-o a cair. Ato contnuo, um basto fraturou-lhe a cabea e uma mo gigantesca ergueu-o e segurou-o, ao mesmo tempo que punhos e botas cardadas lhe flagelavam 
o corpo impiedosamente. A agresso pareceu prolongar-se de forma interminvel. Quando a dor se tornava insuportvel e ele principiava a perder os sentidos, vertiam-lhe 
gua fria no rosto para o espevitar. Num dado instante, afigurou-se-lhe descortinar o semblante do criado de Van der Merwe, Banda, mas a punio que lhe aplicavam 
obrigou-o a esquecer o pormenor.
        Por ltimo, nem a gua fria conseguiu faz-lo emergir da inconscincia.
        Sentia o corpo em brasa. Algum lhe raspava as faces com lixa e Jamie tentou em vo erguer a mo para protestar. Efetuou um esforo para abrir os olhos, 
mas o inchao no lho permitiu. Conservava-se estendido, todas as fibras do corpo uivando de dor, ao mesmo tempo que tentava recordar-se onde estava. Moveu-se e 
a sensao desagradvel repetiu-se. Estendeu a mo cegamente e sentiu o contato de areia. O rosto encontrava-se pousado na areia quente. Com extrema lentido, cada 
movimento traduzido numa agonia individual, conseguiu erguer-se de joelhos. Tentou enxergar por entre as plpebras inchadas, mas s logrou divisar imagens confusas.
        Encontrava-se algures no meio do estril Karroo, completamente despido. Apesar da hora matutina, os raios solares comeavam a flagelar-lhe o corpo. Olhou 
em volta com desespero, em busca de comida e um pouco de gua, mas no havia coisa alguma. Haviam-no deixado ali para que morresse. "Salomon van der Merwe e, evidentemente, 
o bartender, Smit". Jamie ameaara o holands, que o castigara com a mesma facilidade como se  tratasse de uma criana. "H-de descobrir que no sou um garoto", 
prometeu Jamie a si prprio. "Deixei de o ser. Transformei-me num vingador. Ho-de pagar o que fizeram!" O dio que o percorria incutiu-lhe foras para se pr de 
p. O simples ato de respirar constitua uma verdadeira tortura. Quantas vrtebras lhe tinham fraturado? " preciso cuidado, para que no perfurem os pulmes." Tentou 
pr-se de p, mas caiu com um grito. A perna direita achava-se partida e conservava-se num ngulo inverosmil. Era-lhe impossvel caminhar. Mas podia rastejar.
        Jamie McGregor no fazia a mnima idia de onde se encontrava. Deviam t-lo levado para longe do caminho normalmente percorrido, para que s fosse localizado 
por hienas e aves de rapina. O deserto constitua um vasto ossrio. Ele vira os esqueletos de corpos humanos aps a passagem dos abutres. De repente, ouviu sobre 
a sua cabea o bater sinistro de asas e acudiu-lhe uma onda de terror.         Estava impossibilitado de ver, mas notava o cheiro nauseabundo que exalavam.
        Comeou a rastejar.
        Esforou-se por concentrar o pensamento na dor. Difundia-se por todo o corpo e cada pequeno movimento originava torrentes de agonia. Se deslocava de determinada 
maneira, a perna fraturada protestava de forma pungente. Se mudava de posio para no a sobrecarregar, eram as vrtebras que lhe recordavam a sua condio precria. 
No podia suportar a tortura de permanecer imvel, nem a agonia de se movimentar.
        Continuou a rastejar.
        O bater das asas prosseguia sobre a sua cabea, indicando que os abutres aguardavam pacientemente o momento propcio para atacar. O seu esprito comeou 
a vaguear. Encontrava-se na igreja de Aberdeen, com o trajo domingueiro, sentado entre os dois irmos. A irm, Mary, e Annie Cord usavam belos vestidos de Vero 
brancos, e a segunda olhava-o, sorridente. Jamie fez meno de se levantar para lhe ir falar, mas os irmos impeliram-no para trs e principiaram a belisc-lo. Os 
beliscos converteram-se em espasmos de dor excruciantes e ele voltou a encontrar-se no deserto, o corpo estropiado rastejando com lentido. Entretanto, os abutres 
voavam cada vez mais baixo, impacientes.
        Jamie tentou abrir os olhos, para ver se estavam perto, mas apenas conseguiu vislumbrar objetos indefinidos, que a imaginao febril convertia em hienas 
e chacais vorazes.
        Recomeou a rastejar, consciente de que no instante em que se detivesse lhe cairiam em cima. Ardia de febre e dor e o corpo era causticado pela areia escaldante. 
Apesar disso, no podia renunciar  luta enquanto Van der Merwe continuasse impune... enquanto estivesse vivo.
        Acabou por perder toda a noo do tempo. Afigurava-se-lhe que percorrera cerca de dois quilmetros, embora na realidade no tivesse avanado mais de dez 
metros, rastejando num crculo. No podia ver onde estivera ou para onde se dirigia. O esprito concentrava-se numa nica idia: Salomon van der Merwe.
        Terminou por imergir em inconscincia e foi acordado por uma agonia irresistvel. Algum lhe tocava na perna, e ele necessitou de um momento para se recordar 
de onde estava e o que se passava. Por ltimo, descerrou levemente um dos olhos inchados. Um abutre enorme atacava-lhe a perna, dilacerando a carne e comendo-a sem 
aguardar que morresse. Jamie tentou gritar, mas no conseguiu emitir o mnimo som. Arrastou-se freneticamente para a frente e sentiu o sangue morno brotar da perna, 
enquanto os vultos sombrios das aves de rapina o circundavam, na expectativa do momento final. Pressentiu que na prxima vez que perdesse o conhecimento no tornaria 
a acordar. No entanto, as foras esvaam-se gradualmente, at que se imobilizou na areia.
        Os abutres prepararam-se ento para o festim.





































        Captulo IV



        Sbado era dia de mercado na Cidade do Cabo e as ruas achavam-se apinhadas de comerciantes em busca de negcios vantajosos, uma troca de impresses com amigos 
ou encontros de natureza romntica. Beres e franceses, soldados de uniformes coloridos e damas inglesas de saias em balo e blusas de pregas confraternizavam diante 
dos bazares montados nos largos de Braameonstein, Park Town e Burgersdorp. Havia de tudo  venda: mobilirio, cavalos e carruagens e fruta. Uma pessoa podia comprar 
vestidos e tabuleiros de xadrez, carne ou livros numa dezena de idiomas diferentes. Aos sbados, a Cidade do Cabo era uma feira ruidosa e animada.
        Banda abria caminho por entre a multido, sem pressa, preocupando-se em no estabelecer contato visual com os brancos. Era muito perigoso. As ruas estavam 
pejadas de negros, indianos e mestios, mas o predomnio pertencia  minoria branca, que Banda detestava. Aquela era a sua terra e os brancos os uillanders. Havia 
muitas tribos na frica Austral - Basutos, Zulos, Bechuanas e Matabele -, todas elas Bantos. O prprio termo "banto" derivava de abantu - "o povo". Porm os Barolongs, 
a tribo de Banda, constituam a aristocracia. Ele recordava-se das histrias que a av lhe contava acerca do vasto reino negro que outrora dominara a frica do Sul. 
O seu reino, a sua terra. E agora eram escravizados por um punhado de chacais. Os brancos tinham-nos impelido para territrios cada vez mais exguos, at que a sua 
liberdade fora corroda. A nica maneira de um negro poder existir era mostrar-se astucioso e subserviente  superfcie e alerta no ntimo.
        Banda ignorava a idade que tinha, porque os nativos no dispunham de certificado de nascimento. A sua idade era medida pelos fatos histricos conhecidos: 
guerras e batalhas, nascimento e morte de chefes importantes, cometas, tempestades e tremores de terra, migrao de Adam Kok, morte de Chaka e revoluo do abate 
de gado. Mas o nmero dos anos dele no interessava. Banda sabia que era filho de um chefe e estava destinado a fazer algo pelo seu povo. Os Bantos voltariam a erguer-se 
e a dominar. A idia da sua misso f-lo caminhar mais empertigado por um momento, at que se apercebeu do olhar de um branco cravado nele.
        Banda encaminhou-se apressadamente para os arrabaldes da cidade, a zona atribuda aos negros. As residncias espaosas e as lojas atraentes no tardaram 
a ceder o lugar a cabanas de chapa metlica e choas humildes. Avanou por uma rua de terra batida, olhando com frequncia por cima do ombro para se certificar de 
que no o seguiam. Por ltimo, imobilizou-se diante de uma barraca de madeira, lanou uma derradeira olhadela em volta e entrou. Uma negra esqulida sentava-se numa 
cadeira ao canto, cerzindo um vestido, e Banda saudou-a com uma inclinao de cabea, aps o que prosseguiu em direo ao quarto ao fundo.
        Uma vez a, contemplou o vulto deitado no catre.
        Seis semanas antes, Jamie McGregor recuperara o conhecimento e vira-se estendido num catre desconhecido. As recordaes foram reaparecendo gradualmente: 
o Karroo, o corpo estropiado, os abutres...
        De sbito, Banda entrou no quarto e Jamie compreendeu que tencionava mat-lo. Van der Merwe inteirara-se de que escapara com vida  agresso e enviara o 
criado para lhe aplicar o golpe de misericrdia.
        - Porque no veio o teu dono pessoalmente? - articulou em voz rouca.
        - No tenho dono.
        - Van der Merwe. No foi ele quem te enviou?
        - No. Matava a ambos, se soubesse.
        - Onde estou? - a situao parecia insensata a Jamie. - Quero saber onde estou.
        - Na Cidade do Cabo.
        - O qu?! Como vim c parar?
        - Trouxe-o eu.
        Fixou os olhos negros por um momento, antes de inquirir:
        - Porqu?
        - Preciso de si. Quero vingar-me.
        - Mas que?...
        - No  por mim - e Banda acercou-se uns passos, e continuando a meia voz: - Na verdade, Van der Merwe violou minha irm. Ela morreu no momento do parto 
e tinha apenas onze anos.
        - Santo Deus! - balbuciou Jamie, horrorizado.
        - Desde o dia da sua morte que procuro um branco para me ajudar. Encontrei-o naquele velho celeiro, na noite em que participei no seu espancamento, Mister 
McGregor. Levmo-lo para o Karroo e recebi instrues para o matar. Comuniquei aos outros que estava morto e fui busc-lo assim que pude. Ia chegando demasiado tarde.
        Jamie no conseguiu evitar um estremecimento de terror ao recordar-se das sinistras aves de rapina esvoaando  sua volta.
        - Quando apareci, os abutres preparavam-se para o devorar. Levei-o para a galera e escondi-o na cabana dos meus familiares. Um dos nossos mdicos ligou-lhe 
o tronco por causa das vrtebras fraturadas, cuidou da perna e dos outros ferimentos.
        - E depois?
        - Uma carruagem de familiares meus ia partir para a Cidade do Cabo e pedi-lhes que nos levassem. Delirou durante quase todo o caminho. Cada vez que adormecia, 
eu receava que no tornasse a acordar.
        Jamie contemplou o homem que quase o assassinara. Necessitava de refletir. No confiava nele... apesar de lhe ter salvo a vida, Banda pretendia atingir Van 
der Merwe por seu intermdio. "Isso pode resultar vantajoso para mais de uma pessoa", decidiu. Mais do que tudo o resto no mundo, Jamie desejava que o holands expiasse 
o roubo que cometera.
        - Muito bem - assentiu por fim. - Descobrirei uma maneira de obrigar Van der Merwe a arrepender-se do que nos fez.
        - Vai morrer? - Banda deixou transparecer uma sugesto de sorriso pela primeira vez.
        - No - replicou Jamie, entre dentes. - Vou viver.
        Lenvantou-se da cama pela primeira vez naquela tarde, aturdido e fraco. A perna ainda no sarara por completo e movia-se coxeando um pouco. Quando Banda 
tentou ajud-lo, repeliu-o.
        - Larga-me. Tenho de me habituar a singrar pelos meus prprios meios - e enquanto o negro o observava atentamente, cruzou o quarto com lentido e pediu: 
-Arranja-me um espelho.
        Banda comprazeu-o e Jamie ergueu-o  altura do rosto.
        Deparou-se-lhe um desconhecido. Os cabelos tinham-se tornado brancos como a neve e exibia uma barba irregular da mesma cor. O nariz fora fraturado e a cartilagem 
atingida torcera-o. Por seu turno, o semblante envelhecera vinte anos. Havia sulcos profundos nas faces encovadas e uma cicatriz lvida atravessava-lhe o queixo 
lateralmente. No entanto, a maior alterao situava-se nos olhos. Era um olhar que presenciara demasiada dor e sentira os seus efeitos. Por fim, com um suspiro, 
pousou o espelho.
        - Vou dar uma volta - anunciou num murmrio.
        - Lamento, Mister McGregor, mas no  possvel.
        - Porqu?
        - Os brancos no costumam visitar esta zona da cidade, assim como os pretos nunca vo aos lugares que eles frequentam. Os vizinhos no sabem que se encontra 
aqui, pois trouxemo-lo de noite.
        - Ento, como posso sair?
        - Trataremos disso esta noite.
        Jamie comeou a aperceber-se pela primeira vez do risco a que Banda se expusera por ele e, embaraado, disse:
        - No tenho dinheiro. Preciso de me empregar.
        - Arranjarei trabalho na estiva. Esto sempre a admitir homens - declarou o negro puxando de algumas moedas da algibeira. - Tome.
        - Hei-de pagar-te - prometeu Jamie, aceitando-as.
        - Pagar vingando minha irm.
        Era meia-noite quando Banda conduziu Jamie para fora da cabana. Este olhou em volta e viu que se encontrava no meio de um aglomerado de barracas e choas 
rudimentares. O solo, lamacento em virtude de uma chuvada recente, exalava um odor desagradvel, e Jamie perguntou-se como pessoas to altivas como Banda conseguiam 
passar a vida em semelhante ambiente.
        - No haver?... - comeou.
        - Esteja calado - recomendou o companheiro, a meia voz. - A vizinhana  muito desconfiada.
        Encontravam-se na orla da aldeia, quando Banda estendeu o brao e apontou, dizendo:
        - O centro da cidade fica para aquele lado. Voltaremos a ver-nos nas docas.
        Jamie dirigiu-se  penso em que se instalara quando chegara de Inglaterra e avistou Mrs. Venster na recepo.
        - Queria um quarto - anunciou ele.
        - Perfeitamente - declarou ela sorrindo e expondo o dente de ouro. - Sou Mistress Venster.
        - Eu sei.
        - Como? - estranhou. - Falou com algum que tivesse estado c?
        - No se recorda de mim? Fui seu hspede, o ano passado.
        A mulher examinou o rosto sulcado de rugas, o nariz torcido e a barba branca e meneou a cabea.
        - Nunca esqueo uma cara, meu amigo, e tenho a certeza de que vejo a sua pela primeira vez. Mas isso no significa que no possamos dar-nos bem. Os amigos 
tratam-me por "Dee-Dee". Como se chama?
        E Jamie ouviu a sua voz responder:
        - Travis, lan Travis.
        Na manh seguinte foi procurar trabalho nas docas e o capataz observou:
        - Precisamos de costas resistentes e receio que voc seja muito velho para este gnero de trabalho.
        - Mas tenho s dezenove... - Jamie interrompeu-se ao recordar-se do rosto que vira no espelho. - Deixe-me experimentar - props.
        Foi admitido com o salrio de nove xelins dirios, para a carga e descarga dos navios que entrassem no porto. Pouco depois, inteirou-se de que Banda e os 
outros homens de cor recebiam seis.
        Na primeira oportunidade que se lhe deparou, levou o negro para um canto isolado e disse:
        - Temos de conversar.
        - Aqui no, Mister McGregor. H um armazm abandonado na extremidade das docas. Encontramo-nos l, quando terminarmos o trabalho.
        Banda j o aguardava, quando Jamie se apresentou no local indicado, e este pediu:
        - Fala-me de Salomon van der Merwe.
        - Que quer saber?
        - Tudo.
        - Veio diretamente da Holanda e, segundo o que me constou, a mulher morreu pouco depois e ele utilizou o dinheiro que ela possua para se estabelecer em 
Klipdrift, onde enriqueceu  custa de chicanas sobre os pesquisadores.
        - Do gnero daquela de que fui vtima?
        - Isso no passa de uma das suas facetas. Os pesquisadores que tm sorte procuram-no para obterem um emprstimo destinado a explorar a mina e, antes que 
consigam descobrir a verdade, j passou tudo para as mos dele.
        - Nunca ningum tentou reagir?
        - Como? O responsvel pelos servios de registro trabalha para Van der Merwe. Em conformidade com a lei, se um terreno no comea a ser explorado quarenta 
e cinco dias aps a sua declarao, fica  disposio de quem l chegar primeiro. Esse indivduo avisa o patro, que no perde tempo em o confiscar. Por outro lado, 
as estacas de demarcao do terreno devem ser cravadas verticalmente. Assim, se inclinam ou caem, qualquer oportunista pode tomar posse dele. Quando Van der Merwe 
avista algum que lhe agrada, manda l um sicrio derrubar as estacas durante a noite.
        - Santo Deus!
        - Tem um acordo com o bartender, Smit, que lhe envia pesquisadores potenciais. Assinam um contrato com o holands, que fica com todos os diamantes encontrados. 
Se o lesado protesta, h um grupo de gorilas que tratam de o reduzir ao silncio.
        - Essa parte j era do meu conhecimento - murmurou Jamie, com uma ponta de amargura. - Que mais?
        -  um religioso fantico. Passa a vida a rogar pelas almas dos pecadores.
        - E a respeito da filha?
        - Miss Margaret? Tem um medo mortal do pai. Se se atrevesse a olhar para um homem, Van der Merwe matava ambos.
        Aproximou-se da porta do armazm e contemplou o porto pensativamente por um momento, consciente de que havia muita coisa em que pensar.
        - Voltaremos a conversar amanh - decidiu por fim.
        Foi na Cidade do Cabo que se deu conta do profundo cisma entre negros e brancos. Os primeiros no tinham quaisquer direitos alm dos escassos que os segundos 
lhes concediam. Eram reunidos em arrabaldes que constituam guetos donde s podiam sair para trabalhar para os brancos.
        - Como suportam a situao? - perguntou Jamie, um dia.
        - O leo faminto dissimula as garras. Modificaremos tudo isso no momento apropriado. O branco aceita o preto porque precisa dos seus msculos, mas tem de 
se habituar a aceitar-lhe tambm os miolos. Quanto mais nos empurra para um canto, maior o medo que lhe inspiramos, porque sabe que um dia poder haver discriminao 
e humilhao de sinal contrrio, perspectiva que se recusa a admitir. Em todo o caso, sobreviveremos por causa do isiko.
        - De quem?
        - No  uma pessoa. No se pode explicar com facilidade, Mister McGregor. Isiko so as nossas razes, por assim dizer, a sensao de pertencer a uma nao 
que deu o nome ao grandioso rio Zambeze. H muitas geraes, os meus antepassados penetraram nas suas guas, despidos, com o seu gado  frente. Os mais fracos perderam-se, 
arrastados pela corrente caudalosa ou devorados pelos crocodilos, mas os sobreviventes emergiram do rio mais fortes e viris. Quando um banto morre, isiko requer 
que os seus familiares se retirem para a floresta, a fim de que o resto da comunidade no tenha de partilhar do seu desgosto. Isiko  o rancor do escravo que sofre, 
a convico de que um homem pode olhar qualquer pessoa de frente e vale o mesmo que ela. J ouviu falar de John Tengo Jabavu? - Banda pronunciou o nome com profunda 
reverncia.
        - No.
        - H-de ouvir, Mister McGregor - afirmou. - H-de ouvir - e mudou de assunto.
        Jamie comeou a sentir uma admirao crescente pelo negro. Ao princpio, imperou certa desconfiana entre os dois homens. Jamie necessitava de se habituar 
a confiar em quem quase o matara e Banda tinha de se resignar a aceitar um representante da raa sua inimiga desde longa data. Ao contrrio da maioria dos negros 
que Jamie conhecera, o seu novo amigo denunciava certa cultura.
        - Onde estudaste?
        - Em parte alguma. Trabalho desde criana. O que aprendi foi-me transmitido por minha av, que estava ao servio de um professor ber. Devo-lhe tudo o que 
sei.
Foi ao fim da tarde de um sbado que Jamie se inteirou da existncia do deserto da Nambia, na Grande Namacualndia, quando se encontrava, com Banda, no armazm 
abandonado das docas, compartilhando um estufado cozinhado pela me do negro.
        - Quando conheceste Van der Merwe?
        - Na poca em que trabalhava na praia dos diamantes do deserto da Nambia, que lhe pertence de sociedade com dois outros indivduos. Ele acabava de roubar 
a sua parte a um pesquisador inexperiente e tinha ido visitar o local.
        - Se  to rico, porque continua com a loja?
        -  a que atrai os novos pesquisadores, para os ludibriar. Jamie evocou intimamente a facilidade com que se deixara burlar. Na verdade, fora de uma ingenuidade 
incrvel. Recordava-se da expresso do rosto oval de Margaret quando dissera: "Meu pai pode ajud-lo. Conhece todos os truques." Supusera-a uma criana at que lhe 
notara os seios e... De sbito, ergueu-se de um salto, com um sorriso malicioso.
        - Explica-me pormenorizadamente como comeaste a trabalhar para ele.
        - Um dia, apareceu na praia com a filha (tinha uns onze anos, na altura), que a dado momento se aproximou demasiado da gua e uma onda arrebatou-a. Mergulhei 
imediatamente e trouxe-a para terra. Receei que Van der Merwe me matasse.
        - Porqu?
        - No por ser negro, mas pela minha condio de homem a rodear-lhe a cintura com o brao. No suporta a idia de algum tocar na filha. Um dos presentes 
acabou por o acalmar e explicar que eu tinha salvo a vida  rapariga. Em face disso, levou-me para Klipdrift como seu criado pessoal - Banda hesitou um momento e 
acrescentou: - Dois meses depois, recebi a visita de minha irm, que era da mesma idade de Margaret.
        Seguiu-se uma pausa, que Jamie respeitou por reconhecer que nada podia dizer para evitar as recordaes pungentes do seu interlocutor.
        Finalmente, este ltimo quebrou o silncio:
        - Mais valia que tivesse ficado no deserto da Nambia. O trabalho era fcil. Rastejvamos pela areia para recolher os diamantes e coloc-los em pequenas 
latas.
        - Um momento. Queres dizer que esto espalhados na areia?
        - Exato. Mas no tenha idias alucinadas. Ningum se pode aproximar de l.  no oceano e h vagas de dez metros de altura. Eles nem se do ao trabalho de 
vigiar a costa. Todos os que tentaram entrar no local pelo mar perderam a vida nos recifes.
        - Deve haver outra possibilidade de acesso.
        - No. O deserto prolonga-se por todo o litoral.
        - E quanto  entrada no campo de diamantes?
        - H guardas postados numa torre e uma vedao de arame farpado. Em volta, abundam os homens armados e ces capazes de reduzir uma pessoa a pedaos. Alm 
disso, colocaram minas no solo que fazem ir pelos ares quem as pise por no conhecer a sua disposio.
        - Que tamanho tem o campo?
        - Uns sessenta quilmetros.
        "Sessenta quilmetros de diamantes espalhados pela areia..."
        - Meu Deus!
        - No  o primeiro que fica excitado com os campos de diamantes na Nambia. Recolhi o que restava de indivduos que se aproximaram de barco e foram dilacerados 
pelos recifes. Vi o que as minas podem fazer ao homem que as pisa inadvertidamente e o estado em que os ces deixam aqueles que ficam ao alcance dos seus dentes. 
No pense nisso, Mister McGregor. No existe qualquer entrada possvel.
        Naquela noite, Jamie no conseguiu dormir. Acudiam-lhe constantemente ao esprito imagens de um extenso areal coberto de diamantes enormes pertencentes a 
Van der Merwe. Pensava no mar, com os seus recifes aparentemente intransponveis, nos ces vorazes, nos guardas e nas minas. No temia o perigo nem a morte. Receava 
apenas perder a vida antes de se vingar de Salomon van der Merwe.
        Na segunda-feira seguinte, Jamie dirigiu-se a uma livraria e comprou um mapa da regio da Grande Namacualndia.
        Localizou sem dificuldade a praia na costa atlntica, entre Lude-ritz, ao norte, e o esturio do rio Orange, ao sul. A rea achava-se assinalada com a advertncia 
a vermelho: "Sperr-gebiet" (Interdita).
        Examinou todos os pormenores repetidamente. Havia trs mil milhas de oceano da Amrica do Sul at  frica do Sul, sem qualquer obstculo que impedisse as 
vagas, pelo que toda a sua fria se concentrava nos mortais recifes da costa do Atlntico Sul. Quarenta milhas mais abaixo, existia uma rea acessvel. "Deve ter 
sido da que os pobres bastardos partiram nas suas embarcaes em direo  zona proibida", deduziu Jamie. Ao analisar o mapa, compreendia sem dificuldade a razo 
pela qual a costa no se achava vigiada: os recifes tornavam impossvel qualquer tentativa de desembarque.
        Em seguida, concentrou-se no acesso interior ao campo de diamantes. Segundo Banda, encontrava-se protegido por vedao de arame farpado e patrulhado permanentemente 
por homens armados. Junto da entrada, havia uma torre de observao. Mesmo que uma pessoa conseguisse introduzir-se no local, restariam as minas e ces implacveis.
        No dia seguinte, Jamie perguntou a Banda:
        - H algum mapa do campo?
        - Do deserto da Nambia? Esto todos em poder dos proprietrios, que transmitem instrues aos pesquisadores sobre os locais a explorar. Avanam em fila 
indiana, para que no pisem as minas - e a expresso do negro toldou-se por um momento. - Um dia, meu tio, que se encontrava  minha frente, tropeou numa pedra 
e caiu em cima de uma mina. No foi possvel recolher o suficiente dele para entregar  famlia.
        Fez uma pausa, enquanto Jamie estremecia involuntariamente.
        - Alm disso, h o mis do mar, Mister McGregor. Rola do oceano e varre o deserto at s montanhas, arrastando tudo  sua passagem. Quem  apanhado no se 
atreve a esboar um movimento. Os mapas no servem ento para nada, porque no se consegue enxergar um palmo diante do nariz. A nica coisa a fazer  ficar sentado, 
muito quieto, at o mis passar.
        - Quanto tempo dura?
        - Depende - e Banda encolheu os ombros. - Por vezes, algumas horas, mas tambm se pode manter por dias.
        - Alguma vez viste um mapa das minas?
        - Guardam-nos muito bem. Acredite que no  possvel levar a cabo o que se lhe meteu na cabea. De vez em quando, um trabalhador tenta escapar-se com um 
diamante. H uma rvore especial para enforcar os imprudentes. Serve de aviso para quem se lembrar de roubar a companhia.
        A situao parecia absolutamente desencorajadora. Jamie reconhecia que, mesmo que conseguisse introduzir-se no campo de diamantes, no poderia sair. Banda 
tinha razo. Era prefervel no pensar mais no assunto.
        No obstante, no dia seguinte, perguntou:
        - Como consegue Van der Merwe evitar que os trabalhadores roubem diamantes, no final dos turnos de servio?
        - So revistados - explicou o negro. - Tm de se despir por completo, para que os examinem minuciosamente. Vi alguns produzirem incises nas pernas para 
os ocultar. Outros extraem um ou dois dentes e substituem-nos por diamantes - fixou um olhar grave em Jamie. - Se tem amor  vida, esquea-se disso.
        Todavia, por mais que se esforasse, a ideia regressava-lhe ao esprito com insistncia: os diamantes de Van der Merwe encontravam-se dispersos na areia, 
 espera que algum os levasse. E esse algum era ele.
        A soluo acudiu  mente de Jamie naquela noite e foi com dificuldade que conteve a impacincia at voltar a encontrar-se com Banda, ao qual pediu, sem qualquer 
prembulo:
        - Fala-me das embarcaes em que tentaram desembarcar.
        - Que quer saber?
        - Tudo o que te ocorrer. De que tipo eram?
        - De todos, praticamente. Uma escuna. Um rebocador. Uma lancha motorizada. Um veleiro. Houve mesmo quatro homens que tentaram a sorte num junco de remos. 
Quando eu trabalhava l, houve meia dzia de tentativas. Os recifes reduziram-nos a fragmentos e os tripulantes morreram afogados.
Jamie encheu os pulmes de ar antes de inquirir:
        - Algum experimentou numa jangada?
        - Numa jangada? - ecoou Banda, arregalando os olhos.
     - Sim. At agora, ningum conseguiu desembarcar porque o fundo das embarcaes foi rasgado pelos recifes. Ora, uma jangada desliza na crista das ondas por cima 
deles.
        O negro conservou-se silencioso por um longo momento e, quando voltou a falar, a voz continha uma inflexo diferente.
        - Sabe uma coisa, Mister McGregor? Talvez seja uma idia aproveitvel.
        Tudo principiou como um jogo, uma soluo possvel de um problema insolvel. No entanto,  medida que trocavam impresses, os dois homens sentiam-se dominados 
pelo entusiasmo. Assim, aquilo que comeara como mero tpico de uma especulao ociosa passou a assumir a configurao concreta de um plano de ao. Como os diamantes 
se encontravam  superfcie da areia, no se tornava necessrio qualquer equipamento. Poderiam construir a jangada, munida de uma vela, na costa livre, sessenta 
quilmetros ao sul da Sperrge-biet, e utiliz-la  noite, a coberto de olhares indiscretos. No havia minas na rea desprotegida, e os guardas e patrulhas s atuavam 
no interior. Por conseguinte, os dois homens poderiam recolher os diamantes que quisessem, sem o perigo de serem interceptados.
        - Podemos raspar-nos antes de amanhecer com as algibeiras cheias de diamantes de Van der Merwe - asseverou Jamie.
        - Como samos?
        - Da mesma maneira que entramos. Impelimos a jangada com remos sobre os recifes, at ao largo, iamos a vela e regressamos sem qualquer impedimento.
        Em face dos argumentos persuasivos de Jamie, as dvidas de Banda comearam a dissipar-se. Tentou descobrir bices na idia, mas via todas as objees refutadas 
de forma convincente. O plano seria bem sucedido. A faceta mais atraente consistia na sua simplicidade e no fato de no exigir o mnimo investimento. Apenas uma 
dose elevada de coragem.
        - S precisamos de uma bolsa grande para trazer os diamantes - declarou Jamie.
        -  melhor levarmos duas - opinou Banda, com um sorriso.
        Na semana seguinte, abandonaram o trabalho nas docas e seguiram num transporte rudimentar para Port Nolloth, uma povoao costeira sessenta quilmetros ao 
sul da rea proibida que lhes interessava.
        Chegados, olharam em volta. A localidade era pequena e primitiva, com tendas, cabanas de chapa ondulada, algumas lojas e uma praia de aspecto primitivo que 
parecia estender-se interminavelmente. No havia recifes naquela rea e as ondas desfaziam-se suavemente na areia. Era o lugar ideal para lanar a jangada  gua.
        No existia qualquer hotel, mas Jamie conseguiu que lhe alugassem um pequeno quarto particular, enquanto Banda se instalava na zona destinada aos negros.
        - Temos de descobrir um local para construir a jangada em segredo - indicou Jamie. - No convinha nada que nos denunciassem s autoridades.
        Naquela tarde, descobriram uma velha arrecadao abandonada, que escolheram para o fim em vista.
        - Antes de iniciarmos o trabalho, compre uma garrafa de usque - aconselhou Banda.
        - Para qu?
        - Depois ver.
        Na manh seguinte, Jamie foi visitado pelo chefe da Polcia do distrito, um indivduo de faces rubicundas, expresso grave e olhar congestionado, indicativo 
de inclinao para as bebidas alcolicas.
        - Bom dia! Ouvi dizer que tinha chegado um forasteiro e resolvi vir dar-lhe as boas-vindas. Sou o chefe Mundy.
        - lan Travis - replicou Jamie.
        - Est de passagem para o Norte, Mister Travis?
        - No, para o Sul. Sigo com o meu empregado para a Cidade do Cabo.
        - Estive l, uma vez. Achei-a muito grande e barulhenta.
        - Sou da mesma opinio. Aceita uma bebida?
        - No costumo beber em servio - Mundy fez uma pausa e acrescentou: - Mas posso abrir uma exceo.
        - Muito bem.
        Jamie foi buscar a garrafa de usque, perguntando a si prprio como conseguira Banda prever a situao. Em seguida, verteu um pouco num copo e estendeu-o 
ao visitante.
        - Obrigado, Mister Travis. No me acompanha?
        - Estou proibido de beber por causa da malria.  por isso que sigo para a Cidade do Cabo. Tenho de consultar um especialista. Fiz uma pausa aqui, para recompor 
as foras. As viagens cansam-me com facilidade.
        - Acho-o com aspecto saudvel - disse Mundy, que observava o interlocutor atentamente.
        - Havia de me ver quando tenho um ataque.
        - Pode ser - aquiesceu, vendo Jamie pegar na garrafa, Em seguida, esvaziou o copo pela segunda vez e levantou-se: - Tenho de ir  vida. Disse que estava 
aqui apenas de passagem?
        - Partirei assim que me sentir mais forte.
        - Voltarei na sexta-feira, para trocarmos mais algumas palavras.
        Naquela noite, Jamie e Banda iniciaram os trabalhos na arrecadao abandonada, e o primeiro perguntou:
        - Alguma vez construste uma jangada?
        - Para ser franco, Mister McGregor, no.
        - Nem eu - e os dois homens entreolharam-se, embaraados. - Ser muito difcil?
        Apoderaram-se de quatro bides de duzentos litros, vazios, das traseiras do mercado, e levaram-nos para a arrecadao. Depois de os reunirem, dispuseram-nos 
num retngulo e colocaram um caixote, tambm vazio, em cima de cada um.
        - No se parece muito com uma jangada - observou Banda, com uma expresso de dvida.
        - Ainda no est pronta - esclareceu Jamie.
        Como no dispunham de tbuas, cobriram a parte de cima com o que se achava ao seu alcance, ramos e folhas de rvores, que prenderam fortemente com cordas.
        No final, o negro contemplou o resultado e declarou: - Continua a no se parecer com uma jangada.
        - Ficar com melhor aspecto quando montarmos a vela - garantiu Jamie.
        Improvisaram um mastro com um tronco cado e aproveitaram dois ramos de extremidades largas para remos.
        Foi Banda quem, ao fim da tarde, descobriu a vela, um pano azul enorme.
        - Isto serve, Mister McGregor?
        - Perfeitamente. Onde o arranjaste?
        -  melhor no querer saber. Bastam os riscos em que j nos envolvemos.
        A montagem final desenrolou-se sem dificuldades e a jangada ficou pronta para enfrentar o mar.
        - Partimos s duas da madrugada, quando estiverem todos a dormir - decidiu Jamie. - At l, convm que descansemos um pouco.
        Contudo, nenhum deles conseguiu dormir, excitados com a aventura em perspectiva.
        Encontraram-se na arrecadao  hora combinada, dominados por um misto de ansiedade e receio dissimulado. Preparavam-se para empreender uma operao que 
lhes proporcionaria a fortuna ou a morte. No havia meio-termo.
        - So horas - anunciou de sbito Jamie, em voz ligeiramente trmula.
        Transpuseram a sada com prudncia. No se registrava o mnimo rudo. Soprava uma brisa suave e o cu apresentava-se completamente limpo de nuvens, com a 
Lua em quarto crescente sobre as suas cabeas. "timo...", refletiu Jamie. "No h muita luz para que nos vejam." O horrio previsto era complicado pelo fato de 
necessitarem de abandonar a povoao durante a noite, para que ningum se apercebesse da sua partida, e chegar ao campo de diamantes na noite seguinte, a fim de 
se introduzirem nele e regressarem ao mar, sem novidade, antes da alvorada.
        - A corrente de Benguela deve conduzir-nos at aos campos de diamantes amanh ao fim da tarde - calculou Jamie. - Mas no podemos viajar durante o dia. Temos 
de nos manter ao largo at anoitecer.
        - Podemos ocultar-nos numa das ilhotas ao longo da costa.
        - Quais ilhotas?
        - So s dezenas. Mercury, Ichabod, Plum Pudding...
        - Plum Puddingl - ecoou com estranheza.
        - Tambm h a Roast Beef.
        - No vm no mapa - declarou, depois de o consultar.
        - So formadas por guano. Os ingleses utilizam os excrementos das aves para adubo.
        - Vive l algum?
        -  impossvel, por causa do mau cheiro. H lugares em que o guano tem dezenas de metros de altura. O Governo recorre aos desertores do exrcito e presos 
para o recolher. Alguns morrem nas ilhotas e os corpos ficam l a apodrecer.
        - Ento,  o lugar ideal para nos escondermos - decidiu Jamie.
        Procedendo com prudncia, os dois homens abriram a porta da arrecadao e principiaram a erguer a jangada. No entanto, era demasiado pesada para que a conseguissem 
mover. Tentaram empurr-la, transpirando copiosamente, mas debalde.
        - Volto j - anunciou Banda, subitamente.
        Meia hora depois, reaparecia com um toro de dimenses apreciveis.
        - Vamos servir-nos disto. Quando eu levantar uma das extremidades, introduza-o por baixo.
        Jamie surpreendeu-se com o vigor do companheiro, ao v-lo erguer um dos lados da jangada. Ato contnuo, enfiou o toro no espao e fizeram rolar o conjunto 
por cima. Era um trabalho rduo e quando alcanaram a beira-mar achavam-se ambos alagados em suor. Alm disso, a operao tardara muito mais do que Jamie previra 
e estava prestes a amanhecer. Impunha-se que partissem, antes que os habitantes da aldeia os descobrissem e informassem as autoridades das suas atividades. Por conseguinte, 
Jamie apressou-se a montar a vela e inspecionou tudo para se certificar de que podiam partir. Tinha a vaga impresso de que se esquecia de alguma coisa e, de repente, 
fez-se-lhe luz no esprito e soltou uma gargalhada.
        - Que foi? - quis saber Banda, intrigado.
        - Da outra vez que procurei diamantes, acompanhava-me uma tonelada de equipamento. Agora, s levo uma bssola. Parece fcil de mais.
        - No creio que o nosso problema seja esse, Mister McGregor.
        -  altura de me tratares por Jamie.
        - No haja dvida de que vem de um pas distante - e o negro meneou a cabea, admirado. - Enfim, ningum me vai enforcar por experimentar uma vez - e tentou 
pronunciar o nome em surdina, antes de o fazer em voz alta: - Jamie.
        - Vamos aos diamantes!
        Impeliram a jangada para a gua, saltaram para cima e comearam a remar. Necessitaram de uns minutos para se adaptar s oscilaes da estranha embarcao. 
Dir-se-ia que montavam uma rolha gigantesca, mas em breve dominavam a situao. A jangada respondia perfeitamente s manobras, deslocando-se para norte com a corrente 
impetuosa. Por fim, Jamie iou a vela e afastaram-se para o largo. Quando os habitantes da aldeia principiaram a surgir das cabanas, os dois homens j se encontravam 
para alm do horizonte.
        - Conseguimos! - exclamou Jamie.
        - Ainda  cedo para cantar vitria - e Banda mergulhou a mo na fria corrente de Benguela. - Estamos no incio.
        Continuaram a singrar para o Norte, passando ao largo da baa Alexander e da embocadura do rio Orange sem descortinarem sinais de vida,  parte bandos de 
corvos marinhos e alguns flamingos. Embora dispusessem de latas de carne e arroz, fruta e dois cantis de gua, estavam demasiado nervosos para comer. Jamie recusava-se 
a permitir que a imaginao se concentrasse nos perigos que os aguardavam, mas Banda no o podia evitar, sobretudo porque os conhecia por experincia prpria. Recordava-se 
dos guardas brutais munidos de espingardas, dos ces e das minas e perguntava-se como fora possvel que se tivesse deixado arrastar para aquela aventura. Lanando 
uma olhadela ao escocs, refletiu: "Ainda  mais parvo que eu. Se as coisas correrrem mal, morrerei por minha irm. Que motivo o leva a sacrificar a vida?"
        Os tubares surgiram cerca do meio-dia. Eram uns seis, as barbatanas cortando a gua  medida que se aproximavam da jangada.
        - Tubares de barbatana preta - anunciou Banda. - So devoradores de homens!
        - Que fazemos? - articulou Jamie, conservando os olhos fixos nos terrveis esqualos.
        - Para ser franco - redarguiu o negro, engolindo em seco -,  a minha primeira experincia desta natureza.
        Um dos tubares colidiu com a jangada e quase a fez voltar-se, obrigando os dois homens a segurarem-se ao mastro. Jamie pegou num dos ramos para atingir 
o agressor e, no instante imediato, viu-o cortado em dois pelos dentes aguados. A seguir, os tubares principiaram a circundar a jangada, sacudindo-a de vez em 
quando.
        - Temos de nos livrar deles antes que voltem a jangada.
        - Como? - quis saber Banda.
        - Passa-me uma lata de carne.
        - Deixe-se de brincadeiras. Eles no se satisfazem com to pouco. Querem uma refeio suculenta. Ns, por exemplo!
        Registrou-se novo embate e a jangada inclinou-se.
        - A carne, depressa! - bradou Jamie.
        No instante imediato, o negro colocava-lhe uma lata na mo. Em seguida, puxou de um canivete e rasgou parte da tampa.
        - Agora, segura-te bem. Banda!
        Jamie acercou-se da borda da jangada e aguardou. Quase imediatamente, surgiu um tubaro que abria a boca ameaadoramente. O rapaz visou-lhe os olhos com 
um movimento rpido. A folha metlica da tampa, aguada como uma faca, retalhou a pele da cabea do tubaro, que se agitou como um possesso, ao mesmo tempo que a 
gua em volta se tingia de sangue. Os outros desinteressaram-se dos dois homens e concentraram-se no companheiro, que principiaram a devorar com ferocidade.
        - Espero, um dia, poder contar isto aos meus netos - articulou Banda, com um suspiro de alvio, enquanto se afastavam. - Parece-lhe que acreditaro?
        E riram at as lgrimas lhes rolarem pelas faces.
        Mais tarde, Jamie consultou o relgio de bolso e declarou:
        - Devemos estar ao largo da praia dos diamantes cerca da meia-noite. O Sol nasce s seis e um quarto. Portanto, dispomos de quatro horas para recolher o 
maior nmero possvel de diamantes e duas para regressar ao mar alto. Achas que so suficientes?
        - Nenhum ser humano viveria o tempo necessrio para gastar.o que se pode apanhar naquela praia em quatro horas. Oxal ns vivamos o suficiente para os levar.
        Prosseguiram para o Norte durante o resto do dia, impelidos pelo vento e a corrente. Perto do anoitecer, descortinaram uma ilhota  sua frente, que parecia 
no ter um permetro superior a duzentos metros.  medida que se aproximavam o odor acre a amonaco intensificava-se, afetando-lhes os olhos. Jamie compreendeu sem 
dificuldade a razo pela qual ningum vivia l. Na verdade, o fedor era insuportvel. No entanto, constituiria um lugar excelente para se ocultarem at ao momento 
oportuno. Ele ajustou a vela devidamente e a jangada no tardou a acostar  superfcie rochosa da ilhota. Em seguida, Banda tratou de a amarrar e saltaram para terra. 
Havia uma infinidade de aves: corvos marinhos, pelicanos, pinguins e flamingos.
        Avanaram meia dzia de passos e os ps afundaram-se em guano, pelo que Jamie sugeriu que regressassem  jangada.
        No momento em que se preparavam para retroceder, um bando de pelicanos levantou voo e revelou um espao no solo... ocupado por trs homens estendidos. No 
havia possibilidade de determinar h quanto tempo estavam mortos, pois os corpos haviam sido preservados pelo amonaco que saturava a atmosfera.
        Instantes depois, Jamie e Banda encontravam-se de novo na jangada e afastavam-se para o largo.
        Mantiveram-se distantes da costa, com a vela recolhida, na expectativa. Jamie decidiu permanecer ali at  meia-noite, aps o que se acercariam de terra.
Conservaram-se sentados em silncio, imersos em cogitaes relacionadas com o que se avizinhava. O Sol principiou a mergulhar no horizonte e, de sbito, imperou 
a escurido.
        Deixaram transcorrer mais duas horas e Jamie iou a vela. Ato contnuo, a jangada comeou a deslocar-se para a costa, cujos contornos no tardaram em descortinar 
ao luar plido. O vento aumentou de intensidade e a velocidade da embarcao improvisada tornou-se quase assustadora. Em breve avistaram um gigantesco parapeito 
de rocha. Apesar da distncia, era possvel ver e ouvir a rebentao que explodia nos recifes. Constitua um espectculo impressionante, observado de longe, e Jamie 
preferia no especular sobre o efeito que exerceria no seu esprito se admirado de perto.
        - Tens a certeza de que o lado do mar no  vigiado? - perguntou de sbito.
        Banda limitou-se a pontar para os recifes, mais desencorajadores que qualquer obstculo que o homem pudesse conceber. Eram os guardas do mar, e nunca dormiam 
nem descansavam. Mantinham-se imveis, inabalveis,  espera que os imprudentes se aproximassem. "Havemos de os ludibriar", refletiu Jamie. "Passaremos por cima..."
        A jangada levara-os at ali e continuaria a transport-los at ao fim. A costa parecia acercar-se vertiginosamente e os dois homens comearam a sentir a 
ondulao das vagas gigantescas.
        - Levamos uma velocidade enorme - advertiu Banda, segurando-se fortemente ao mastro.
        - No te preocupes. Quando estivermos mais perto, recolho a vela. Assim, passamos a ir mais devagar e ultrapassamos os recifes com facilidade.
        Entretanto, o impulso do vento e das vagas aumentava, arrastando a jangada para os recifes fatais. Jamie calculou rapidamente a distncia que faltava e decidiu 
que a ondulao os conduziria  praia sem o auxlio da vela, pelo que se apressou a arri-la. Todavia, a velocidade no sofreu alterao. A embarcao achava-se 
totalmente nas garras das enormes vagas, descontrolada, lanada de uma crista para a seguinte. Os solavancos eram to fortes que os dois tripulantes necessitavam 
de se segurar com ambas as mos. Jamie previra que a etapa final se revelaria difcil, mas aquilo excedia todas as suas expectativas. Em dado momento, sentiram-se 
como que erguidos no espao e propulsionados para a frente, e ele bradou:
        - Segura-te bem, Banda, que vamos entrar!
        As vagas "agarraram" a jangada como se fosse um simples fsforo e comearam a arrast-la para terra, por cima dos recifes. De sbito, Jamie atreveu-se a 
olhar para baixo e avistou o gume cortante do obstculo natural.
        Ouviu-se um rudo seco, produzido pelo rasgar de metal no instante em que um dos barris contatou com os recifes e foi dilacerado implacavelmente.
        - Salta para a gua! - gritou Jamie.
        Mergulhou para a frente e pareceu-lhe que uma mo gigantesca e irresistvel o impelia como se fosse um mero boneco. Apesar de transcorrerem poucos segundos 
at ao instante em que experimentou o contato da areia, afigurou-se-lhe que no sairia da aventura com vida.
        Por fim, soergueu-se e olhou em volta. Banda achava-se agachado a uns dez metros de distncia, vomitando gua do mar. Sacudindo a cabea para dissipar o 
leve aturdimento, Jamie ps-se de p e aproximou-se dele em passos hesitantes. - Ests bem?
        O negro inclinou a cabea com lentido e, erguendo os olhos, informou:
        - No sei nadar.
        Jamie ajudou-o a levantar-se e viraram-se para contemplar o recife. No havia vestgios da jangada. O oceano destrura-a por completo. Tinham conseguido 
introduzir-se no campo de diamantes.
        Mas no dispunham de qualquer meio para o abandonar.

















        Captulo V



        Atrs deles encontrava-se o mar em fria.  frente, o deserto, at ao sop das distantes montanhas arroxeadas da cordilheira Richterveld, um mundo de ravinas, 
desfiladeiros e cristas, sob o luar plido. Antecedia-os o vale Hexenkessel ("caldeiro da bruxa"), uma rea fustigada por ventos fortes constantes. Era uma paisagem 
primitiva, desoladora, que remontava aos primrdios do Tempo. A nica indicao de que o homem visitara o local consistia numa tabuleta rudimentar pregada a uma 
estaca imersa na areia:
        "VERBODE GEBIED SPERRGEBIET"
        Zona interditada.
        No existia fuga possvel na direo do mar. O nico caminho que lhes restava era o deserto da Nambia.
        - Vamos ter de tentar atravess-lo e confiar na nossa boa estrela - admitiu Jamie.
        - Os guardas abatem-nos ou enforcam-nos - replicou Banda, meneando a cabea. - E mesmo que consegussemos evit-los e aos ces, restavam as minas. Estamos 
virtualmente mortos.
        No deixava transparecer medo. Apenas uma aceitao resignada do seu destino.
        Jamie olhou-o em silncio e sentiu-se dominado por remorsos. Arrastara-o para aquela aventura e no se lamentara uma nica vez. Mesmo agora, consciente de 
que no existia salvao possvel, no pronunciava uma palavra de censura.
        Voltando-se em seguida para a muralha de vagas enfurecidas que se desfaziam na praia, reconheceu que s um milagre explicava que tivessem chegado at to 
longe. Eram duas horas da madrugada, faltando quatro para a alvorada e a descoberta da sua presena por parte dos guardas, e continuavam inteiros.         "Demnios 
me levem se vou desistir!", decidiu com firmeza.
        - Vamos a isto, Banda.
        - A qu? - inquiriu o negro, pestanejando de perplexidade.
        - No viemos  procura de diamantes? Ento, vamos a eles.
        Banda fixou o olhar arregalado no companheiro de cabelos brancos encharcados colados  cabea e calas encharcadas e rasgadas e confessou:
        - No compreendo.
        - Disseste que os guardas nos abatiam, no foi? Nesse caso, mais vale que nos matem ricos do que pobres. Um milagre fez com que chegssemos at aqui. Talvez 
outro nos permita sair, e se tal acontecer no quero partir de mos vazias.
        - Endoideceu!
        - Sem dvida, de contrrio no estvamos aqui.
        - Muito bem - e Banda encolheu os ombros, num gesto de resignao. - No tenho nada que fazer at que nos descubram.
        Jamie despiu a camisa e o outro compreendeu e imitou-o.
        - Ora bem. Onde esto esses diamantes enormes de que falaste?
        - Em toda a parte - afirmou o negro. - Como os guardas e os ces.
        - Preocupamo-nos com eles mais tarde. Quando vm para aqui?
        - Logo que amanhece.
        Jamie refletiu por um momento e perguntou:
        - H algum setor da praia que no frequentem e onde ns possamos esconder?
        - No.
        - Bom, vamos ao trabalho.
        Banda agachou-se e afundou os dedos na areia, fazendo-os deslizar como um ancinho. Ainda no haviam decorrido dois minutos, quando se imobilizou e extraiu 
uma pedra.
        - O primeiro!
        Jamie tratou de o imitar. As duas primeiras que encontrou eram pequenas, porm a terceira devia pesar uns quinze quilates e ele olhou-a pensativamente por 
uns momentos. Afigurava-se-lhe incrvel que semelhante fortuna pudesse ser recolhida com tanta facilidade. E tudo aquilo pertencia a Salomon van der Merwe e seus 
associados.
        Nas trs horas seguintes, os dois homens encontraram mais de quarenta diamantes, que variavam entre os dois e trinta quilates. Entretanto, o cu comeava 
a clarear a nascente, anunciando o momento em que Jamie projetara partir na jangada. Agora, porm, nem merecia a pena pensar nisso.
        - No tarda a amanhecer - murmurou. - Vejamos quantos mais recolhemos.
        - No viveremos para os desfrutar. Interessa-lhe morrer rico, pelo que vejo.
        - No me interessa morrer. Rico ou pobre.
        Reataram as pesquisas, como que dominados por uma loucura irresistvel. O monte foi-se avolumando, at que sessenta diamantes, que valiam o resgate de um 
rei, se reuniam nas camisas que haviam colocado na areia.
        - Quer que os leve? - perguntou Banda.
        - No. Podemos repartir o peso e... - de sbito, Jamie apercebeu-se da idia do companheiro: aquele que fosse apanhado com as pedras em seu poder teria uma 
morte mais lenta e dolorosa. - Levo-os eu.
        Reuniu todos os diamantes na sua camisa e deu-lhe um n cautelosamente. O horizonte apresentava-se mais claro e pairavam no firmamento tonalidades rubras 
prenunciadoras do aparecimento iminente do Sol.
        Que deviam fazer a seguir? Permanecer ali e morrer ou aventurar-se no deserto e perder igualmente a vida?
        - Toca a andar - resolveu, por fim.
        Principiaram a afastar-se do mar com lentido, olhando em volta repetidamente.
        - Onde comeam as minas?
        - Uns cem metros  nossa frente - mas naquele momento soou um latido ao longe e Banda comentou: - No creio que merea a pena preocuparmo-nos com elas. Os 
ces vm j a. O turno de guardas da manh vai entrar de servio.
        - Quanto tempo demoram a chegar aqui?
        - Quinze minutos. Talvez dez.
        Entretanto, amanhecera por completo e os contornos da paisagem rida, com as montanhas ao fundo, destacavam-se com nitidez, revelando que no havia lugar 
algum para se ocultarem.
        - De quantos homens se compe cada turno?
        - Cerca de dez - informou Banda, aps um momento de reflexo.
        - No so muitos para uma praia destas dimenses.
        - Bastava um. Lembre-se das armas e dos ces de que dispem. Os guardas no so cegos nem ns invisveis.
        Os latidos aproximavam-se gradualmente e Jamie abanou a cabea.
        - Lastimo ter-te envolvido nisto.
        - No envolveu.
        Alcanaram uma pequena duna e ele sugeriu:
        - Porque no nos enterramos na areia?
        -  um truque que j foi tentado. Os ces localizavam-nos e degolavam-nos. Quero uma morte rpida. Vou deixar que me vejam e comeo a correr. Assim, liquidam-me 
com um tiro. No estou interessado em estabelecer contato com os ces.
        - Podemos morrer, mas macacos me mordam se consinto que nos lancemos nos braos da morte.
        Comearam a distinguir vozes ao longe. "Movam-se, bastardos indolentes!", rugia algum em tom irritado. "Sigam-me em fila indiana... Tiveram toda a noite 
para se recompor. .. So horas de trabalhar..."
        Apesar das palavras de encorajamento que pronunciara, Jamie descobriu que tentava afastar-se da origem da voz. Voltou-se para contemplar o mar uma vez mais 
e perguntou-se se o afogamento constituiria uma maneira mais fcil de morrer. De sbito, descortinou algo para alm da rebentao impetuosa e, sem compreender de 
que se tratava, consultou Banda.
        Ao largo, uma muralha cinzenta impenetrvel avanava para terra, impelida pelo poderoso vento oeste.
        -  o mis do mar! - exclamou o negro. - Aparece duas ou trs vezes por semana.
        Entretanto, o mis continuava a acercar-se, como uma cortina cinzenta gigantesca, cobrindo o horizonte e ofuscando o cu.
        Ao mesmo tempo, as vozes tambm se aproximavam: "Den Dousan! Maldito mis! Mais um atraso. Os patres no vo gostar disto..."
        - Temos uma possibilidade - gritou Jamie.
        - Qual?
        - O mis! Eles no podero ver-nos.
        - No lucramos nada com isso. Acabar por se dissipar e nessa altura continuaremos aqui. Se os guardas no podem avanar entre as minas, ns muito menos. 
Por outro lado, se tentamos atravessar o deserto durante o mis, ficamos reduzidos a pedaos. Precisvamos de outro dos seus milagres.
        - Talvez acontea
        O cu tornava-se cada vez mais negro sobre as suas cabeas. O mis estava perto e cobria o mar, preparando-se para tragar a praia. Apresentava um aspecto 
tenebroso e ameaador  medida que rolava na direo dos dois homens, mas Jamie pensava que os salvaria.
        De repente, uma voz rugiu:
        - Que diabo fazem vocs a?
        Voltaram-se e, no topo de uma duna, a uns cem metros deles, avistaram um homem uniformizado munido de uma espingarda. Jamie virou-se para a praia e viu que 
o mis estava quase sobre eles.
        - Vocs os dois! - volveu o guarda, erguendo a arma. - Venham c!
        - Torci o p - anunciou Jamie, levantando os braos. - No posso andar.
        - Deixem-se estar a - retificou o homem, baixando a espingarda e comeando a mover-se para eles.
        Jamie voltou-se uma vez mais e verificou que o mis alcanara a orla da praia e prosseguia em frente rapidamente.
        - Mexe-te! - indicou a Banda, e deu o exemplo principiando a correr para a praia.
        - Alto!
        No segundo imediato ouviram um estampido seco e a areia um pouco adiante deles pareceu explodir. No entanto, continuaram a correr ao encontro da enorme muralha 
cinzenta de nevoeiro. Registrou-se nova detonao, agora mais perto, logo seguida de outra, e os dois fugitivos viram-se imersos em escurido absoluta. O mis do 
mar parecia envolv-los, como em algodo. Tornava-se impossvel enxergar coisa alguma.
        As vozes soavam agora abafadas e distantes, infiltrando-se no mis, provenientes de todas as direes.
        - Kruger! Sou Brent... Ouves-me?
        - Muito bem, Kruger!
        - So dois - volveu a primeira voz. - Um branco e um preto. Fugiram para a praia. Espalha os teus homens pelo areal. Skiet hom! Atirem a matar.
        - Segura-te a mim - recomendou Jamie.
        - Onde vamos? - quis saber Banda, rodeando-lhe o pulso com os dedos.
        - Sair daqui! - Jamie aproximou a bssola dos olhos para conseguir distinguir o mostrador, aps o que a moveu at que o ponteiro apontou para leste. - Para 
este lado.
        - Espere! Se ns movemos e no esbarramos num guarda ou num co, fazemos explodir uma mina.
        - Disseste que estavam a uns cem metros. Afastemo-nos da praia.
        Comearam a encaminhar-se para o deserto, em passos lentos e hesitantes, como cegos num local desconhecido. Jamie ia medindo a distncia, detendo-se para 
consultar a bssola de vez em quando. Quando calculou que haviam percorrido cerca de uma centena de metros, deteve-se e disse:
        - As minas devem principiar mais ou menos aqui. Sabes se esto dispostas segundo uma maneira definida? Ocorre-te alguma coisa que nos possa ser til?
        - Uma orao. Ningum conseguiu transpor o campo de minas, at hoje. Esto dispersas por todos os lados, a uns quinze centmetros de profundidade. Vamos 
ter de ficar aqui at que o mis se dissipe e entregar-nos.
        Entretanto, Jamie distinguia as vozes envoltas em algodo:
        - Mantm o contato vocal, Kruger!
        - Entendido, Brent.
        - Kruger...
        - Brent...
        Vozes sem corpos que se chamavam mutuamente no nevoeiro impenetrvel. A mente de Jamie desenvolvia atividade frentica, explorando todas as possibilidades 
de fuga possveis. Se se mantivessem ali, seriam abatidos instantaneamente no momento em que o mis levantasse. Se tentassem aventurar-se no campo minado, voariam 
em pedaos.
        - Alguma vez viste as minas? - perguntou a meia-voz.
        - Ajudei a enterrar vrias.
        - O que as faz explodir?
        - O peso de quem as pisa. Tudo o que pesa mais de quarenta quilos  suficiente.  por isso que os ces no correm perigo.
        - Talvez se arranje uma maneira de nos safarmos - murmurou, depois de encher os pulmes de ar. - O xito no  garantido. Queres arriscar-te comigo?
        - Que idia se lhe meteu na cabea?
        - Vamos atravessar o campo de minas rastejando. Assim, distribumos o peso do corpo por uma superfcie mais ampla.
        - Santo Deus!
        - Que te parece?
        - Parece-me que devia estar doido para o seguir at aqui.
        - Vens ou no?
        - Que remdio! - assentiu Banda, com um suspiro. Jamie deitou-se cautelosamente de bruos e, aps um momento de hesitao, o companheiro imitou-o. Em seguida, 
principiaram a rastejar com a mxima prudncia em direo ao campo de minas.
        - No exeras presso s com as mos e as pernas - recomendou Jamie. - Distribui o peso por todo o corpo.
        Banda no replicou, totalmente concentrado na suprema operao de permanecer vivo.
        Encontravam-se num vcuo cinzento e sufocante que tornava impossvel enxergar coisa alguma. Podiam colidir com um guarda, um co ou uma mina a todo o instante, 
mas Jamie esforava-se por afastar semelhante hiptese do pensamento. O avano desenrolava-se com lentido pungente. Achavam-se ambos de tronco nu e a areia roava-lhes 
desagradavelmente no estmago enquanto rastejavam. Ele tinha plena conscincia das reduzidas probabilidades de escaparem. Mesmo que lograssem atravessar o deserto 
sem serem alvejados ou voarem em pedaos, teriam de enfrentar a vedao de arame farpado e os guardas armados na torre de vigilncia. E tornava-se impossvel prever 
a durao do mis, que podia dissipar-se a todo o momento e exp-los.
        Continuaram a rastejar, at que perderam a noo do tempo. Os milmetros convertiam-se em centmetros e estes em metros. Alm disso, viam-se forados a conservar 
a cabea junto do solo, pelo que os olhos, o nariz e as orelhas no tardaram a encher-se de areia e o ato de respirar representava um esforo penoso.
Entretanto, ao longe, as vozes dos guardas persistiam: "Kruger... Brent... Kruger... Brent..."
        Os dois homens detinham-se para descansar e consultar a bssola com frequncia, aps o que reatavam a marcha. Acudia-lhes uma tentao quase irresistvel 
de progredir mais depressa, mas isso exigiria maior presso no solo, e Jamie podia imaginar os fragmentos de metal explodindo debaixo dele e introduzindo-se-lhe 
no ventre. De vez em quando, detectavam outras vozes em redor, mas as palavras eram abafadas pelo nevoeiro e tornava-se impossvel determinar a sua origem exata. 
" um deserto enorme", refletia. "No vamos esbarrar em ningum."
        De sbito, um vulto saltou-lhe em cima. O fato registrou-se de modo to abrupto que o colheu desprevenido e sentiu os dentes do possante lobo-da-alscia 
cravarem-se-lhe no brao. Jamie largou os diamantes contidos na camisa e tentou abrir as mandbulas do animal, mas apenas dispunha de uma das mos livre. Quase ao 
mesmo tempo, notou o sangue quente que deslizava pelo brao. Por fim, ouviu uma espcie de baque e a presso dos dentes atenuou-se e acabou por se extinguir. Por 
entre a nvoa de dor, Jamie viu Banda continuar a atingir a cabea do co com o saco de diamantes, at que este ficou imvel.
        - Como se sente? - sussurrou o negro, com ansiedade. Jamie no conseguiu responder, mantendo-se estendido de bruos, na expectativa de que as vagas de dor 
se atenuassem. Banda rasgou um pedao de tecido das calas e improvisou um torniquete para que o sangue estancasse.
        - Temos de prosseguir - advertiu. - Se apareceu um, deve haver mais nas proximidades.
        Jamie concordou com um movimento de cabea e, lentamente, moveu o corpo para a frente, esforando-se por ignorar o intenso latejar no brao.
        Mais tarde, no conseguiu evocar o mnimo pormenor do resto do percurso. Estava semiconsciente, um autmato. Algo fora dele lhe orientava os movimentos: 
"Braos para diante... braos para diante... braos para diante..." Era uma odissia de agonia interminvel. A bssola achava-se agora em poder de Banda, e quando 
o companheiro comeava a rastejar na direo errada, apressava-se a modificar-lhe o rumo com suavidade. Estavam rodeados por guardas, ces e minas, e s o mis lhes 
proporcionava segurana, ainda que precria. Continuaram a avanar at que as foras se lhes esgotaram, incapazes de cobrir sequer mais um centmetro.
        Resolveram ento dormir.
        Quando Jamie abriu os olhos, registrara-se uma modificao. Conservou-se estendido na areia, o corpo rgido e dorido, tentando recordar-se onde estava. Ao 
avistar Banda adormecido a dois metros dele, a situao reapareceu-lhe no esprito. A jangada desfeita contra os recifes... o mis proveniente do mar... Mas existia 
algo de inslito. Soergueu-se e tentou determinar de que se tratava. De sbito, sentiu uma contrao no estmago. "Conseguia ver Banda! O inslito era precisamente 
isso. O mis comeava a dissipar-se!" Ouviu vozes nas proximidades e, esquadrinhando o nevoeiro, cada vez mais tnue, verificou que se achavam perto da entrada do 
campo de diamantes. Avistou a torre de vigia e a vedao de arame farpado mencionadas por Banda. Um grupo de cerca de seis dezenas de trabalhadores movia-se do campo 
para o porto. Tinha terminado o seu perodo de servio e o turno seguinte preparava-se para entrar. Jamie ergueu-se de joelhos, acercou-se do companheiro e acordou-o, 
apontando a torre e o porto.
        - Raios! - articulou entre dentes, incrdulo. - Quase conseguimos.
        - Podes suprimir o quase. Passa-me os diamantes.
        - No compreendo - confessou, obedecendo.
        - Segue-me.
        - Os guardas armados do porto descobrem que no fazemos parte do pessoal.
        - Estou a contar precisamente com isso.
        Os dois homens avanaram em direo aos guardas, movendo-se entre a fila de trabalhadores que saam e a dos que chegavam, os quais trocavam frases sarcsticas.
        - Vocs vo-se esfolar a trabalhar, enquanto ns dormimos por causa do mis...
        - Como conseguiram mandar vir o mis, felizardos?
        - Deus ouviu-nos, mas vocs escusam de contar com Ele. Jamie e Banda alcanaram o porto, onde se encontravam dois corpulentos guardas armados, que canalizavam 
os trabalhadores regressados do campo para um pequeno barraco, a fim de serem revistados. Jamie segurou com mais fora a camisa que tinha na mo, abriu caminho 
por entre a fila de trabalhadores e dirigiu-se a um dos guardas:
        - Quem devemos procurar para obter trabalho?
        - Que fazem aqui dentro? - rugiu o interpelado, enquanto Banda se esforava por no deixar transparecer o assombro.
        - Viemos procurar trabalho. Ouvi dizer que havia uma vaga para guarda e o meu criado pode escavar. Portanto...
        - Toca a andar daqui para fora! - vociferou o guarda.
        - Mas precisamos trabalhar, e garantiram-me... - volveu Jamie.
        - No leu a tabuleta em que se probe a entrada? Desapaream! - e o homem apontou para um carro de bois que comeava a encher-se de trabalhadores: - Dirijam-se 
a Port Nolloth. Se querem trabalho, tm de se inscrever nos escritrios da companhia.
        - Est bem - aquiesceu Jamie, com um encolher de ombros de resignao.
        E, com um sinal a Banda, transps a sada em direo ao carro.
        - Patetas - resmungou o guarda, meneando a cabea.
        Dez minutos depois, Jamie e Banda achavam-se a caminho de Port Nolloth, levando diamantes cujo valor no era inferior a meio milho de libras.







        Captulo VI



        A dispendiosa carruagem percorria a poeirenta artria principal de Klipdrift, puxada por dois belos cavalos baios. Segurava as rdeas um homem de porte atltico, 
cabelos, barba e bigode brancos como a neve, trajado com a mxima elegncia. Usava chapu alto cinzento e no dedo mindinho exibia um anel com um brilhante reluzente. 
Parecia um forasteiro, mas no era.
        Klipdrift mudara consideravelmente desde que Jamie McGregor partira, havia um ano. Decorria o ano de 1884 e transformara-se de um vasto acampamento numa 
pequena cidade. O caminho-de-ferro fora completado da Cidade do Cabo at Hopetown, com um ramal que servia Klipdrift, o que criara uma nova vaga de imigrantes. A 
localidade apresentava-se ainda mais povoada do que Jamie a recordava, mas os habitantes pareciam diferentes. Continuava a haver muitos pesquisadores, mas tambm 
se viam homens de trajos irrepreensveis e mulheres elegantes entrando e saindo de lojas. Tudo indicava que Klipdrift adquirira uma patina de respeitabilidade.
        Jamie passou diante de trs novas salas de baile e meia dzia de saloons de criao recente. Depois de deixar para trs a igreja, uma barbearia de luxo e 
um hotel sumtuoso chamado Grand, deteve a carruagem  entrada de um banco, apeou-se e confiou as rdeas a um garoto nativo.
        - D-lhes de beber - e, em seguida, entrou, anunciando ao gerente em voz alta: - Quero depositar cem mil libras.
        O fato difundiu-se com prontido, como Jamie calculava, e quando abandonou o banco e entrou no saloon Sundowner era o fulcro da curiosidade geral. O interior 
do estabelecimento no se alterara. Encontrava-se repleto de gente, e olhos curiosos acompanharam-no quando se encaminhava para o bar.
        - Que deseja tomar? - perguntou Smit, com uma inclinao de cabea de deferncia.
        - Usque - informou Jamie, satisfeito por verificar que o bartender no o reconhecia. - O melhor que tiver.
        - Sim, senhor - e Smit apressou-se a compraz-lo. - Acaba de chegar  cidade?
        - Exato.
        - De passagem?
        - No. Constou-me que era propcia para efetuar investimentos.
        - No encontra melhor - e o olhar do homem iluminou-se. - Uma pessoa com cem... com dinheiro pode safar-se muito satisfatoriamente. Talvez at lhe seja til, 
se aceitar as minhas recomendaes.
        - Sim? Como?
        - Conheo o homem que governa praticamente a cidade - inclinou-se para a frente e assumiu uma expresso conspiratria. -  presidente do Conselho da cidade 
e diretor da Comisso de Cidados. Chama-se Salomon van der Merwe.
        - No sei quem seja - declarou Jamie, depois de levar o copo aos lbios.
        -  dono do armazm de artigos gerais do outro lado da rua. Pode indicar-lhe alguns investimentos vantajosos. Penso que no perdia nada em o procurar.
        Voltou a servir-se do copo e indicou em voz tona:
        - Mande-o chamar.
        - Sim, senhor - assentiu o bartender, abarcando o anel e o alfinete de brilhantes na gravata do interlocutor. - Posso revelar-lhe o seu nome?
        - lan Travis.
        - Muito bem, Mister Travis. Estou certo de que Mister Van der Merwe desejar conhec-lo - e tornou a encher o copo. - Entretenha-se com isto, enquanto aguarda. 
Oferta da casa.
        Jamie conservou-se sentado num dos bancos do balco, consciente de que todos o observavam. Muitos homens tinham partido de Klipdrift ricos, mas nenhum to 
obviamente abastado chegara at ento. Tratava-se de uma experincia nova.
        Transcorridos quinze minutos, Smit reaparecia, acompanhado por Salomon van der Merwe, o qual avanou de mo estendida para o desconhecido de barba e cabelos 
brancos.
        - Tenho muito gosto em conhec-lo, Mister Travis. Jamie estreitou-a, ao mesmo tempo que tentava detectar um indcio de reconhecimento, que no se verificou. 
No fundo, no estava surpreendido, pois no restava coisa alguma do rapaz de dezoito anos ingnuo e idealista.
        O bartender conduziu os dois homens para uma mesa isolada e, mal se sentaram, Van der Merwe proferiu:
        - Segundo entendi, tenciona efetuar investimentos em Klipdrift, Mister Travis.
        -  possvel.
        - Talvez lhe possa ser til.  preciso muita cautela, pois anda por a gente sem escrpulos.
        - No duvido - aquiesceu Jamie, olhando o holands com firmeza.
        Afigurava-se-lhe irreal estar ali sentado, trocando impresses amenas com o homem que lhe roubara uma fortuna e depois tentara assassin-lo. O dio que Van 
der Merwe lhe inspirava consumira-o ao longo de um ano e a sede de vingana fora a nica coisa que o mantivera vivo. Agora, o alvo das suas diligncias encontrava-se 
na iminncia de sentir os efeitos dessa vingana.
        - Se me permite a indiscrio, Mister Travis, quanto pensa investir?
        - A umas cem mil libras, para principiar - informou Jamie, com desprendimento, ao mesmo tempo que via Van der Merwe humedecer os lbios. - Mais tarde, talvez 
umas trezentas ou quatrocentas mil.
        -  natural que consiga investimentos muito satisfatrios, com essas quantias. Desde que obedea a uma orientao apropriada - apressou-se o holands a acrescentar. 
- Tem alguma idia daquilo que prefere?
        - Primeiro, gostava de lanar uma olhadela s oportunidades existentes.
        -  uma atitude prudente. Se aceitar o convite para jantar comigo esta noite, poderemos discutir o assunto mais a fundo. Minha filha cozinha uns petiscos 
deliciosos.
        - Com o maior prazer - acedeu Jamie, com um sorriso, enquanto refletia: "Nem fazes uma idia do prazer que vou sentir!"
        A "operao vingana" principiara.
        A viagem do campo de diamantes da Nambia para a Cidade do Cabo decorrera sem problemas. Jamie e Banda tinham feito escala por uma pequena povoao do interior, 
onde um mdico tratou o brao do primeiro, e da prosseguiram at  Cidade do Cabo. O trajeto caracterizou-se pelo desconforto, mas a euforia que dominava os dois 
homens permitiu-lhes ignor-lo. No final da viagem, Jamie instalou-se no luxuoso Royal Hotel de Plein Street ("preferido por sua excelncia o duque de Edimburgo"), 
onde lhe concederam a suite real.
        - Mande chamar o melhor barbeiro da cidade - indicou ao recepcionista. - Depois, preciso de um alfaiate e um sapateiro.
        - Imediatamente - prometeu o homem.
        " incrvel e maravilhoso o que se consegue com o dinheiro!", cogitou Jamie, com uma ponta de amargura.
        A casa de banho da suite real era um autntico paraso, e ele conservou-se imerso em gua tpida demoradamente, ao mesmo tempo que recapitulava os acontecimentos 
das ltimas semanas. Tinham passado apenas semanas desde que construra a jangada com Banda? Na realidade, pareciam-lhe anos. Evocou a viagem na frgil embarcao, 
assediada por tubares e destruda pelos recifes, o mis do mar que os protegera dos guardas e dos ces, embora no evitasse que um dos animais lhe cravasse os dentes 
no brao, as vozes  sua volta, que lhe perdurariam nos ouvidos para sempre: Kruger... Brent... Kruger... Brent...
        No entanto, acima de tudo, pensava em Banda. O seu amigo.
        Quando desembarcaram na Cidade do Cabo, Jamie rogou-lhe que continuasse com ele, mas o negro abanou a cabea.
        - A vida  muito montona a seu lado. Quero ir para um lugar onde haja certa excitao.
        - Que pensas fazer?
        - Graas a si e ao seu maravilhoso plano para superar recifes numa jangada, tenciono comprar uma herdade, procurar uma esposa e ter muitos filhos.
        - Como queiras. Vamos ao diaman kooper, para que te entregue a tua parte.
        - No quero.
        - Que ests a a dizer? - Jamie enrugou a fronte. - Metade dos diamantes pertence-te. s milionrio.
        - Repare na minha pele. Se me tornasse milionrio, a minha vida no valia um chavo.
        - Podes esconder alguns dos diamantes.
        - S preciso dos suficientes para comprar uma herdade e dois bois para trocar por uma esposa. Dois ou trs diamantes mais pequenos bastam para conseguir 
o que pretendo. Os restantes so seus.
        -  impossvel. No podes prescindir da tua parte.
        - Posso, sim, porque me vai entregar Salomon van der Merwe.
        Jamie contemplou Banda em silncio por um longo momento e assentiu:
        - Prometo.
        - Nesse caso, vamos despedir-nos, meu amigo - e apertaram a mo. - Voltaremos a encontrar-nos. Para a prxima vez, pense numa coisa realmente excitante para 
fazermos.
        E o negro afastou-se com trs pequenos diamantes na algibeira.
        Jamie enviou  famlia uma ordem de pagamento no valor de vinte mil libras, comprou a melhor carruagem e a melhor parelha de cavalos que conseguiu encontrar 
e seguiu para Klipdrift.
        Chegara o momento da vingana.
        Naquela noite, quando entrou na loja do holands, Jamie McGregor foi assolado por uma sensao to desagradvel e violenta que teve de fazer uma pausa para 
se dominar.
        Van der Merwe surgiu da sala contgua e, quando viu quem era, o rosto iluminou-se-lhe.
        - Seja bem-vindo, Mister Travis!
        - Obrigado, Mister... desculpe, no me recordo do seu nome.
        - Salomon van der Merwe. No necessita de se desculpar. Os nomes holandeses so difceis de fixar. O jantar est pronto. Margaret!
        Na verdade, nada se alterara. A rapariga encontrava-se junto do fogo, de costas para a entrada.
        - Est aqui o convidado de que te falei - acrescentou o pai. - Mister Travis.
Ela voltou-se e murmurou a frmula habitual em semelhantes circunstncias, sem deixar transparecer o mnimo indcio de reconhecimento.
        Naquele momento, a campainha da entrada soou e Van der Merwe proferiu:
        - Com licena. No me demoro. Esteja como em sua casa, Mister Travis - e precipitou-se para a loja.
        Margaret levou uma caarola fumegante com legumes e carne para a mesa e em seguida foi buscar o po, enquanto Jamie a observava em silncio. Desenvolvera-se 
notavelmente desde a ltima vez que a vira. Tornara-se mulher, com uma sexualidade que outrora no possua.
        - Seu pai diz que  uma excelente cozinheira.
        - Fao o possvel - murmurou ela, corando.
        - H muito que no saboreio comida caseira e confesso que sinto o apetite aguado.
        Jamie tomou da mo da rapariga um prato com manteiga e pousou-o na mesa, provocando-lhe uma admirao que a deixou boquiaberta, pois nunca vira um homem 
colaborar nas atividades prprias das mulheres, e atreveu-se pela primeira vez a olhar o desconhecido de frente. O nariz deformado e uma cicatriz alteravam o aspecto 
geral do rosto, que se podia considerar bem-parecido. Os olhos eram cinzentos e brilhavam com inteligncia e uma intensidade ardente. Os cabelos brancos indicavam 
que no se tratava de um jovem, apesar de haver algo de juvenil nele. Era alto e forte e... neste ponto das apreciaes, Margaret desviou os olhos, perturbada.
        Van der Merwe no tardou a reaparecer, esfregando as mos de satisfao.
        - J fechei a loja. Sentemo-nos para apreciar uma boa refeio - e indicou o lugar de honra a Jamie, acrescentando: - Oremos.
        Fecharam os olhos e Margaret voltou a abri-los quase imediatamente, a fim de poder prosseguir o exame ao elegante desconhecido, enquanto a voz do pai articulava, 
em inflexo monocrdica:
        - Todos somos pecadores aos teus olhos, Senhor, e temos de ser castigados. Concede-nos foras para suportar as provaes na Terra, a fim de podermos desfrutar 
dos frutos do Cu, quando formos chamados. Agradecemos-te, Senhor, por auxiliares aqueles de ns que merecem prosperar. Amm! - e, em seguida, comeou a servir, 
mas desta vez as doses de Jamie revelavam-se muito mais generosas. -  a sua primeira visita a estas paragens, Mister Travis?
        - Sim - assentiu Jamie. - A primeira.
        - Suponho que no o acompanha sua esposa?
        - No sou casado - declarou, com um sorriso. - Ainda no encontrei quem me quisesse.
        "S uma louca o rejeitaria", pensou Margaret, baixando os olhos, com receio de que o forasteiro adivinhasse a natureza das suas cogitaes.
        - Klipdrift  uma cidade de grandes oportunidades - volveu Van der Merwe. -Extraordinrias, mesmo.
        - Estou ansioso por que me mostrem - disse Jamie, com um olhar a Margaret, que corou.
        - Se no considera a pergunta impertinente, como obteve a sua fortuna?
        A rapariga sentia-se embaraada com a curiosidade excessiva do progenitor, mas Travis no parecia contrariado.
        - Herdei-a de meu pai - explicou com naturalidade.
        - Mas estou certo de que possui larga experincia de negcios.
        - Nem por isso. Preciso que me orientem.
        - Foi o destino que nos reuniu - proclamou Van der Merwe, com visvel satisfao. -Tenho muitos conhecimentos teis. Quase lhe posso garantir que duplicarei 
o seu dinheiro em poucos meses - e inclinou-se para a frente, dando uma palmada amigvel no brao de Jamie. - Palpita-me que este dia ficar gravado na nossa memria! 
- fez uma pausa, enquanto o interlocutor se limitava a esboar um sorriso. - Instalou-se no Grande Hotel, claro?
        - Exato.
        -  criminosamente dispendioso. No entanto, para uma pessoa com as suas posses...
        - Ouvi dizer que o campo  muito bonito, nesta regio. Posso pedir-lhe que consinta que sua filha me sirva de cicerone?
        Margaret sentiu o corao palpitar-lhe desordenadamente, enquanto o pai enrugava a fronte e articulava:
        - Bem, no sei...
        Uma das regras imutveis de Salomon van der Merwe consistia em no permitir que a rapariga estivesse a ss com um homem. Todavia, no caso de Mr. Travis, 
admitia-se perfeitamente uma exceo. Com tudo o que se achava em jogo, no convinha que se mostrasse pouco hospitaleiro. Assim, declarou:
        - Posso dispens-la da loja por uma ou duas horas. Acompanhars o nosso convidado, Margaret?
        - Se o desejar, pai - murmurou ela.
        - Ento, fica combinado - disse Jamie. - s dez horas, est bem?
        Quando o convidado alto e elegantemente vestido se retirou, Margaret levantou a mesa e ps-se a lavar a loua, imersa num aturdimento aprazvel. "Ele deve 
julgar-me pateta!" Tentou recordar as suas intervenes na conversa desenrolada durante o jantar e no conseguiu encontrar uma nica. Dir-se-ia que ficara com a 
lngua imobilizada. Porqu? Porventura no atendera centenas de clientes do sexo masculino, na loja, sem se portar como uma imbecil? Em todo o caso, nenhum a olhava 
como lan Travis. "Todos os homens tm o mal no seu ntimo, Margaret. No permitirei que te corrompam a inocncia!" As advertncias do pai nunca lhe abandonavam o 
pensamento. Seria essa a causa da sua atitude? Da debilidade e do tremor que experimentara sempre que o forasteiro a contemplara? Pretenderia corromper-lhe a inocncia? 
A possibilidade fez com que sentisse o corpo percorrido por uma emoo deliciosa. Baixou os olhos para o prato que acabava de lavar pela terceira vez e sentou-se 
 mesa. Jamais, como naquele momento, lamentava que a me j no vivesse.
        Ela teria compreendido. Embora estimasse o pai, Margaret tinha por vezes a sensao opressiva de que era sua prisioneira. Preocupava-a o fato de no consentir 
que um homem se lhe acercasse. "Nunca casarei", receou. "Pelo menos, enquanto ele viver." Os pensamentos rebeldes suscitaram-lhe uma noo de culpa e, depois de 
dar as boas-noites a Van der Merwe apressadamente, recolheu ao quarto.
        Estudou o rosto no pequeno espelho circular pendurado na parede e comprimiu os lbios num leve sorriso de amargura. No acalentava iluses quanto ao seu 
aspecto. No era bonita, embora possusse uma figura interessante, olhos atraentes e malares salientes. Que teria lan Travis visto quando a contemplara? Comeou 
a despir-se e imaginou-o na sua frente, admirando-lhe a nudez. Margaret acariciou os seios, cujos bicos comeavam a endurecer, e em seguida fez deslizar as mos 
ao longo do corpo, at as imobilizar entre as pernas. Passou a agit-las com rapidez crescente e assolou-a uma sensao quase frentica que a obrigou a estender-se 
na cama a balbuciar o nome dele.
        Quando percorriam a cidade na carruagem de Jamie, este admirava-se uma vez mais com as modificaes registradas. Onde outrora houvera apenas um mar de tendas, 
erguiam-se agora construes slidas de madeira, com telhados de chapa ondulada ou colmo.
        - Klipdrift parece muito prspera - observou no momento em que seguiam pela rua principal.
        - Um recm-chegado deve ach-la interessante - admitiu Margaret, ao mesmo tempo que pensava: "At agora, eu no a suportava."
        Por fim, abandonaram a cidade em direo  zona mineira ao longo do rio Vaal. As chuvas tinham convertido o campo num vasto jardim colorido repleto de plantas 
exticas que no podiam ser admiradas em qualquer outra parte do mundo. Quando passavam diante de um grupo de pesquisadores, Jamie perguntou:
        - Tm encontrado diamantes grandes, ultimamente?
        - Alguns. Cada vez que h notcia de um achado importante, aparecem centenas de novos pesquisadores. Na sua maioria, partem pobres e desiludidos - e a rapariga 
considerou que o devia prevenir do perigo. - Meu pai no gostaria de me ouvir dizer isto, mas penso que  uma ocupao horrvel.
        - Para alguns, provavelmente - admitiu ele. - Para alguns.
        - Tenciona permanecer muito tempo entre ns?
        - Sim.
        - timo - e ela sentiu o corao regozijar-se, mas tratou de acrescentar com prontido: - Meu pai ficar satisfeito, quando souber.
        Passearam durante toda a manh e, de vez em quando, detinham-se, e Jamie trocava impresses com pesquisadores, muito dos quais reconheciam Margaret e se 
lhe dirigiam respeitosamente. Por seu turno, ela mostrava-se mais comunicativa do que na presena do pai.
        -  muito conhecida - comentou ele, em dado momento.
        - Recordam-se de me ver, quando aparecem na loja para negociar com meu pai - alegou Margaret, corando. - Ele fornece equipamento  maior parte dos pesquisadores.
        Jamie no insistiu no assunto, mais interessado com o que se lhe deparava em redor. O caminho-de-ferro exercera uma influncia decisiva na prosperidade de 
Klipdrift. Um novo consrcio, denominado De Beers, em homenagem ao agricultor em cujo terreno fora descoberto o primeiro diamante, absorvera a firma rival, pertencente 
a um indivduo chamado Barney Barnato, e desenvolvia notvel atividade para consolidar as centenas de pequenos lotes numa nica organizao.
        Recentemente, fora descoberto ouro nas proximidades de Kimberley, alm de mangansio e zinco, e Jamie estava convencido de que aquilo era apenas o comeo, 
pois a frica do Sul constitua um tesouro de minerais. Na verdade, deparavam-se oportunidades incrveis a um homem de viso.
        Quando regressaram, principiava a anoitecer e, no momento em que imobilizou a carruagem  entrada da loja de Van der Merwe, Jamie declarou:
        - Teria o maior prazer em que voc e seu pai jantassem comigo no hotel, esta noite.
        - Hei-de dizer-lhe - prometeu a rapariga, esforando-se por dissimular a satisfao. - Oxal concorde. Obrigada pelo dia encantador, Mister Travis!
        E afastou-se apressadamente.
        Jantaram os trs na vasta sala do novo Grande Hotel e, olhando em volta, Van der Merwe comentou:
        - No percebo como toda esta gente se pode permitir o luxo de comer aqui.
        Jamie pegou na ementa e lanou-lhe uma olhadela superficial. Um bife custava uma libra e quatro xelins, uma nica batata quatro xelins e uma fatia de tarte 
de ma dez.
        - So uns ladres! - prosseguiu o holands. - Meia dzia de refeies aqui bastam para levar um homem  misria.
        Jamie perguntou-se a si mesmo o que seria necessrio para conduzir Van der Merwe  misria, e achava-se disposto a averigu-lo. Quando encomendaram o jantar, 
notou que escolhia as iguarias mais dispendiosas da ementa. Por sua vez, Margaret contentou-se com uma sopa pouco espessa, pois sentia-se demasiado excitada para 
comer. Em dado momento, baixou os olhos para as mos, recordou-se do que fizera com elas na vspera e experimentou uma sensao de culpa.
        - No receie levar-me  bancarrota - ironizou Jamie. - Pea o que lhe apetecer.
        - Obrigada, mas no tenho apetite - murmurou ela, corando.
        O pai apercebeu-se da vermelhido nas faces da rapariga e fixou nela o olhar, com uma expresso grave.
        - Minha filha  uma rapariga invulgar, Mister Travis.
        - Estou inteiramente de acordo.
        Estas palavras tornaram Margaret to contente que nem a sopa conseguiu tragar. O efeito que lan Travis exercia nela era incrvel. Detectava insinuaes encobertas 
em todas as suas palavras e gestos. Se lhe sorria, significava que a apreciava profundamente; se enrugava a fronte, nutria-lhe averso. As sensaes da rapariga 
eram um termmetro emocional cujo mercrio no se fixava numa temperatura por muito tempo.
        - Viu alguma coisa de interessante, hoje? - perguntou Van der Merwe.
        - No, nada de especial - replicou Jamie.
        - Esta vai ser a regio do mundo que se desenvolver mais depressa - volveu o holands, inclinando-se para a frente. - Uma pessoa de idias lcidas deve 
investir aqui imediatamente. O caminho-de-ferro h-de transformar Klip-drift numa segunda Cidade do Cabo.
        - No sei - disse Jamie, com uma expresso de dvida. - Conheo muitos lugares como este que prosperaram de um dia para o outro e se afundaram com a mesma 
rapidez. No estou interessado em investir dinheiro numa cidade-fantasma.
        - Isso nunca acontecer aqui. Aparecem diamantes em nmero cada vez mais elevado. E ouro.
        - Mas por quanto tempo? - argumentou, com um encolher de ombros.
        -  claro que ningum pode fazer uma profecia dessa natureza, mas...
        - Exatamente.
        - No tome uma deciso precipitada - advertiu Van der Merwe. - Custava-me v-lo desperdiar uma oportunidade como esta.
        - Talvez precise de refletir um pouco - admitiu Jamie, aps um momento de ponderao. - Posso voltar a contar consigo amanh, Margaret?
        Van der Merwe abriu a boca para objetar, mas mudou de idias ao recordar as palavras de Mr. Dhorensen, o banqueiro: "Ele apareceu no meu gabinete para depositar 
cem mil libras e disse que em breve se seguiriam outras!"
        Por fim, a cobia sobreps-se a todas as outras consideraes e declarou:
        - Com certeza que pode.
        Na manh seguinte, Margaret enfiou o vestido dos domingos, a fim de se encontrar com Jamie. No entanto, quando a viu, o pai corou de fria e rugiu:
        - Queres que ele te julgue uma depravada empenhada em lhe suscitar pensamentos inconfessveis? Trata-se de negcios, rapariga. Despe isso e veste a roupa 
de todos os dias.
        - Mas, pai...
        - J!
        Ela meneou a cabea, com uma expresso amargurada.
        - Est bem, pai.
        Van der Merwe viu-os partir, vinte minutos mais tarde, e perguntou a si prprio se no estaria a cometer um erro.
        Desta vez, Jamie conduziu a carruagem no sentido oposto, onde havia sinais de desenvolvimento por toda a parte. "Se as descobertas de minerais continuam, 
uma pessoa pode ganhar mais dinheiro com a construo de imveis do que com diamantes ou ouro. Klipdrift vai precisar de mais bancos, hotis, saloons, lojas, bordis..."
        De sbito, apercebendo-se de que Margaret o olhava com uma expresso de curiosidade, perguntou:
        - Aconteceu alguma coisa?
        - No, no... - murmurou ela, e apressou-se a desviar os olhos.
        Ele observou-a atentamente e notou-lhe o esplendor, aliado a uma sensao de isolamento, de solido. Era uma mulher sem homem.
        Ao meio-dia, desviaram-se da estrada para uma rea arborizada nas proximidades de um pequeno curso de gua e detiveram-se debaixo de um baobabe. Faziam-se 
acompanhar de uma cesta de piquenique, cujo contedo Margaret colocou sobre uma toalha, que estendeu no relvado.
        -  um banquete! - exclamou, ao ver a abundncia de iguarias. - No mereo isto, Mister Travis...
        - Merece muito mais - asseverou Jamie. Segurou-lhe o rosto entre as mos com ternura. - Olhe para mim, Margaret.
        Ela obedeceu com relutncia e, de repente, antes que o pudesse evitar, sentiu uns lbios vorazes colados aos seus. Transcorridos uns momentos, desprendeu-se 
e balbuciou:
        - No... no podemos... iramos para o Inferno...
        - Para o Cu!
        - Tenho medo...
        - No h nada a recear. V os meus olhos? Podem espreitar para o interior dos seus. H l o desejo de fazer amor comigo. E no o podemos nem devemos evitar. 
Pertences-me, Margaret. Repete: perteno a lan. V...
        - Perteno... a lan.
        Os lbios voltaram a unir-se e Jamie principiou a desprender os botes das costas do vestido. Em poucos segundos, ela encontrava-se desnuda. A passagem trmula 
de adolescente para mulher constituiu uma experincia excitante, inebriante, que a levou a sentir-se mais viva que nunca. "Recordarei este momento para sempre", 
pensou. "Nenhuma mulher pode amar tanto como eu este homem!"
        Naquela noite, Jamie e Van der Merwe encontravam-se sentados a uma mesa do canto do Sundowner, e o primeiro anunciou:
        - Voc tinha razo. As possibilidades nesta terra talvez sejam maiores do que eu supunha.
        - Sempre calculei que acabaria por se aperceber disso, Mister Travis - replicou o holands, com um sorriso de satisfao.
        - Que me aconselha?
        Olhou em redor e baixou a voz:
        - Chegou-me hoje ao conhecimento que descobriram uma nova jazida de diamantes ao norte de Pniel. Ainda h dez lotes disponveis, que podemos dividir pelos 
dois. Eu entro com cinquenta mil libras por cinco e voc com idntica quantia pelos restantes. Garantiram-me que os diamantes so aos montes. Podemos arrecadar milhes 
de um dia para o outro. Que acha?
        Jamie abarcava a situao com a maior clareza. Van der Merwe ficaria com os lotes aproveitveis e ele com os outros. Alm disso, estava convencido de que 
o interlocutor no arriscaria um nico xelim.
        - Parece interessante. Quantos pesquisadores esto envolvidos?
        - Apenas dois.
        - Porque  necessrio tanto dinheiro? - perguntou inocentemente.
        - Eles conhecem o valor dos lotes, mas no dispem de fundos para os explorar. Assim, entregamos-lhes cem mil libras e deixamo-los conservar vinte por cento 
dos seus campos.
        Van der Merwe introduziu os vinte por cento com tanta sutileza que quase passaram despercebidos. Jamie no duvidava de que os pesquisadores ficariam com 
os seus diamantes e o dinheiro, os quais iriam parar s mos do holands.
        - Temos de agir rapidamente - advertiu este ltimo. - Assim que a coisa transpirar...
        - No podemos deixar escapar a oportunidade - aquiesceu Jamie.
        - Vou mandar redigir os contratos imediatamente. "Em africnder, sem dvida!"
        Como lhe convinha manter o novo scio satisfeito, Van der Merwe deixou de objetar a que Jamie sasse com Margaret. Entretanto, esta sentia-se cada vez mais 
apaixonada por ele. Era a ltima pessoa em que pensava antes de adormecer e a primeira que lhe acudia ao esprito quando, de manh, abria os olhos. Jamie despertara-lhe 
uma sensualidade de cuja existncia ela nem suspeitava. Dir-se-ia que descobrira subitamente a verdadeira finalidade do seu corpo, e tudo aquilo que lhe haviam ensinado 
a considerar pecado tornava-se glorioso, destinado a proporcionar-lhe prazer.
        Nos arrabaldes arborizados da cidade, resultava fcil encontrar lugares isolados para se entregarem a atividades sexuais, e sempre que tal acontecia Margaret 
sentia-se to excitada como na primeira vez.
        No obstante, a sombra ominosa do pai continuava a flagelar-lhe o pensamento. Salomon van der Merwe era um membro importante da Igreja Presbiteriana holandesa, 
e a rapariga sabia que, se as suas relaes com lan Travis fossem descobertas, no haveria perdo possvel. Na comunidade em que viviam, s existiam dois tipos de 
mulheres, as srias e as prostitutas, e as primeiras no permitiam que os homens lhes tocassem antes da noite de npcias. Por conseguinte, consider-la-iam prostituta. 
Assim, a preocupao crescente obrigou-a a abordar a questo do casamento.
        Seguiam na carruagem ao longo do rio Vaal, quando aventurou:
        - Sabes como te amo, lan... - interrompeu-se, embaraada. - Que pensas acerca do casamento?
        - Sou a favor, sem dvida - replicou ele, sorrindo. - Inteiramente.
        Margaret sorriu e refletiu que aquele momento era o mais feliz da sua vida.
        Domingo de manh, Van der Merwe convidou Jamie a acompanh-lo e  filha  Igreja. A Nederduits Hervormde Kerk era um edifcio impressionante de estilo vagamente 
gtico, com o plpito numa das extremidades da sala e um rgo enorme na outra. Quando transpuseram a entrada, o holands foi saudado com profundo respeito.
        - Ajudei a construir este templo - confidenciou a Jamie, sem dissimular o orgulho. - Sou um dicono.
        O sermo achava-se impregnado de enxofre e fogo do Inferno, e Van der Merwe escutou-o atentamente, inclinando a cabea por diversas vezes, em silenciosa 
concordncia com as palavras do orador.
        " um homem de Deus ao domingo e pertence ao Diabo durante o resto da semana...", refletiu Jamie.
        Embora o pai se tivesse sentado entre ambos, Margaret tinha plena conscincia da proximidade de Jamie e, com um leve sorriso trmulo, cogitava: "Ainda bem 
que o pastor desconhece o que tenho no ventre!"
        Naquela noite, Jamie visitou o saloon Sundowner, e Smit acolheu-o com um sorriso.
        - Boa noite, Mister Travis. Que toma: o costume?
        - Hoje, no. Preciso falar-lhe. L atrs.
        - Com certeza - acedeu o bartender com prontido, pressentindo uma possibilidade de ganhar dinheiro.
        Entraram num compartimento pouco maior que um cubculo, que continha uma mesa redonda com quatro cadeiras e um candeeiro de petrleo.
        - Sentemo-nos - indicou Jamie.
        - Sem dvida. Em que lhe posso ser til?
        - Eu  que tenciono ser-lhe til.
        - Sim?
        - Exato - puxou de uma longa cigarrilha e acendeu-a. - Resolvi deix-lo viver.
        - Desculpe, mas no... - comeou Smit, empalidecendo. - Que quer dizer, Mister Travis?
        - O meu nome no  esse. Chamo-me Jamie McGregor. H cerca de um ano, preparou o cenrio para que me matassem, no celeiro. Recorda-se? Por conta de Van der 
Merwe.
        - Confesso que...
        - Cale-se e oua - e a voz de Jamie vibrava como um chicote cortando o ar. - Continuo vivo e enriqueci o suficiente para mandar incendiar esta espelunca, 
consigo dentro. Est a acompanhar o meu raciocnio?
        O bartender fez meno de manifestar ignorncia, mas o perigo dimanado dos olhos do interlocutor obrigou-o a reconsiderar.
        - Sim, senhor - articulou com prudncia.
        - Van der Merwe paga-lhe pelos pesquisadores que ludibria, enviados por si.  uma sociedade curiosa. Quanto recebe por isso?
        - Bem, dois por cento.
        - Dou-lhe cinco. A partir de agora, quando um pesquisador potencial o procurar, mand-lo- ter comigo. Financi-lo-ei, mas ele obter uma percentagem razovel 
e voc tambm. Pensa que Van der Merwe lhe pagava realmente dois por cento do que arrecadava?
        - Perfeitamente, Mister Tra... Mister McGregor. Compreendo.
        - Talvez no por completo - Jamie levantou-se e, com uma expresso grave, acrescentou: - Est a pensar em procur-lo e repetir-lhe esta nossa amena conversa, 
para poder receber dos dois lados. Vejo apenas um pequeno bice nisso, Smit - baixou a voz at se converter num murmrio. - Se o fizer, no viver o suficiente para 
saborear o resultado.












        Captulo VII



        Jamie acabava de se vestir, quando bateram  porta levemente. Apurou os ouvidos e o som repetiu-se, pelo que foi abrir, deparando-se-lhe Margaret.
        - Entra, Maggie. H alguma novidade?
        Era a primeira vez que o procurava no quarto do hotel, e agora que o enfrentava sentia dificuldade em falar. Permanecera acordada toda a noite em busca de 
uma maneira de lhe transmitir a notcia, pois receava que no quisesse voltar a v-la.
        De sbito, fitou-o nos olhos e anunciou:
        - Vou ter um filho teu, lan.
        A expresso dele mostrava-se to tensa que a rapariga receou t-lo perdido para sempre. De repente, porm, exibiu uma alegria to grande que todas as suas 
dvidas se dissiparam instantaneamente.
        -  maravilhoso, Maggie! - exclamou Jamie, segurando-lhe os braos. - Disseste a teu pai?
        - Isso, no!... - ela desprendeu-se, alarmada, e retrocedeu at ao sof vitoriano, no qual se sentou. - No o conheces. Nunca... nunca compreenderia.
        - Vamos anunciar-lhe a boa nova - decidiu ele, vestindo a camisa apressadamente.
        - Tens a certeza de que correr tudo bem?
        - Nunca estive to certo de uma coisa em toda a minha vida.
        Salomon van der Merwe pesava carne salgada para um pesquisador, quando Jamie e Margaret entraram na loja.
        - Ol, lan! Dou-lhe j ateno - terminou de atender o cliente rapidamente e aproximou-se dos recm-chegados. - Como lhe correm as coisas neste belo dia?
        - No podiam correr melhor - replicou Jamie, em tom jovial. - Sua filha est grvida.
        Estabeleceu-se um silncio ominoso, enquanto Van der Merwe os olhava alternadamente com perplexidade.
        - No... no compreendo.
        -  muito simples. Engravidei-a.
        - No  possvel! - a cor desapareceu por completo das faces do homem, assolado por um turbilho de emoes em conflito: o choque imprevisto da perda de 
virgindade da filha... da sua gravidez... Toda a cidade se riria dele. Por outro lado, lan Travis era um homem abastado e, se casassem sem demora... Por fim, voltou-se 
de novo para Jamie. - Vo casar imediatamente, claro.
        - Casar? - o interpelado olhou-o com admirao. - Consentia que Maggie se unisse a um maloio estpido que o deixou priv-lo de tudo o que lhe pertencia?
        - Que est para a a dizer, lan? - o holands sentia a cabea rodopiar. - Eu nunca...
        - No me chamo lan. Sou Jamie McGregor. No me reconheceu?  bvio que no. Esse rapaz morreu. Voc matou-o. Mas no sou um homem rancoroso, Mister Van der 
Merwe. Portanto, fao-lhe uma oferta. A minha semente no ventre de sua filha.
        E, com estas palavras, Jamie rodou nos calcanhares e afastou-se, deixando pai e filha boquiabertos, impossibilitados de articular uma slaba.
        Margaret escutara-o estarrecida e chocada, incapaz de acreditar. Ele no podia falar a srio. Amava-a!
        Por fim, Salomon van der Merwe concentrou-se nela, preparado para dar livre curso  clera e  indignao.
        - Rameira! Rua, sua prostituta! Fora desta casa!
        A rapariga ficou petrificada, sem conseguir abarcar a enormidade do que acontecia. lan utilizara-a para se vingar de algo que o pai lhe fizera. Julgava-a 
envolvida numa manobra destinada a prejudic-lo. Quem era Jamie McGregor? Quem...
        - Rua! - vociferou o holands, esbofeteando-a com violncia. - No quero voltar a pr-te a vista em cima!
        Ela conservou-se imvel por um momento, pregada ao cho, sentindo o corao palpitar fortemente e dificuldade em respirar. A expresso do pai era a de um 
louco. Por ltimo, voltou-se e abandonou a loja correndo, sem olhar para trs.
        Salomon van der Merwe viu-a afastar-se, dominado pelo desespero. Tinha bem presente no esprito o que sucedera s filhas de outros homens que se haviam desgraado. 
Depois de verberadas publicamente na igreja, s lhes restara abandonar a comunidade. Era o castigo apropriado, exatamente a sorte que mereciam. Mas a sua Margaret 
recebera uma educao decente, temente a Deus. "Como o pudera trair de semelhante maneira?" Imaginou a filha desnuda, em unio sexual com aquele homem, contorcendo-se 
no cio como animais, e comeou a sentir uma ereo.
        Por fim, encerrou a loja e estendeu-se na cama, sem foras nem vontade de se mover. Quando o fato constasse na cidade, seria alvo de chacota. Compadecer-se-iam 
dele ou censur-lo-iam pela depravao da filha. Em qualquer dos casos, tornar-se-ia insustentvel. Tinha de enviar a prostituta para longe. Transcorridos uns minutos, 
ajoelhou e orou:
        "Como pudeste fazer isto a um teu servidor leal, meu Deus? Porque me abandonaste? Deixa-a morrer, Senhor. Que morram os dois..."
        O sallon Sundowner estava repleto de clientes, quando Jame entrou e se aproximou do balco. Em seguida, virou-se para a sala e proferiu em tom enrgico:
        - Ateno, por favor! - o murmrio das conversas extinguiu-se. - Pago bebidas a todos.
        - Que foi? - quis saber Smit. - Uma nova descoberta de diamantes?
        - At certo ponto - admitiu Jamie, com uma gargalhada. - A filha de Salomon van der Merwe est grvida e ele quer que todos festejem o acontecimento.
        - Santo Deus! - balbuciou o bartender.
        - Deus no teve nada a ver com o assunto. Apenas Jamie
        Em menos de uma hora, todos os habitantes de Klipdrift estavam ao corrente do fato. lan Travis era na realidade Jamie McGregor e engravidara a filha de Van 
der Merwe. A sonsa da Margaret conseguira iludir toda a cidade.
        - Ningum diria, hem?
        - As guas paradas so profundas, como diz o outro.
        - Gostava de saber quantos outros homens da cidade tero embebido a torcida naquele poo.
        -  uma moa bem feita. No me importava nada de provar uma talhada.
        - Porque no lhe pedes? Segundo parece, no se faz rogada.
        E  os homens soltavam gargalhadas divertidas.
        Quando saiu da loja, naquela tarde, Salomon van der Mer-we adaptara-se  catstrofe que o assolara. Enviaria Margaret para a Cidade do Cabo no primeiro transporte. 
Teria l o seu bastardo e ningum de Klipdrift se inteiraria da vergonha que o invadia. Satisfeito com a deciso que tomara, deteve-se diante da porta, com um sorriso 
de alvio.
        - Boa tarde, Mister Van der Merwe. Ouvi dizer que ia passar a vender artigos para beb.
        - Ol, Salomon! Constou-me que vai ter um pequeno ajudante.
        - Como est, Salomon? Diz-se para a que foi avistada uma ave de nova espcie, l para os lados do rio Vaal.  uma cegonha!
        O holands deu meia volta e tornou a entrar na loja, cuja porta fechou com violncia atrs dele.
        No sallon Sundowner, Jamie saboreava um usque, ao mesmo tempo que prestava ateno s conversas e aos comentrios  sua volta. Tratava-se do maior escndalo 
da histria de Klipdrift, e os habitantes mostravam-se dispostos a sabore-lo at  ltima gota. " pena Banda no estar presente, para apreciar o espetculo comigo", 
ponderava ele. Aquilo constitua a recompensa pelo que Salomon van der Merwe fizera  irm de Banda e s Deus sabia a quantas outras. No entanto, no passava de 
parte do que o holands tinha de expiar, o comeo. A vingana de Jamie no ficaria completa at que Van der Merwe se achasse totalmente destrudo. Quanto a Margaret, 
no lhe inspirava a mnima compaixo, pois participara no conluio. Que dissera no primeiro dia em que a vira? Que o pai o ajudaria, pois conhecia tudo sobre o assunto. 
Era igualmente uma Van der Merwe, e ele destruiria ambos.
        Smit aproximou-se da mesa que ocupava e proferiu:
        - Pode conceder-me um minuto, Mister McGregor?
        - De que se trata?
        O bartender aclarou a voz com uma ponta de embarao e confidenciou:
        - Conheo dois pesquisadores que possuem dez lotes perto de Pniel. Contm diamantes, mas eles no dispem de fundos para adquirir o equipamento apropriado. 
Procuram um scio e pensei que lhe poderia interessar.
        Jamie olhou-o em silncio por um momento, antes de redarguir:
        - So os homens que mencionou a Van der Merwe, hem?
        - Exato - confirmou o outro, surpreendido. - Mas estive a pensar na sua proposta e prefiro negociar consigo.
        Jamie puxou de uma longa cigarrilha e Smit apressou-se a acend-la.
        - Sou todo ouvidos.
        Ao princpio, a prostituio em Klipdrift funcionava de uma forma fortuita. As prostitutas eram, na sua maioria, negras, que atuavam em srdidos bordis 
em ruas estreitas. As primeiras profissionais brancas que chegaram  cidade acumulavam essa atividade com a de barmaid. No entanto,  medida que as descobertas de 
campos de diamantes aumentavam e Klipdrift prosperava, o seu nmero alargou-se em conformidade.
        Assim, havia agora meia dzia de casas do gnero nos subrbios, as quais no passavam de barracas de madeira com telhados de zinco. A nica exceo era a 
de Madame Agnes, uma estrutura de dois pisos de aspecto respeitvel em Bree Street, perto de Loop Street, artria principal, onde as esposas dos habitantes da cidade 
no se ofenderiam por terem de passar em frente dela. Frequentavam-na os maridos dessas esposas e os forasteiros com recursos materiais para o fazer. As tarifas 
eram elevadas, mas as animadoras, jovens e desinibidas, compensavam bem o preo. Eram servidas bebidas numa sala razoavelmente decorada e uma das principais regras 
da casa impunha que os clientes no fossem forados a tomar decises, no tocante ao consumo. Madame Agnes, uma ruiva de trinta e cinco anos, trabalhara num bordel 
londrino e sentira-se atrada pela frica do Sul ao inteirar-se da aparente facilidade com que se construam (e, portanto, despendiam) fortunas na cidade mineira 
de Klipdrift. E como economizara dinheiro suficiente para se estabelecer por conta prpria, no hesitara em tentar a sorte, com o resultado de que o negcio prosperara 
desde o primeiro dia.
        Ela sempre se orgulhara de compreender os homens, todavia Jamie McGregor constitua um autntico enigma. Visitava a casa com frequncia, gastava dinheiro 
liberalmente e mostrava-se sempre atencioso para com as mulheres, mas parecia alheio ao que o rodeava. Eram os seus olhos o que mais fascinava Madame Agnes: plidos 
e frios, como lagos sem fundo. Ao contrrio dos outros frequentadores, nunca falava de si ou do seu passado. Ela soubera, poucas horas antes, que Jamie McGregor 
engravidara propositadamente a filha de Salomon van der Merwe e recusava despos-la. "O bastardo!" No obstante, via-se forada a reconhecer que se tratava de um 
bastardo atraente. Naquele momento, descia a escada com passadeira vermelha, e, depois de se despedir polidamente, transps a sada.
        Quando Jamie regressou ao hotel, Margaret encontrava-se no seu quarto, olhando pensativamente pela janela, e voltou-se com prontido ao ouvi-lo entrar.
        - Ol, Jamie - articulou em voz trmula.
        - Que fazes aqui?
        - Preciso falar contigo.
        - No temos nada a dizer um ao outro.
        - Sei porque procedes assim. Odeias meu pai - a rapariga acercou-se um passo. - Quero que saibas que no tive a mnima participao no que ele te fez. Por 
favor... suplico-te... acredita. No me detestes. Amo-te muito.
        - O problema  teu! - retrucou ele, friamente.
        - No me olhes assim. Tambm me amas...
        Todavia, Jamie no a escutava. Voltava a efetuar o percurso at Paardspan, onde quase perdera a vida... Desviava as rochas nas margens do rio, ao ponto de 
quase cair, extenuado... At que, finalmente, descobria os diamantes... Entregava-os a Van der Merwe e ouvia a voz deste: "Compreendeu mal. No preciso de scios 
para nada. Limitou-se a trabalhar para mim, segundo o nosso acordo... Pegue no seu dinheiro e desaparea..." Depois, o espancamento selvagem.. Voltou a acudir-lhe 
s narinas o cheiro dos abutres e a sentir os bicos cravarem-se-lhe na carne...
        De sbito, ouviu a voz de Margaret, como se proviesse de uma distncia enorme:
        - No te lembras? Perteno-te... Amo-te.
        Sacudiu a cabea para desanuviar o esprito e olhou-a com estranheza. J nem sequer fazia uma idia do significado da palavra amor. Van der Merwe sugara-lhe 
todas as emoes,  exceo do dio. Agora, continuava a viver alimentado por essa fora. Era o seu elixir, a sua seiva. Fora isso que o mantivera vivo, quando lutara 
com os tubares, transpusera os recifes e rastejara sobre as minas, no campo de diamantes do deserto da Nambia. Os poetas enalteciam o amor e os cantores interpretavam 
melodias baseadas nesse tema, e talvez fosse real, talvez existisse. Mas s para os outros. Nunca mais para Jamie McGregor.
        - s a filha de Salomon van der Merwe. Tens o neto dele no ventre. Sai.
        Margaret no tinha para onde ir. Estimava o pai e necessitava do seu perdo, mas sabia que jamais o obteria. Ele transformar-lhe-ia a vida num autntico 
inferno. No entanto, no lhe restava qualquer alternativa. Necessitava de recorrer a algum.
Assim, quando abandonou o hotel dirigiu-se  loja. Entretanto, tinha a impresso de que todos a olhavam com curiosidade e julgou mesmo detectar sorrisos maliciosos 
nos lbios de alguns homens.
        Quando entrou, encontrou a sala deserta, mas Salomon van der Merwe no tardou a surgir das traseiras.
        - Pai...
        - Tu, aqui! - o desdm na voz dele atingiu-a como um impacto fsico. Quando se aproximou, notou o hlito de usque e compreendeu que tentara afogar as mgoas 
na bebida. - Quero que saias da cidade, imediatamente, e no voltes a pr c os ps. Ouviste? Nunca mais! - puxou de algumas notas de banco da algibeira e lanou-as 
aos ps da filha. - Recolhe esse dinheiro e desaparece!
        - Trago no ventre o teu neto.
        -  o filho do demnio! - adiantou-se mais um passo, os punhos cerrados ameaadoramente. - Cada vez que te vissem arrastando-te por a como uma prostituta, 
pensavam na minha vergonha. Se desapareceres, acabaro por esquecer tudo.
        Margaret olhou-o demoradamente em silncio, voltou-se e afastou-se com lentido.
        - O dinheiro, prostituta! - rugiu Van der Merwe. - Esqueceste-te dele!
        Havia uma penso pouco dispendiosa na periferia da cidade, e ela encaminhou-se para l, o esprito assolado por confuso absoluta. Quando a alcanou, procurou 
a proprietria, Mrs. Owens, uma mulher nutrida que aparentava cinquenta anos, de expresso benevolente, cujo marido a levara para Klipdrift e abandonara mais tarde. 
Outra teria sucumbido ao revs do destino, mas ela no viera ao mundo para se curvar ao infortnio e acabara por se recompor.
        Vira muitas pessoas em apuros naquela cidade, mas nenhuma to acabrunhada como a rapariga de dezessete anos de momento na sua frente.
        - Querias falar comigo?
        - Sim. Desejava... pensei que podia ter trabalho para mim.
        - Trabalho? De que gnero?
        - O que houver. Sou boa cozinheira. Posso servir s mesas. Tambm sei arrumar quartos... - Margaret interrompeu-se, dominada pelo desespero. - Fao seja 
o que for... Por favor!
        Mrs. Owens contemplou-a com curiosidade e no pde evitar uma sensao de amargura.
        - Bem, mais uma funcionria no calhava mal, para o trabalho que h... - admitiu, apercebendo-se da expresso de alvio da interlocutora. - Quando podes 
comear?
        - Imediatamente.
        - S te posso pagar... - pensou numa quantia e aumentou-a ligeiramente. - Uma libra, dois xelins e onze pences, por ms, com alimentao e alojamento.
        -  timo - articulou Margaret, reconhecida.
        Salomon van der Merwe passara a evitar as ruas de Klipdrift e os clientes encontravam a loja fechada cada vez com maior frequncia, pelo que comearam gradualmente 
a recorrer a outros comerciantes.
        No obstante, o holands continuava a visitar a igreja todos os domingos. No para rezar, mas para rogar a Deus que retificasse a iniquidade que cara sobre 
os ombros do seu obediente servidor. Os outros paroquianos sempre o haviam encarado com o respeito devido a um homem abastado e poderoso, mas agora Van der Merwe 
apercebia-se dos olhares de reprovao e dos murmrios nas suas costas. A famlia que costumava ocupar o lugar ao lado do seu mudou-se para outro. Consideravam-no 
um pria. Todavia, o que o abalou por completo foi o sermo tonitruante do sacerdote, que combinava habilmente palavras do xodo, de Ezequiel e do Lev-tico:
        - Eu, o Senhor teu Deus, sou um Deus zeloso, que visita a iniquidade dos pais nos filhos. Portanto,  meretriz, escuta a voz do Senhor, pois a imoralidade 
extravasou e a tua nudez ficou descoberta na devassido com os teus amantes... E o Senhor dirigiu-se a Moiss e disse: "No prostituas a tua filha, obrigando-a a 
ser uma rameira, sob pena de a Terra se afundar na prostituio e se encher de maldade"...
        Depois daquele domingo, Salomon van der Merwe no voltou a entrar na igreja.
        Enquanto os negcios do holands se deterioravam, os de Jamie McGregor prosperavam. As despesas envolvidas nas pesquisas aumentavam  medida que os diamantes 
se encontravam a maior profundidade e os mineiros possuidores de lotes para explorar reconheciam que no dispunham de recursos para adquirir o equipamento necessrio. 
No tardou a propagar-se a nova de que Jamie McGregor os financiaria em troca de uma percentagem nos lucros, e, mais tarde, comprava-lhes as quotas. Por seu turno, 
investia em propriedade horizontal e ouro, revelando-se meticulosamente honesto nas operaes, pelo que a sua reputao se difundiu e as propostas de negcios afluam 
em nmero crescente.
        Havia dois bancos na cidade, e quando um deles faliu, por m administrao, Jamie comprou-o, colocando  testa pessoas da sua confiana e evitando que o 
seu nome figurasse na transao.
        Tudo em que ele tocava parecia prosperar. Era bem sucedido e rico para alm dos seus sonhos mais arrojados, mas isso carecia de significado especial na sua 
vida. Media os seus xitos apenas pelos falhanos de Salomon van der Merwe, pois a vingana achava-se ainda no princpio.
        De vez em quando, Jamie cruzava-se com Margaret na rua, mas no lhe prestava a mnima ateno.
        No podia, portanto, aperceber-se do que esses encontros ocasionais representavam para a rapariga. O simples fato de o ver cortava-lhe o alento, pois ainda 
o amava completa e profundamente. Nada poderia alterar essa maneira de sentir. Embora Jamie tivesse utilizado o seu corpo para se vingar do pai, Margaret sabia que 
isso poderia constituir uma faca de dois gumes. Em breve teria um filho dele e, quando visse a criana em cujas veias corria o seu sangue, casaria com ela, que era 
a nica coisa que ambicionava no mundo.  noite, antes de adormecer, acariciava o ventre volumoso e murmurava: "O nosso filho!" Talvez no passasse de uma insensatez 
supor que poderia influenciar o seu sexo, mas no queria descurar qualquer possibilidade. Todos os homens desejavam um rapaz.
         medida que as dimenses do ventre aumentavam, Margaret sentia a apreenso acentuar-se. Deplorava no poder confiar em algum, mas as mulheres da cidade 
no lhe falavam. A sua religio ensinava-as a castigar e no a perdoar. Por conseguinte, encontrava-se s, rodeada de estranhos, e passava grande parte das noites 
chorando por ela e pelo filho prestes a nascer.
        Entretanto, Jamie McGregor adquirira uma casa de dois pisos no centro de Klipdrift, onde instalara o quartel-general dos seus negcios, em expanso permanente. 
Um dia, Harry McMillan, chefe dos contabilistas, procurou-o e anunciou:
        - Como vamos combinar as suas firmas, precisamos de um nome que as englobe. Tem alguma sugesto a esse respeito?
        - Vou pensar nisso.
        E, na verdade, ponderou o assunto. No esprito, persistia o som de ecos de um passado remoto que perfuravam o mis do mar no campo de diamantes do deserto 
da Nambia, e acabou por chegar  concluso de que s havia um nome possvel. Nessa conformidade, chamou McMillan e comunicou-lhe:.
        - A nova companhia chamar-se- "Kruger-Brent, Limited".
        O gerente do banco de Jamie, Alvin Cory, revelou-lhe:
        - Queria falar-lhe dos emprstimos de Mister Van der Merwe. O prazo do pagamento j expirou e ainda no o satisfez. Outrora, ele constitua um risco corrente, 
mas a sua situao alterou-se drasticamente. Penso que devamos pression-lo.
        - No.
        - Mas, esta manh, tentou obter mais dinheiro... - comeou Cory arqueando as sobrancelhas.
        - No importa. Satisfaa-lhe todos os pedidos.
        - Como queira, Mister McGregor. Dir-lhe-ei que o senhor...
        - No diga nada. Limite-se a dar-lhe o dinheiro.
        Margaret levantava-se todas as manhs s cinco horas, a fim de amassar po, e quando os hspedes se apresentavam na sala de jantar, para o pequeno-almoo, 
servia-lhes caldo, presunto e ovos, biscoitos de aveia, croissants, caf fumegante e naartje. Na sua maioria, tratava-se de pesquisadores de passagem em direo 
ou no regresso dos seus lotes. Efetuavam uma paragem na cidade apenas o tempo suficiente para mandarem avaliar os seus diamantes, tomar banho, apanhar uma bebedeira 
e visitar um dos bordis da cidade, em geral por esta ordem. Eram quase todos aventureiros analfabetos e rudes.
        Segundo uma lei no escrita que vigorava em Klipdrift, as mulheres de porte irrepreensvel no deviam ser molestadas. Quando um homem desejava ter relaes 
sexuais, procurava uma prostituta. No entanto, Margaret van der Merwe representava um desafio, pois no se adaptava a qualquer das categorias. As raparigas bem-comportadas 
solteiras no engravidavam, e circulava a teoria de que, como cometera um deslize uma vez, subsistem fortes probabilidades de ansiar por ir para a cama com qualquer 
homem. Bastava sugerir-lho. E faziam-no.
        Alguns pesquisadores abordavam-na abertamente, enquanto outros preferiam as tentativas dissimuladas. Margaret repelia-os sempre com serena dignidade, at 
que, uma noite, Mrs. Owens, quando se preparava para dormir, ouviu gritos agudos provenientes do quarto da rapariga. Ato contnuo, correu para l e abriu a porta. 
Um dos hspedes, um pesquisador embriagado, arrancara-lhe o roupo e imobilizava-a na cama.
        Mrs. Owens agiu como uma pantera enfurecida. Pegou numa barra de ferro e principiou a flagelar o homem at que lhe fez perder os sentidos, arrastando-o depois 
para a rua. Em seguida, regressou ao quarto de Margaret, que limpava o sangue dos lbios mordidos pelo assaltante.
        - Ests bem, Maggie?
        - Sim, Mistress Owens - articulou a rapariga, em voz trmula. - Muito obrigada...
        E as lgrimas irromperam com abundncia. Numa cidade onde ningum lhe falava, uma pessoa manifestara bondade.
        Por seu turno, Mrs. Owens contemplava-lhe o ventre inchado e refletia: "Pobre sonhadora. Jamie McGregor nunca casar com ela."
        A data do parto aproximava-se. Margaret cansava-se com facilidade, e o fato de se inclinar e voltar a endireitar representava um esforo quase excruciante. 
O nico prazer consistia em sentir a criana mover-se nas suas entranhas. Ela e o filho achavam-se completamente ss no mundo, e falava-lhe constantemente, referindo 
todas as coisas maravilhosas que a vida lhe reservava.
        Uma noite, pouco depois do jantar, um rapaz negro apresentou-se na penso, a fim de entregar uma carta a Margaret e esclarecer:
        - Mandaram-me aguardar a resposta.
        A rapariga leu-a duas vezes, a segunda com lentido, e anunciou:
        - Sim. A resposta  afirmativa.
        Na sexta-feira seguinte, ao meio-dia em ponto, bateu  porta do bordel de Madame Agnes, na qual fora afixada a indicao: "Encerrado". F-lo em breves pancadas 
discretas, indiferente aos olhares surpreendidos de quem passava. Ao mesmo tempo, perguntava a si prpria se teria cometido um erro ao comparecer. Na realidade, 
tratara-se de uma deciso difcil e tomara-a impelida apenas pela terrvel solido que a envolvia. O contedo da missiva era o seguinte:
        Cara Miss Van der Merwe
        Embora o assunto no nos diga respeito, eu e as minhas pequenas discutimos a sua situao, infeliz e injusta, que muito nos revolta. Gostvamos de a ajudar 
e ao seu beb. Portanto, se o fato no a embaraar, teremos o maior prazer em que almoce conosco. Convm-lhe na sexta-feira?
        Atenciosamente Madame Agnes P.S. Seremos muito discretas.
        Margaret comeava a admitir a possibilidade de se retirar, quando a porta foi finalmente aberta pela prpria Madame Agnes, que lhe pegou no brao e sugeriu:
        - Entre. Saia desse maldito calor.
        Conduziu-a  sala, mobilada com sofs, cadeiras e mesas vitorianas e decorada de forma algo espetacular, com fitas coloridas e bales. Em tiras de carto 
suspensas do teto, lia-se: "Felicidades para o beb... ser um rapaz... feliz aniversrio."
        Achavam-se presentes oito das "pequenas" de Madame Agnes, numa variedade de tipos, idades e cores, todas devidamente trajadas para o momento, em obedincia 
s instrues da patroa. Por outras palavras, usavam vestidos conservadores e nem vestgios de pintura. "Tm um aspecto mais respeitvel do que a maioria das mulheres 
casadas da cidade", pensou Margaret.
        Ao mesmo tempo, contemplava as prostitutas  sua volta, sem saber o que fazer ou dizer. Algumas eram conhecidas, pois atendera-as na loja do pai. De qualquer 
modo, possuam um fator comum: preocupavam-se com ela. Mostravam-se atenciosas e cordiais e empenhavam-se em anim-la.
        Moviam-se em torno da rapariga, com certo embarao, como se receassem dizer ou fazer algo de errado. Independentemente do que as ms-lnguas propalavam, 
sabiam que se tratava de uma senhora e estavam conscientes da diferena entre elas e Margaret. Consideravam-se honradas por ela ter aceitado o convite e desejavam 
desenvolver todos os esforos para evitar que algum ato ou gesto irrefletido perturbasse a reunio.
        - Preparamos um almoo excelente - anunciou Madame Agnes. - Espero que tenha apetite.
        Seguiram para a sala de jantar, onde fora posta uma mesa de aspecto festivo, com uma garrafa de champanhe no lugar que lhe era destinado. Quando atravessavam 
o trio, ela lanou uma olhadela  escada de acesso aos quartos no primeiro andar. Sabia que Jamie frequentava a casa e perguntava a si prpria qual das raparigas 
costumava escolher. Talvez todas. O fato levou-a a observ-las discretamente, numa tentativa para determinar o que possuiriam que lhe faltasse.
        O almoo revelou-se um autntico banquete. Principiou com uma sopa e salada deliciosas, seguidas de carpa grelhada, que antecedeu por seu turno cabrito assado 
com batatas e legumes. Culminavam o repasto queijo, fruta, um bolo decorativo e caf. Margaret sentava-se  cabeceira da mesa, com Madame Agnes  sua direita, e 
Maggie, uma loura atraente que no aparentava mais de dezesseis anos,  sua esquerda. Ao princpio, a conversao foi um pouco afetada. As raparigas conheciam numerosas 
historietas divertidas, mas afiguravam-se-lhes pouco apropriadas para os ouvidos da convidada. Por conseguinte, referiam-se ao tempo, ao desenvolvimento de Klipdrift 
e ao futuro da frica do Sul. Achavam-se familiarizadas com a poltica, a economia e os diamantes, porque obtinham informaes em primeira mo de peritos na matria 
seus clientes.
        A dada altura, a loura atraente, Maggie, anunciou:
        - Jamie descobriu um novo campo de diamantes em... - apercebendo-se do silncio estabelecido repentinamente, compreendeu o lapso que cometera e acrescentou 
com um sorriso nervoso: - Refiro-me a meu tio Jamie.
        Margaret sentiu-se surpreendida com a sbita vaga de cime que a invadiu e Madame Agnes apressou-se a mudar de assunto.
        No final da refeio, esta ltima levantou-se e indicou:
        - Por aqui, minha amiga.
        Seguiram-na todas a uma segunda sala, cheia de presentes envoltos em papel de fantasia e fitas.
        - No encontro palavras... - balbuciou Margaret, comovida.
        - Nem so necessrias - atalhou Madame Agnes. - Desembrulhe-os.
        Havia um bero de balouo, pequenas botas de l, gorros, uma capa de caxemira. Numa palavra, todos os artigos indispensveis a um beb.
        Era como no Natal e excedia tudo o que ela poderia jamais conceber. De sbito, toda a solido e infelicidade reprimidas nos ltimos meses explodiram nela 
e rompeu em soluos.
        Madame Agnes rodeou-lhe a cintura com o brao e indicou s outras que se retirassem, enquanto Margaret se esforava por dominar a emoo.
        - Peo... peo desculpa - gaguejou. - No sei o que me aconteceu.
        - No se preocupe, querida. Esta sala assistiu  passagem de muitos problemas. E sabe o que a experincia me ensinou? No fim, tudo se soluciona. Voc e o 
seu filho ho-de conhecer a felicidade.
        - Obrigada - murmurou. Apontando na direo dos presentes, acrescentou: - Nunca poderei agradecer-lhes tudo isto.
        - Nem  preciso. No faz uma idia de como nos divertimos quando procurvamos aquilo que nos parecia conveniente. Garanto-lhe que no se nos deparam oportunidades 
destas com frequncia. Se uma de ns fica grvida,  uma autntica tragdia - Madame Agnes cobriu a boca com a mo. - Oh, desculpe!
        - Quero que saiba que este  um dos dias mais felizes da minha vida - afirmou Margaret, sorrindo.
        - Sentimo-nos lisonjeadas com a sua visita. Quanto a mim, vale mais que todas as mulheres desta cidade juntas. Malditas cadelas! Era capaz de as matar pela 
maneira como a tratam. E, se me permite que lhe diga, Jamie McGregor no passa de um imbecil - Madame Agnes sacudiu a cabea. - Homens! O mundo era maravilhoso se 
pudssemos viver sem eles. Ou talvez no fosse. Quem sabe?
        Entretanto, Margaret recompusera-se da emoo e segurou a mo da interlocutora entre as suas.
        - Nunca esquecerei isto. Um dia, quando meu filho tiver idade suficiente, hei-de dizer-lhe.
        - Parece-lhe conveniente? - articulou Madame Agnes, enrrugando a fronte.
        - Sem a mnima dvida.
        - Mandarei levar os presentes  penso - prometeu, acompanhando a rapariga  porta. - Felicidades.
        - Obrigada. Muitssimo obrigada.
        Conservou-se imvel por uns minutos, enquanto Margaret se afastava. Por fim, exalou um suspiro de resignao e chamou:
        - Ao trabalho, meninas! Vamos reabrir ao pblico. Uma hora mais tarde, a casa registrava a afluncia habitual.
























        Captulo VIII



        Chegara o momento de preparar a ratoeira. Durante os ltimos seis meses, Jamie McGregor dedicara-se  compra discreta das quotas dos associados de Van der 
Merwe nas suas vrias empresas, pelo que podia agora dominar as operaes. No entanto, a sua obsesso consistia em possuir os campos de diamantes do holands na 
Nambia. Considerava que os pagara centenas de vezes com o seu sangue e coragem, quase perdendo a vida ante as vicissitudes que sofrera. Utilizara os diamantes que 
ele e Banda tinham retirado de l para construir um imprio destinado a esmagar Salomon van der Merwe, tarefa que ainda no fora completada. Agora, achavam-se reunidas 
as condies para o fazer.
        Van der Merwe afundava-se cada vez mais em dvidas. Agora, ningum da cidade estava disposto a emprestar-lhe dinheiro,  exceo do banco que Jamie dirigia 
em segredo. Com efeito, o gerente deste ltimo recebera instrues bem definidas:
        - D a Salomon van der Merwe todo o dinheiro que ele pedir.
        Entretanto, a loja do holands raramente estava aberta. Ele habituara-se a beber desde manh cedo e,  tarde, dirigia-se ao bordel de Madame Agnes, onde 
pernoitava com frequncia.
        Certa manh, Margaret encontrava-se no talho  espera que a atendessem, quando lanou uma olhadela atravs da montra e viu o pai abandonar a casa de toleradas. 
Quase incapaz de reconhecer o homem acabrunhado que se arrastava pela rua, refletiu com amargura: "Fui eu quem o reduziu a este estado. Perdoa-me, meu Deus!"
        Salomon Van der Merwe no fazia a mnima idia do que lhe sucedia. Apenas sabia que a sua vida se desmoronava irremediavelmente, sem que contribusse para 
tal. O Criador escolhera-o, como outrora a Job, para pr  prova o fervor da sua f. No obstante, estava persuadido de que triunfaria dos inimigos. Necessitava 
apenas de um pouco de tempo... tempo e mais dinheiro. Arriscara como penhor o estabelecimento, as aes de seis pequenos campos de diamantes que possua e at o 
seu cavalo e carruagem. Por ltimo, restara apenas o campo de diamantes na Nambia, e no dia em que o apresentou como garantia adicional Jamie no descurou a oportunidade.
        - Rena todas as suas promissrias - indicou ao gerente do banco. - Conceda-lhe vinte e quatro horas para as satisfazer, sob pena de executar a hipoteca.
        - Mas ele no pode arranjar uma quantia to elevada nesse lapso de tempo...
        - Vinte e quatro horas.
        s quatro da tarde exatas do dia seguinte, o gerente do banco apresentou-se na loja, acompanhado de um representante da autoridade e de uma ordem judicial, 
para confiscar todos os bens de Salomon van der Merwe. Da janela do escritrio, do outro lado da rua, Jamie assistiu  expulso do holands do seu estabelecimento. 
O velho imobilizou-se no passeio, pestanejando ante os raios solares intensos, sem saber o que fazer ou a quem recorrer. Fora despojado de tudo. A vingana de Jamie 
completara-se. "Porque ser que no tenho a mnima sensao de triunfo?", perguntava-se este ltimo. Na realidade, sentia um vazio no seu ntimo. O homem que acabava 
de aniquilar destrura-o primeiro.
        Naquela noite, quando entrou no bordel de Madame Agnes, esta perguntou-lhe:
        - Sabe a ltima? Salomon van der Merwe fez saltar os miolos, h uma hora.
        O funeral realizou-se no cemitrio desolador e varrido pelo vento na periferia da cidade. Alm do pessoal da agncia e os coveiros, a cerimnia contava apenas 
com dois assistentes: Margaret e Jamie McGregor. A rapariga usava um vestido preto folgado para dissimular o ventre e apresentava-se plida e pouco saudvel, enquanto 
ele, elegante e empertigado, exibia uma atitude distante e indiferente. Encontravam-se em lados opostos da sepultura, observando a descida da urna de pinho para 
as entranhas da terra. Os torres embatiam nas paredes de madeira, e Margaret tinha a impresso de que o faziam ao ritmo de: "Rameira!.. Rameira!..."
        Dirigiu a vista para o outro lado da cova e o olhar cruzou-se com o de Jamie, frio e impessoal, como perante uma desconhecida. "Ests a, impvido, e s 
to culpado como eu. Ambos o matamos. Sou tua mulher, aos olhos de Deus, mas isso no impede que sejamos comparsas no mal." Tornou a baixar os olhos para a sepultura 
descoberta e no os desviou at que a derradeira pazada de terra cobriu a urna de pinho.
        - Repousa - murmurou. - Repousa...
        Quando voltou a erguer a cabea, Jamie desaparecera.
        Havia duas construes de madeira em Klipdrift que funcionavam como hospital, mas as condies sanitrias eram de tal ordem que o nmero de enfermos que 
morriam excedia de longe o dos que recuperavam a sade. Quando se aproximou a data prevista para o parto, Mrs. Owens mandou chamar uma parteira de cor, que recomendou:
        - Procure no se descontrolar, que a Natureza exercer a sua ao.
        A primeira contrao de dor fez acudir um sorriso aos lbios de Margaret. Preparava-se para trazer um filho ao mundo e teria um nome. Envidaria todos os 
esforos para que Jamie McGregor o reconhecesse. No sofreria pelos erros dos pais.
        O parto prolongou-se por vrias horas e, quando alguma hspede da penso se aproximava do quarto, Hannah, a parteira, apressava-se a afast-la.
        -  um acontecimento pessoal - explicou a Margaret. - Entre voc, Deus e o demnio que a envolveu nestes apuros.
        - Vai ser um rapaz? - sussurrou a rapariga, entre exclamaes abafadas.
        - Digo-lhe depois de examinar a "canalizao" do rebento - redarguiu a negra, limpando-lhe a transpirao da fronte. - Agora, faa fora para o expelir... 
Mais!
        As contraes comearam a tornar-se mais frequentes e a dor parecia empenhada em dilacerar o corpo da parturiente, que pensava, alarmada: "Alguma coisa est 
a correr mal!"
        - No pare! - gritou Hannah. De repente, deixou transparecer uma ponta de alarme. - Est torcido! No consigo faz-lo sair!
        Por entre uma espcie de neblina avermelhada, Margaret viu-a inclinar-se para a frente e aproximar as mos do tero, at que a dor se extinguiu e surgiu 
a sensao de que flutuava no espao, onde se via,  distncia, Jamie, que lhe acenava. "Estou aqui, querida. Vais dar-me um filho estupendo". Voltava para ela, 
pelo que j no o odiava. No fundo, o dio nunca fora real. Bruscamente, algum disse "Est quase", registrou-se uma espcie de rasgo no seu ntimo e a dor obrigou-a 
a soltar um grito.
        - Pronto! - exclamou Hannah. - J est a sair bem. No segundo imediato, Margaret notou o deslizar de um objeto mido entre as pernas e um grito de triunfo 
da parteira.
        - Bem-vindo a Klipdrift - proferiu esta ltima, erguendo o pequeno corpo nas mos. -  um rapaz.
        Recebeu o nome de Jamie.
        Ela sabia que a notcia do nascimento da criana no tardaria a chegar aos ouvidos de Jamie, e aguardava com ansiedade que este a procurasse ou mandasse 
chamar. No entanto, aps vrias semanas sem que tal acontecesse, decidiu mand-lo prevenir.
        Quando o mensageiro regressou, interrogou-o impacientemente:
        - Viste Mister McGregor?
        - Sim.
        - E transmitiste-lhe o recado?
        - Sim.
        - Que respondeu?
        O rapaz hesitou, embaraado, antes de informar:
        - Disse que no tinha nenhum filho.
        Ela fechou-se no quarto todo aquele dia e aquela noite, recusando-se a sair.
        - Teu pai est confuso neste momento, Jamie. Pensa que a tua me lhe armou uma cilada. Mas s filho dele, e quando te vir, h-de levar-nos para vivermos 
em sua casa e amar-nos muito. Vers, meu querido. Tudo se compor.
        De manh, quando Mrs. Owens bateu  porta, Margaret abriu-a, parecendo singularmente calma.
        - Como est, Maggie?
        - Bem, obrigada - murmurou, enquanto vestia o beb. - Vou levar Jamie a passear no seu carrinho.
        Este, oferecido por Madame Agnes e as suas pequenas, era, sem dvida, confortvel, e nem faltava o pra-sol de proteo contra os implacveis raios solares.
        Quando o impelia ao longo dos estreitos passeios de Loop Street, um ou outro homem detinha-se para sorrir  criana, mas as mulheres evitavam-na, chegando 
a cruzar a rua para no encararem com Margaret.
        Todavia, ela no se preocupava com isso, pois s lhe interessava uma pessoa. Sempre que fazia bom tempo, saa com o filho. Transcorrida uma semana sem que 
avistasse Jamie, concluiu que ele se lhe esquivava deliberadamente. "Pois bem. J que no vem ver o filho, procur-lo-emos", acabou por decidir.
        Na manh seguinte, anunciou a Mrs. Owens:
        - Vou efetuar uma pequena viagem. Espero regressar dentro de uma semana.
        - O beb ainda  muito pequeno para viajar, Maggie.
        - Ele fica na cidade.
        - Aqui connosco?
        - No.
        Jamie McGregor mandara construir a sua moradia numa pequena elevao sobranceira a Klipdrift. Tratava-se de um bangal com duas alas espaosas anexas ao 
corpo principal, com o qual comunicavam por meio de amplas varandas. O conjunto era rodeado por relvados verdejantes sulcados de rvores e um jardim em que predominavam 
as rosas. Nas traseiras, havia o alpendre da carruagem e alojamentos separados para o pessoal. As atividades domsticas achavam-se a cargo de Eugnia Talley, uma 
impressionante viva de meia-idade, cujos seis filhos estudavam em Inglaterra.
        Margaret apresentou-se na moradia, com o filho nos braos, s dez horas da manh, altura do dia em que sabia que Jamie se encontrava no escritrio. A governanta 
abriu a porta e arregalou os olhos de surpresa, incrementada pelo fato de estar ao corrente de quem se tratava, como acontecia com toda a gente num raio de uma centena 
de quilmetros.
        - Lamento, mas Mister McGregor no est - declarou, fazendo meno de fechar.
        - No vim para o ver - replicou Margaret, opondo-se. - Trago-lhe o filho.
        - Desconheo tudo o que se refere ao assunto. Aconselho-a...
        - Vou ausentar-me por uma semana. Nessa altura, lev-lo-ei - estendeu o beb  mulher. - Chama-se Jamie.
        - No o pode deixar aqui! - o rosto da governanta assumiu uma expresso horrorizada. - Mister McGregor despedia-me...
        - Pode optar - interrompeu Margaret. - Ou o aceita ou deixo-o junto da porta. Duvido que ele gostasse da segunda alternativa.
        E, sem mais uma palavra, depositou o pequeno fardo nos braos da outra e afastou-se.
        - Espere! No pode!... Venha c!...
        Todavia, nem sequer se voltou, enquanto a governanta comeava a traar conjecturas crescentemente alarmantes acerca da reao de Jamie McGregor quando chegasse.

        Na realidade, nunca o vira em semelhante estado.
        - Como pde ser to estpida? - vociferou ele, ao inteirar-se da situao. - Bastava bater-lhe com a porta na cara!
        - Ela no me deu oportunidade de o fazer, Mister McGregor.
        - No quero o seu filho em minha casa! - Jamie comeou a percorrer a sala em agitado vaivm. Por fim, estacou diante da apavorada mulher e advertiu: - Merecia 
que a despedisse.
        - Prometeu vir busc-lo dentro de uma semana.
        - Nem que fosse dentro de cinco minutos! Livre-se dessa criana imediatamente!
        - Como sugere que o faa? - inquiriu ela, com um assomo de dignidade.
        - H-de haver algum lugar em que o possa deixar, na cidade.
        - Onde?
        - Sei l!
        Baixou os olhos para o beb que segurava nos braos e principiara a chorar em resultado dos gritos de Jamie.
        - No h orfanatos em Klipdrift - anunciou, embalando-o, sem contudo lograr pr termo ao choro. - Algum tem de tomar conta dele.
        - Maldio! Est bem. J que o aceitou to generosamente, confio-lho.
        - Perfeitamente.
        - E faa-o calar. Entendamo-nos bem numa coisa, Mis-tress Talley. No o quero ver nem ouvir. E quando a me o vier buscar, no a receberei.
        A governanta aquiesceu com uma inclinao de cabea e retirou-se, enquanto ele se refugiava na biblioteca, para saborear um charuto e um clice de brande. 
"Que estpida! Pensa que o fato de ver o beb me enternece o corao e obriga a procur-la para lhe confessar o meu amor e propor casamento". Na realidade, nem se 
preocupara em o contemplar. No queria nada de comum com a criana. No a concebera por amor ou mesmo desejo. Tratava-se do produto de uma das armas que empregara 
na sua vingana. Jamais esqueceria a expresso de Salomon van der Merwe, quando lhe anunciara que Margaret estava grvida. Fora o incio de uma srie de acontecimentos 
que terminara com a descida da urna de pinho na sepultura. Tinha de procurar Banda para lhe comunicar que a sua misso chegara ao fim.
        Assolava-o, porm, uma sensao de vazio. "Tenho de fixar novos objetivos." J se podia considerar abastado para alm das aspiraes mais ambiciosas. Adquirira 
milhares de hectares de terreno mineral, esperanado em encontrar novas jazidas de diamantes, e acabara por possuir ouro, platina e meia dzia de outros metais raros. 
O seu banco detinha hipotecas de grande parte das propriedades de Klipdrift e as terras que lhe pertenciam estendiam-se da Nambia  Cidade do Cabo. Isso infundia-lhe 
satisfao, mas no bastava. Convidara os pais a reunirem-se-lhe, mas eles no desejavam abandonar a Esccia. Os irmos e a irm tinham casado. Enviava quantidades 
substanciais  famlia, o que lhe proporcionava prazer; contudo, a sua vida constitua uma sucesso de dias montonos e inspidos. Alguns anos antes, consistira 
em altos e baixos excitantes. Sentira-se vivo. Vivia plenamente, quando ele e Banda se aventuravam na jangada atravs dos recifes do Sperrgebiet ou rastejavam sobre 
as minas disseminadas no areal do deserto. Agora, afigurava-se-lhe que no experimentava as emoes da vida desde longa data, embora se recusasse a admitir a si 
prprio que se sentia s.
        Voltou a estender a mo para a garrafa e descobriu que estava vazia. Ou bebia mais do que pensava ou a governanta negligenciava as suas obrigaes. Por fim, 
levantou-se e dirigiu-se  copa, onde se guardavam as bebidas. No momento em que se preparava para pegar numa garrafa, detectou o choro do recm-nascido. "Mrs. Talley 
devia conserv-lo no seu quarto, perto da cozinha." Tudo indicava que cumprira as suas instrues  letra, pois ele no vira nem ouvira a criana nos dois dias transcorridos 
desde que se lhe introduzira em casa. Naquele instante, detectou a voz da governanta no tom caracterstico das mulheres para se dirigirem aos bebs.
        - s muito bonitinho, sabias - articulava ela. - Podes mesmo considerar-te um anjo.
        Jamie aproximou-se da porta aberta do quarto e espreitou. A mulher conseguira obter um bero algures, no qual a criana se achava deitada, rodeando um dos 
dedos dela com a pequena mo.
        - Tens muita fora, Jamie. Hs-de ser um... - Mrs. Talley interrompeu-se, surpreendida, ao aperceber-se da presena do patro  entrada. - Estava... Desejava 
alguma coisa, Mister McGregor?
        - No - ele aproximou-se do bero. - Senti curiosidade em ver o que se passava aqui.
        E contemplou o filho pela primeira vez. Era maior do que supusera e bem constitudo, alm do que, pormenor embaraoso, dir-se-ia sorrir-lhe.
        - Queira desculpar, Mister McGregor, mas  um beb encantador. E saudvel. Estenda-lhe o dedo e ver que o segura com fora.
        No entanto, ele rodou nos calcanhares e afastou-se.
        Jamie McGregor dispunha de mais de meia centena de empregados dispersos pelas suas vrias empresas e no havia um nico, independentemente do cargo que desempenhava, 
que ignorasse como a Kruger-Brent Ltd. adquirira o nome. Ele admitira recentemente David Blackwell, filho de dezesseis anos de um dos capatazes, um americano do 
Orgo que partira para a frica do Sul  procura de diamantes. Quando o dinheiro se lhe esgotara, Jamie contratara-o para se ocupar de uma das minas. O filho trabalhou 
na companhia em regime eventual, durante um Vero, e ele considerou-o to competente que lhe ofereceu um lugar permanente. O jovem David Blackwell era inteligente, 
atraente e tinha iniciativa. Alm disso, Jamie sabia que podia guardar um segredo, motivo pelo qual o escolheu para aquela misso especial.
        - Precisava que fosse  penso de Mistress Owens, onde vive uma mulher chamada Margaret van der Merwe.
        - Muito bem.
        Se o rapaz estava familiarizado com o seu nome ou suas circunstncias, no o deixou transparecer.
        - O recado destina-se-lhe pessoalmente. Portanto, no o transmita a intermedirios. Diga-lhe que venha buscar o filho hoje mesmo.
        David Blackwell reapareceu meia hora mais tarde, para comunicar.
        - No me foi possvel cumprir as suas instrues.
        - Porqu? - inquiriu Jamie, pondo-se de p abruptamente. - Eram de uma simplicidade quase infantil.
        - Miss van der Merwe no se encontrava l.
        - Ento, localize-a.
        - Partiu de Klipdrift h dois dias e s deve regressar passada uma semana. Se deseja que efetue diligncias mais profundas...
        - No  necessrio - era o que menos convinha a Jamie. - Est bem. Pode retirar-se.
        "Diabos levem a mulher! Quando voltar, ter uma surpresa  sua espera. H-de ser-lhe devolvido o filho!"
        Naquela noite, Jamie jantou s, em casa, e tomava o brande na biblioteca quando a governanta o procurou para discutir um problema domstico. Todavia, a meio 
de uma frase, fez uma pausa para escutar e disse.
        - Queira desculpar, Mister McGregor, mas Jamie est a chorar - e afastou-se apressadamente.
        Ele pousou a garrafa de brande com um gesto brusco. "Raio de beb! E ela teve o arrojo de lhe chamar Jamie! No parece um Jamie. Na realidade, no parece 
coisa nenhuma."
        Mrs. Talley reapareceu transcorridos dez minutos, e tratou de a advertir:
        - Julgo conveniente recordar-lhe que trabalha para mim e no para aquele bastardo. Ficamos entendidos?
        - Decerto, Mister McGregor.
        - Quanto mais depressa o levarem desta casa, melhor para todos.
        - Muito bem - articulou ela, comprimindo os lbios. - Deseja mais alguma coisa?
        - De momento, no - mas vendo que a mulher se preparava para sair, Jamie acrescentou: - A propsito...
        - Sim?
        - Disse que ele estava a chorar. Adoeceu?
        - No. Precisava que lhe mudassem as fraldas.
        - Ah! - tossiu, com uma ponta de embarao. - Nada mais, Mistress Talley.
        Todavia, o embarao transformar-se-ia em fria se soubesse que o pessoal trocava impresses com insistncia a respeito dele e do seu filho. Concordavam unanimemente 
que o patro no procedia bem, mas reconheciam que a simples aluso ao fato na sua presena representaria o despedimento imediato, pois Jamie McGregor no aceitava 
com simpatia os conselhos dos outros.
        Na tarde seguinte, teve uma reunio de negcios que se prolongou pela noite, Efetuara um investimento numa nova via-frrea. Embora de pequena envergadura 
- das minas do deserto da Nambia a De Aar, estabelecendo ligao com a linha Cidade do Cabo-Kimberley -, passaria a ser muito menos dispendioso transportar os seus 
diamantes e o ouro para o porto. O primeiro caminho-de-ferro da Cidade do Cabo fora inaugurado em 1860, de Dunbar ao Promontrio, e desde ento haviam surgido novas 
linhas da Cidade do Cabo para Wellington. A via-frrea constituiria o sistema circulatrio de ao que permitiria o movimento de mercadorias e pessoas atravs do 
corao da frica do Sul, e Jamie tencionava tomar parte ativa no progresso. Isso representava apenas o comeo do seu plano. "Depois, navios. A minha frota mercante 
levar os minerais atravs do oceano!"
        Chegou a casa depois da meia-noite e foi se deitar imediatamente. Comeava a mergulhar no sono, quando julgou ouvir um grito. Soergueu-se de modo abrupto 
e escutou atentamente, mas o som no se repetiu. Teria sido o beb? A queda do bero provocaria algo do gnero. Jamie sabia que a governanta no acordava com facilidade, 
e seria lamentvel que acontecesse alguma coisa  criana durante a permanncia em sua casa. Poderiam mesmo responsabiliz-lo. "Diabos levem a mulher!"
        Com uma imprecao entre dentes, enfiou o roupo e os chinelos e atravessou a casa em direo ao quarto de Mrs. Talley. Uma vez junto da porta fechada, apurou 
os ouvidos, sem resultado. Por ltimo, estendeu a mo para o puxador e f-lo girar. A governanta dormia profundamente, quase invisvel sob os cobertores, roncando, 
pelo que ele se acercou do bero. O beb encontrava-se deitado de costas, com os olhos bem abertos. Na verdade, havia certa semelhana! A boca e o queixo eram como 
os dele. Ao mesmo tempo, agitava as mos no ar e parecia sorrir a Jamie. "Poucos bebs estariam to sossegados. Sim,  mesmo um McGregor!"
        Com uma ponta de hesitao, Jamie estendeu um dedo e o beb apressou-se a segur-lo com ambas as mos. Era forte como um touro! Naquele instante, o rosto 
da criana assumiu uma expresso tensa e ele notou um odor acre.
        - Mistress Talley!
        - Que... que foi? - balbuciou ela, alarmada, apoiando-se no cotovelo.
        - O beb necessita de ateno. Tenho de ser eu a fazer tudo, nesta casa?
        E Jamie McGregor afastou-se com passos firmes.
        - Percebe alguma coisa de bebs, David?
        - Em que sentido? - perguntou David Blackwell.
        - Com o que gostam de brincar e coisas do gnero.
        - Julgo que gostam de guizos.
        - Compre meia dzia.
        - Muito bem.
        Nada de perguntas desnecessrias. Jamie gostava de semelhantes atitudes e estava convencido de que o jovem americano tinha um futuro prometedor  sua frente.
        Naquela noite, quando Jamie chegou a casa, Mrs. Talley apressou-se a procur-lo.
        - Queria pedir desculpa por aquilo de ontem, Mister McGregor. No compreendo como no acordei. O beb deve ter gritado horrivelmente para que o ouvisse do 
seu quarto.
        - No se preocupe com isso - replicou Jamie, generosamente. - O essencial  que um de ns se apercebeu - estendeu o embrulho  governanta. - So guizos para 
ele se entreter. No se deve divertir muito, prisioneiro no bero todo o dia.
        - No est prisioneiro. Levo-o a sair.
        - Onde?
        - Ao jardim. - Enrugou a fronte por um momento e observou:
        - Ontem  noite, no me pareceu com bom aspecto. No covinha nada que adoecesse antes de a me o vir buscar.
        - Decerto que no.
        - Talvez no fosse m ideia eu dar-lhe outra olhadela.
        - Quer que o traga?
        - Se no se importa, Mistress Talley!
        A mulher afastou-se, para reaparecer decorridos uns minutos, com o beb nos braos.
        - No lhe noto nada de anormal.
        - Bem,  possvel que me enganasse. D-mo c. Jamie pegou no filho pela primeira vez e a sensao que o invadiu colheu-o totalmente desprevenido. Dir-se-ia 
que aguardava aquele momento desde longa data, sem se aperceber conscientemente do fato. Era carne da sua carne que tinha nos braos, o seu filho, Jamie McGregor 
Jr. Para que servia construir um imprio, uma dinastia, possuir diamantes, ouro e caminhos-de-ferro, se no existia algum a quem transmiti-los? "Tenho sido um insensato!" 
S agora se inteirava daquilo que lhe faltava. O dio cegara-o ao ponto de ignorar os verdadeiros valores da vida. Ao contemplar o minsculo rosto e as mos delicadas 
que seguravam um guizo azul, sentiu dissipar-se uma dureza que at ento se lhe alojara no mago da alma.
        - Leve o bero de Jamie para o meu quarto, Mistress Talley.
        Trs dias mais tarde, quando Margaret se apresentou  entrada da moradia de Jamie, a governanta anunciou:
        - Mister McGregor encontra-se no escritrio da firma, mas pediu-me que o mandasse chamar quando viesse reclamar o beb. Deseja falar-lhe.
        A rapariga aguardou na sala, com o pequeno Jamie nos braos, do qual sentira saudades quase excruciantes. Durante aqueles oito dias, por vrias vezes estivera 
prestes a perder a coragem e a regressar a Klipdrift, receando que tivesse acontecido alguma coisa ao filho, vtima de uma doena grave ou acidente. No obstante, 
conseguira resistir e o seu plano resultara. Jamie desejava falar-lhe! Tudo se harmonizaria. Passariam a viver juntos os trs.
        No instante em que ele apareceu, Margaret voltou a experimentar o acesso de emoo familiar. "Amo-o tanto, meu Deus!"
        - Ol, Maggie.
        - Ol, Jamie - murmurou, com um sorriso radioso de felicidade.
        - Quero o meu filho.
        -  natural - articulou, sentindo o corao cantar de alegria. - Nunca duvidei disso.
        - Providenciarei para que receba uma educao esmerada. Desfrutar de todas as vantagens que lhe posso proporcionar, e, naturalmente, tomarei as medidas 
necessrias para que no te falte nada.
        - No... no compreendo - balbuciou, perplexa.
        - Disse que quero o meu filho.
        - Pensei... isto ... que tu e eu...
        - No. S me interessa a criana.
        - Muito bem - acudiu-lhe clera repentina. - No permitirei que me roubes.
        Jamie contemplou-a em silncio por um momento e tomou uma resoluo.
        - Nesse caso, optaremos por uma situao de compromisso. Podes ficar aqui com Jamie. Sers a sua... preceptora - apercebendo-se da expresso irredutvel 
da interlocutora, inquiriu: - Que pretendes, afinal?
        - Que o meu filho tenha um nome - declarou Margaret, em tom de desafio. - O nome do pai.
        - De acordo. Adoto-o.
        - Adotas o meu beb? De modo algum. No contes com isso. Fazes-me pena. O grande Jamie McGregor, com todo o seu dinheiro e poder, no fundo no tem nada. 
s merecedor de compaixo.
        Ele ficou como que petrificado, enquanto a rapariga rodava nos calcanhares e abandonava a moradia, com o filho nos braos.
        Na manh seguinte, Margaret iniciou os preparativos para partir rumo  Amrica.
        - A fuga no resolve nada - observou Mrs. Owens.
        - No fujo. Limito-me a seguir para um lugar onde eu e o meu filho possamos iniciar vida nova.
        Margaret decidira que no podia sujeitar-se e ao beb  humilhao que Jamie McGregor lhes oferecia.
        - Quando tencionas partir?
        - O mais depressa possvel. Tomaremos a diligncia de Worcester e depois o comboio para a Cidade do Cabo. Economizei dinheiro suficiente para ir at Nova 
Iorque.
        -  uma viagem longa.
        - A distncia no me assusta. No chamam  Amrica a terra das grandes oportunidades?  precisamente do que necessitamos.
        Jamie sempre se orgulhara de permanecer calmo nas situaes difceis, mas agora gritava com todos. O escritrio da firma constitua um fulcro de rugidos 
quase permanentes. Nada do que o pessoal fazia lhe agradava. Vociferava e protestava contra tudo, incapaz de se dominar. A breve conversa com Margaret no lhe abandonava 
o pensamento. "Maldita mulher!" Era de prever que tentaria for-lo a despos-la. Revelava-se ardilosa como o pai. Ele no procedera como a situao exigia. Dissera 
que tomaria as medidas necessrias para que no lhe faltasse nada, mas no especificara. Devia ter-lhe oferecido dinheiro. Mil libras... dez mil... mais, se fosse 
caso disso.
        Por fim, mandou chamar David Blackwell e informou:
        - Vou confiar-lhe uma misso delicada.
        - Perfeitamente.
        - Quero que procure Miss Van der Merwe e lhe oferea vinte mil libras em meu nome. Ela saber o que pretendo em troca - Jamie preencheu um cheque, pois h 
muito que aprendera a vantagem de negociar com dinheiro  vista. - Entregue-lhe isto.
        - Muito bem.
        O rapaz regressou transcorridos quinze minutos e restituiu o cheque ao patro, agora rasgado em dois.
        - Obrigado, David - proferiu Jamie, sentindo um calor desagradvel nas faces.
Era bvio que Margaret desejava mais dinheiro. Pois bem, dar-lho-ia. No entanto, desta vez ele prprio se ocuparia do assunto.
        Naquela tarde, dirigiu-se  penso de Mrs. Owens e anunciou:
        - Quero falar com Miss Van der Merwe.
        - No  possvel. Vai a caminho da Amrica.
        - Que me diz? - sentiu uma impresso pungente, como se acabassem de o socar no estmago. - Quando partiu?
        - Hoje ao meio-dia, na diligncia de Worcester, com o filho.
        O comboio na estao de Worcester achava-se superlotado, com os assentos e corredores repletos de passageiros ruidosos que se destinavam  Cidade do Cabo. 
Havia comerciantes com as esposas, caixeiros-viajantes, pesquisadores, cafres, soldados e marinheiros que regressavam s suas unidades aps perodos de licena. 
Muitos viajavam de comboio pela primeira vez, o que constitua mais um motivo para exteriorizarem a euforia. Margaret conseguira obter lugar junto de uma janela, 
onde o pequeno Jamie no corria o perigo de ser esmagado pela multido. Sabia que teria de enfrentar privaes e mesmo perigos antes de obter uma situao estvel. 
Onde quer que se instalasse, seria uma me solteira, um ultraje  sociedade. Apesar disso, encontraria um meio de assegurar uma vida decente ao filho. Por fim, ouviu 
o empregado da estao anunciar a partida e, quase no mesmo instante, ergueu os olhos e deparou-se-lhe Jamie no compartimento.
        - Qual  a tua bagagem? - perguntou em tom peremptrio. - Vais desembarcar imediatamente.
        "Continua convencido de que me pode comprar...", refletiu ela, que redarguiu:
        - Quanto me ofereces, desta vez?
        Ele contemplou o filho, que dormia tranquilamente nos braos da me, e articulou com serenidade:
        - Ofereo-te o casamento.






















        Captulo IX



        Casaram trs dias depois, numa cerimnia rpida e ntima, tendo David Blackwell como nica testemunha.
        Durante a execuo das formalidades, Jamie McGregor sentia-se dominado por emoes estranhas. Habituara-se a dominar e manipular os outros, mas desta vez 
o manipulado fora ele. Lanou um olhar fugaz a Margaret, a seu lado, quase bela, e recordou a sua paixo e abandono. No entanto, tratava-se apenas de um fato do 
passado, nada mais, sem ardor nem emoo. Ele utilizara-a como um instrumento de vingana e ela proporcionara-lhe um herdeiro.
        Por ltimo, o sacerdote proferiu:
        - Declaro-os marido e mulher - voltou-se para Jamie. - Pode beijar a noiva.
        Ele inclinou-se e pousou levemente os lbios na face de Margaret, aps o que murmurou:
        - Vamos para casa.
        Uma vez na moradia, conduziu-a a um quarto de uma das alas e explicou:
        - Os teus aposentos.
        - Compreendo.
        - Admitirei outra governanta e Mistress Talley ocupar-se- de Jamie. Se necessitares de alguma coisa, entende-te com David Blackwell.
        Ela vacilou ligeiramente, como se acabasse de ser esbofeteada. Tratava-a como uma criada. Todavia, isso carecia de importncia. "Meu filho tem um nome. No 
ambiciono nada mais."
        Jamie no jantou em casa. Margaret esperou demoradamente, at que se sentou  mesa, s. Naquela noite, conservou-se acordada na cama, consciente de todos 
os sons, at que, s quatro da madrugada, acabou por adormecer. O seu ltimo pensamento consistiu em especular acerca de qual das pequenas de Madame Agnes teria 
sido preferida por Jamie.
        Se as relaes dela com o marido no se alteraram aps o casamento, a atitude dos habitantes de Klipdrift sofreu uma transformao radical. De um dia para 
o outro, Margaret passou de pria a rbitro social. A maioria da populao dependia, de uma maneira ou de outra, de Jamie McGregor e da Kruger-Brent, Ltd. Por conseguinte, 
foi decidido por unanimidade que, se ele aceitara Margaret van der Merwe, o exemplo devia ser seguido. Agora, cada vez que ela levava o filho a passear, deparavam-se-lhe 
sorrisos e saudaes cordiais. Por outro lado, os convites afluam com abundncia - para participar em reunies de beneficincia e incorporar-se em comisses cvicas. 
Quando mudava de penteado, dezenas de mulheres se apressavam a imit-la. Se comprava um vestido amarelo, essa cor adquiria preferncia geral imediata. Ela, porm, 
encarava as adulaes do mesmo modo que resistira  hostilidade: com dignidade.
        Jamie aparecia em casa unicamente para passar o tempo com o filho, enquanto a sua atitude para com Margaret se mantinha distante e polida. Todas as manhs, 
ao pequeno almoo, ela desempenhava as funes de esposa feliz perante o pessoal domstico, apesar da indiferena glacial do homem sentado  sua frente. Todavia, 
quando ele saa, recolhia ao quarto alagada em transpirao, furiosa consigo mesma. Que acontecera ao seu amor-prprio? No fundo, sabia que continuava a amar Jamie. 
"Am-lo-ei sempre, e que Deus me ajude."
        Jamie encontrava-se na Cidade do Cabo em visita de negcios, quando, ao sair do Royal Hotel, um cocheiro negro ofereceu:
        - Carruagem, senhor?
        - No, obrigado. Irei a p.
        - Banda pensava que aceitaria o convite.
        - Banda? - ecoou Jamie, detendo-se e fitando o homem com intensidade.
        - Exatamente, Mister McGregor.
        Decidiu subir para a carruagem, que o cocheiro ps em movimento com prontido, e reclinou-se no assento, evocando Banda, a sua coragem e amizade. Tentara 
localiz-lo por vrias vezes nos ltimos dois anos, sem resultado, e agora acudia ao seu encontro.
        O negro conduziu a viatura na direo das docas, e Jamie compreendeu imediatamente aonde se dirigiam. Quinze minutos depois, detiveram-se diante de um armazm 
deserto, onde ele e Banda outrora haviam planejado a sua aventura na Nambia. "ramos uns jovens intrpidos", reconheceu, com uma ponta de saudade, enquanto se apeava 
e aproximava da entrada. Banda encontrava-se  sua espera. Parecia exatamente o mesmo, com a diferena de que se achava vestido de forma irrepreensvel.
        Conservaram-se imveis por um momento, sorrindo, at que se abraaram.
        - Tens um ar prspero - observou Jamie.
        - A vida no me tem corrido mal - admitiu o outro. - Comprei aquela herdade que tinha mencionado, casei, nasceram-nos dois filhos e cultivo trigo e avestruzes.
        - Avestruzes?
        - As penas do muito dinheiro.
        - Efetuei numerosas diligncias para te encontrar.
        - Tenho estado muito ocupado - o negro assumiu um tom confidencial. - Queria preveni-lo de uma coisa. Vai enfrentar problemas.
        - De que gnero?
        - O capataz do campo da Nambia, Hans Zimmerman, no  boa rs. Os operrios odeiam-no e falam em abandonar o trabalho. Se o fizerem, os guardas tentaro 
impedi-los e haver tumultos - Banda fez uma pausa, sem desviar os olhos do interlocutor. - Lembra-se de me referir a John Tengo Javabu?
        - Sim, um dirigente poltico. Li algumas coisas a seu respeito. Parece que anda a levantar uma donderstorm.
        - Sou um dos seus seguidores.
        - Compreendo - Jamie inclinou a cabea e prometeu: - Verei o que  possvel fazer.
        - timo. Tornou-se um homem poderoso. Congratulo-me com isso.
        - Obrigado, Banda.
        - E tem um belo rapaz.
        - Como sabe? - inquiriu, surpreendido.
        - Gosto de estar ao corrente da vida dos meus amigos - o negro estendeu a mo. - Tenho de comparecer a uma reunio. Direi aos meus correligionrios que a 
situao ser retificada na Nambia.
        - Sim, providenciarei nesse sentido sem demora - os dois homens despediram-se com cordialidade. - Quando voltarei a ver-te?
        - Irei aparecendo. No se livra de mim com facilidade - declarou Banda, sorrindo.
        Quando regressou a Klipdrift, Jamie mandou chamar David Blackwell e perguntou:
        - Tem havido problemas no campo da Nambia?
        - No, Mister McGregor. No entanto, constou-me que talvez haja em breve.
        - O capataz de l  Hans Zimmerman. Averigue se maltrata os operrios e, em caso afirmativo, ponha cobro a isso. Trate do assunto pessoalmente.
        - Partirei de manh.
        Quando chegou ao campo de diamantes da Nambia, David dedicou duas horas a troca de impresses com os guardas e operrios e o que apurou enfureceu-o. Por 
fim, inteirado do que lhe interessava, procurou Hans Zimmerman.
        O capataz era um indivduo gigantesco que decerto no pesava menos de cento e vinte quilos, com expresso porcina e olhar congestionado. Por outro lado, 
tratava-se de um dos funcionrios mais eficientes da Kruger-Brent, Ltd.
        Quando David entrou no seu gabinete, Zimmerman sentava-se atrs da secretria, que parecia minscula em comparao com o seu arcabouo.
        - Tenho muito gosto em v-lo, Mister Blackwell. Devia ter-me prevenido da sua vinda - observou, embora o recm-chegado estivesse convencido de que o haviam 
prevenido. - Usque?
        - No, obrigado.
        - Em que lhe posso ser til? - o capataz reclinou-se na cadeira rotativa. - No extramos diamantes em quantidade suficiente para satisfazer o patro? - 
ningum ignorava que a produo do campo da Nambia era excelente. - Nenhum dos meus colegas obtm resultados to avultados dos seus cafres.
        - Recebemos queixas acerca das condies que vigoram aqui.
        - Queixas de que espcie? - a expresso de Zimmerman toldou-se.
        - O pessoal  maltratado e...
        - So cafres! - ps-se de p de um salto, com agilidade surpreendente. - Vocs passam a vida a polir os fundos das cadeiras com o rabo e...
        - Escute - atalhou David. - No h...
        - Escute voc! Produzo mais diamantes que ningum, e por uma razo de peso. Insuflo o temor a Deus nesses bastardos.
        - Nas outras minas, pagamos cinquenta e nove xelins e alimentao, enquanto voc lhes d apenas cinquenta.
        - Critica-me porque reduzo as despesas? A nica coisa que conta  o lucro.
        - Jamie McGregor no concorda. Aumente os salrios.
        - Como queira - Zimmerman assumiu uma expresso compungida. - O dinheiro  dele.
        - Ouvi dizer que o chicote desenvolve grande atividade.
        - As chicotadas no lhes doem. Tm a pele muito dura. S servem para os assustar.
        - Nesse caso, j matou vrios de susto.
        - H muitos mais donde estes vieram - alegou, com um encolher de ombros.
        " um animal sanguinrio e perigoso", refletiu David, que cravou o olhar no gigante e advertiu:
        - Se houver mais problemas do gnero, ser substitudo. Habitue-se a tratar os seus homens como seres humanos. Os castigos corporais devem ser suspensos 
imediatamente. Inspecionei os alojamentos e considero-os autnticas pocilgas. Mande limp-los.
        - Mais alguma coisa? - articulou o capataz, esforando-se por dominar a clera.
        - Sim. Voltarei dentro de trs meses. Se o que ento vir no me agradar, ter de procurar trabalho noutra companhia. Bom dia - e, rodando nos calcanhares, 
David encaminhou-se para a porta.
        Hans Zimmerman conservou-se imvel por vrios minutos, assolado por fria quase indomvel. Os imbecis no passam de uitlanders. Ele era ber,  semelhana 
do pai. A terra pertencia-lhes, e Deus colocara os negros nela para os servir. Se tivesse em mente que fossem tratados como seres humanos, no tornaria a sua pele 
escura. Jamie McGregor no compreendia isso. Todavia, que se podia esperar de um uitlander, um amigo dos nativos? O capataz reconheceu que necessitava de usar de 
maior prudncia, no futuro. No obstante, mostrar-lhes-ia quem mandava na Nambia.
        A Kruger-Brent, Ltd., expandia-se e Jamie McGregor era forado a ausentar-se com frequncia. Entretanto, adquirira uma fbrica de papel no Canad e um estaleiro 
na Austrlia. Quando se encontrava em casa, passava todo o tempo com o filho, que cada vez se parecia mais com ele. Jamie sentia um orgulho desmedido e desejava 
levar a criana nas suas longas viagens, mas Margaret opunha-se.
        -  muito pequeno para viajar. Quando for mais crescido, poder acompanhar-te.
        Quase sem que ele se desse conta, o filho completou o primeiro ano de vida e depois o segundo, o que o assombrava pela rapidez com que o tempo se escoava. 
Decorria ento o ano de 1887.
        Contudo, para Margaret, os dias sucediam-se com lentido. Uma vez por semana, o marido convidava amigos para jantar e ela fazia as honras da casa. Os homens 
consideravam-na simptica e inteligente e sentiam prazer com as conversas que travavam. Sabia que alguns a achavam particularmente atraente, mas abstinham-se de 
o deixar transparecer de forma bvia, porque se tratava da esposa de Jamie McGregor.
        Quando se encontravam ss, Margaret perguntava:
        - O sero correu-te bem?
        E ele respondia invariavelmente:
        - O melhor possvel. Boa noite!
        E afastava-se em direo ao quarto do filho, para se certificar de que estava bem. Momentos depois, ouvia-se a porta da rua bater, indicando que acabava 
de sair.
Noite aps noite, Margaret McGregor permanecia deitada na cama entregue a reflexes sobre a sua vida. No ignorava que as outras mulheres a invejavam, o que lhe 
contraa o corao, consciente do pouco que havia para invejar. Vivia uma farsa com um marido que a tratava pior do que a um estranho. Se ao menos reparasse nela! 
Perguntava a si mesma como reagiria se, uma manh, ao pequeno-almoo, pegasse no prato que continha flocos de aveia importados especialmente da Esccia e lhe vertesse 
na estpida cabea. No lhe era difcil imaginar a expresso de assombro, o que a obrigou a soltar uma risada em surdina que se converteu num soluo. "No quero 
continuar a am-lo. No quero. Hei-de pr termo a isto, de uma maneira ou de outra, antes que me destrua..."
        Em 1890, Klipdrift correspondia s previses de Jamie. Ao longo dos sete anos da sua permanncia, convertera-se numa trepidante boom-town  qual afluam 
pesquisadores de todos os recantos do mundo. Era a velha histria. Chegavam na diligncia, em transportes de carga e mesmo a p, acompanhados apenas pelos andrajos 
que vestiam. Necessitavam de comida, equipamento, alojamento e dinheiro para o sustento, e Jamie McGregor estava sempre pronto a auxili-los. Tinha aes de dezenas 
de minas de diamantes e ouro em laborao, e o seu nome e reputao aumentavam de importncia. Certa manh, recebeu a visita de um advogado da De Beers, gigantesco 
grupo que controlava as vastas minas de diamantes de Kimberley.
        - Em que o posso servir? - perguntou Jamie.
        - Incumbiram-me de lhe apresentar uma proposta, Mister McGregor. A De Beers gostava de adquirir a sua companhia. Indique o seu preo.
        Era um momento culminante, e ele sorriu antes de replicar:
        - Indique voc o seu!
        David Blackwell tornava-se cada vez mais importante para Jamie, que via no jovem americano a imagem daquilo que ele prprio fora. O rapaz era honesto, inteligente 
e leal, pelo que o tornou sucessivamente seu secretrio, consultor pessoal e, por ltimo, quando David completou vinte e sete anos, diretor-geral.
        Quanto a este, considerava Jamie McGregor um segundo pai. Nos cinco anos de permanncia na Kruger-Brent International, habituara-se a admir-lo mais do que 
a qualquer outro homem que at ento conhecera. Achava-se ao corrente do problema entre Jamie e Margaret e deplorava-o profundamente, porque estimava ambos. "Mas 
no  de minha conta", reconhecia. "A minha obrigao consiste em auxiliar Jamie em tudo o que puder."
        Jamie consagrava cada vez mais tempo ao filho, que tinha agora cinco anos, e, na primeira vez que o levou a visitar as minas, o garoto no falou noutra coisa 
durante uma semana. Ausentavam-se para acampar e dormiam numa tenda sob as estrelas. Jamie estava habituado aos cus da Esccia, onde as estrelas conheciam os seus 
lugares apropriados no firmamento. Na frica do Sul, porm, as constelaes eram confusas. Em Janeiro, Canopo brilhava com intensidade sobre a cabea do observador, 
ao passo que em Maio era o Cruzeiro do Sul que se situava perto do znite. Em Junho, estao invernosa no Hemisfrio Sul, Escorpio constitua a glria da abbada 
celeste. De qualquer modo, agradava-lhe particularmente permanecer deitado na terra morna e contemplar o cu intemporal, com o filho a seu lado, consciente de que 
faziam parte da mesma eternidade.
        Levantavam-se ao romper do dia e caavam para comer. O pequeno Jamie possua um pnei, e pai e filho cavalgavam na savana, evitando cautelosamente as covas 
de dois metros produzidas pelo urso-formigueiro, suficientemente profundas para tragarem um cavalo e respectivo cavaleiro, e as outras de menores dimenses feitas 
pelo gato dos pntanos.
        Com efeito, pairava o perigo na savana. Numa das suas excurses, Jamie e o filho encontravam-se acampados na margem de um rio, quando quase foram mortos 
por uma manada de springboks. O primeiro sinal de perigo consistiu numa tnue nuvem de poeira no horizonte. As lebres, os chacais e os gatos dos pntanos principiaram 
a fugir espavoridos e serpentes de largas dimenses surgiam da vegetao em busca de pedras para se ocultarem. Quando voltou a observar o horizonte, Jamie verificou 
que a nuvem se aproximava.
        - Saiamos daqui - indicou ao filho.
        - A tenda...
        - No h tempo para a levantar!
        Subiram rapidamente para as montadas e seguiram para o topo de uma colina. Entretanto, ouviam o rugido surdo de cascos e avistaram a linha da frente dos 
springboks, que se estendia por mais de quatro quilmetros. Eram pelo menos quinhentos mil e arrasavam tudo o que se lhes deparava no caminho. Derrubavam rvores 
e pulverizavam os arbustos e na esteira da vaga irresistvel ficavam os corpos de centenas de pequenos animais. Lebres, serpentes, chacais e galinhas-da-ndia eram 
esmagados pelos casos implacveis. A atmosfera achava-se impregnada de poeira e de um rugido contnuo, e, quando finalmente o pandemnio terminou, Jamie calculou 
que se prolongara por mais de trs horas.
        No dia do sexto aniversrio do filho, anunciou:
        - Para a semana, levo-te  Cidade do Cabo, para que vejas como  uma autntica cidade.
        - A me no pode vir conosco? No gosta de caar, mas as cidades agradam-lhe.
        - Tem muito que fazer aqui - disse Jamie, acariciando-lhe a cabea. -  uma viagem s para ns, homens, hem?
        A criana sentia-se preocupada com o fato de a me e o pai parecerem to distantes um do outro, sobretudo porque no compreendia o motivo.
        Viajaram na carruagem ferroviria pessoal de Jamie. Em 1891, o caminho-de-ferro representava o meio de transporte proeminente na frica do Sul, pois os comboios 
eram pouco dispendiosos, cmodos e rpidos. A carruagem que ele mandara construir expressamente para as suas deslocaes tinha vinte e cinco metros de comprimento 
e continha quatro compartimentos luxuosos com acomodaes para doze pessoas, uma sala que podia funcionar como gabinete de trabalho, outra para as refeies, um 
bar e uma cozinha totalmente equipada. Os aposentos dispunham de camas metlicas, candeeiros a gs e janelas panormicas.
        - Onde esto os outros passageiros? - perguntou o garoto.
        - Somos s ns - explicou Jamie, rindo. - O comboio  teu, filho.
        O pequeno Jamie passou a maior parte da viagem voltado para a janela, de olhos arregalados, maravilhado com a vasta paisagem que deslizava velozmente.
        -  a terra de Deus - observou o pai. - Encheu-a de minerais preciosos para ns, enterrados no solo  espera que os recolhamos. Aquilo que encontramos at 
agora no passa do comeo.
        Quando chegaram  Cidade do Cabo, o garoto ficou assombrado com as multides e os edifcios imponentes. Jamie levou-o  McGregor Shipping Line e indicou-lhe 
meia dzia de navios que carregavam e descarregavam no porto.
        - Pertencem-nos.
        No regresso a Klipdrift, o jovem Jamie ansiava por revelar tudo o que vira.
        - O pai  dono de toda a cidade! Havias de gostar, me. Virs conosco, na prxima vez.
        - Com certeza, querido - murmurou Margaret, abraando-o.
        Jamie passava muitas noites fora de casa e ela sabia que visitava o bordel de Madame Agnes. Constara-lhe que adquirira um apartamento para uma das mulheres, 
a fim de a poder procurar quando entendesse, com maior discrio. Embora no tivesse a certeza da veracidade da afirmao, Margaret s sabia que lhe apetecia matar 
a prostituta, se porventura se confirmasse.
        No intuito de manter o equilbrio mental, ela resolveu interessar-se pela cidade. Assim, recolheu fundos para a construo de uma igreja e inaugurou uma 
misso destinada a auxiliar as famlias dos pesquisadores necessitados. Quando pediu ao marido que utilizasse uma das suas carruagens pessoais para os transportar 
gratuitamente de regresso  Cidade do Cabo, nos casos em que se lhes esgotava o dinheiro e a esperana, ele protestou:
        - Propes que desperdice dinheiro? Que recorram ao mesmo meio de transporte da vinda: a p.
        - No esto em condies de efetuar grandes caminhadas - argumentou Margaret. - E se ficarem, a cidade ter de lhes custear a alimentao e o vesturio.
        - Est bem - capitulou ele, finalmente. - Mas  uma idia insensata.
        - Obrigada, Jamie.
        Acompanhando-a com a vista enquanto se afastava, no pde evitar uma ponta de orgulho nela. "Dava uma esposa excelente para algum...", cogitou.
        A prostituta  qual Jamie montara um apartamento era Maggie, a que se sentara ao lado de Margaret, no dia em que esta fora convidada por Madame Agnes. Ele 
considerava irnico o fato de a mulher ter o mesmo nome de sua esposa, sobretudo porque no possuam qualquer ponto comum. Maggie era uma loura de vinte e um anos, 
rosto atraente e corpo sensual, que se movimentava na cama com a voracidade e a sofreguido de uma pantera. Jamie entregara uma quantia substancial a Madame Agnes 
para que lhe dispensasse e a prostituta recebia uma mesada generosa. Por outro lado, ele usava da maior discrio quando a visitava, quase sempre  noite e depois 
de se certificar de que no o observavam. Na realidade, porm, numerosas pessoas estavam ao corrente da situao, mas abstinham-se de tecer comentrios. Tratava-se 
da cidade de Jamie McGregor e assistia-lhe o direito de proceder como quisesse.
        Naquela noite, no experimentava o mnimo prazer. Deslocara-se ao apartamento animado da perspectiva de longas horas inebriantes e deparara-se-lhe Maggie 
dominada por acentuado mau humor. Encontrou-a estendida na cama ampla, o roupo cor-de-rosa insuficiente para encobrir os recantos sinuosos e excitantes, e foi acolhido 
pelo desabafo:
        - Estou farta de me manter fechada entre estas malditas quatro paredes. No passo de uma escrava ou prisioneira! Em casa de Madame Agnes, ao menos, divertia-me 
um pouco. Porque no me levas contigo, nas tuas viagens?
        - J te expliquei. No posso...
        - Tretas! - saltou da cama e postou-se diante dele, numa atitude de desafio. - Levas o teu catraio a toda a parte. Sou menos que ele?
        - s - articulou Jamie, em reflexo perigosamente calma, dirigindo-se ao bar e pegando na garrafa de brande para encher o quarto clice da noite, quantidade 
muito superior quela a que se achava habituado.
        - No significo absolutamente nada para ti! - vociferou ela. - Sou um mero monte de estrume - e inclinou a cabea para trs, soltando uma risada desagradvel. 
-- O escocs moralo!
        - V se te acalmas!
        - Ests sempre a criticar-me. Nunca digo nem fao nada acertado. Julgas-te meu pai, porventura?
        - Voltas para a casa de Madame Agnes amanh mesmo - decidiu Jamie, cansado do desafio de palavras. - Vou preveni-la do teu regresso - e, pegando no chapu, 
encaminhou-se para a porta.
        - No te livras de mim com essa facilidade, bastardo! - rugiu Maggie, seguindo-o, enfurecida.
        - Acabo de o fazer.
        Quando se encontrou na rua, ele descobriu que vacilava e sentia o esprito enevoado. Talvez tivesse emborcado mais de quatro brandes. Na verdade, perdera-lhes 
a conta. Lembrou-se do corpo capitoso de Maggie e experimentou uma ereo.
Uma vez em casa, no momento em que passava diante da porta fechada do quarto de Margaret, lobrigou um claro amarelado atravs da frincha inferior. De sbito, imaginou-a 
deitada, envolta apenas na camisa de dormir. Ou talvez em coisa nenhuma. Recordou-se de como o seu corpo apetitoso se contorcera debaixo dele entre o arvoredo da 
margem do rio Orange. Por fim, impelido pelos vapores do lcool, abriu a porta e entrou.
        Margaret estava de fato deitada, lendo ao claro de um candeeiro de petrleo, e ergueu os olhos com uma expresso de surpresa.
        - H alguma novidade?
        - J um homem no pode visitar a esposa sem provocar estranheza? - retorquiu ele em voz arrastada.
        Ela usava um roupo transparente, e Jamie descortinou os seios trgidos aparentemente empenhados em perfurar o tecido. "Tem um corpo admirvel", admitiu. 
E principiou a despir-se.
        - Que fazes? - balbuciou Margaret, saindo da cama de olhar arregalado.
        Sem responder, ele obrigou-a a deitar-se de novo e estendeu-se a seu lado, completamente desnudo.
        - Como te desejo, Maggie!
        Na confuso de brio, no estava muito seguro de qual das duas Maggies desejava. Travou-se breve luta, cuja vitria no oferecia dvidas desde o incio. 
Finalmente, j rendida, Margaret puxou-o para si e sussurrou:
        - Oh, Jamie querido! Necessito tanto de ti...
        Por seu turno, ele refletia: "No te devia ter tratado to mal. De manh, dir-te-ei que no voltas para casa da Madame Agnes..."
        Quando acordou, Margaret descobriu que estava s. No entanto, ainda sentia o corpo vigoroso do marido no seu ntimo e evocava as suas palavras: "Como te 
desejo, Maggie!" Afinal, no se equivocara desde o princpio. Ele amava-a. Merecera a pena esperar, ao longo de todos aqueles anos de dor, solido e humilhao.
        Permaneceu o resto do dia num estado de xtase. Tomou banho, lavou o cabelo e mudou vrias vezes de idias acerca do vestido que mais agradaria a Jamie. 
Dispensou a cozinheira, a fim de poder preparar as iguarias preferidas do marido. Por ltimo, ps a mesa para o jantar com requintes extremos, empenhada em que fosse 
um sero memorvel.
        No entanto, Jamie no foi comer a casa, nem apareceu em toda a noite. Margaret esperou-o na biblioteca at s trs horas da madrugada e acabou por se ir 
deitar.
        Quando ele chegou, na noite seguinte, cumprimentou-a polidamente e dirigiu-se ao quarto do filho. Ela enrugou a fronte, perplexa, e em seguida voltou-se 
para o espelho, o qual lhe revelou que nunca estivera to atraente. Todavia, no momento em que se aproximou para observar os olhos, no os reconheceu. Eram os de 
uma estranha.



        



















        Captulo X



        - Tenho uma notcia maravilhosa para si, Mistress McGregor - declarou o Dr. Tecger, com um sorriso. - Vai ter um filho.
        Margaret sentiu o choque da revelao, sem saber se devia rir ou chorar. "Uma notcia maravilhosa?" Era impensvel contribuir com mais um filho num matrimnio 
sem amor.
        A humilhao afigurava-se-lhe insustentvel. Impunha-se que encontrasse uma sada e, enquanto pensava nisso, acudiu-lhe uma vaga de nusea que a inundou 
de transpirao.
        - A indisposio matinal? - observou o mdico.
        - Acho que sim.
        - Tome estes comprimidos - recomendou, entregando-lhe uma pequena embalagem. - Atenuam um pouco o enjoo. Est em condio excelente, Mistress McGregor. No 
tem nada que se preocupar. V para casa e comunique a boa nova ao seu marido.
        - Tem razo.  o que vou fazer.
        Encontravam-se  mesa do jantar, quando resolveu anunciar:
        - Fui hoje ao mdico. Vou ter um filho.
        Sem proferir palavra, Jamie atirou o guardanapo para o lado, levantou-se e abandonou a sala. Foi naquele momento que Margaret compreendeu que o podia odiar 
to profundamente como o amava.
        Foi uma gravidez difcil e ela passava grande parte do tempo na cama, fatigada e fraca. Permanecia deitada, hora aps hora, imaginando Jamie a seus ps, 
empenhado em que lhe perdoasse, e voltando a praticar o amor furiosamente. Mas no passava de fantasias. A realidade consistia em que se encontrava encurralada. 
No tinha para onde ir e, de qualquer modo, ele nunca permitiria que levasse o filho consigo.
        Jamie completara sete anos e tornara-se um rapaz bem-parecido, de esprito vivo e sentido de humor. Entretanto, aproximara-se mais da me, como se pressentisse 
a infelicidade que a assolava. Preparava pequenos presentes para ela na escola e oferecia-lhos, enquanto Margaret sorria com gratido, tentando emergir da depresso. 
Quando o filho perguntava o motivo pelo qual o pai passava as noites fora de casa e nunca a convidava para sair, limitava-se a responder:
        - Teu pai  um homem muito importante. Est sempre muito ocupado.
        "As nossas relaes so um problema apenas meu e no permitirei que Jamie o odeie por isso."
        A gravidez tornava-se cada vez mais visvel e, quando Margaret saa, pessoas conhecidas abordavam-na e observavam:
        - J no falta muito, Mistress McGregor. Aposto que ser outro belo rapaz como o Jamie. Seu marido deve sentir-se muito contente.
        Todavia, nas suas costas, comentavam:
        - Coitada. Est com um aspecto doentio. Deve ter descoberto que ele mobilou um apartamento para a amante.
        Por seu turno, ela tentava preparar o filho para o acontecimento.
        - Vais ter um irmo ou irm para brincar. No te parece estupendo?
        - E tu mais algum para te fazer companhia - replicou o garoto, abraando-a.
Margaret teve de desenvolver esforos para dominar as lgrimas.
        As dores de parto principiaram s quatro da madrugada. Mrs. Talley apressou-se a mandar chamar Hannah e a criana nasceu ao meio-dia. Era uma rapariga saudvel, 
com a boca da me e o queixo do pai, num rosto avermelhado encimado por cabelos pretos anelados. Margaret decidiu chamar-lhe Kate, refletindo: " um nome vigoroso 
e ela vai precisar de energias. Tenho de levar os meus filhos daqui. Ainda no sei como, mas hei-de descobrir um meio."
        David Blackwell irrompeu no gabinete de Jamie McGregor sem bater e este ergueu os olhos, surpreendido.
        - Que se passa?
        - H tumultos na Nambia!
        - O qu? - levantou-se com brusquido. - Que aconteceu?
        - Um dos rapazes negros foi surpreendido quando tentava roubar um diamante. Produziu uma inciso no sovaco e ocultou-o l. Para lhe dar uma lio, Zimmerman 
mandou-o chicotear diante dos outros operrios. Por fim, o rapaz morreu. Tinha doze anos.
        - Santo Deus! - a expresso de Jamie era de clera intensa. - Determinei que fosse suspenso o emprego do chicote em todas as minas.
        - Eu prprio adverti Zimmerman.
        - Despea esse bastardo.
        - No conseguimos localiz-lo.
        - Porqu?
        - Foi levado pelos negros. A situao est fora do nosso domnio.
        - Fique aqui e oriente os assuntos correntes at ao meu regresso - indicou, pegando no chapu.
        - No me parece prudente visitar o local, Mister McGregor. O nativo que Zimmerman matou era da tribo Baralong. Os seus membros no perdoam nem esquecem. 
Eu podia...
        Todavia, Jamie j se afastava.
        Quando se encontrava a quinze quilmetros do campo de diamantes, Jamie McGregor avistou o fumo. Todas as cabanas da Nambia tinham sido incendiadas. "Os 
imprudentes! Destroem as suas prprias casas!"  medida que a carruagem se acercava, chegou-lhe aos ouvidos o som de detonaes e gritos. Por entre a confuso geral, 
agentes da autoridade alvejavam os indivduos de cor que tentavam desesperadamente pr-se em fuga. Os brancos estavam numa minoria de um para dez, mas possuam armas 
de fogo.
        Quando o chefe da Polcia, Bernard Sothey, avistou Jamie, acudiu ao seu encontro e asseverou:
        - No se preocupe, Mister McGregor. Havemos de exterminar todos esses bastardos.
        - De modo algum! Ordene aos seus homens que suspendam o tiroteio.
        - O qu? Se...
        - Faa o que lhe digo! - rugiu Jamie, vendo, com profunda consternao, uma negra tombar sob uma chuva de balas. - Mande suspender o fogo!
        - Muito bem.
        O homem transmitiu as indicaes necessrias a um graduado e, em poucos minutos, os estampidos extinguiram-se por completo; mas j havia corpos estendidos 
por todos os lados.
        - Se quer ouvir a minha opinio... - comeou.
        - No estou interessado. V buscar o chefe deles.
        Dois polcias levaram  sua presena um jovem negro algemado e coberto de sangue, mas sem vestgios de medo, o qual se postou diante de Jamie, alto e empertigado, 
de olhos flamejantes, e este recordou-se do termo que Banda empregara para se referir ao orgulho no dialeto banto: isiko.
        - Sou Jamie McGregor - fez uma pausa, mas o outro limitou-se a cuspir no cho. - O que acaba de acontecer no foi da minha responsabilidade, mas quero compens-los 
dos prejuzos.
        - Diga isso s vivas deles!
        - Onde est Zimmerman? - inquiriu, virando-se para Sothey.
        - Ainda no o descobrimos.
        Jamie apercebeu-se do claro no olhar do negro e compreendeu que o capataz no seria encontrado.
        - Vou fechar o campo de diamantes por trs dias - comunicou ao homem na sua frente. Conversa com os teus companheiros, elabora uma lista das suas reivindicaes 
e analis-la-ei atentamente. Prometo agir com a maior imparcialidade. Alterarei tudo o que no estiver certo - fez nova pausa, enquanto o outro o olhava com uma 
expresso de ceticismo. - Nomearei um novo capataz e mandarei estabelecer condies de trabalho decentes. No entanto, espero que os teus homens retomem a atividade 
dentro de trs dias.
        - Quer dizer que o deixa partir em liberdade? - exclamou o chefe da Polcia. - Matou alguns dos meus subordinados.
        - Haver um inqurito rigoroso e...
        Jamie foi interrompido pelo rudo de um cavalo a galope, montado por David Blackwell, cuja expresso angustiada lhe provocou um pressentimento de alarme.
        - Seu filho desapareceu, mister McGregor!
        O mundo pareceu tornar-se subitamente gelado.
        Metade da populao de Klipdrift prontificou-se a participar nas pesquisas, explorando os arrabaldes, ravinas e bosques, mas no havia o mnimo indcio do 
garoto.
        Jamie parecia um alucinado, enquanto refletia: "Afastou-se demasiado de casa e perdeu-se. Estou certo de que no tardar a aparecer..."
        Entrou no quarto de Margaret, que se encontrava deitada, com o beb nos braos, a qual perguntou:
        - H alguma novidade?
        - No, mas hei-de encontr-lo.
        Ele fixou o olhar na filha por um momento e retirou-se em silncio.
        Mrs. Talley surgiu pouco depois, torcendo as mos com desespero.
        - No se apoquente, Mistress McGregor. Jamie j  crescido e sabe cuidar de si - inclinou-se para a frente e retirou Kate dos braos da me. - Tente dormir 
um pouco.
        Levou-a para o quarto em que se encontrava o bero, aconchegou a roupa e afastou-se.
         meia-noite, a janela foi aberta silenciosamente para dar passagem a um homem, que se aproximou do bero, envolveu a criana num cobertor e ergueu-a nos 
braos.
        Em seguida, Banda retirou-se to discretamente como surgira.
         Mrs. Talley quem descobriu que Kate desaparecera, e comeou por pensar que Mrs. McGregor a fora buscar durante a noite. Por conseguinte, dirigiu-se ao quarto 
desta ltima e perguntou:
        - Onde est o beb?
        A expresso do rosto de Margaret indicou-lhe instantaneamente o que acontecera.
        Quando passou mais um dia sem vestgios do filho, Jamie sentiu-se na iminncia de um colapso. Por fim, procurou David Blackwell e murmurou em voz trmula:
        - Acha que lhe ter acontecido alguma coisa?
        - No sei, Mistress McGregor - foi a resposta, num tom que tentava revelar-se convincente.
        No entanto, sabia. Prevenira o patro de que os bantos nunca esqueciam nem perdoavam, e um indivduo daquela casta fora cruelmente assassinado. De uma coisa 
no tinha a mnima dvida: se eles tinham levado o pequeno Jamie, este sofrera uma morte horrvel, pois costumavam vingar-se ao mesmo nvel do mal sofrido.
        Jamie regressou a casa ao amanhecer, esgotado. Chefiara uma equipe de busca composta por habitantes da cidade, pesquisadores e polcias e haviam passado 
a noite  procura do garoto em todos os lugares concebveis.
        David aguardava-o na biblioteca e no perdeu tempo com rodeios:
        - Sua filha foi raptada, Mister McGregor.
        Jamie olhou-o em silncio, o rosto dominado por profunda palidez. Por ltimo, rodou nos calcanhares e afastou-se.
        Havia quarenta e oito horas que no se deitava, pelo que se afundou na cama e adormeceu quase imediatamente. Encontrava-se estendido  sombra de uma gigantesca 
rvore frondosa e, ao longe, atravs da savana, um leo movia-se na sua direo, enquanto o filho o sacudia. "Acorda, pai. Vem a um leo!" O animal movia-se agora 
mais rapidamente e o garoto sacudia-o com mais fora. "Acorda!"
Jamie abriu os olhos e viu Banda na sua frente. Preparava-se para falar, mas o negro cobriu-lhe a boca com a mo.
        - Nem uma palavra! - murmurou, permitindo que se soerguesse.
        - Onde est o meu filho?
        - Morreu - Banda fez uma pausa, enquanto Jamie via o quarto oscilar  sua volta. - Lastimo profundamente, mas no cheguei a tempo de o evitar. Os brancos 
derramaram sangue dos bantos, que resolveram vingar-se.
        - Meu Deus! - Jamie ocultou o rosto nas mos. - Que lhe fizeram?
        - Abandonaram-no no deserto - Banda exprimia-se numa inflexo amargurada. - Encontrei o corpo e sepultei-o.
        - No  possvel!
        - Tentei salv-lo.
        Jamie inclinou a cabea com lentido, aceitando a realidade pungente.
        - E minha filha? - inquiriu em voz tona.
        - Levei-a antes que eles viessem busc-la. Agora, encontra-se de novo no quarto, adormecida. No corre perigo, se voc cumprir o que prometeu.
        - Cumprirei - afirmou, o rosto convertido numa mscara de dio. - Mas quero apanhar os homens que mataram meu filho, para que expiem o crime.
        - Nesse caso, ter de mandar executar toda a minha tribo - declarou Banda, com uma expresso impenetrvel.
        No passava de um pesadelo, mas ela mantinha os olhos fechados com firmeza, pois sabia que se os abrisse tudo se tornaria real e os filhos estariam mortos. 
Por conseguinte, entregava-se a um jogo. Conservaria as plpebras cerradas, at que sentisse a mo do pequeno Jamie pousada na sua e o ouvisse dizer:
        - Estamos aqui, me. No corremos perigo.
        Havia trs dias que se achava na cama, recusando falar ou ver pessoa alguma. O Dr. Teeger visitara-a vrias vezes, sem que Margaret se apercebesse. A meio 
da noite, ouviu um rudo no quarto do filho e apurou os ouvidos. Pouco depois, registrou-se novo som. O pequeno Jamie voltara!
        Levantou-se com prontido e atravessou apressadamente o corredor em direo ao quarto do garoto. Atravs da porta, apercebeu-se de gemidos abafados, e, alarmada, 
fez rodar o puxador.
        O marido encontrava-se estendido no cho, o rosto e o corpo contrados, com um dos olhos fechado, ao passo que o outro a fitava grotescamente. Tentava falar, 
mas as palavras brotavam como sons animais incoerentes.
        - Oh, Jamie... Jamie! - balbuciou Margaret.
        - As notcias so ms, Mistress McGregor - declarou o Dr. Teeger. - Seu marido sofreu um colapso grave. Tem cinquenta por cento de probabilidades de sobreviver, 
mas se tal acontecer no passar de um vegetal. Tomarei as providncias necessrias para que d entrada numa clnica particular, onde receber a assistncia apropriada.
        - No!
        - No, qu? - articulou, fitando Margaret com perplexidade.
        - Quero-o aqui comigo.
        Refletiu por um momento e aquiesceu.
        - Muito bem. Procurarei uma enfermeira para...
        - No  necessrio. Eu prpria cuidarei dele.
        - Desconhece a situao, Mistress McGregor. Seu marido deixou de ser uma pessoa em funcionamento normal. Est completamente paralisado e manter-se- assim 
para sempre.
        - Cuidarei dele - reiterou Margaret, com obstinao. Jamie pertencia-lhe finalmente.










        











        Captulo XI



        Jamie McGregor viveu exatamente mais um ano desde o dia em que sofreu o colapso, e foi o perodo mais feliz da vida de Margaret. O marido achava-se totalmente 
incapacitado, sem poder mover-se ou falar. Ela preocupava-se com todas as suas necessidades e conservava-se a seu lado, dia e noite. Durante o dia, conduzia-o  
sala de costura numa cadeira de rodas e no parava de lhe falar, ao mesmo tempo que se entretinha fazendo malha. Abordava todos os pequenos problemas domsticos 
pelos quais ele nunca se interessara por falta de tempo e revelava-lhe o desenvolvimento da pequena Kate.  noite, transferia o corpo esqueltico de Jamie para o 
quarto e depositava-o suavemente na cama, a seu lado.
Entretanto, David Blackwell dirigia a Kruger-Brent, Ltd., e, de vez em quando, procurava Margaret para que assinasse documentos. Nessas ocasies, experimentava uma 
sensao pungente ao observar a incapacidade fsica e mental de Jamie, ao qual considerava que devia tudo o que era.
        - Escolheste bem, querido - comentou ela ao marido. - David  um colaborador excepcional - pousou o trabalho e sorriu. - Parece-se um pouco contigo. No 
receavas sonhar os projetos mais arrojados e todos se concretizaram. A companhia no pra de se expandir - voltou a pegar nas agulhas. - Kate comea a falar. Pareceu-me 
ouvir-lhe dizer "mam", esta manh.
        Jamie mantinha-se imvel, como que petrificado, o olhar fixando um ponto indefinido na sua frente.
        Na manh seguinte, quando acordou, Margaret descobriu que ele morrera.
        - Repousa, meu amor, repousa... - murmurou, estreitando-o nos braos. - Sempre te amei, profundamente. Espero que chegasses a compreend-lo. Adeus, querido.
        Agora, encontrava-se s. O marido e o filho tinham-na deixado. Restavam apenas ela e a filha. Dirigiu-se ao quarto contguo e contemplou a criana que dormia 
no bero. Katherine. Kate. O nome derivava do grego e significava lmpida ou pura, costumando atribuir-se s santas, freiras e rainhas.
        - Qual das trs coisas sers? - proferiu em voz alta. Decorria uma poca de grande expanso na frica do Sul, mas tambm de agitao crescente. Registava-se 
uma frico de longa data no Transval entre os Beres e os Ingleses, que culminou com o conflito aberto. Na quinta-feira, 12 de Outubro de 1899, data do stimo aniversrio 
de Kate, foi declarada a guerra e, trs dias mais tarde, o Estado Livre de Orange sofria o primeiro ataque. David tentou convencer Margaret a abandonar a frica 
do Sul com a filha, mas ela negou-se a partir.
        - Meu marido encontra-se aqui - alegou com firmeza. Reconhecendo a incapacidade para a demover da deciso, ele limitou-se a anunciar:
        - Vou juntar-me aos Beres. Acha que pode cuidar das coisas?
        - Sem dvida. Farei o possvel para que a companhia funcione normalmente.
        David alistou-se na manh seguinte.
        Os Ingleses contavam com uma guerra fcil e rpida, pouco mais do que uma operao de limpeza, pelo que se lanaram nela confiantes. No aquartelamento em 
Hyde Park, Londres, realizou-se um jantar de despedida, com uma ementa especial em que se via um soldado britnico segurando a cabea de um javali numa bandeja e 
a seguinte descrio:
        JANTAR DE DESPEDIDA AO ESQUADRO DO CABO
        27 de Novembro de 1899
        EMENTA
        Ostras de Pintas Azuis 
        Sopa de Estuque
        Sapo na Toca
        Cabrito  Mafeking
        Nabos do Transval. 
        Molho do Cabo
        Faises de Pretria
        Molho Branco
        Pudim da Paz. 
        Gelados Macios 
        Queijo Holands
        Sobremesa
        (E, favor no atirar cascas para debaixo das mesas)
        Gemidos Beres - Long Tom
        Holandeses Esfolados
        Vinho de Laranjeira
        No entanto, estava-lhes reservada uma surpresa. Os Beres encontravam-se no seu territrio e eram duros e resolutos.

* Jogo de palavras entre boar (javali) e ber (bur).


        A primeira batalha da guerra foi travada em Mafeking, pouco mais que uma aldeia, e pela primeira vez os Ingleses comearam a vislumbrar o que se lhes erguia 
pela frente. Ato contnuo, seguiram mais tropas de Inglaterra, que cercaram Kimberley, e s conseguiram avanar em direo a Ladysmith, que tomaram, aps luta encarniada. 
Os canhes dos locais tinham maior alcance que os dos agressores, pelo que se tornou necessrio recorrer  artilharia dos navios de guerra britnicos. Assim, as 
peas foram desembarcadas e utilizadas pelos marinheiros a centenas de quilmetros das suas unidades.
        Em Klipdrift, Margaret mantinha-se ansiosamente ao corrente de cada batalha, e ela e as pessoas  sua volta viviam dos rumores, variando o seu estado de 
esprito da euforia ao desespero, consoante a natureza das notcias. At que, uma manh, um dos empregados entrou no gabinete da companhia e comunicou:
        - Consta que os Ingleses avanam para aqui. Vo matar-nos a todos!
        - Que idia! - redarguiu Margaret. - No se atrevem a tocar-nos.
        Cinco dias depois, achava-se convertida em prisioneira de guerra. Ela e Kate foram transferidas para Paardeberg, uma das centenas de campos de prisioneiros 
que haviam surgido na frica do Sul. Os detidos mantinham-se num vasto campo aberto rodeado por arame farpado, guardados por soldados britnicos, em condies deplorveis.
        - No te preocupes, querida - murmurou Margaret, apertando Kate nos braos. - No te h-de acontecer nada.
        Todavia, nenhuma delas acreditava nestas palavras. Cada dia que passava constitua um catlogo de horrores. Viam os companheiros de infortnio morrer s 
dezenas, centenas e finalmente milhares,  medida que a febre grassava no campo. No havia mdicos nem medicamentos para os feridos e a comida escasseava. Foi um 
pesadelo constante, que se prolongou por cerca de trs anos lancinantes. O que mais custava a suportar era a sensao de desamparo absoluto. Margaret e Kate encontravam-se 
 inteira merc dos captores. Dependiam deles para as refeies e para o alojamento e at para a conservao da vida. A garota vivia imersa em terror, vendo as outras 
crianas morrer e receando que no tardasse a suceder-lhe o mesmo. No dispunha de meios para se proteger e  me, e tudo aquilo representou uma lio que jamais 
esqueceria. Poder. Quem o possua, tinha comida, medicamentos, liberdade. Enquanto assistia  morte dos que a rodeavam, identificava o poder com a vida. "Hei-de 
t-lo, um dia. Ningum poder voltar a tratar-me assim."
        As batalhas violentas prosseguiam - Belmont, Graspan, Stormberg, Spioenkop -, mas os destemidos Beres acabaram por se revelar incapazes de resistir ao poderio 
do Imprio Britnico. Em 1902, aps quase trs anos de guerra sangrenta, tiveram de capitular. Combateram cinquenta e cinco mil beres e perderam a vida trinta e 
quatro mil dos seus soldados, mulheres e crianas. Mas o que encheu os sobreviventes de indignao quase selvagem foi o conhecimento de que vinte e oito mil deles 
morreram em campos de concentrao britnicos.
        No dia em que as portas foram abertas, Margaret e Kate regressaram a Klipdrift. Poucas semanas mais tarde, num domingo clido e sereno, foi a vez de David 
Blackwell se apresentar. A guerra amadurecera-o, mas continuava a ser o mesmo homem ponderado no qual Margaret se habituara a confiar.
        - Lamento no as ter podido proteger - declarou, amargurado, quando se inteirou das vicissitudes que ela e filha tinham sofrido.
        - Isso pertence ao passado, David. Temos de pensar apenas no futuro.
        E o futuro era a Kruger-Brent, Ltd.
        Para o mundo, o ano de 1900 representava uma ardsia limpa em que se escreveria Histria, uma nova era que prometia paz e esperana ilimitadas para todos. 
Principiara um novo sculo, que trazia consigo uma srie de inventos surpreendentes e revolucionadores da vida em todo o Globo. Os automveis a vapor e os eltricos 
foram substitudos pelo motor de combusto. Surgiram os submarinos e os aeroplanos. A populao mundial explodiu para um bilho e meio de almas. Era o perodo prprio 
para o crescimento e a expanso e, durante os seis anos imediatos, Margaret e David aproveitaram devidamente todas as oportunidades.
        Entretanto, Kate desenvolvia-se quase sem assistncia, pois a me achava-se muito ocupada com a direo da companhia, coadjuvada por David, para poder preocupar-se 
com ela. Assim, tornara-se uma criana irreprimvel, obstinada, e intratvel. Certa tarde, quando regressava a casa de uma reunio de negcios, Margaret surpreendeu 
a filha de catorze anos no ptio enlameado, envolvida em renhida luta com dois rapazes.
        - Valha-me Deus! - murmurou, abismada. -  esta a rapariga que um dia dirigir os destinos da Kruger-Brent! Bem podemos rogar  Providncia para que no 
nos desampare!



































SEGUNDA PARTE



                Kate e David 1906-1914


        Captulo XII



        Kate McGregor trabalhava,  noite, no seu gabinete da sede da Kruger-Brent International, em Joanesburgo, quando ouviu o som de sirenes da Polcia. Pousou 
os documentos que examinava, aproximou-se da janela e espreitou. Trs carros-patrulhas e uma furgoneta detiveram-se  entrada do edifcio com um chiar de pneus no 
asfalto e uma dezena de homens uniformizados apeou-se com prontido para cobrir as portas de acesso. Era meia-noite e as ruas achavam-se desertas. Kate lanou uma 
olhadela ao seu reflexo na vidraa. Com vinte e dois anos, era uma mulher atraente, possuidora dos olhos cinzentos do pai e o corpo torneado da me.
Momentos depois, bateram  porta e ela proferiu:
        - Entre - declarou, aps o que viu surgir dois polcias, um dos quais exibia a insgnia de superintendente. - Que aconteceu? - inquiriu.
        - Peo desculpa por a importunarmos a esta hora tardia, Miss McGregor. Sou o superintendente Cominsky.
        - Qual  o problema, superintendente?
        - Fomos informados de que um assassino evadido entrou neste edifcio, h poucos minutos.
        - Neste edifcio? - repetiu ela, com uma expresso chocada.
        - Exato. Est armado e  perigoso.
        - Nesse caso, agradecia-lhe que o encontrasse e levasse - observou, com uma ponta de impacincia.
        -  precisamente a minha inteno. Apercebeu-se de algum rudo suspeito?
        - No. No entanto, encontrava-me s e h muitos lugares onde uma pessoa pode se esconder. Recomende aos seus homens que revistem tudo minuciosamente.
        - Sem dvida, Miss McGregor - e o superintendente voltou-se para o corredor, ordenando: - Principiem na cave e sigam at ao terrao - e dirigindo-se de novo 
a Kate: - H algum gabinete fechado  chave?
        - Penso que no, de contrrio tratarei de o abrir. Verificou que ela se achava enervada e, no fundo, no a censurava por isso. Ainda ficaria mais apreensiva 
se soubesse como o homem que perseguiam estava desesperado.
        - Havemos de o encontrar - prometeu com firmeza. Kate tornou a pegar nos documentos que estudava, mas descobriu que no conseguia concentrar-se, ouvindo 
os polcias moverem-se por todo o edifcio, de um gabinete para o outro.         "Conseguiro descobri-lo?" A idia f-la estremecer.
        Entretanto, eles atuavam com lentido, metodicamente, esquadrinhando todos os esconderijos possveis. Quarenta e cinco minutos mais tarde, o superintendente 
Cominsky reapareceu e ela leu-lhe a expresso corretamente.
        - No o encontraram!
        - Ainda no, mas no se apoquente...
        - Lamento, mas estou apoquentada. Se h um assassino no edifcio, quero que o descubram.
        - Consegui-lo-emos. Restam os ces.
        Soaram latidos no corredor e, no momento imediato, apareceu um polcia com dois corpulentos pastores-alemes.
        - Os ces percorreram todo o prdio, superintendente. Farejaram tudo exceto este gabinete.
        Cominsky virou-se para Kate.
        - Ausentou-se daqui recentemente?
        - Fui ao arquivo buscar uns documentos. Parece-lhe que ele pode?... - e ela interrompeu-se com um estremecimento. -  melhor no descurar nenhuma possibilidade.
        O superintendente fez um sinal ao subordinado, que soltou os animais da trela e indicou:
        - Busquem.
        Ato contnuo, os ces pareceram alucinados. Precipitaram-se para uma porta fechada e puseram-se a ladrar com excitao.
        - Valha-me Deus! - balbuciou Kate. - Est ali!
        - Abre a porta - ordenou Cominsky, puxando da pistola. O polcia acercou-se, empunhando igualmente a arma, e fez rodar o puxador. O compartimento, sem dvida 
destinado a arrecadao, achava-se deserto. Todavia, um dos ces correu para outra porta, diante da qual estacou, rosnando.
        - Que h do outro lado? - perguntou o superintendente.
        - Uma casa de banho.
        O polcia apressou-se a abri-la, mas no avistaram vivalma no interior.
        - Nunca os vi comportarem-se assim - articulou, meneando a cabea, enquanto os ces se moviam em redor freneticamente. - Captaram o rastro, mas ele no aparece.
        Por fim, os animais aproximaram-se de uma gaveta da secretria e continuaram a ladrar com persistncia
        - Est solucionado o mistrio - observou Kate, com um sorriso forado. - Escondeu-se na gaveta.
        - Lastimo t-la incomodado, Miss McGregor - disse Cominsky, embaraado.         Voltou-se para o polcia e ordenou: - Leve-os daqui para fora.
        - Retiram-se? - perguntou ela, numa inflexo apreensiva.
        - Garanto-lhe que no corre o menor perigo. Os meus homens passaram o edifcio a pente fino. Posso assegurar-lhe que ele no se encontra aqui. Foi um falso 
alarme. As minhas desculpas.
        - No haja dvida de que vocs sabem tornar excitante o sero de uma mulher - comentou ela, secamente.
        Kate conservou-se junto da janela at que as trs viaturas da Polcia se afastaram, aps o que abriu a gaveta da secretria e extraiu um par de sapatos de 
lona manchados de sangue. Em seguida dirigiu-se a uma porta com a indicao Entrada Proibida a Pessoas No Autorizadas, no fundo do corredor, e entrou. A sala continha 
apenas um cofre-forte enorme embutido na parede, onde a Kruger-Brent, Ltd. guardava os diamantes antes de serem expedidos para os diferentes destinos. Em movimentos 
rpidos, comps as letras do segredo e puxou a porta gigantesca. Nas paredes, alinhavam-se dezenas de pequenos cofres repletos de pedras preciosas e, no centro, 
via-se Banda, semiconsciente.
        - J se foram - informou Kate, ajoelhando a seu lado. O negro descerrou as plpebras com lentido e conseguiu esboar um sorriso. Permitiu que ela o ajudasse 
a levantar e comprimiu os lbios no momento em que moveu o brao envolto numa ligadura manchada de sangue.
        - Podes calar os sapatos? - Kate retirara-lhos antes e, para confundir os ces que decerto apareceriam, utilizara-os para se deslocar em torno do seu gabinete, 
acabando por os ocultar na gaveta da secretria. - Vem. Tens de sair daqui.
        - Eu desenrasco-me sozinho - declarou ele abanando a cabea com veemncia. - Se descobrem que me ajudou, fazem-lhe passar um mau bocado.
        - No te preocupes com isso - e vendo-o lanar uma olhadela em torno do cofre, sugeriu: - Se queres levar algum diamante, serve-te  vontade.
        - Seu pai fez-me uma oferta semelhante, h muito tempo.
        - Eu sei.
        - No preciso de dinheiro. Tenho apenas de abandonar a cidade por uns tempos.
        - Como tencionas sair de Joanesburgo?
        - Hei-de descobrir um meio.
        - A Polcia bloqueou todas as sadas. No tens a mnima hiptese, sem ajuda.
        - J me auxiliou mais do que devia - persistiu Banda, calando os sapatos.
        - Se te apanham, matam-te. Vens comigo.
        Kate sabia que no se equivocava acerca do bloqueio das sadas da cidade. A captura do negro constitua uma prioridade suprema, e as autoridades tinham recebido 
ordens para o apanhar, vivo ou morto.
        - Espero que tenha em vista um plano melhor do que o de seu pai - comentou Banda em voz dbil, em resultado da perda de sangue.
        - No fales. Poupa as energias. Deixa tudo a meu cargo - e ela revelava uma confiana que no sentia totalmente, mas ele encontrava-se nas suas mos e no 
permitiria que lhe acontecesse coisa alguma. Deplorava que David estivesse ausente, mas teria de se desembaraar da crtica situao sem o seu auxlio. - Vou levar 
o carro para a porta das traseiras - anunciou aps breve pausa. - Deixa passar dez minutos e segue para l. Estar a porta da retaguarda aberta, para que subas e 
te estendas no cho. H uma manta para te cobrires.
        - Mas eles ho-de revistar todos os carros que abandonem a cidade.
        - No utilizaremos esse meio de transporte. Parte um comboio para a Cidade do Cabo s oito da manh, ao qual mandei atrelar a minha carruagem pessoal.
        - Vai levar-me a?
        - Precisamente.
        - Vocs, os McGregor, adoram realmente a excitao - murmurou o negro, com um sorriso.
        Meia hora mais tarde, Kate conduzia o carro em direo  estao de caminho-de-ferro, com Banda deitado no solo da retaguarda, dissimulado por uma manta. 
No experimentou qualquer dificuldade em transpor as barreiras levantadas pelas autoridades, mas agora, no momento em que entrava no parque de estacionamento perto 
da linha, avistou um claro  sua frente e verificou que o caminho se achava bloqueado por vrios polcias, um dos quais se acercou no instante em que travou.
        - Superintendente Cominsky?
        - Miss McGregor! Que faz aqui?
        - Talvez me julgue pateta, mas o que aconteceu h pouco assustou-me - declarou Kate, fingindo-se apreensiva. - Resolvi, portanto, ausentar-me da cidade at 
que capturem o assassino. Ou j o encontraram?
        - No, infelizmente, embora no me restem dvidas de que o conseguiremos. Palpita-me que tentar escapar-se no comboio. No lhe servir de nada, claro.
        - Oxal no se engane.
        - Aonde vai?
        - A minha carruagem pessoal encontra-se num desvio a adiante. Penso seguir nela at  Cidade do Cabo.
        - Quer que um dos meus homens a acompanhe?
        - Obrigada, superintendente, mas no vejo necessidade. Agora que sei que esto na pista do homem, posso respirar melhor.
        Cinco minutos depois, Kate e Banda achavam-se em segurana na carruagem, imersa na escurido.
        - No convm acender a luz - referiu ela, enquanto o ajudava a instalar-se numa das camas. - Aqui, no corres perigo at de manh. Quando o comboio principiar 
a andar, escondes-te na casa de banho.
        - Entendido.
        - Conheces algum mdico que te possa observar, quando chegarmos  Cidade do Cabo?
        - Chegarmos? -ecoou ele, arqueando as sobrancelhas.
        - Julgavas que te deixava ir s e perdia a parte mais excitante da aventura?
        Inclinou a cabea para trs e soltou uma gargalhada: "No pode negar de quem  filha."
        Quando amanheceu, uma locomotiva conduziu a carruagem particular para a retaguarda do comboio que partiria com destino  Cidade do Cabo.
        s oito horas em ponto, a composio abandonou a estao. Entretanto, Kate comunicara ao pessoal que no queria ser incomodada, pois o ferimento de Banda 
voltava a sangrar e ela necessitava proceder  substituio da ligadura. Por outro lado, no tivera ensejo de conversar com ele desde o sero anterior, quando irrompera, 
exausto, no seu gabinete.
        - Explica-me o que aconteceu, Banda.
        O negro olhou-a e refletiu: "Por onde hei-de principiar?" Como poderia fazer-lhe compreender a existncia dos trek-boers, beres nmades que expulsavam os 
bantos das suas terras ancestrais? Ou teria porventura principiado tudo com o gigantesco Oom Paul Kruger, presidente do Transval, o qual afirmara, num discurso pronunciado 
no Parlamento sul-africano, que "temos de mandar nos pretos e permitir-lhes apenas que sejam uma raa dominada"? Ou ainda na poca do grande construtor do imprio 
Cecil Rhodes, cuja mxima consistia em "a frica para os brancos"? Como lhe seria possvel resumir a histria do seu povo numa frase? Por fim, acudiu-lhe uma maneira:
        - A Polcia assassinou o meu filho.
        A descrio foi surgindo, embora com certa dificuldade. O filho mais velho de Banda, Ntombenthle, participava num comcio, quando as autoridades surgiram 
para o dispersar. Em resultado disso, foram disparados alguns tiros e registraram-se tumultos. Ntombenthle figurava entre os presos e, na manh seguinte, apareceu 
enforcado na cela.
        - Garantiram que se suicidou, mas sei que o assassinaram.
        - To jovem, meu Deus! - exclamou Kate, lembrando-se das inmeras vezes que tinham brincado juntos. - Lastimo profundamente. Mas porque te perseguem?
        - Quando o mataram, comecei a agrupar os negros para me vingar. No podia ficar de braos cruzados. A Polcia chamou-me inimigo do Estado, prendeu-me por 
um roubo que no pratiquei e condenaram-me a vinte anos de priso. Eu e mais trs conseguimos evadir-nos. Um guarda foi atingido mortalmente a tiro e atribuem-me 
a culpa, embora nunca possusse uma arma de fogo em toda a minha vida.
        - Acredito. A primeira coisa a fazer  levar-te para um lugar seguro.
        - Lamento envolv-la nisto.
        - No me envolveste em nada. s meu amigo.
        - O primeiro branco que me chamou amigo foi seu pai. - Banda exibiu um sorriso de nostalgia. - Como tenciona fazer-me sair do comboio, na Cidade do Cabo?
        - No  para a que vamos.
        - Mas disse...
        - Como mulher, assiste-me o direito de mudar de idias. A meio da noite, quando o comboio se deteve na estao de Worcester, Kate mandou desatrelar a carruagem 
e conduzi-la para um desvio. Ao amanhecer, dirigiu-se  cama de Banda, e encontrou-a vazia. O negro desaparecera, disposto a no a comprometer mais profundamente. 
Apesar de deplorar o fato, ela estava persuadida de que no se deixaria apanhar pelas autoridades, pois dispunha de muitos amigos. "David h-de orgulhar-se de mim", 
foi o seu pensamento imediato.
        - No percebo como pudeste ser to estpida! - vociferou ele, quando Kate regressou a Joanesburgo e lhe descreveu o episdio. - No s arriscaste a tua segurana 
pessoal como colocaste a companhia em perigo. Sabes o que a Polcia faria se encontrasse Banda aqui?
        - Sei - replicou ela, com uma expresso de desafio. - Matava-o.
        - Ser possvel que no compreendas nada? - David passou a mo pela fronte, num gesto de frustrao.
        - Enganas-te. Compreendo que s um homem frio, sem sentimentos.
        - No passas de uma criana.
        Kate ergueu a mo para o esbofetear, mas ele apressou-se a segurar-lha.
        - Tens de aprender a dominar-te.
        Estas palavras ecoaram-lhe na cabea: "Tens de aprender a dominar-te."
        Ela tinha quatro anos e achava-se no auge de uma troca de socos com um rapaz que se atrevera a importun-la, quando David surgiu e afugentou este ltimo. 
No momento em que Kate pretendia correr no seu encalo, ele segurou-a pelo brao e recomendou:
        - Tens de aprender a dominar-te. As meninas bem-comportadas no se entregam a cenas de pugilismo.
        - No sou uma menina bem-comportada. Larga-me.
        - Vai mudar de roupa e lavar-te, antes que tua me te veja.
        - Aplicava-lhe um corretivo, se no interviesses - asseverou Kate, lanando um olhar pesaroso na direo tomada pelo antagonista.
        David olhou-a em silncio por um momento e inclinou a cabea com lentido.
        - Provavelmente, aplicavas mesmo.
        Mais serena, permitiu que lhe pegasse ao colo e a levasse para casa. Gostava de estar nos braos dele. Na realidade, agradava-lhe tudo a seu respeito. Era 
o nico adulto que a compreendia e, sempre que se encontrava na cidade, consagrava-lhe algum tempo. Em momento de descontrao, Jamie descrevera a David as suas 
aventuras com Banda e agora o rapaz repetia-lhas.
        - Fala-me outra vez da jangada que construram. E ele comprazia-a com prontido.
        - E os tubares... Conta-me aquilo do mis do mar... Daquele dia em que...
        Kate tinha poucas oportunidades de ver a me, sempre ocupada com os assuntos da Kruger-Brent, Ltd.
        Margaret conversava com o marido todas as noites, como acontecera ao longo do ano que precedera a sua morte.
        - David  de uma utilidade extraordinria, Jamie, e ainda c estar quando a companhia passar para as mos de Kate. Embora me custe afligir-te, confesso 
que no sei o que fazer com essa rapariga...
        Kate era obstinada, irrequieta e impossvel de dominar, recusando-se a obedecer  me ou a Mrs. Talley. Se lhe escolhiam um vestido, trocava-o imediatamente 
por outro. Tambm no se alimentava convenientemente. Comia o que e quando lhe apetecia, indiferente a rogos ou ameaas. Se a obrigavam a comparecer a uma festa 
de aniversrio, encontrava sempre uma maneira para provocar distrbios. No tinha amigas. Negava-se a frequentar as aulas de bailado, preferindo praticar o rguebi 
com adolescentes. A partir do momento em que comeou a frequentar a escola, Margaret era convocada pela diretora pelo menos uma vez por ms e necessitava de empregar 
todos os meios de persuaso para que Kate no fosse expulsa.
        - No a compreendo - desabafava a mulher. - Apesar de invulgarmente inteligente, revolta-se contra tudo. No sei o que fao com ela.
        E Margaret via-se forada a partilhar da sua opinio.
        A nica pessoa capaz de manter Kate na linha era David.
        - Ouvi dizer que te convidaram para uma festa de anos, esta tarde - observou ele.
        - Detesto essas coisas.
        - Eu sei - agachou-se at ficar ao nvel dela. - Mas o pai da festejada  meu amigo, e fico mal situado se no compareceres e te portares como uma senhora.
        -  um bom amigo?
        - Sim.
        - Ento, vou.
        E as suas maneiras naquela tarde foram impecveis.
        - No compreendo como o consegue - comentava Margaret. -  um autntico ato de ilusionismo.
        - Trata-se de uma fase passageira - afirmava ele, rindo. - H-de livrar-se dela. O essencial  no lhe quebrar a voluntariedade.
        - Aqui para ns, em certas ocasies eu gostava de lhe quebrar o pescoo - era, com frequncia, o comentrio final dela, com um sorriso malicioso.
        Quando tinha dez anos, Kate anunciou, um dia:
        - Quero conhecer Banda.
        - No  possvel - redarguiu David, surpreendido. - A herdade dele fica muito longe.
        - Acompanhas-me, ou tenho de fazer a viagem sozinha? Na semana seguinte, partiram. A herdade tinha dimenses apreciveis e Banda cultivava nela trigo, dedicando-se 
igualmente  criao de carneiros e avestruzes. Os alojamentos consistiam em cabanas circulares com paredes de barro, enquanto postes suportavam o teto cnico coberto 
com colmo. O negro encontrava-se  entrada, observando-os, enquanto Kate e David se apeavam da carruagem.
        - Adivinhava que era filha de Jamie McGregor, mesmo que no me dissessem - declarou, contemplando a rapariga com gravidade.
        - E eu reconhecia-te imediatamente - replicou ela. - Vim agradecer-te por salvares a vida a meu pai.
        - Desconfio que exageraram - Banda soltou uma gargalhada. - Entre, para conhecer a famlia.
        A esposa era uma banto atraente chamada Ntame e havia dois filhos: Ntombenthle, de dezessete anos, e Magena, de dezesseis. O primeiro podia considerar-se 
uma miniatura do pai, com os mesmos traos fisionmicos regulares e porte empertigado.
        Kate passou toda a tarde a brincar com os dois rapazes e, por fim, jantaram na cozinha da pequena mas imaculada cabana. Por seu turno, David sentia uma ponta 
de desconforto por se sentar  mesa com uma famlia de negros. Respeitava Banda, mas, em obedincia  tradio, no devia haver confraternizao entre as duas raas. 
Alm disso, preocupavam-no as atividades polticas do anfitrio, pois constava que era discpulo de John Tenga Javabu, o qual pugnava por mudanas sociais drsticas. 
Como os proprietrios das minas no conseguiam recrutar nativos em nmero suficiente, o Governo impusera uma taxa de dez xelins a quem no trabalhasse nelas, o que 
suscitava tumultos por toda a frica do Sul.
        Ao fim da tarde, David props:
        -  melhor iniciarmos o regresso, Kate. Aguarda-nos uma longa tirada.
        - Ainda  cedo - e a rapariga voltou-se para Banda. - Conta-me aquilo dos tubares.
        A partir de ento, sempre que David se encontrava na cidade, obrigava-o a acompanh-la  herdade do negro.
        A convico de David de que Kate se libertaria da fase de obstinao tardava em se concretizar. Ao invs, parecia acentuar-se cada dia que passava. Recusava-se 
terminantemente a participar nas atividades prprias das raparigas da sua idade e insistia em que ele o levasse s minas, quando no preferia a pesca, a caa ou 
o campismo. Um dia em que pescavam no Vaal e ela capturou uma truta de dimenses apreciveis, David comentou:
        - Devias ter nascido rapaz.
        - No digas disparates. Depois, no podia casar contigo - e vendo-o soltar uma gargalhada divertida, ela persistiu: - No tenhas a mnima dvida de que havemos 
de nos casar um com o outro.
        - Duvido. Para j, sou vinte e dois anos mais velho, o suficiente para ser teu pai. Um dia, encontrars um rapaz bem-parecido...
        - No me interessa encontrar nenhum rapaz bem-parecido. H muito que te escolhi.
        - Se falas a srio, vou revelar-te o segredo para conquistares o corao de um homem.
        - Qual ? - quis saber, ansiosa.
        - Atravs do estmago. Limpa essa truta e almocemos.
        Uma vez por semana, Margaret convidava David para jantar na espaosa moradia. Em regra, Kate preferia comer na cozinha com o pessoal, onde no necessitava 
de se preocupar com as maneiras  mesa, mas naquele dia optava pela companhia da me, unicamente porque ele tambm comparecia. Na maioria das vezes, David ia s, 
conquanto ocasionalmente levasse uma mulher, que Kate ficava a detestar desde o primeiro instante.
        Mais tarde, conseguiu dirigir-se-lhe discretamente e observava:
        - Aposto que desencantaste a tua companheira numa visita a casa de Madame Agnes.
        Quando Kate contava catorze anos, a diretora do colgio mandou chamar Margaret mais uma vez.
        - Orgulho-me de dirigir um estabelecimento respeitvel e receio que sua filha exera uma influncia maligna.
        - Que fez ela, agora? - perguntou Margaret, com um suspiro de resignao.
        - Ensina s colegas expresses que nunca tinham ouvido. Devo mesmo acrescentar que nem eu prpria as conhecia. No compreendo onde as aprendeu.
        "Mas compreendo eu. Na rua, com os seus companheiros de brincadeira.  altura de pr ponto final nisto".
        - Agradecia que falasse com sua filha a srio, Mistress McGregor. Fecharei os olhos por mais esta vez, mas...
        - Deixe. Tenho uma idia melhor. Envi-la-ei para um colgio interno.
        Quando Margaret comunicou a idia a David, este esboou um sorriso malicioso.
        - Duvido que ela fique contente.
        - No h outra soluo. Agora, a diretora queixa-se da sua linguagem. Ouve-a aos pesquisadores, com os quais convive constantemente. Kate comea a parecer-se 
com eles em tudo, incluindo o cheiro. Para ser franca, no a compreendo. No vislumbro porque procede assim.  bonita, inteligente e...
        - Talvez seja inteligente de mais.
        - De qualquer modo, vou intern-la num colgio. Quando chegou a casa naquela tarde e se inteirou da deciso materna, a rapariga enfureceu-se.
        - Queres livrar-te de mim!
        - Evidentemente que no, querida. Penso apenas que estars melhor.
        - Em parte alguma posso estar melhor do que aqui, onde tenho todos os amigos. Pretendes separar-me deles.
        - Se te referes a esses maltrapilhos...
        - No so maltrapilhos. Valem tanto como as outras pessoas.
        - Evitemos as discusses inteis. Vais para um internato e acabou-se.
        - Antes a morte!
        - Como queiras. Encontrars uma tesoura aguada na sala de costura e, se procurares bem, creio que descobrirs veneno algures.
        - No me faas isso, por favor, me! - balbuciou Kate, rompendo em lgrimas.
        -  para teu bem, minha filha - murmurou Margaret, apertando-a nos braos. - Em breve ters idade para casar e nenhum homem escolher uma moa que fala e 
se veste como tu.
        -  falso. David no se importa.
        - Que tem ele a ver com isto?
        - Vamos casar.
        Exalou um suspiro de frustrao.
        - Vou dizer a Mistress Talley que prepare as tuas coisas.
        Dentre a meia dzia de internatos para raparigas existentes em Inglaterra, Margaret decidiu que o de Cheltenham, em Gloucestershire, era o mais indicado 
para Kate. Situava-se numa propriedade espaosa rodeada por muros elevados e, segundo o prospecto publicitrio, fora fundado para as filhas de nobres. David tinha 
relaes profissionais com o marido da diretora, Mrs. Keaton, pelo que no encontrou dificuldades para obter a admisso da rapariga.
        Quando tomou conhecimento do local que lhe fora destinado, Kate explodiu uma vez mais.
        - Ouvi falar desse antro!  um horror. Voltarei de l como uma daquelas bonecas inglesas presunosas. Tens essa idia em vista?
        - A minha nica idia  que aprendas boas maneiras - assegurou-lhe Margaret.
        - No preciso delas para nada. Bastam-me os miolos para suprir todas as insuficincias.
        - No  isso que interessa mais aos homens nas mulheres - volveu, secamente. - E no esqueas que te ests a tornar uma mulher.
        - No me interessa. Por que raio no me deixas sossegada?
        - Probo-te que empregues essa linguagem na minha presena.
        E os duelos verbais entre me e filha repetiram-se com intermitncias at ao dia em que Kate teve de partir. Como David necessitava de se deslocar a Londres 
em viagem de negcios, Margaret solicitou-lhe:
        - Importa-se de a acompanhar? S Deus sabe onde iria parar, se ningum a escoltasse.
        - Com o maior prazer - afirmou ele.
        - s como a minha me! - vociferou Kate. - Ests em pulgas para te livrares de mim!
        - Enganas-te - corrigiu David. - Posso esperar.
        Viajaram numa carruagem privada de Klipdrift  Cidade do Cabo e da de barco at Southampton, ao longo de quatro semanas. Embora o amor-prprio no lhe permitisse 
confess-lo, Kate sentia-se encantada com a companhia de David. " como uma lua-de-mel, com a diferena de que no estamos casados. Por enquanto!"
A bordo do navio, ele passava grande parte do tempo a trabalhar no seu camarote, enquanto ela se enroscava no sof e o observava em silncio, contente por se achar 
a seu lado.
        Um dia perguntou:
        - No te chateias com tantos nmeros?
        - No se trata apenas de nmeros - redarguiu David, pousando a caneta e erguendo os olhos. - So histrias.
        - De que espcie?
        - Para quem os souber interpretar, so histrias de companhias que compram ou vendem, pessoas que trabalham para ns. Milhares de indivduos por todo o mundo 
ganham a vida atravs da companhia que o teu pai fundou.
        - Pareo-me com ele?
        - Sim, em vrios aspectos. Era um homem obstinado, independente.
        - E eu sou uma mulher obstinada e independente?
        - Digamos, antes, uma turbulenta mimada. O homem que casar contigo no conhecer um momento de descanso.
        "Pobre David...", cismou ela, com um sorriso sonhador. Na sala de jantar, na sua derradeira noite no mar, ele perguntou:
        - Porque te mostras to difcil?
        - Achas que sou?
        - Bem sabes que sim. Enlouqueces tua me.
        - A ti tambm? - sussurrou Kate, pousando a mo na dele.
        - Pra com isso - e David sentiu-se corar. - No te entendo.
        - Entendes perfeitamente.
        - Porque no s como as outras jovens da tua idade?
        - Preferia morrer. No me quero parecer com ningum.
        - Nisso, tens conseguido o teu objetivo!
        - Juras no casar com ningum at eu ser suficientemente adulta para ti? Prometo desenvolver-me o mais depressa possvel. Limita-te a no conhecer ningum 
que possas amar, por favor.
        Enternecido pelo tom subitamente grave da interlocutora, ele pegou-lhe na mo e proferiu:
        - Quando casar, desejarei que minha filha seja exatamente como tu.
        Todavia, Kate levantou-se com brusquido e, num tom que vibrou em toda a sala de jantar, vociferou:
        - Vai para o raio que te parta, David Blackwell!
        E encaminhou-se apressadamente para a sada, acompanhada pelos olhares assombrados de todos.
        Passaram trs dias juntos em Londres e ela adorou cada minuto de que se compuseram.
        - Reservo-te uma surpresa - anunciou ele. - Consegui bilhetes para a pea Mistress Wiggs of lhe Cabbage Patch.
        - Agradeo-te a ateno, mas prefiro ir ao Gaiety.
        - A levam uma revista musical imprpria para a tua idade.
        - Depois de a ver te direi se tens razo - insistiu Kate, com obstinao.
        Por conseguinte, foram ao Gaiety.
        Kate adorava o aspecto de Londres: a mistura de automveis e tipias, as mulheres com os seus trajos dispendiosos e elegantes e os homens de smoking ou sobrecasaca. 
Jantaram no Ritz, mais tarde cearam no Savoy e, no momento de se retirarem, ela refletiu: "Havemos de voltar aqui juntos."
        Uma vez em Cheltenham, foram introduzidos no gabinete de Mrs. Keaton,  qual, aps as saudaes iniciais, David disse:
        - Quero agradecer-lhe por admitir Kate.
        - Estou certa de que gostaremos de a ter conosco. De resto,  com prazer que satisfao um pedido de um amigo de meu marido.
        Naquele momento, Kate compreendeu que fora ludibriada. Era David que a queria longe de casa e providenciara para que ficasse ali.
Sentia-se to revoltada e amargurada que no quis despedir-se dele.








        Captulo XIII



        O colgio de Cheltenham era insuportvel. Havia regras para tudo. As raparigas tinham de usar uniformes idnticos, que se prolongavam at aos tornozelos. 
O dia escolar durava dez horas e cada minuto estava rigidamente estruturado. Mrs. Keaton dirigia as alunas e o pessoal com mo de ferro. Elas encontravam-se ali 
para aprender boas maneiras, disciplina, etiqueta e decoro, a fim de, um dia, atrarem maridos convenientes.
        Numa das cartas  me, Kate escreveu: " uma autntica priso. As minhas companheiras so horrveis. S sabem falar de vestidos e rapazes, e as professoras 
no passam de monstros. No conseguiro manter-me c. Hei-de fugir!"
        Conseguiu escapar  vigilncia por trs vezes, mas acabou sempre por ser encontrada e remetida  procedncia.
        Numa reunio semanal do pessoal docente, quando o nome dela foi mencionado, uma das professoras afirmou:
        - Esta rapariga  indomvel. Penso que a devamos recambiar para a frica do Sul.
        No entanto, Mrs. Keaton replicou:
        - Concordo consigo, mas encaremos o caso como um desafio. Se conseguirmos disciplinar Kate McGregor, no voltaremos a ter problemas com qualquer internada.
        Por conseguinte, a rapariga continuou no colgio.
        Ante o assombro das professoras, Kate manifestou interesse pela herdade pertencente ao colgio, onde se cultivavam legumes e criavam galinhas e porcos, havendo 
igualmente algumas vacas e cavalos. Passava l todo o tempo que podia e, quando se inteirou, Mrs. Keaton ficou profundamente satisfeita.
        - Afinal, era uma simples questo de pacincia - declarou numa reunio. - Ela encontrou finalmente o seu interesse na vida. Um dia, casar com um proprietrio 
rural, ao qual ser extremamente til.
        Na manh seguinte, Oscar Denker, encarregado da herdade, procurou a diretora e informou:
        - Uma das raparigas, Kate McGregor, precisa ser afastada de l.
        - Porqu? - estranhou Mrs. Keaton. - Constou-me que se interessa muito pelos trabalhos.
        - Sabe em que consiste o seu nico interesse? Em ver os animais fornicar, se me permite a expresso.
        - O qu?
        -  como lhe digo. Observa-os com um prazer doentio.
        - Com mil raios!
        Kate ainda no perdoara a David por a ter enviado para o exlio, mas sentia muito a sua falta. "O meu destino determinou que me apaixonasse por um homem 
que odeio", refletia com amargura. Contava os dias da separao como uma prisioneira ansiosa por chegar  data da libertao. Entretanto, receava que ele cometesse 
algum ato irreparvel, como, por exemplo, casar com outra mulher enquanto ela permanecia desterrada no maldito colgio. "Se o fizer, mato os dois. No. S a ela. 
Ho-de prender-me e enforcar-me, mas, quando me encontrar no cadafalso, ele compreender que me ama. Mas ser demasiado tarde e suplicar que lhe perdoe. "Sim, David 
querido. Ests perdoado. Foste cego ao ponto de no ver que tinhas um amor profundo na palma da mo, e deixaste-o voar como se fosse uma avezinha, que vai agora 
ser executada. Adeus, David." Todavia, no derradeiro instante, serei indultada e ele tomar-me- nos braos e levar-me- para um pas extico, onde a comida no se 
compare  horrvel mistela servida em Cheltenham."
Um dia, recebeu uma carta dele comunicando que visitaria Londres e a procuraria. Ato contnuo, deu largas  imaginao e descobriu uma dezena de subentendidos nas 
linhas que acabava de ler. "Porque vem a Inglaterra? Para estar comigo, claro. Porque me visita? Porque compreendeu finalmente que me ama e no pode continuar longe 
de mim. Vai arrebatar-me deste antro insuportvel." Por conseguinte, continha a alegria com dificuldade, e a sua fantasia era to real que no dia da chegada dele 
comeou a despedir-se das colegas, com a explicao:
        - O meu namorado vem buscar-me.
        Elas olhavam-na com incredulidade, sem todavia se pronunciarem,  exceo de Georgina Christy, que fungou desdenhosamente e acusou:
        -  mais uma das tuas mentiras.
        - Espera e vers. Ele  alto e simptico e est louco por mim.
        Quando chegou, David ficou intrigado com a curiosidade de que era alvo por parte das raparigas, que o observavam, sorriam maliciosamente e murmuravam umas 
s outras.
        - Parece que nunca viram um homem - comentou, quando se encontrou a ss com Kate. Olhando-a com desconfiana, perguntou: - Disseste alguma coisa a meu respeito?
        - Que idia! Porque faria uma coisa dessas? Almoaram na ampla sala de jantar do colgio e David p-la ao corrente do que se passava em casa.
        - Tua me manda-te beijos e aguarda com ansiedade as frias grandes para voltar a ver-te.
        - Como est ela?
        - Bem, mas trabalha muito.
        - Qual a situao da companhia?
        - A melhor possvel - asseverou, surpreendido com a pergunta. - Porqu?
        " Porque um dia me pertencer e compartilh-la-emos juntos", pensou ela, ao mesmo tempo que respondia:
        - Por mera curiosidade.
        - No comes? - estranhou David, vendo que ela conservava o prato intacto.
Na verdade, Kate no estava interessada na comida, pois aguardava com ansiedade o momento mgico em que ele diria: "Vem comigo, Kate. J s uma mulher e desejo-te. 
Casaremos imediatamente."
        Todavia, a refeio chegou ao fim sem que a ansiada declarao se produzisse.
        S no instante em que consultou o relgio e anunciou que tinha de se retirar, sob pena de perder o comboio, ela compreendeu, com uma sensao de horror, 
que no tencionava lev-la consigo. O bastardo deix-la-ia apodrecer naquela priso infecta!
        Por seu turno, ele ficara satisfeito com a visita. Kate mostrava-se uma rapariga inteligente e comunicativa, e a rebelio que outrora manifestava parecia 
dominada. Antes de se despedirem, pousou a mo na dela com afeto e inquiriu:
        - Precisas de alguma coisa?
        - Sim, podes fazer-me um grande favor - retorquiu ela, com um olhar incendirio. - Desaparece da minha vida para sempre!
        E afastou-se com notvel dignidade, de cabea erguida, deixando-o boquiaberto.
        Margaret no podia negar que tinha saudades de Kate. Apesar de se tratar de uma rapariga irrequieta e rebelde, reconhecia que era o nico ser vivo que estimava. 
"Ser uma mulher importante", admitia com orgulho, "mas quero que tenha as maneiras de uma senhora."
        Quando a filha se apresentou, nas frias grandes, perguntou-lhe:
        - Que tal te ds no colgio?
        - Detesto-o!  como se estivesse rodeada por uma centena de amas.
        - As tuas colegas pensam da mesma maneira?
        - Ora! - articulou Kate, com uma expresso de desdm. - Gostava que as visses. Estiveram sempre metidas em redomas. No sabem nada da vida.
        - Nesse caso, deves ter um ambiente horrvel - observou Margaret, com uma ponta de sarcasmo.
        - No faas pouco de mim, por favor. Nunca estiveram na frica do Sul. Os nicos animais selvagens que viram foi no parque zoolgico. No fazem a mnima 
idia do que seja uma mina de diamantes ou de ouro.
        - No tiveram a tua sorte.
        - Ri-te, mas quando me tornar como elas, hs-de arrepender-te.
        - Achas possvel?
        - De modo algum - Kate exibiu um sorriso malicioso. - Julgas que endoideci?
        Ainda no havia uma hora que chegara e j se encontrava no ptio jogando rguebi com os filhos do pessoal domstico, enquanto Margaret a observava da janela 
e refletia: "Estou a desperdiar dinheiro. Nunca mudar."
        Naquela noite, durante o jantar, a rapariga perguntou:
        - David est na cidade?
        - Creio que regressa amanh da Austrlia.
        - Ento, vem jantar na sexta-feira?
        -  provvel - Margaret estudou o semblante da filha e aventurou: - Gostas dele, hem?
        - Suporto-o - foi a resposta seca, com um encolher de ombros. - Simpatizo com ele como ser humano, mas detesto-o como homem.
        Na sexta-feira, quando David se apresentou para jantar, Kate precipitou-se para a porta, a fim de o abraar, e murmurou-lhe ao ouvido:
        - Perdoo-te. Tive tantas saudades tuas! Sentiste a minha falta?
        Ele respondeu afirmativamente, ao mesmo tempo que pensava: "Na verdade, senti muito a sua ausncia!" Nunca conhecera ningum como aquela rapariga. Apesar 
de a ver crescer com escassas ausncias, cada reencontro constitua uma revelao. Estava prestes a completar dezesseis anos e principiava a apresentar a configurao 
de adulta. Podia mesmo considerar-se uma beldade, com esprito acutilante e voluntariosa. "Ser um quebra-cabeas para o homem que a levar...", no pde deixar de 
admitir.
        Enquanto comiam, ele perguntou:
        - Como vo as coisas no colgio?
        - O melhor possvel. Estou a aprender muito. As professoras so maravilhosas e tenho muitas amigas - e Kate fez uma pausa, ignorando a expresso perplexa 
da me. - Deixas-me ir contigo s minas?
        -  assim que queres passar as frias?
        - Exato.
        A deslocao s minas exigia um dia inteiro, o que significava que estaria ao lado de David durante todo esse tempo.
        - Se tua me aprova...
        - Por favor, me!
        - Pois sim, querida. Indo com ele, sei que estars em segurana.
        Ao mesmo tempo, Margaret refletia que no podia sentir-se to tranquila quanto  segurana de David.
        A mina de diamantes da Kruger-Brent, nas proximidades de Bloemfontein, era um complexo gigantesco, com centenas de operrios entregues s diversas operaes.
        -  uma das mais lucrativas da companhia - explicou David, quando se achavam no gabinete do capataz, aguardando algum que os acompanhasse s profundezas 
do solo. Numa das paredes, via-se uma vitrina cheia de diamantes de todas as cores e dimenses. - Cada pedra tem uma caracterstica distinta. As provenientes das 
margens do Vaal so de aluvio e tm as faces polidas pela eroso de sculos.
        "Est mais atraente que nunca", refletia Kate. "Adoro as suas sobrancelhas!"
        - Apesar de procederem de diferentes minas, podem identificar-se pelo aspecto - prosseguiu ele. - Repara nesta. O tamanho e a tonalidade amarelada indicam 
que veio de Paardspan. As De Beer tm uma superfcie oleosa e a forma de dodecaedros.
        " brilhante. Sabe tudo."
        - Esta outra veio da mina de Kimberley, porque  um octaedro.
        "O capataz pensar que somos amantes? Oxal que sim!"
        - A cor de um diamante serve para lhe determinar o valor e refere-se segundo uma escala que vai de um a dez. Em primeiro lugar, figura o azul-esbranquiado 
e, em ltimo, o castanho.
        "E cheira to bem!  um odor msculo. Adoro os seus braos e ombros. Quem dera..."
        - Kate!
        - Sim, David? - articulou com embarao.
        - Ests a prestar ateno?
        - Com certeza - afirmou, indignada. - No me escapou uma nica palavra do que disseste.
        Passaram as duas horas seguintes nas entranhas da mina, aps o que foram almoar, o que constitua a idia dela de um dia divinal.
        Quando a filha regressou, ao fim da tarde, Margaret perguntou:
        - Divertiste-te?
        - Imenso! O trabalho nas minas  realmente fascinante. Meia hora depois, espreitou casualmente pela janela e viu-a lutar com o filho de um dos jardineiros.
        Na poca escolar subsequente, as cartas de Kate do colgio revelaram-se prudentemente otimistas. Fora nomeada capit das equipas de hquei e lacrasse * e 
figurava no quadro de honra. O colgio no era to mau como supusera ao princpio e at havia algumas colegas realmente simpticas. Pedia autorizao para levar 
duas delas nas frias grandes, idia que agradou a Margaret. Agora, os seus sonhos concentravam-se apenas em Kate. "Jamie e eu pertencemos ao passado. Ela  o futuro. 
E que belo futuro ser!"

* Jogo de origem canadiana, no qual a bola  jogada com uma raqueta em forma de L. (N. do T.)


        Quando Kate regressou a casa nas frias, todos os rapazes a assediavam em busca do privilgio da sua companhia, mas ela no se mostrava interessada. David 
encontrava-se na Amrica, e aguardava com impacincia que voltasse. No dia em que se apresentou, a rapariga foi receb-lo  entrada, e ele sentiu-se surpreendido 
com o calor da reao que se lhe deparou no momento em que a abraou. Em seguida, retrocedeu um passo e contemplou-a. Havia algo de diferente nela, uma expresso 
no olhar que no conseguia definir e o embaraava vagamente.
        Nas poucas vezes em que as viu naquelas frias, achava-se rodeada por rapazes e especulava involuntariamente acerca de qual seria o felizardo. Dias depois, 
necessitou de se deslocar uma vez mais  Austrlia e, quando regressou a Klipdrift, Kate j seguia a caminho da Inglaterra.
        No ltimo ano no colgio, David surgiu inesperadamente, uma tarde. Em regra fazia-se preceder de uma carta ou telegrama, mas desta vez no houvera qualquer 
advertncia prvia.
        - Que surpresa maravilhosa! - exclamou Kate. - Devias ter-me prevenido, para...
        - Venho buscar-te - anunciou ele com gravidade.
        - H alguma novidade?
        - Tua me est muito mal.
        Ela conservou-se como que petrificada por um momento e murmurou:
        - Vou fazer as malas.
        Kate ficou chocada com o aspecto da me, pois vira-a poucos meses antes e parecera-lhe de excelente sade. Agora, apresentava-se plida e magra e o claro 
voluntarioso dissipara-se do olhar. Dir-se-ia que o cancro que lhe devorava a carne tambm consumira a alma.
        - Oh, me... - proferiu a rapariga, sentando-se na borda da cama e pegando na mo de Margaret. - No sei como exprimir...
        - Estou preparada, minha filha. No fundo, creio que o tenho estado desde a morte de teu pai. Queres ouvir um disparate? Sempre me preocupei com a possibilidade 
de ningum cuidar dele como devia. Agora, posso faz-lo eu.
        Margaret foi sepultada trs dias depois, e a sua morte abalou Kate profundamente. Perdera o pai e o irmo sem os conhecer, meras personagens obscuras do 
passado. O passamento da me, porm, era real e doloroso. Tinha dezoito anos e achava-se repentinamente s no mundo, perspectiva que se lhe afigurava assustadora.
        No cemitrio, diante da sepultura, resistiu corajosamente s lgrimas que pretendiam jorrar, mas uma vez em casa sentiu-se incapaz de as conter e rompeu 
em soluos.
        - Foi sempre maravilhosa para mim e eu no passei de uma filha ingrata.
        - Tambm foste uma filha maravilhosa - murmurou David, numa tentativa para a consolar.
        - S lhe causei preocupaes. Daria tudo para me poder redimir. Eu no queria que ela morresse.
        Ele aguardou que desabafasse por completo e, quando a viu mais calma, disse:
        - Embora te custe a crer, essa dor desaparecer, um dia. E sabes o que restar? Recordaes gratas. Lembrar-te-s de todas as coisas agradveis que tu e 
ela partilharam.
        -  possvel. Mas neste momento sofro horrivelmente. Na manh seguinte, discutiram o futuro dela.
        - Tens famlia na Esccia - recordou David.
        - No! No  a minha famlia. So parentes - comentou Kate, numa inflexo de amargura. - Quando meu pai quis partir para aqui, zombaram dele. Ningum o ajudou, 
 parte a me, que j morreu. No tenho nada de comum com aquela gente.
        - Tencionas completar os estudos? - e sem dar ensejo a que ela respondesse, acrescentou: - Penso que tua me o desejaria.
        - Nesse caso, voltarei para l - e baixou os olhos para o cho, articulando entre dentes: - Raios partissem o colgio.
        - Tambm, j no falta muito.
        Kate concluiu o curso com uma classificao elevada e David esteve presente na festa de encerramento.
        Quando se encontravam na carruagem privada, no trajeto de Joanesburgo para Klipdrift, ele observou:
        - Tudo isto ser teu dentro de poucos anos: esta carruagem, as minas, a companhia. Podes considerar-te uma mulher extremamente rica. Se resolveres vender 
tudo, obters muitos milhes de libras - olhou-a com curiosidade e concluiu:         - A menos que prefiras ficar  testa das operaes. Em breve ters de tomar 
uma deciso.
        - J ponderei o assunto - redarguiu Kate, com um sorriso. - Meu pai era um pirata. Um velho pirata maravilhoso. Lamento no o ter conhecido. No venderei 
a companhia. E queres saber porqu? Porque o pirata lhe deu os nomes de dois guardas que tentaram mat-lo. No te parece uma idia extraordinria? s vezes, de noite, 
quando no consigo dormir, penso em meu pai e em Banda rastejando atravs do mis do mar e julgo ouvir as vozes dos guardas: Kruger- Brent... - meneou a cabea. - 
Nunca a venderei. Pelo menos, enquanto te mantiveres nela e velares por tudo.
        - Ficarei at deixares de precisar de mim - prometeu David, com uma expresso solene.
        - Decidi matricular-me numa escola comercial.
        - Numa escola comercial? - ecoou ele, surpreendido.
        - Estamos em 1910 - lembrou Kate. - H vrias em Joanesburgo que admitem raparigas.
        - Mas...
        - Perguntaste o que faria com o meu dinheiro. Quero merec-lo.





































        Captulo XIV



        A escola comercial constituiu uma aventura nova e excitante. Quando frequentara Cheltenham, Kate encarara o fato como uma obrigao, um mal necessrio. Agora, 
era diferente. Em todas as aulas aprendia algo que lhe seria til quando dirigisse a companhia. O curso inclua contabilidade, gesto, comrcio internacional e administrao 
de empresas. Uma vez por semana, David telefonava, a fim de se inteirar de como corriam as coisas, e ela respondia:
        - Maravilhosamente.  uma experincia excitante.
        Um dia, trabalharia ao lado dele, at altas horas da noite, e, quando menos esperasse, David voltar-se-ia para ela e confessar-lhe-ia: "Tenho sido um pateta, 
querida. Queres casar comigo?" No instante imediato, estariam nos braos um do outro.
        Mas isso ainda vinha longe. Para j, tinha muito que aprender, pelo que se concentrava firmemente nos estudos.
        O curso comercial prolongou-se por dois anos, e Kate regressou a Klipdrift a tempo de celebrar o seu vigsimo aniversrio. David foi esper-la  estao 
e ela lanou-lhe os braos ao pescoo num gesto impulsivo.
        - Estou to contente de te ver!
        - Alegra-me que voltasses finalmente - articulou ele, mas arrependendo-se com prontido.
        - Que tens?
        - Nada. Simplesmente, as jovens no abraam os homens em pblico.
        - Compreendo - murmurou Kate, depois de o olhar em silncio por um momento. - Prometo no tornar a embaraar-te.
        No percurso para casa, David observou-a dissimuladamente. Na verdade, convertera-se numa mulher atraente, inocente e vulnervel, e prometeu a si prprio 
nunca se aproveitar disso.
        Na manh de segunda-feira, Kate instalou-se no seu novo gabinete na Kruger-Brent, Ltd. Afigurava-se-lhe que mergulhara subitamente num universo extico e 
bizarro, com costumes e linguagem prprios. Havia um surpreendente estendal de divises, subsidirios, departamentos regionais, insenes alfandegrias e sucursais 
no estrangeiro. Os produtos que a companhia manufaturava ou possua pareciam interminveis. Existiam igualmente fbricas, ranchos de gado, uma via-frrea, uma linha 
de navegao e, evidentemente, a fundao da fortuna da famlia: diamantes, ouro, zinco, platina e magnsio extrados sem interrupo, que ingressavam nos cofres 
da companhia.
        Poder.
        Era quase excessivo para se poder abarcar na totalidade. Kate, sentada no gabinete de David, assistia atentamente, enquanto ele tomava decises que afetavam 
milhares de pessoas dispersas pelo mundo. Os responsveis das vrias divises apresentavam sugestes, mas estas eram refutadas com frequncia.
        - Porque discordas deles? - quis saber Kate. - No cumprem a sua obrigao?
        - Claro que cumprem, mas no  essa a questo. Cada um encara o seu departamento como o centro do mundo, como convm. No entanto, algum tem de formar uma 
viso global e decidir o que interessa mais  companhia. Anda da. Vamos almoar com uma pessoa que precisas de conhecer.
        David conduziu-a  espaosa sala de jantar contgua ao gabinete dela, onde os aguardava um rapaz de rosto esguio e olhar incisivo.
        - Este  Brad Rogers - informou David. - Brad, aqui tem a sua nova patroa, Kate McGregor.
        - Tenho muito gosto em conhec-la, Miss McGregor - disse o rapaz, estendendo a mo.
        -  a tua arma secreta - explicou David a Kate. - Sabe tanto acerca da Kruger-Brent, Ltd. como eu. Se alguma vez me afastar, ele suprir a minha falta.
        "Se alguma vez me afastar...". A possibilidade obrigou a rapariga a estremecer involuntariamente. "Ele nunca abandonaria a companhia". No obstante, s pensou 
nisso ao longo da refeio e, no final, no conseguiu recordar-se do que comera.
        Aps o almoo, trocaram impresses sobre a frica do Sul.
        - Teremos problemas em breve - advertiu David. - O Governo acaba de promulgar o imposto individual.
        - Em que consiste, exatamente? - perguntou Brad Rogers.
        - Os negros, os mestios e os indianos tm de pagar duas libras por cada membro da famlia, o que representa mais de um ms de salrio.
        Kate lembrou-se de Banda e acudiu-lhe uma onda de apreenso. Todavia, no tardaram a abordar outros tpicos.
        A nova vida agradava-lhe imensamente. Cada deciso envolvia o risco de milhes de libras. Os negcios de alto nvel constituam uma combinao de argcia, 
coragem para jogar uma cartada e instinto para saber quando desistir ou ir para a frente.
        - Os negcios so um jogo - afirmava David. - Esto envolvidas apostas fantsticas e temos de competir com peritos. Quem quiser ganhar precisa de aprender 
a ser um mestre do jogo.
        Era precisamente isso que Kate estava disposta a fazer. Aprender.
        Ela vivia s na vasta moradia, apenas com a companhia do pessoal domstico. O ritual dos jantares das sextas-feiras com David prosseguiu, mas, quando Kate 
o convidava em qualquer outro dia, ele invocava um pretexto para recusar. Durante as horas de expediente, estavam juntos constantemente, mas mesmo nessas ocasies 
ele parecia ter erguido uma barreira entre ambos, uma muralha que ela se sentia incapaz de transpor.
        Quando completou vinte e um anos, todas as aes da Kruger-Brent International foram transferidas para Kate, a qual passou assim a dispor do controle oficial 
da companhia.
        - Jantemos juntos, esta noite, para comemorar o acontecimento - props a David.
        - Desculpa no aceitar a sugesto, mas tenho muito trabalho para pr em dia.
        Por conseguinte, ela jantou s, sem conseguir determinar o motivo. "A culpa ser minha ou dele?" David tinha de ser surdo, cego e mudo para no adivinhar 
o seu afeto de longa data. Impunha-se que tomasse medidas para retificar a situao.
A companhia negociava o estabelecimento de uma linha de navegao nos Estados Unidos e David sugeriu:
        - Porque no vais com Brad a Nova Iorque ultimar as negociaes? Era uma boa experincia para ti.
        Embora preferisse que ele a acompanhasse, o amor-prprio impediu-a de o revelar. Ocupar-se-ia de tudo sem a sua ajuda. De resto, nunca visitara a Amrica 
e ansiava por faz-lo.
        O acordo foi estabelecido sem problemas, e Kate recordou-se da recomendao de David no sentido de que aproveitasse a oportunidade para conhecer o pas.
        Ela e Brad visitaram companhias subsidirias em Detroit, Chicago, Pitsburgo e Nova Iorque, e Kate sentia-se abismada com a dimenso e a energia dos Estados 
Unidos. O ponto alto da digresso consistiu na excurso a Dark Harbor, Maine, numa ilhota encantadora denominada Islesboro, na baa Penobscot. Fora convidada para 
jantar na residncia do artista Charles Dana Gibson, onde compareceram doze pessoas, todas com moradias na ilha.
        - Este lugar tem uma histria interessante - revelou o dono da casa a Kate. - H anos, os residentes costumavam fazer-se transportar de Boston em pequenas 
embarcaes costeiras. Aguardava-os uma carruagem que os conduzia s diferentes residncias.
        - Quantas pessoas vivem atualmente na ilha?
        - Cerca de cinquenta famlias. Viu o farol, quando oferry boat acostou?
        - Sim.
        -  ocupado por um homem e o seu co. Quando passa um barco, o animal vai l fora e toca a sineta.
        - Est a brincar - disse ela, rindo.
        - De modo algum. E, por estranho que parea, o co  surdo como uma porta. Por conseguinte, pousa a orelha na sineta, para verificar se vibra.
        - D a impresso de que se trata de um ambiente fascinante.
        - Merece a pena ficar e dar uma volta, pela manh.
        - Porque no? - assentiu, cedendo a um impulso.
        Kate pernoitou no nico hotel da ilha e, no dia seguinte, alugou uma tipia, conduzida por um ilhu. Partiram do centro de Dark Harbor, que consistia num 
armazm de artigos gerais, uma loja de ferragens e um pequeno restaurante, e, transcorridos poucos minutos, atravessavam uma bela rea arborizada. Entretanto, ela 
apercebia-se de que nenhuma das pequenas ruas sinuosas tinha nome, e o mesmo acontecia com os receptculos de correio, o que a levou a perguntar ao cocheiro:
        - As pessoas no se perdem, devido  falta de indicaes?
        - No. Toda a gente sabe onde as coisas se situam.
        - Compreendo - murmurou, lanando-lhe um olhar de travs.
        Na extremidade inferior da ilha, passaram diante de um cemitrio e Kate pediu ao homem que parasse.
        Em seguida, apeou-se e percorreu as passagens entre as sepulturas, entretendo-se a ler algumas lpides.
        "JOB PENDLETON, FALECIDO A 25 DE JANEIRO DE 1796, AOS 47 ANOS". O epitfio era do seguinte teor:
        "Debaixo desta pedra, pouso a cabea imerso no sono eterno. Que Deus abenoe a cama."
        "JANE, MULHER DE THOMAS PENDLETON, FALECIDA A 25 DE FEVEREIRO DE 1802, AOS 47 ANOS".
        Pairavam espritos de outro sculo, de uma era h muito extinta. "CAPITO WILLIAM HATCH, AFOGADO NO SOUND DE LONG ISLAND EM OUTUBRO DE 1866, AOS 30 ANOS". 
Seguia-se o epitfio: "Enfrentou tempestades furiosas e cruzou todos os mares embravecidos."
        Kate conservou-se demoradamente no cemitrio, saboreando o silncio e a paz. Por fim, regressou  tipia, que reatou a marcha.
        - Como  o Inverno aqui? - perguntou, passados uns minutos.
        - Frio. A baa costumava gelar e as pessoas vinham do continente de tren. Agora, temos oferry, claro.
        Contornaram uma curva e surgiu, junto da gua, em baixo, uma atraente moradia de dois pisos rodeada por rosas silvestres e papoilas. Os estores das oito 
janelas da frente estavam pintados de verde e junto da porta dupla havia bancos brancos e seis vasos com gernios vermelhos. O conjunto assemelhava-se a algo extrado 
de um conto de fadas.
        - A quem pertence aquela casa?
        - Ao velho Dreben, que enviuvou h poucos meses.
        - Quem mora l agora?
        - Ningum, suponho.
        - Sabe se est  venda?
        O homem olhou a passageira por um momento e replicou:
        - Se estiver, compra-a de certeza o filho de uma das famlias j instaladas aqui. Os ilhus no simpatizam com os forasteiros.
        No podia ter pronunciado palavras mais apropriadas para estimular o esprito competitivo de Kate, a qual, menos de uma hora depois, se avistava com um advogado 
que representava o proprietrio.
        -  por causa da casa Dreben - explicou ela. - Est  venda?
        O interpelado franziu os lbios e declarou:
        - Sim e no.
        - Que quer dizer com isso?
        - Est, mas h vrias pessoas interessadas.
        "As famlias antigas da ilha", cogitou Kate, que persistiu:
        - Apresentaram uma oferta?
        - Ainda no, mas...
        - Ento, apresento eu.
        -  uma casa dispendiosa.
        - Indique o preo.
        - Cinquenta mil dlares.
        - Vamos v-la por dentro.
        O interior da casa era ainda mais atraente do que ela previra. O vestbulo achava-se virado ao mar, atravs de uma parede de vidro. A um lado, havia um amplo 
salo de baile e, no outro, uma sala de estar com uma vasta lareira. No faltava a biblioteca de decorao conservadora, a vasta cozinha e, a seguir, a copa e uma 
arrecadao. No rs-do-cho, situavam-se seis quartos para o pessoal e uma casa de banho e, no piso superior, uma suite e quatro quartos de menores dimenses. O 
conjunto era muito maior do que Kate calculara. -Mas quando David e eu tivermos filhos, precisaremos de todo este espao", refletiu. O terreno adjacente estendia-se 
at  baa, onde se localizava uma doca privada.
        - Fico com ela - anunciou, sem hesitar. Decidiu chamar-lhe Cedar Hill.
        Ansiava por regressar a Klipdrift, para transmitir a nova a David. Durante a viagem, dominava-a uma excitao invulgar. A casa que acabava de adquirir em 
Dark Harbor constitua um sinal, um smbolo de que eles casariam um com o outro, e sabia que David tambm adoraria a moradia.
        Na tarde em que chegou a Klipdrift com Brad, Kate precipitou-se imediatamente para o gabinete de David. Ao v-lo, sentado  secretria, com o habitual ar 
eficiente, sentiu o corao palpitar desordenadamente e s ento se apercebeu de como sentira a sua falta.
        - S bem-vinda! - exclamou ele, levantando-se. E antes que ela tivesse ensejo de proferir palavra, acrescentou: - Quero que sejas a primeira a saber. Vou 
casar!











        Captulo XV



        Tudo principiara com naturalidade, seis semanas antes. A meio de um dia particularmente atarefado, David foi informado de que Tim O'Neil, amigo de um importante 
comprador de diamantes americano, se encontrava em Klipdrift e lhe solicitava que o recebesse e porventura levasse a jantar. Embora no gostasse de perder tempo 
com turistas, reconheceu que no devia contrariar o cliente e, dada a impossibilidade de delegar a fastidiosa misso em Kate, ausente na Amrica do Norte com Brad 
Rogers, telefonou para o hotel onde O'Neil se alojara e convidou-o para jantar naquela noite.
        - Vim com minha filha - esclareceu o americano. - Espero que no se importe que me acompanhe.
        - De modo algum - replicou David polidamente, conquanto no lhe apetecesse ter de aturar uma criana.
        Combinaram encontrar-se na sala de jantar do Grand Hotel e, quando ele chegou, O'Neil e a filha j se achavam sentados  mesa. O pai era um indivduo bem-parecido, 
de cabelos grisalhos, provavelmente com pouco mais de cinquenta anos, mas a rapariga, Josephine, foi imediatamente considerada a mulher mais bonita que David jamais 
vira. Aparentava trinta anos, com um corpo deslumbrante, cabelos louros sobre os ombros e olhos azul-claro.
        - Desculpem o atraso - balbuciou, perturbado. - Surgiu um assunto inesperado.
        - s vezes, so os mais excitantes - observou ela, divertida com a reao que provocara. - Meu pai diz que  um homem muito importante, Mister Blackwell.
        - Nem por isso... e agradecia que me tratasse por David.
        -  um bom nome. Sugere grande voluntariedade. 
        Antes do final da refeio, David j decidira que Josephine era muito mais do que uma mera mulher bonita. Possua inteligncia, esprito e o condo sutil 
de o pr  vontade. Na realidade, pressentia que se interessava genuinamente por ele, pois dirigia-lhe perguntas de natureza pessoal que nunca ouvira dos lbios 
de outra mulher. Por conseguinte, no se surpreendeu quando, no termo do sero, descobriu que j se enamorara parcialmente dela.
        - Onde residem? - perguntou a Tim O'Neil.
        - Em So Francisco.
        - Regressam em breve? - desta vez, esforou-se por envolver a interrogao numa aura de formalidade.
        - Para a semana.
        - Se Klipdrift  to interessante como promete, talvez o convena a ficarmos mais algum tempo - interps Josephine, com um sorriso cativante.
        - Nesse caso, tratarei de redobrar os motivos de interesse - prometeu David. -Gostavam de visitar uma mina de diamantes?
        - Adorvamos! - afirmou ela.
        Outrora, ele acompanhava pessoalmente os visitantes importantes s minas, mas acabara por confiar a tarefa a subordinados. Agora, porm, props impulsivamente:
        - Amanh, convm-lhes?
        Tinha vrias entrevistas marcadas para o dia seguinte, mas, de repente, haviam perdido toda a importncia.
        David conduziu os O'Neil no elevador que terminava o percurso quatrocentos metros abaixo da superfcie.
        - H um pormenor que sempre me intrigou - disse Josephine. - Por que se avaliam os diamantes em carates?
        - O termo "carate" foi inspirado na semente da carob - explicou David -, devido  sua consistncia no peso. Um carate  igual a duzentos miligramas.
        - Sinto-me absolutamente fascinada.
        Ele no pde deixar de perguntar a si mesmo se Josephine se referia apenas aos diamantes. A sua proximidade era inebriante. Cada vez que a contemplava, experimentava 
uma nova sensao excitante.
        - Deviam visitar os arredores, o campo - sugeriu. - Se no tm qualquer compromisso para amanh, acompanh-los-ei com o maior prazer.
        Antes que o pai se pudesse pronunciar, Josephine declarou:
        -  uma tima idia.
        A partir de ento, David encontrou-se com ela e o pai todos os dias e,  medida que o tempo passava, o amor que sentia acentuava-se. Nunca conhecera uma 
mulher to fascinante.

* Alfarroba. (N. do T.)


        Uma noite, quando foi buscar os O'Neil para jantar, David ouviu o americano alegar:
        - Hoje, sinto-me um pouco em baixo. Importa-se que no os acompanhe?
        - De modo algum - e David esforou-se por dissimular a satisfao. - Compreendo perfeitamente.
        - Tentarei evitar que se aborrea - prometeu Josephine, com um sorriso malicioso.
        Ele levou-a a um restaurante inaugurado recentemente. A sala encontrava-se repleta, mas o chefe de mesa reconheceu-o e apressou-se a indicar um lugar perto 
do conjunto musical que amenizava o ambiente.
        - Danamos? - sugeriu David.
        - Com todo o gosto - assentiu Josephine.
        No momento imediato, achava-se nos braos dele, que se sentiu transportado a uma atmosfera de magia.
        - Amo-a, Josephine! - acabou por desabafar.
        - No diga isso, por favor.
        - Porqu?
        - Porque no poderia casar consigo.
        - Ama-me?
        - Estou louca por si, querido - sussurrou ela, os olhos azuis emitindo um claro irresistvel. - No o nota?
        - Ento, qual o motivo?
        - Nunca conseguiria habituar-me a Klipdrift. Terminava por endoidecer.
        - Podia experimentar.
        - Sinto-me tentada, mas sei o que aconteceria. Se casasse consigo e tivesse de viver aqui, convertia-me numa neurastnica e acabvamos por nos odiar. Prefiro 
que nos separemos assim.
        Josephine olhou-o em silncio por um momento e aventurou:
        - V alguma possibilidade de se adaptar a So Francisco?
        - Que faria l? - articulou ele, refletindo que se tratava de uma idia impraticvel.
        - Quero que converse com o meu pai. Tomaremos o pequeno-almoo juntos.
        - Josephine falou-me do que se passou, ontem  noite - informou Tim O'Neil.         - Tudo indica que se lhes depara um problema, mas talvez eu possa apresentar 
uma soluo, se estiver interessado.
        - Sem dvida.
        - Sabe alguma coisa acerca de alimentos congelados? - perguntou extraindo um mao de documentos de uma pasta.
        - Receio bem que no.
        - As primeiras experincias na matria efetuadas nos Estados Unidos datam de mil oitocentos e sessenta e cinco. A dificuldade consistia em transportar os 
alimentos a longas distncias, sem que descongelassem. Dispunhamos de carruagens frigorficas, mas ningum descobria um meio de refrigerar caminhes - pousou os 
dedos nos documentos. - At agora. Acabo de receber a patente do mtodo que revolucionar toda a indstria alimentar.
        - Confesso que no consigo interpret-los - declarou David, depois de consultar os papis.
        - Isso no interessa, pois no procuro um perito tcnico. Tenho-os em abundncia. O que pretendo  o financiamento e algum que dirija as operaes. No 
se trata do sonho de um visionrio. Troquei impresses com especialistas na matria, que foram unnimes em reconhecer o valor da descoberta. Preciso de uma pessoa 
como voc.
        - A central da companhia ser em So Francisco - esclareceu Josephine.
David conservou-se silencioso por um momento, assimilando o que acabava de escutar. Por fim, observou:
        - Diz que obteve a patente?
        - Exato. Est tudo a postos para arrancar.
        - Importa-se de me emprestar estes documentos, para que os mostre a algum.
        - Nada tenho a objetar.
        A primeira coisa que David fez foi inteirar-se da idoneidade do americano, e revelaram-lhe que possua reputao slida em So Francisco. Dirigira o departamento 
cientfico do Berkeley College e desfrutava do respeito geral. David ignorava tudo o que se referia a congelao de produtos alimentares, mas tencionava elucidar-se.
        - Voltarei dentro de cinco dias, querida. Gostava que tu e teu pai esperassem.
        - O tempo que quiseres - assentiu Josephine. - Vou ter saudades tuas.
        - E eu tuas - admitiu David, com maior sinceridade do que ela supunha.
        Ele seguiu de comboio para Joanesburgo e avistou-se com Edward Broderick, proprietrio da maior fbrica de carne enlatada da frica do Sul.
        - Queria ouvir a sua opinio acerca disto - declarou David, mostrando-lhe os documentos. - Preciso de saber se pode resultar.
        - No percebo patavina de alimentos congelados ou caminhes frigorficos, mas conheo quem est familiarizado com o assunto. Se quiser voltar  tarde, terei 
aqui dois peritos para lhe dissiparem as dvidas.
        David tornou a visitar Edward Broderick s quatro daquela tarde. Ao mesmo tempo, apercebia-se de um certo nervosismo e incerteza, porque no estava bem ciente 
de como desejava que a reunio se desenrolasse. Duas semanas antes, teria soltado uma gargalhada, se algum sugerisse que, um dia, abandonaria a Kruger-Brent, Ltd., 
companhia que fazia parte da sua prpria vida. E riria ainda com mais gosto se esse algum acrescentasse que dirigiria uma pequena empresa de alimentos congelados 
em So Francisco. A situao poderia considerar-se inconcebvel, se no existisse um pormenor decisivo: Josephine O'Neil.
        Edward Broderick achava-se acompanhado de dois homens, que se apressou a apresentar:
        - O doutor Crawford e Mister Kaufman. Trocaram apertos de mo e David perguntou:
        - Tiveram oportunidade de examinar os documentos?
        - Sem dvida - aquiesceu o dr. Crawford. - No descuramos um pormenor.
        - E?...
        - Diz Mister Broderick que foi concedida a patente pelo departamento competente dos Estados Unidos.
        -  verdade.
        - Pois bem, Mister Blackwcll. Quem a obteve acumular uma fortuna aprecivel em pouco tempo.  como todas as grandes invenes. To simples que admira que 
ningum se lembrasse disso antes.
        David inclinava a cabea com lentido, assolado por emoes em conflito. No fundo, no sabia como reagir, pois, em parte, desejara que a deciso lhe fosse 
retirada das mos. Se o invento de Tim O'Neil carecesse de valor, subsistiria uma possibilidade de convencer Josephine a ficar na frica do Sul. Todavia, o que o 
pai dela afirmara correspondia  verdade. Assim, a deciso competia unicamente a David.
        No pensou noutra coisa durante a viagem de regresso a Klipdrift. Se aceitasse a oferta, teria de abandonar a companhia e iniciar vida nova. Por outro lado, 
apesar de americano por nascimento, os Estados Unidos constituam um pas estranho para ele. Desempenhava um cargo importante numa das firmas mais poderosas do mundo, 
gostava do trabalho que executava, Jamie e Margaret haviam-no tratado como pais e, alm disso, no podia esquecer Kate. Preocupara-se com ela desde que nascera. 
Vira-a desenvolver-se de uma garota arrapazada at uma jovem atraente. Na realidade, a vida da rapariga era um lbum fotogrfico no seu esprito. Voltando as pginas, 
evocara-a aos quatro anos, aos oito, aos dez, aos catorze, aos vinte e um, vulnervel e imprevisvel.
        Quando o comboio se imobilizou na estao de Klipdrift, David tomara uma resoluo. Abandonaria a Kruger-Brent, Ltd.
        Seguiu diretamente para o Grand Hotel e subiu  suite dos O'Neil, cuja porta foi aberta por Josephine.
        - David!
        Ele tomou-a nos braos e beijou-a com voracidade, sentindo a presso do seu corpo vido.
        - Tive tantas saudades tuas! - murmurou ela. - No quero voltar a separar-me de ti.
        - No haver mais separaes - afirmou David, pausadamente. - Vou para So Francisco.
        Aguardou com ansiedade crescente que Kate regressasse dos Estados Unidos. Agora que tomara a deciso, estava impaciente por enveredar pela nova vida e casar 
com Josephine.
        Por fim, a rapariga surgira e ele anunciara-lhe:
        - Vou casar.
        Kate ouviu as palavras atravs de um rugido surdo.
        Parecia-lhe subitamente que desmaiaria, e pousou a mo no tampo da secretria para se apoiar. "Quero morrer. Deixa-me morrer j, meu Deus!"
        No obstante, reunindo energias que julgava dissipadas, conseguiu esboar um sorriso e dizer:
        - Fala-me dela - orgulhava-se da firmeza da voz. - Quem ?
        - Chama-se Josephine O'Neil e encontra-se de visita ao pas, com o pai. Tenho a certeza de que sero boas amigas.  uma mulher extraordinria.
        - Deve ser, para que a ames.
        - H outra coisa - e David hesitou. - Vou sair da companhia.
        - O fato de casares no significa... - comeou ela, sentindo o mundo desmoronar-se  sua volta.
        - No se trata disso. O pai de Josephine vai iniciar uma nova atividade em So Francisco e necessita de mim.
        - Ah... vais viver para So Francisco.
        - Exato. Brad Rogers pode ocupar o meu lugar sem dificuldade e formaremos um grupo de gesto para o auxiliar. No tenho palavras para exprimir o pesar que 
esta deciso me provoca.
        - Compreendo perfeitamente. Deves... deves am-la muito. Quando me apresentas?
        Ele sorriu ao verificar que a notcia era aceite sem problemas.
        - Esta noite, se estiveres disponvel para jantar conosco. Kate conseguiu conter as lgrimas at que se encontrou s.
        Jantaram os quatro na manso McGregor. No instante em que viu Josephine, Kate empalideceu de desolao: "No admira que ele a ame o suficiente para a desposar!" 
Na verdade, a americana era positivamente deslumbrante. O simples fato de se achar na sua presena fazia que ela se sentisse embaraada e hedionda. E, para agravar 
a situao, Josephine mostrava-se graciosa e cordial, alm de que amava obviamente David. "Raios para tudo isto!"
        Durante a refeio, Tim O'Neil elucidou Kate sobre a nova firma, e, no final, ela admitiu:
        - Parece um projeto interessante.
        - Sem, todavia, atingir a envergadura da Kruger-Brent, Limited, Miss McGregor. Principiaremos do zero, mas, com David  testa das operaes, havemos de prosperar 
rapidamente.
        - Sim, estando ele  frente de tudo, o xito  garantido. O sero desenrolou-se numa atmosfera angustiante para Kate. No mesmo momento cataclsmico, perdia 
o homem que amava e a nica pessoa indispensvel para Kruger-Brent, Ltd. Apesar disso, conversava com normalidade, embora mais tarde no conseguisse recordar o que 
fizera ou dissera. S sabia que cada vez que David e Josephne olhavam um para o outro ou se tocavam tinha vontade de pr termo  vida.
        Quando regressavam ao hotel, a americana afirmou sem azedume:
        - Ela ama-te, David.
        - Kate? - ele exibiu um sorriso de incredulidade. - Somos apenas amigos de longa data. Alm disso, estou convencido de que gostou de ti.
        "Os homens so to ingnuos", refletiu ela, sorrindo igualmente.
        Tim O'Neil e David reuniram-se no gabinete deste ltimo, na manh seguinte, a fim de trocarem impresses sobre o futuro.
        - Preciso de cerca de dois meses para arrumar os meus assuntos aqui - declarou David. - Estive a pensar no financiamento indispensvel para arrancarmos. 
Se recorrermos a uma companhia de grande envergadura, somos devorados depois de nos concederem uma pequena parcela. Acho que ns prprios devamos financiar o empreendimento. 
Calculo que necessitaremos de oitenta mil dlares para as operaes iniciais. Como economizei o equivalente a quarenta mil, temos de arranjar outro tanto.
        - Disponho de dez mil - informou Tim O'Neil. - E tenho um irmo que me emprestar mais cinco mil.
        - Nesse caso, faltam-me vinte e cinco mil dlares. Tentaremos obt-los de um banco.
        - Vamos partir para So Francisco imediatamente, a fim de prepararmos as coisas para quando voc chegar.
        Josephine e o pai seguiram para os Estados Unidos dois dias mais tarde e Kate sugeriu:
        - Oferece-lhes a carruagem da companhia at  Cidade do Cabo, David.
        -  uma idia generosa da tua parte.
        Na manh em que a americana partiu, ele experimentou a sensao de que lhe arrancavam uma parte da sua vida e ansiou pelo dia em que se lhe reuniria.
        As semanas seguintes foram consagradas a diligncias para constituir uma equipe de gesto para coadjuvar Brad Rogers. Este, Kate e David elaboraram uma lista 
de possveis candidatos e passaram longas horas analisando o currculo de cada um.
        - ...Taylor  um tcnico, mas no possui experincia de gesto.
        - E Simmons?
        - Tem qualidades prometedoras, mas ainda no est suficientemente maduro.
        - Babcock?
        - No parece mau. Discutamo-lo a fundo.
        - E quanto a Peterson?
        - Carece de esprito de sacrifcio. Preocupa-se demasiado consigo prprio.
        Ao pronunciar estas palavras, David no pde evitar uma ponta de remorso, pois preparava-se para abandonar Kate.
        O estudo da relao de candidatos prosseguiu e, no final de um ms, achava-se reduzida a quatro homens. Todos eles desempenhavam cargos em delegaes situadas 
no estrangeiro, pelo que foram convocados a fim de serem entrevistados. As trocas de impresses com os dois primeiros desenrolaram-se satisfatoriamente e Kate assegurou 
a David e a Brad:
        - Qualquer deles me satisfaz.
        Na manh em que se deveria realizar a terceira entrevista, David surgiu no gabinete dela, profundamente plido.
        - O meu lugar ainda est vago?
        - Que se passa? - perguntou ela, alarmada.
        - Uma coisa inesperada - articulou ele, afundando-se numa cadeira.
        - O qu?
        - Acabo de receber uma carta de Tim O'Neil. Vendeu o negcio.
        - Que queres dizer?
        - Exatamente o que ouviste. Aceitou uma oferta de duzentos mil dlares pelos direitos de explorao do seu invento da Three Star Meat Packing Company de 
Chicago - o tom de David achava-se impregnado de amargura. - A companhia gostava de assegurar os meus servios para dirigir as operaes. O'Neil afirma que lamenta 
o contratempo que me provoca, mas no podia recusar uma soma to elevada.
        - E Josephine? - perguntou Kate, olhando-o com intensidade. - Que diz? Deve estar furiosa com o pai.
        - Tambm recebi carta dela. Casar comigo, assim que chegar a So Francisco.
        - E no tencionas ir?
        - Claro que no! - explodiu ele. - At aqui, tinha alguma coisa para oferecer. Podia transformar a firma numa companhia de grande envergadura. Infelizmente, 
eles estavam muito ansiosos por arrecadar uma quantia avultada.
        - No s justo ao dizer "eles".
        - O'Neil nunca aceitaria a oferta sem a aprovao de Josephine.
        - Confesso que no sei o que dizer.
        - Basta que digas que ia cometendo o maior erro da minha vida.
        Kate pegou na lista de candidatos e principiou a rasg-la com lentido.
        Nas semanas subsequentes, David mergulhou profundamente no trabalho, numa tentativa para esquecer a amargura e a mgoa. Entretanto, recebeu vrias cartas 
de Josephine O'Neil, que depositou no cesto de papis sem as abrir. Contudo, no conseguia esquec-la, e Kate, consciente da desolao do amigo, no perdia a oportunidade 
de lhe fazer sentir que se achava presente, se necessitasse dela.
        Tinham-se escoado seis meses desde que David recebera a carta de Tim O'Neil e, entretanto, aquele e Kate continuavam a trabalhar juntos. Ela esforava-se 
por agradar ao companheiro de todas as maneiras possveis. Trajava em conformidade com o que julgava representar as suas preferncias, projetava viagens em comum 
e, numa palavra, diligenciava tornar-lhe a existncia o mais feliz possvel. No entanto, no obtinha o mnimo resultado e, por ltimo, perdeu a pacincia.
        Encontravam-se no Rio de Janeiro para investigar as possibilidades da descoberta de um novo mineral, e, uma noite, aps o jantar, reuniram-se no quarto de 
Kate para examinar uns relatrios. Ela enfiara um quimono e chinelos para se sentir mais confortvel e, quando terminaram, David espreguiou-se e anunciou:
        - Estou derreado. Acho que vou me deitar.
        - No te parece chegado o momento de tirares o luto? - observou Kate, em voz tona.
        - Qual luto? - inquiriu ele, surpreendido.
        - Por Josephine O'Neil!
        - H muito que desapareceu da minha vida.
        - Ento, procede em conformidade.
        - Que queres que faa?
        Kate acabou por se enfurecer, em virtude da cegueira de que ele dava provas, assim como por todo o tempo perdido.
        - Beija-me, por exemplo!
        - O qu?
        - No sou a tua patroa? - rugiu, acercando-se. - Ordeno-te que me beijes.
        E, rodeando-lhe o pescoo com os braos, colou os lbios aos dele. Ao princpio, sentiu-o resistir e tentar retrair-se, porm, a reao no tardou e passou 
a colaborar.
        - Kate...
        - Estava a ver que nunca mais me propunhas isso - sussurrou ela, comeando a soltar o cinto do quimono.
        Casaram seis semanas depois, na cerimnia de maior pomba a que Klipdrift jamais assistira. Celebrou-se na igreja mais importante da cidade, aps o que se 
realizou uma recepo no recinto do Municpio. Havia montanhas de comida e inmeras grades de cerveja, juntamente com usque e champanhe, enquanto uma orquestra 
abrilhantava a festa, que se prolongou at de madrugada. Quando o Sol despontou, Kate e David afastaram-se discretamente.
        - Vou a casa acabar de fazer as malas - informou ela. - Passa por l dentro de uma hora.
        Por entre a claridade plida da alvorada, Kate entrou na vasta manso e dirigiu-se ao seu quarto, no primeiro andar, onde se aproximou de um quadro pendurado 
na parede e exerceu presso em determinado ponto da moldura. Ato contnuo, a tela comeou a deslizar para o lado e exps um cofre embutido. Aps uma pausa, ela abriu-o 
e extraiu um documento. Era o contrato da compra da Three Star Meat Packing Company de Chicago, por Kate McGregor. Junto dele, encontrava-se outro referente  aquisio, 
por aquela firma, dos direitos de explorao do invento de Tim O'Neil por duzentos mil dlares. Hesitou por um momento e voltou a guard-los no cofre. Agora, David 
pertencia-lhe. Sempre lhe pertencera. E  Kruger-Brent, Ltd. Juntos, torn-la-iam a companhia mais poderosa do mundo.
        Exatamente como Jamie e Margaret McGregor teriam desejado.






















TERCEIRA PARTE




                Kruger-Brent, Ltd. 1914-1945


        Captulo XVI



        Encontravam-se na biblioteca, onde outrora Jamie gostava de se sentar com um clice de brande na sua frente, e David argumentava que no havia tempo para 
uma verdadeira lua-de-mel.
        - Algum tem de olhar pela loja.
        - De acordo, Mister Blackwell. Mas quem olhar por mim?
        Kate enroscou-se sobre os joelhos do marido, que sentiu o calor do seu corpo atravs do vestido, enquanto os documentos que examinava deslizavam para o cho. 
Em seguida, ela levantou-se e despiu-se com estudada lentido, aps o que estendeu as mos e principiou a desabotoar-lhe a camisa.
        - Possui-me, David! - gemeu, entregando-se-lhe.
        A espessa carpeta afigurou-se-lhes apropriada para o que pretendiam. Kate estremeceu levemente no momento em que ele a penetrou e assolou-a uma vaga de sensaes 
inebriantes que culminaram num xtase indefinvel. "Morri e fui para o Cu...", refletiu no instante da exploso final.
        Percorreram praticamente todo o mundo, visitando, entre outras cidades, Paris, Zurique, Sydney e Nova Iorque, ao servio da companhia, mas aproveitando igualmente 
alguns momentos para si prprios. Conversavam at altas horas da noite, faziam amor e exploravam-se mutuamente os corpos e os espritos. Kate constitua um prazer 
inesgotvel para David. Acordava-o de madrugada para o obrigar a atividades sexuais pags e, poucas horas depois, participava numa conferncia de negcios, mais 
lcida e eficiente do que qualquer dos outros presentes. Possua uma propenso especial para os negcios, to rara como inesperada. Ao princpio, tratavam-na com 
condescendncia tolerante, que no tardava a converter-se em respeito. Ela experimentava uma satisfao especial em se dedicar s manobras e maquinaes do jogo, 
e David via-a empregar argumentos que venciam indivduos mais experientes. Na verdade, Kate dispunha de todos os instintos de uma vencedora. Sabia o que queria e 
como obt-lo. Poder.
        Culminaram a lua-de-mel com uma semana gloriosa na casa de Cedar Hill, em Dark Harbor.
        Foi a 28 de Junho de 1914 que comeou a admitir-se a possibilidade de uma guerra, quando eles haviam sido convidados para uma residncia de campo em Sussex. 
Decorria a poca em que as pessoas endinheiradas preferiam residir fora das cidades, e os hspedes de fim-de-semana deviam obedecer a um ritual. Os homens trajavam 
formalmente para o pequeno-almoo, mudavam de indumentria para o perodo que medeava at ao almoo e a operao voltava a repetir-se ao longo do dia, sendo exigido 
o smoking ou sobrecasaca para o jantar.
        - Safa! - protestou David. - Sinto-me como um pavo.
        - Um pavo muito atraente, querido. Quando chegarmos a casa, podes andar nu.
        - No quero esperar tanto tempo - declarou ele, apertando-a nos braos.
        Ao jantar, surgiu a notcia de que Francisco Ferdinando, herdeiro do trono austro-hngaro, e a esposa, Sofia, tinham sido assassinados.
        O anfitrio, Lord Maney, comentou:
        -  sempre deplorvel ouvir que mataram uma mulher. Em todo o caso, ningum vai envolver-se numa guerra por causa de um pequeno pas balcnico.
        E passaram a trocar impresses acerca do crquete. Mais tarde, na cama, Kate perguntou:
        - Achas que vai haver guerra?
        - Devido  morte de um arquiduque qualquer? Claro que no.
        A previso de David revelou-se errada. O Imprio Austro-Hngaro, suspeitando de que a sua vizinha Srvia instigara o conluio para assassinar Ferdinando, 
declarou-lhe guerra, e, em Outubro, a maior parte das potncias mundiais estavam envolvidas no conflito. Era uma contenda de uma espcie nova. Empregavam-se pela 
primeira vez veculos mecanizados, como aeroplanos, porta-avies e submarinos.
        No dia em que a Alemanha declarou guerra, Kate observou:
        - Pode ser uma oportunidade excelente.
        - Porqu? - perguntou David, enrugando a fronte.
        - As naes vo precisar de armas e munies...
        - No as obtero de ns - interrompeu com firmeza. - O negcio que temos chega perfeitamente. No vamos arrecadar lucros  custa do sangue dos outros.
        - Ests a dramatizar a situao. Algum tem de fabricar armamento.
        - Enquanto eu pertencer  companhia, no seremos ns. No quero discutir mais o assunto. Est encerrado!
        "Isso  o que tu pensas!..." refletiu ela. "Porque ser um idealista to ingnuo?"
        Por seu turno, David pensava: "Est mudada. Antes, no revelava essa indiferena pela sorte dos outros."
        Os dias que se seguiram foram difceis para ambos. Ele deplorava o vazio emocional criado entre ambos, mas no sabia como transp-lo. Kate era demasiado 
orgulhosa e obstinada para ceder, porque sabia que tinha razo.
        O presidente Wilson prometera manter os Estados Unidos fora do conflito, mas quando os submarinos alemes comearam a torpedear navios de passageiros desarmados 
e as atrocidades cometidas pelos germnicos se difundiram, acentuou-se a presso para que a Amrica abandonasse a neutralidade. "Tornemos o mundo seguro para a democracia", 
era o slogan.
        David aprendera a voar na frica do Sul e quando se constituiu a Esquadrilha Lafayette, em Frana, com pilotos americanos, anunciou a Kate:
        - Tenho de me alistar.
        - No  a tua guerra! - bradou ela, apavorada.
        - Em breve ser. Os Estados Unidos no se podem manter afastados por muito tempo. Sou americano e quero participar j.
        - Mas tens quarenta e seis anos!
        - Ainda me considero capaz de pilotar um avio. E eles precisam da ajuda de todos.
        Kate no encontrou qualquer meio de o dissuadir e passaram os ltimos dias juntos em perfeita comunho, esquecendo as divergncias. Amavam-se e s isso importava.
        Na vspera da partida para a Frana, David declarou:
        - Tu e Brad Rogers podem dirigir os negcios to bem como eu. Talvez at melhor.
        - Se te acontecer alguma coisa, no resisto.
        - No me h-de acontecer nada - e abraou-a com ternura. - Voltarei coberto de condecoraes!
        A ausncia de David constituiu um martrio para Kate. Tardara muito tempo a conquist-lo e, agora, em cada segundo pairava o pavoroso receio de o perder. 
Conservava-o sempre a seu lado. Reconhecia-o na cadncia da voz de um desconhecido, numa risada repentina na rua, numa frase, num perfume, at numa cano. Encontrava-se 
em toda a parte. Escrevia-lhe longas cartas todos os dias e, quando recebia uma dele, lia-a e relia-a at se achar quase irreconhecvel. Ele afirmava que tudo corria 
bem. Os Alemes desfrutavam de superioridade no ar, mas a situao no tardaria a inverter-se. Circulavam rumores de que a Amrica em breve interviria.
        "No permitas que te suceda nada, meu amor, de contrrio odiar-te-ei eternamente."
        Kate tentava olvidar a solido e a amargura imergindo profundamente no trabalho. No incio da guerra, a Frana e a Alemanha possuam as foras armadas mais 
bem equipadas da Europa, mas os Aliados dispunham de maiores efetivos humanos, recursos e material. Quanto  Rssia, com o exrcito mais numeroso, achava-se mal 
guarnecida de armamento e pior comandada.
        - Precisam todos de auxlio - afirmou ela a Brad Rogers. - H que fornecer-lhes tanques, armas e munies.
        - David  da opinio... - comeou ele, com desconforto.
        - Na sua ausncia, somos ns que tomamos as decises. No entanto, Brad sabia perfeitamente o que isto significava na realidade. "Quem decide sou eu."
        Kate no compreendia a atitude do marido quanto ao fabrico de armamento. Os Aliados necessitavam dele e ela considerava seu dever patritico fornecer-lho. 
Conferenciou com os dirigentes de meia dzia de naes amigas e, transcorrido um ano, a Kruger-Brent, Ltd., iniciava o fabrico de armas, tanques, bombas e munies. 
A companhia transformava-se rapidamente num dos maiores imprios industriais do mundo e, quando se inteirou dos nmeros relativos s receitas, ela disse a Brad Rogers:
        - J viu isto? David ter de reconhecer que se enganava.
        Entretanto, a frica do Sul atravessava um perodo agitado. Os chefes dos partidos tinham manifestado o seu apoio aos Aliados e aceitado a responsabilidade 
de defender o pas da Alemanha, mas a maioria dos Africnderes opunha-se ao auxlio  Gr-Bretanha. No podiam esquecer o passado to rapidamente.
        Por outro lado, na Europa, a guerra corria mal para os Aliados e a luta na frente ocidental atingira um ponto morto. Ambos os lados se fixavam nas suas posies, 
protegidos por trincheiras que atravessavam a Frana e a Blgica, e os soldados conheciam privaes. A chuva enchia as escavaes de gua e lama e os ratos abundavam. 
Ciente disto, Kate congratulava-se por o marido combater no ar.
A 6 de Abril de 1917, o presidente Wilson declarou guerra  Alemanha e a predio de David tornou-se realidade. A Amrica comeou a mobilizar.
        O primeiro corpo expedicionrio americano, chefiado pelo general John J. Pershing, iniciou o desembarque em Frana a 26 de Junho daquele ano. Os nomes de 
novos lugares passaram a fazer parte do vocabulrio de toda a gente: Saint-Mi-hiel... Chteau-Thierry... Meuse-Argonne... Belleau Wood... Verdun... Os Aliados tinham-se 
tornado uma fora irresistvel e, a 11 de Novembro de 1918, o conflito conheceu finalmente o seu termo. O mundo encontrava-se seguro para a democracia.
        David pde empreender o regresso a casa.
        Quando desembarcou do transporte de tropas em Nova Iorque, Kate esperava-o. Olharam-se em silncio por um momento eterno, ignorando o rudo da multido  
sua volta, e, por ltimo, caram nos braos um do outro. Vendo-o mais magro e de expresso fatigada, ela refletiu: "Como senti a sua falta!" Tinha uma infinidade 
de perguntas para lhe fazer, mas podiam ficar para mais tarde.
        - Vou levar-te para Cedar Hill - anunciou. -  o lugar perfeito para repousares.
        Conduziu o marido atravs da casa, que remodelara especialmente para o receber, falando-lhe quase sem interrupo, o que no a impedia de observar que se 
mostrava invulgarmente reservado. Quando completaram a visita, ela perguntou:
        - Gostas das modificaes que introduzi?
        - Sem dvida. Agora, sentemo-nos, porque quero conversar contigo.
        - Tens algum reparo a fazer? inquiriu, dominada por um pressentimento ominoso.
        - Segundo apurei, tornamo-nos fornecedores de munies de metade do mundo.
        - Espera at veres os livros - Kate comeou. - Os lucros...
        - No me refiro a isso. Se a memria no me atraioa, eram excelentes, antes de eu partir. Assentamos em que no nos envolveramos no fabrico de material 
de guerra.
        - Tu  que assentaste. Eu no. - Kate esforava-se por dominar a irritao. - Os tempos mudam e temos de nos adaptar.
        Ele olhou-a em silncio por um momento e volveu:
        - Tu mudaste?
        Deitada na cama, naquela noite, Kate perguntava a si prpria se fora ela quem mudara ou o marido. Tornara-se mais forte ou ele mais fraco. Recordou a argumentao 
de David contra a fabricao de armamento e considerou-a frgil. No fundo, algum necessitava de fornecer a mercadoria aos Aliados, alm do que a operao envolvia 
lucros fabulosos. Que acontecera ao sentido dele dos negcios? Sempre o encarara como um dos homens mais argutos que conhecera, mas agora pensava que se achava mais 
capacitada para dirigir a companhia.
        Passou a noite quase totalmente em claro e, de manh, aps o pequeno-almoo, ela e David percorreram as imediaes da casa.
        - Agrada-me estar aqui - confessou ele. -  realmente encantador.
        - Quanto  nossa conversa de ontem...
        - Os fatos esto consumados. Procedeste como te pareceu melhor, na minha ausncia.
        "Teria feito o mesmo, se estivesses presente!" Kate absteve-se de concretizar a dvida em voz alta. Agira daquela maneira em obedincia aos interesses da 
companhia. "A Kruger-Hrent ter maior significado para mim que o meu casamento?" O temor impediu-a de procurar a resposta.
















        Captulo XVII



        Os cinco anos imediatos assistiram a um perodo de expanso mundial incrvel. A Kruger-Brent, Ltd. fora fundada com base em diamantes e ouro, mas enveredara 
pela diversificao e estendera as razes por todo o Globo, pelo que o seu centro nervoso deixara de se situar na frica do Sul. A companhia adquirira recentemente 
um imprio editorial, uma empresa de seguros e um milho de hectares de terrenos arborizados para a obteno de madeira.
        Uma noite, Kate desferiu uma cotovelada em David, que acordou sobressaltado.
        - Temos de transferir a sede da companhia.
        - Hem? - articulou ele, estremunhado.
        - O fulcro mundial dos negcios situa-se atualmente em Nova Iorque.  a que a nossa sede se deve encontrar. A frica do Sul fica muito longe de tudo. De 
resto, agora que dispomos do telefone e do cabo submarino, podemos comunicar com qualquer das sucursais em poucos minutos.
        - Porque no pensaria eu nisso? - grunhiu, e voltou a adormecer.
        Nova Iorque era um mundo excitante. Nas visitas anteriores  cidade, Kate sentira o seu palpitar acelerado, mas viver l equivalia a estar no centro de um 
vrtice gigantesco. A terra parecia girar mais rapidamente e tudo se movia a um ritmo mais veloz.
        Ela e David escolheram um local em Wall Street para sede da companhia e os arquitetos iniciaram os trabalhos. Por seu turno, Kate recorreu a outro para restaurar 
uma manso estilo Renascena francesa do sculo XVI, na Quinta Avenida.
        - A cidade  muito ruidosa - queixou-se David.
        E no exagerava. O som das mquinas de rebitar atroava os ares em todas as reas de Nova Iorque,  medida que os arranha-cus se erguiam em sucesso ininterrupta. 
Na verdade, a cidade tornara-se a Meca dos negcios de todo o mundo, quartel-general da marinha mercante, seguros, comunicaes e transportes. Irradiava uma vitalidade 
mpar. Kate adorava tudo aquilo, mas pressentia a amargura do marido.
        - Isto  o futuro, querido. Nova Iorque desenvolve-se e ns com ela.
        - At onde pretendes chegar?
        - At onde for possvel.
        No fundo, ela no compreendia a razo pela qual ele formulara a pergunta. A finalidade do jogo consistia em ganhar, o que s se conseguia vencendo todos 
os outros jogadores. Esta realidade afigurava-se-lhe bvia. Como se explicava que David no a descortinasse? Apesar de ser um excelente homem de negcios, faltava-lhe 
alguma coisa: o apetite, a compulso para conquistar, para ser o maior e o melhor. Jamie McGregor possua esse esprito e Kate tambm. Conquanto no compreendesse 
exatamente o que acontecera, num determinado ponto da sua vida a companhia convertera-se no amo e ela na escrava.
        Quando tentou explicar a David o que sentia, este soltou uma gargalhada e afirmou:
        - Trabalhas em excesso.
        Ao mesmo tempo, porm, refletia: "Cada vez se parece mais com o pai!" E, sem entender bem o motivo, o fato apresentava-se-lhe vagamente preocupante.
        Como podia uma pessoa trabalhar em excesso? Kate achava-se convencida de que no existia maior prazer no mundo. Era nessas ocasies que se sentia mais viva. 
Cada dia que surgia trazia um novo conjunto de problemas, cada um dos quais constitua um desafio, um puzzle para resolver, um novo jogo para ganhar. E ela atuava 
maravilhosamente. Era arrastada por algo fora de toda a capacidade de imaginao. No tinha nada de comum com o dinheiro ou a satisfao de um ato cumprido, mas 
com o poder. Um poder que dominava as vidas de milhares de pessoas de todos os recantos da Terra, tal como a sua existncia fora outrora dominada. Enquanto dispusesse 
de poder, nunca necessitaria verdadeiramente de ningum. Tratava-se de uma arma temvel para alm de tudo o concebvel.
        Era convidada para jantar com reis, rainhas e presidentes, todos interessados no seu auxlio, na sua boa vontade. Uma nova fbrica Kruger-Brent podia representar 
a diferena entre a pobreza e a riqueza. Poder. A companhia tinha vida prpria, como um gigante em crescimento que exigia alimento, e por vezes tornavam-se necessrios 
sacrifcios, pois no existia possibilidade de agrilhoar esse gigante. Kate compreendia tudo, agora, perfeitamente. Possua um ritmo, um palpitar, que lhe comunicara 
para sempre.
        Em Maro, um ano depois de se terem instalado em Nova Iorque, sentiu-se indisposta e deixou-se convencer por David a consultar o mdico.
        - Chama-se John Harley - acrescentou. - Apesar de jovem, j conquistou reputao excelente.
        Harley era um indivduo magro, de semblante carregado, que aparentava vinte e seis anos, menos cinco que Kate, a qual comeou por advertir:
        - No tenho tempo para estar doente!
        - Tomarei a informao em considerao, Mistress Blackwell - replicou o mdico, secamente. - Para j, deixe-me examin-la - e, em seguida, recolheu sangue 
para alguns testes e declarou: - No creio que seja algo de cuidado. Espero ter os resultados dentro de dois ou trs dias. Telefone-me quarta-feira.
        Kate tratou de ligar para o consultrio logo de manh, e o Dr. Harley anunciou jovialmente:
        - Tenho notcias excelentes para lhe transmitir, Mistress Blackwell. Est grvida.
        Foi um dos momentos mais excitantes da vida dela, e apressou-se a informar o marido.
        Este mostrou-se invulgarmente excitado e, apertando-a nos braos com ternura, profetizou:
        - H-de ser uma rapariga e parecer-se exatamente contigo.
        Entretanto, refletia: " precisamente o que lhe convm. Agora, ficar mais em casa. Tornar-se- mais uma esposa."
        Kate, por seu turno, cismava: "H-de ser um rapaz, que um dia assumir a direo da Kruger-Brent."
        A medida que a data do parto se aproximava, ela conservava-se mais tempo em casa, embora continuasse a comparecer no seu gabinete todos os dias.
        - Deixai os negcios a meu cargo e repousa - aconselhava David.
        Todavia, no conseguia compreender que os negcios representavam a melhor forma de repouso para Kate.
        - Vou fazer o possvel para que seja a vinte e cinco - prometeu ela, pois o nascimento achava-se previsto para a segunda metade de Dezembro. - No podemos 
desejar melhor prenda de Natal.
        "Ser um Natal perfeito", cogitava. Era dirigente de uma grande empresa, casara com o homem que amava e teria um filho dele. Se havia alguma ironia na ordem 
de prioridades, no se apercebia disso.
        O corpo avolumara-se, dificultando-lhe os movimentos, pelo que cada vez lhe era mais penoso deslocar-se ao escritrio, mas, quando David ou Brad Rogers sugeriam 
que ficasse em casa, replicava que o crebro continuava a funcionar normalmente. Dois meses antes da data calculada para o parto, o marido visitou a frica do Sul 
em viagem de inspeo  mina de Pniel, devendo regressar a Nova Iorque na semana seguinte.
        Kate encontrava-se sentada  secretria do seu gabinete, quando Brad Rogers entrou sem se fazer anunciar.
        - Perdemos o negcio Shannon! - aventurou ela, ao observar-lhe a expresso grave.
        - No. Acabo de receber a notcia... Registrou-se um acidente... uma exploso numa mina.
        - Onde? - acudiu-lhe um pressentimento alarmante. - Teve consequncias graves? H vtimas?
        Brad encheu os pulmes de ar antes de revelar:
        - Meia dzia de mortos. David  um deles.
        As palavras pareceram encher a sala e ricochetear nas paredes, aumentando de intensidade, at que se converteram em sons ensurdecedores nos ouvidos de Kate, 
numa espcie de cataratas do Nigara que a sufocavam, absorvendo-o para o seu centro devorador.
        Por fim, tudo se tornou obscuro e silencioso.
        O beb nasceu uma hora mais tarde, com dois meses de antecedncia, e Kate chamou-lhe Anthony James Blackwell, em homenagem ao pai de David. "Amo-te, meu 
filho, por ti, e amar-te-ei por teu pai."
        Um ms depois, a manso na Quinta Avenida achava-se pronta para ser habitada, e ela e o filho, juntamente com o pessoal domstico, instalaram-se. Dois castelos 
de Itlia haviam sido despojados do recheio para a decorar.
        Em 1928, quando Tony completara quatro anos, Kate enviou-o para um colgio infantil. Era um garoto bem-parecido, de ar solene, com os olhos cinzentos e o 
queixo voluntarioso da me. Recebeu lies de msica e, aos cinco anos, frequentou aulas de bailado. Alguns dos melhores momentos que passaram juntos desenrolaram-se 
na casa de Cedar Hill, em Dark Harbor. Kate adquiriu um iate ao qual chamou Corsair e levava Tony a passear ao longo da costa do Maine. No entanto, era o trabalho 
que lhe proporcionava maior prazer.
        Existia algo de mstico na companhia que Jamie McGregor fundara. Tinha vida prpria, era absorvente. Kate considerava-a o seu amante, que nunca morreria 
num dia de Inverno, para a deixar s no mundo. Viveria eternamente. Ela providenciaria nesse sentido e, um dia, transmiti-la-ia ao filho.
        O nico fator de perturbao na vida de Kate era a sua terra natal. Na verdade, preocupava-se profundamente com a frica do Sul, onde os problemas raciais 
se acentuavam, o que a inquietava cada vez mais. Havia dois campos polticos: os verkramptes - de vistas estreitas, pr-segregacionistas - e os verligtes - os iluminados, 
que queriam melhorar a situao dos negros. O primeiro-ministro, James Hertzog, e Jan Smuts tinham formado uma coligao e combinado o seu poder para obter a promulgao 
de uma nova lei, segundo a qual os indivduos de cor deixavam de poder votar e possuir terras. Milhes de pessoas pertencentes a diferentes grupos minoritrios eram 
afetadas pelo novo diploma. As reas que no continham materiais, centros industriais ou portos destinavam-se a negros, mestios e indianos.
        Kate combinou um encontro com vrias entidades governamentais sul-africanas e declarou:
        - Esta lei  uma bomba de relgio. Pretendem manter oito milhes de pessoas escravizadas.
        - No se trata de escravatura, Mistress Blackwell. Fazemo-lo para bem delas.
        - Sim? Como explicam isso?
        - Cada raa tem alguma coisa para contribuir. Se os pretos se misturarem com os brancos, perdero a individualidade. Queremos proteg-los.
        - Que disparate! A frica do Sul tornou-se um inferno racista.
        - No  verdade. Pretos de outros pases percorrem milhares de quilmetros para se fixarem no nosso. Chegam a pagar seis libras por documentos de admisso 
falsos. Encontram-se muito melhor aqui do que em qualquer outra parte do mundo.
        - Nesse caso, compadeo-me deles.
        - So crianas primitivas, Mistress Blackwell. Creia que  para o seu bem.
        Kate retirou-se frustrada e profundamente apreensiva pelo futuro do seu pas.
        Mas tambm se preocupava com Banda, cujo nome figurava constantemente nos jornais. A Imprensa sul-africana chamava-lhe morrio escarlate e havia um tom de 
admirao na descrio das suas proezas. Escapara vrias vezes  Polcia disfarando-se de operrio, motorista e porteiro, organizara um exrcito de guerrilha e 
encabeava a lista de indivduos mais procurados pelas autoridades. Um artigo incerto no Cape Times revelava que fora levado em triunfo atravs de uma aldeia habitada 
por negros aos ombros de manifestantes. Deslocava-se de localidade em localidade para falar a multides de estudantes, mas, sempre que a Polcia se apercebia da 
presena de Banda, este desaparecia. Constava que dispunha de um grupo de guarda-costas de centenas de amigos e seguidores e dormia numa casa diferente cada noite. 
Kate sabia que s a morte o impediria de prosseguir a sua cruzada.
        Impunha-se que contatasse com ele. Nessa conformidade, mandou chamar um dos seus capatazes negros mais antigos na firma, merecedor da sua inteira confiana, 
e perguntou-lhe:
        - Parece-te que podes localizar Banda, William?
        - S se quiser ser localizado.
        - Tenta. Preciso falar com ele.
        - Verei o que consigo.
        Na manh seguinte, o capataz comunicou:
        - Se estiver livre, logo  noite, um carro lev-la- a determinado ponto, fora da cidade.

* Scarlet Pimpernel, pseudnimo de um aristocrata ingls que salvou numerosas pessoas da guilhotina, durante a Revoluo Francesa. (N. do T.)


        Kate foi conduzida a uma pequena povoao cento e vinte quilmetros ao norte de Joanesburgo, onde o motorista deteve o veculo diante de uma casa de madeira, 
na qual ela entrou. Banda aguardava-a e tinha exatamente o mesmo aspecto da ltima vez que o vira. "E j conta sessenta anos", pensou Kate. Apesar de permanecer 
em fuga constante s autoridades desde longa data, apresentava-se sereno e despreocupado.
        - Cada vez que a vejo est mais bonita - observou, com um sorriso.
        - Mas estou a envelhecer - redarguiu ela, rindo, - Faltam-me poucos anos para completar quarenta.
        - O tempo continua a no lhe provocar marcas da sua passagem.
        Foram para a cozinha e, enquanto Banda preparava caf, Kate disse:
        - No me agrada o que est a acontecer. Onde ir tudo isto parar?
        - Ser cada vez pior - articulou ele com simplicidade. - O Governo nega-se a estabelecer dilogo conosco. Os brancos destruram as pontes entre eles e ns 
e um dia descobriro que necessitam delas para que se comuniquemos. J temos alguns heris: Nehemiah, Tile, Mokone, Richard Msimang. Tratam-nos como gado destinado 
ao matadouro.
        - Nem todos os brancos pensam assim - afirmou Kate. - Vocs tm amigos que lutam para mudar este estado de coisas. Acabaro por triunfar, mas  necessrio 
tempo.
        - O tempo  como a areia numa ampulheta. Escoa-se.
        - Que aconteceu a Ntame e a Magena?
        - Minha mulher e o meu filho esto escondidos - explicou Banda, com uma ponta de amargura. - A Polcia concentra os seus esforos em diligncias para me 
encontrar.
        - Que devo fazer para os ajudar? No posso ficar inativa. Precisas de dinheiro?
        - Faz sempre jeito.
        - Providenciarei nesse sentido. Que mais?
        - Reze por todos ns.
        Ela regressou a Nova Iorque na manh seguinte.
        Quando Tony atingiu idade suficiente para viajar, Kate passou a lev-lo nas viagens de negcios, durante as frias escolares. O garoto adorava visitar museus 
e podia passar horas consecutivas diante de telas e esttuas dos grandes mestres. Em casa, desenhava reprodues do que vira, mas o acanhamento impedia-o de as mostrar 
 me.
        Possua um temperamento agradvel e uma leve timidez que agradava s pessoas. Kate orgulhava-se do filho, que obtinha sempre as melhores notas nos estudos 
e aceitava as suas felicitaes como um estmulo para fazer cada vez melhor.
        Em 1936, no dcimo segundo aniversrio de Tony, ela regressou de uma viagem ao Mdio Oriente precisamente a tempo de participar na festa. Assim que o viu, 
abraou-o com fervor e perguntou:
        - Tens passado um dia agradvel?
        - Sim, mam. M-aravilhoso.
        Estremeceu de admirao e olhou-o com estranheza, pois nunca o ouvira gaguejar.
        - Sentes-te bem?
        - M-muito b-bem, o-obrigado.
        - Evita gaguejar. Fala mais devagar.
        - Po-pois sim, ma-mam.
        A deficincia agravou-se nas semanas subsequentes e Kate decidiu lev-lo ao         Dr. Harley, o qual, aps um exame minucioso, declarou:
        - Fisicamente, no lhe encontro nada. Estar sob alguma presso?
        - Que idia! Porque pergunta?
        -  um garoto muito sensvel. A gaguez constitui com frequncia uma manifestao fsica de frustrao, de incapacidade para enfrentar a vida.
        - Engana-se, doutor. Tony figura sempre no topo do quadro de honra do colgio. No ltimo perodo, obteve trs prmios: melhor atleta, melhor aluno na matria 
geral e primeiro classificado no domnio das artes.
        - Hum... - o mdico fez uma pausa, olhando a interlocutora pensativamente. -         Que costuma fazer quando ele gagueja?
        - Corrijo-o, claro.
        - Sugiro que no o faa. Isso s serve para lhe aumentar a tenso.
        - Se tem algum problema psicolgico, garanto-lhe que no  por causa da me! - asseverou ela, irritada. - Adoro-o e ele sabe que o considero a criana mais 
fantstica do mundo.
        Era precisamente esse o fulcro do problema. Nenhuma criana resistiria a semelhante situao sem denunciar algum efeito. O Dr. Harley baixou os olhos para 
a ficha na sua frente e murmurou:
        - Ele tem doze anos, no ?
        - Exato.
        - Talvez no fosse m idia que abandonasse o ambiente familiar, por uma temporada. Um colgio interno algures era o lugar ideal. H estabelecimentos excelentes, 
na Sua.
        Na Sua! A hiptese de o filho se achar to longe dela era assustadora. Uma criana to pequena, ainda sem preparao para se desembaraar sem ajuda! No 
obstante, articulou a meia voz:
        - Vou pensar nisso.
        Naquela tarde, cancelou uma reunio e seguiu para casa mais cedo. Tony, que se encontrava na sala de estudo, entretido com o trabalho de casa, anunciou:
        - Ti-tive ho-je um vinte, mam!
        - Gostavas de estudar na Sua?
        - Po-posso? - balbuciou, o olhar iluminado por um claro de entusiasmo.
        Seis semanas mais tarde, Kate acompanhava o filho ao navio que cruzaria o oceano, depois de o matricular no Instituto L Rosey, em Rolle, pequena localidade 
nas margens do lago de Genebra. Conservou-se no cais de Nova Iorque at que o enorme paquete desapareceu no horizonte, refletindo: "Raios para isto! Vou ter muitas 
saudades dele." Por fim, rodou nos calcanhares e regressou  limusine que a conduziria ao escritrio.
        Kate gostava de trabalhar com Brad Rogers, que tinha quarenta e seis anos, mais dois do que ela. Haviam-se tornado amigos ao longo dos anos e estimava-o 
pela devoo que sempre manifestara pela Kruger-Brent, Ltd. Era solteiro e costumava acompanhar uma variedade de amigas, mas Kate apercebeu-se gradualmente de que 
a amava. Em mais de uma ocasio, ouvira-o proferir observaes ambguas, mas fingia no se dar conta, para manter as suas relaes num nvel impessoal de negcios, 
atitude que infringiu uma nica vez.
        Brad passara a encontrar-se com algum regularmente, comparecendo ao trabalho todas as manhs fatigado e distrado, o que resultava prejudicial para a companhia. 
Transcorrido um ms sem que a situao desse mostras de se alterar, ela decidiu que se impunham medidas drsticas, sobretudo ao recordar-se de que David estivera 
prestes a abandonar a firma por causa de uma mulher. No permitiria que Brad chegasse a esse extremo.
        Kate planejara deslocar-se, s, a Paris, a fim de adquirir uma companhia de importaes-exportaes importante, mas  ltima hora pediu-lhe que a acompanhasse. 
Passaram o dia da chegada em reunies e,  noite, jantaram num restaurante de luxo, aps o que ela sugeriu que a seguisse  sua suite no Hotel George V, a fim de 
analisarem os relatrios da nova companhia.
        Uma vez ss, Brad declarou:
        - H uns pontos que me parecem merecer estudo mais profundo.
        - Deixemos isso, agora - murmurou Kate, deslizando para os seus braos. -         Podemos comear por tratar de assuntos mais agradveis.
        - Meu Deus! H tanto tempo que a desejava...
        - Eu tambm ansiava por este momento.
        No perderam tempo em transferir-se para o quarto contguo. Kate era uma mulher sensual, mas h muito que toda a sua energia sexual fora aproveitada noutras 
atividades. O trabalho absorvia-a e satisfazia-a por completo. Necessitava de Brad por outras razes.
        Ele colocou-se-lhe em cima e ela abriu as pernas, sentindo o rgo ereto penetr-la, o que no se lhe afigurou agradvel nem desagradvel.
        Principiou a executar o ritmo clssico de semelhantes momentos, enquanto Kate pensava: "Pedem muito pela companhia e no reduzem um cntimo, porque esto 
ao corrente do meu interesse."
        Brad acompanhava os movimentos rtmicos de palavras ternas e as reflexes dela prosseguiam. "Eu podia suspender as negociaes e aguardar que me procurassem. 
Mas suponhamos que no voltavam a dar notcias? Devo arriscar-me a perder a oportunidade?"
        Apercebendo-se de que o ritmo aumentara de intensidade, passou a colaborar mais abertamente, sem todavia interromper o raciocnio ntimo. "No. Eles encontravam 
outro comprador com facilidade.  melhor pagar o que pedem. Compensarei o excesso vendendo uma das suas subsidirias." Registrou-se uma exclamao abafada e ele 
proferiu:
        - Foi maravilhoso. No lhe agradou?
        - No encontro palavras para o descrever.
        Kate conservou-se nos braos de Brad toda a noite, refletindo e planejando, enquanto ele dormia. De manh, quando acordou, disse-lhe:
        - Essa mulher com quem tem andado ultimamente...
        - Est com cimes! - exclamou ele, encantado. - No pense mais nela. Prometo que no a voltarei a ver.
        Kate no tornou a ir para a cama com Brad, e quando ele no compreendia por que se esquivava, limitava-se a alegar:
        - Eu desejava imenso, mas receio que depois deixssemos de poder trabalhar juntos. Temos de nos sacrificar ambos pela firma.
        E Brad viu-se forado a aceitar esta explicao.
         medida que a companhia se expandia, Kate estabelecia fundaes de beneficncia que contribuam para liceus, igrejas e colgios. Ao mesmo tempo, ia enriquecendo 
a sua coleo de arte, adquirindo obras de artistas da Renascena e ps-Renascena, como Rafael, Ticiano, Tintoretto e El Grego, e da escola barroca, como Rubens, 
Caravaggio e Van Dyck.
        A coleo Blackwell era reputada como a mais valiosa das particulares de todo o mundo. Reputada, porque nenhum estranho,  parte convidados especiais, tivera 
ensejo de a admirar. Alm disso, Kate no permitia que a fotografassem, nem a discutia com a Imprensa. A vida pessoal da famlia Blackwell achava-se vedada ao pblico. 
Os prprios empregados domsticos ou da companhia estavam proibidos de ventilar o assunto. No entanto, tornava-se impossvel evitar os rumores e a especulao, pois 
Kate Blackwell era um enigma intrigante - uma das mulheres mais ricas e poderosas do mundo. Circulavam milhares de interrogaes a seu respeito, mas poucas respostas.
        Um dia, ela telefonou  diretora do Instituto L Rosey e disse:
        - Gostava de saber como est meu filho.
        - O melhor possvel, Mistress Blackwell.  um aluno excelente e...
        - No me refiro a isso - hesitou, relutante em admitir a possibilidade de um ponto fraco na famlia. - Tem gaguejado?
        - De modo algum. Fala normalmente.
        Exalou um profundo suspiro de alvio. Nunca duvidara de que se tratava de uma deficincia temporria. O dr. Harley equivocara-se redondamente.
        Tony regressou a casa quatro semanas mais tarde, e Kate esperava-o no aeroporto. O garoto apresentava bom aspecto, e, ao v-lo, invadiu-a uma onda de orgulho 
maternal.
        - Ol, querido. Como ests?
        - Be-bem, me. E t-tu?
        Nas frias que passava em casa, Tony conservava-se longas horas diante das telas que a me adquirira na sua ausncia. Sentia-se abismado com os trabalhos 
dos mestres e encantado com os impressionistas franceses: Monet, Renoir, Manet e Morisot, que lhe evocavam um mundo mgico. Comprou um conjunto de tintas e pincis 
e um cavalete e principiou a pintar. Todavia, continuava a julgar horrvel tudo o que produzia e recusava-se a mostr-lo a quem quer que fosse. De modo algum se 
podia comparar com as obras-primas dos artistas.
        - Um dia, tudo isto ser teu, querido - declarou Kate. A perspectiva de tal vir a acontecer infundiu uma sensao de desconforto ao garoto de treze anos. 
A me no compreendia. As telas nunca lhe pertenceriam verdadeiramente, porque nada fizera para as merecer. Animava-o o desejo firme de abrir caminho na vida pelos 
seus prprios meios. Acudiam-lhe emoes ambivalentes relacionadas com o afastamento dela, pois tudo o que lhe dizia respeito era sempre excitante. Encontrava-se 
no centro de um vrtice, transmitindo ordens, concluindo negcios incrveis, levando-o a lugares exticos ou apresentando-o a pessoas interessantes. Constitua uma 
figura impressionante, de que se orgulhava imensamente. Considerava-a a mulher mais fascinante do mundo e assolava-o uma impresso de culpa por s gaguejar na sua 
presena. Kate no fazia a menor idia do respeito que infundia ao filho, at que, um dia, numa das visitas a casa, durante as frias, o ouviu perguntar:
        - Go-governas o m-mundo, me?
        - Que idia! - ela soltou uma risada. - O que te levou a fazer uma pergunta to disparatada?
        - To-todos os meus a-amigos falam de ti. s re-realmente algo de especial.
        - Sou apenas a tua me, querido!
        Tony desejava agradar a Kate mais do que tudo no mundo. Sabia o que a companhia representava para ela e que tencionava ceder-lhe o lugar um dia, o que o 
enchia de pesar, por estar convencido de que nunca a conseguiria substituir. No era esse o futuro que tinha em mente.
        No entanto, quando tentava explicar-lho, a me limitava-se a rir.
        - Ainda s muito novo para decidires o teu futuro. E ele passava a gaguejar mais do que nunca.
        A idia de vir a ser um pintor excitava-o. Poder reproduzir os belos segredos da Natureza e conserv-los para a posteridade representava uma esperana que 
lhe incutia alento suplementar. Queria ir estudar para Paris, mas reconhecia que devia abordar o assunto com a maior prudncia.
        Passavam momentos maravilhosos juntos. Kate era a castel de vastas propriedades, tendo adquirido vivendas em Palm Beach e na Carolina do Sul e uma coudelaria 
no Kentucky, que visitavam durante as frias de Tony. Nos dias em que um dos seus cavalos participava numa corrida, compareciam no hipdromo e entusiasmavam-se com 
o desenrolar das operaes.
        - Vencemos, querido! - exclamou Kate uma ocasio, no final de uma prova. - Lembra-te disto. O importante na vida  vencer - e, quase sem se deter: - A Kruger-Brent, 
Limited, ser tua, mais tarde. Dirigi-la-s e...
        - No a quero di-dirigir, me. Os negcios e o poder no me in-interessam.
        - Pateta! - explodiu. - Que sabes tu dos negcios ou do poder? Julgas que percorro o mundo para espalhar o mal ou prejudicar o prximo? Consideras a Kruger-Brent 
uma mquina de fazer dinheiro impiedosa que esmaga tudo o que se lhe atravessa no caminho? Fica sabendo de uma coisa, meu rapaz.  o que existe de melhor, depois 
de Jesus Cristo. Somos a ressurreio. Salvamos vidas s centenas de milhares. Quando abrimos uma fbrica num pas ou numa comunidade em apuros, os habitantes obtm 
meios para construir escolas, bibliotecas e igrejas e proporcionar aos filhos todo o bem-estar possvel - respirava com dificuldade, dominada pela indignao. - 
Abrimos fbricas onde as pessoas passam fome e esto desempregadas e, graas a ns, podem ter vidas decentes e conservar a cabea erguida. Tornamo-nos os seus salvadores. 
Que no te torne ouvir desdenhar os negcios e o poder!
        E o rapaz apenas encontrou coragem para articular:
        - Es-est bem, m-me.
        Ao mesmo tempo, porm, pensava com obstinao: "Hei-de ser um artista."
        Quando o filho completou quinze anos, Kate sugeriu que passasse as frias grandes na frica do Sul, onde nunca estivera.
        - No me posso ausentar daqui neste momento, mas hs-de ach-lo um pas fascinante. Tratarei dos preparativos imediatamente.
        - Esperava pa-passar as frias em D-Dark Harbor.
        - Fica para o ano - insistiu com firmeza. - Este Vero, prefiro que visites Joanesburgo.
        Ps-se em contato com o superintendente da companhia naquela cidade e elaboraram um itinerrio meticuloso para Tony. Cada dia foi planejado com um objetivo 
em vista: tornar a viagem to excitante quanto possvel para o rapaz, para que compreendesse que o seu futuro se situava  testa da firma.
        Mais tarde, Kate recebia relatrios dirios dos movimentos do filho: descera a uma das minas de ouro, passara dois dias nos campos de diamantes, efetuara 
uma digresso guiada s fbricas da Kruger-Brent, participara num safari no Qunia...
        Poucos dias antes do trmino das frias, telefonou ao gerente da companhia em Joanesburgo e inquiriu:
        - Que tal se d ele?
        - Tem-se divertido muito. Na verdade, esta manh at perguntou se podia ficar mais algum tempo.
        -  uma notcia maravilhosa! - exclamou, encantada.
        No final das frias, Tony dirigiu-se a Southampton, Inglaterra, onde tomou um avio da Pan American Airways System com destino aos Estados Unidos.
        Kate interrompeu uma reunio importante para o ir esperar e sentiu-se satisfeita com a expresso de entusiasmo que lhe observou:
        - As frias foram boas, querido?
        - A frica do Sul  um pa-pas fantstico, m-me. Sabias que me levaram de avio ao deserto da Nambia, onde o av roubou os diamantes ao bisav V-Van der 
Merwe?
        - No os roubou - corrigiu ela. - Apoderou-se simplesmente daquilo a que tinha direito.
        - Pois foi - disse Tony, com um sorriso malicioso. - No havia mis do m-mar, mas ainda tm guardas e ces. Ne-negaram-se a dar-me um diamante.
        - No precisas que te dem coisa alguma. Um dia, pertencer-te-o todos. Gostaste de tudo, hem? - Kate sentia-se plenamente satisfeita com o entusiasmo do 
filho acerca da sua herana. - Que te agradou mais?
        - As cores. Pin-pintei uma paisagem do local. Custou-me ter de pa-partir. Quero voltar l para pin-pintar com mais vagar.
        - Pintar? - tentou mostrar-se interessada. -  um passatempo estupendo.
        - No  isso, m-me. Quero ser pintor. Pensei a fu-fundo no assunto. Irei estudar para Paris. Creio que te-tenho algum talento.
        - No acredito que pretendas passar o resto da vida a pintar - articulou em voz tensa.
        - Sem dvida, m-me.  a nica coisa que me interessa. E Kate compreendeu que perdera a partida.
        "Tem o direito de viver a sua vida", admitia ela. "Mas como posso permitir que cometa um erro to horrvel?" Em Setembro, a deciso foi arrebatada das mos 
de ambos. A Europa voltou a estar em guerra.
        - Quero que te matricules na Escola de Finanas e Comrcio Wharton - anunciou Kate. - Dentro de dois anos, se ainda te apetecer ser artista, ters a minha 
bno.
        Estava convencida de que entretanto o filho mudaria de idias. Afigurava-se-lhe inconcebvel que desejasse passar a vida com um pincel na mo diante de um 
cavalete, quando podia dirigir a empresa mais excitante do mundo. No fundo, pertencia  famlia Blackwell.
        Para ela, a Segunda Guerra Mundial constituiu mais uma grande oportunidade. Havia falta de equipamento militar e materiais em todo o mundo e a Kruger-Brent 
podia satisfazer todas as necessidades. As fbricas da companhia entraram em laborao permanente.

        Tinha a certeza de que os Estados Unidos no conseguiriam manter a neutralidade. O presidente Franklin D. Roosevelt apelou para o sentido patritico da nao 
no sentido de que se tornasse um grande baluarte da democracia e, a 11 de Maro de 1941, o Congresso aprovou a Lei do Arrendamento e Emprstimo. Entretanto, as remessas 
destinadas aos Aliados atravs do Atlntico achavam-se ameaadas pelo bloqueio alemo, cujos submarinos atacavam e afundavam dezenas de navios mercantes.
        A Alemanha parecia um arete demolidor imparvel. Desafiando o Tratado de Versalhes, Adolf Hitler construra uma das mquinas de guerra mais temveis da 
Histria. Recorrendo a uma nova tcnica - a Blitzkrieg -, os nazis atacaram a Polnia, a Blgica e a Holanda em rpida sucesso, aps o que esmagaram a Dinamarca, 
a Noruega, o Luxemburgo e a Frana.
        Kate entrou em ao, quando foi informada de que os judeus que trabalhavam nas fbricas da Kruger-Brent confiscadas pelos Alemes eram presos e deportados 
para campos de concentrao. Efetuou dois telefonemas e, na semana seguinte, partia a caminho da Sua.  sua chegada ao Hotel Baur au Lac de Zurique, aguardava-a 
a mensagem de que o coronel Brinkmann pretendia falar-lhe. Na realidade, tratava-se de um antigo gerente da sucursal da companhia em Berlim, que, quando a fbrica 
fora ocupada pelos nazis, recebera a patente de coronel e tornara a ocupar o cargo de outrora.
        Pouco depois, apresentou-se no hotel um homem magro, de expresso incisiva e cabelos louros curtos.
        - Tenho muito gosto em voltar a v-la, Frau Blackwell. O meu governo incumbiu-me de lhe transmitir um recado. Estou autorizado a assegurar-lhe a restituio 
das fbricas, assim que ganharmos a guerra. A Alemanha ser a maior potncia industrial do mundo, e convm-nos a colaborao de pessoas como a senhora.
        - E se a perderem?
        O coronel Brinkmann permitiu-se um sorriso condescendente.
        - Sabe to bem como eu que isso no pode acontecer. Os Estados Unidos mostram-se suficientemente prudentes para no se imiscurem nos assuntos da Europa 
e espero que mantenham essa atitude.
        - Acredito - Kate fez uma pausa. - Constou-me que os judeus so enviados para campos de concentrao e exterminados.  verdade?
        - Mera propaganda britnica, pode crer. No nego que die Juden so internados em campos de trabalho, mas dou-lhe a minha palavra de oficial de que os tratamos 
como merecem.
        Ela cismou sobre o significado destas palavras e prometeu a si prpria averigu-lo.

Carlos Eduardo
        No dia seguinte, Kate avistou-se com um comerciante alemo chamado Otto Bueller, de cinquenta e cinco anos, ar distinto e semblante amargurado. O encontro 
verificou-se num pequeno caf perto da banhof, onde o alemo escolheu uma mesa discreta ao canto.
        - Ouvi dizer que estabeleceu uma rede clandestina para ajudar judeus a transferirem-se para pases neutrais - comeou ela, a meia voz. -  verdade?
        - De modo algum, Mistress Blackwell. Um ato dessa natureza representaria uma traio ao Terceiro Reich.
        - Tambm me chegou aos ouvidos que necessita de fundos para que funcione com eficincia.
        - Uma vez que essa rede no existe - declarou Otto Bueller, com um encolher de ombros -, no necessito de fundos.
        Ao mesmo tempo, os olhos esquadrinhavam a sala  sua volta com visvel nervosismo. Tratava-se de um homem que respirava e dormia com o perigo todos os momentos 
da sua vida.
        - Tinha a esperana de o poder ajudar - persistiu Kate. - A Kruger Brent, Limited, possui fbricas em muitos pases neutrais e aliados. Se algum conseguisse 
fazer chegar refugiados at l, eu providenciaria para que lhes dessem trabalho.
        O outro levou a xcara aos lbios com lentido e quando a pousou disse em inflexo tona:
        - Desconheo tudo isso a que se refere. A poltica  um foco de perigo, nos tempos que correm. No entanto, se est interessada em auxiliar algum em situao 
difcil, tenho um tio na Inglaterra que sofre de uma doena incurvel. Todos os meses paga contas de farmcia elevadssimas, e  um homem de poucas posses.
        - Mais ou menos quanto?
        - Cinquenta mil dlares. Haveria necessidade de tomar providncias para que o dinheiro para essas contas fosse depositado em Londres e transferido para depsitos 
num banco suo.
        - No  impossvel.
        - Meu tio ficar-lhe- muito grato.
        Cerca de oito semanas mais tarde, uma corrente pouco numerosa mas constante de refugiados judeus principiou a afluir a pases aliados, para ingressar em 
fbricas da Kruger-Brent.
        Tony abandonou os estudos no final do primeiro semestre e dirigiu-se ao gabinete da me para a informar.
        - Es-esforcei-me ao mximo, mas to-tomei uma deciso inabalvel. Quero estudar pintura. Quando a guerra terminar, seguirei para Paris. Sei que contrario 
os teus pro-projetos, mas preciso de viver a minha vida. Penso que me posso tornar um bom pin-pintor. At agora, fiz o que determinaste. Portanto, deves conceder-me 
uma oportunidade. Fui admitido no Instituto de Arte de Chi-chicago.
        O esprito dela achava-se imerso num turbilho avassalador. O que Tony pretendia fazer representava uma pura perda de tempo.
        - Quando tencionas partir? - conseguiu apenas articular.
        - As aulas comeam no dia quinze de Dezembro.
        - Quantos so hoje?
        - Se-seis.
        No domingo, 7 de Setembro de 1941, esquadrilhas de bombardeiros Nakajima e caas Zero da Armada Imperial japonesa atacaram Pearl Harbour e, no dia seguinte, 
os Estados Unidos encontravam-se em guerra. Naquela tarde, Tony alistou-se no Corpo de Fuzileiros e foi enviado para Quntico, Virgnia, onde frequentou o curso 
de oficiais, antes de embarcar com destino ao Pacfico Sul.
        Kate tinha a impresso de que vivia  beira de um abismo. Durante todo dia, assolavam-na as presses prprias da direo da companhia, mas pairava-lhe permanentemente 
na mente o receio de receber a informao de que o filho fora ferido ou morto.
        A guerra com o Japo desenrolava-se de forma pouco satisfatria. Bombardeiros nipnicos atacaram bases americanas em Guam, Midway e Wake. Em Fevereiro de 
1942, tomaram Singapura e no tardaram a esmagar a Nova Bretanha, a Nova Irlanda e as ilhas Salomo. O general Douglas MacArthur foi obrigado a retirar das Filipinas. 
Por seu turno, as poderosas foras do Eixo conquistavam gradualmente o mundo e despontavam sombras tenebrosas em toda a parte. Kate temia que Tony fosse feito prisioneiro 
e torturado. Apesar de todo o seu poder e influncia, nada podia fazer alm de orar. Cada carta que recebia dele constitua um farol de esperana, um sinal de que 
poucas semanas antes ainda vivia. "Aqui, ningum nos diz nada", escrevia. "Os Russos ainda resistem? O soldado japons  brutal, mas temos de o respeitar. No receia 
a morte...
        "Que se passa nos Estados Unidos? Os operrios das fbricas entraram realmente em greve, para que lhes elevem os salrios?
        "As nossas tropas executam um trabalho excelente, nestas paragens. Os rapazes so todos heris...
        "Utiliza a tua influncia para que nos enviem algumas centenas de F4U, os novos caas da Marinha. Tenho saudades tuas..."
        A 7 de Agosto de 1942, os Aliados desencadearam a sua primeira ao ofensiva no Pacfico. Os fuzileiros desembarcaram em Guadalcanal, nas ilhas Salomo, 
e avanaram ininterruptamente para reconquistar as outras ilhas tomadas pelos japoneses.
        Na Europa, os Aliados saboreavam uma sequncia quase permanente de vitrias. A 6 de Junho de 1944, foi iniciada a invaso da Europa Ocidental, com desembarques 
de tropas americanas, inglesas e canadianas nas praias da Normandia e, um ano depois, a 7 de Maio de 1945, a Alemanha rendia-se incondicionalmente.
A 6 de Agosto do mesmo ano, foi lanada em Hiroxima uma bomba atmica possuidora de fora destrutiva superior a vinte mil toneladas de TNT. Trs dias mais tarde, 
outro engenho nuclear destrua a cidade de Nagasqui. A 14 de Agosto, verificou-se a rendio dos japoneses. A longa e sangrenta guerra chegara finalmente ao fim.
        Trs meses depois, Tony regressava a casa. Ele e Kate encontravam-se em Dark Harbor, sentados no terrao sobranceiro  baa sulcada de graciosas velas brancas, 
e ela refletia que a guerra o modificara. O filho apresentava uma maturidade nova. Deixara crescer um pequeno bigode e tinha um aspecto msculo. Em torno dos olhos, 
exibia pequenas rugas que outrora no possua. Estava persuadida de que aqueles anos no mar lhe haviam proporcionado tempo para reconsiderar a deciso de no ingressar 
na companhia.
        - Quais so os teus planos? - aventurou-se por fim a perguntar.
        - Como estava a dizer, quando fomos interrompidos grosseiramente pela guerra - redarguiu ele, com um sorriso -, vou pa-para Paris.


QUARTA PARTE



                Tony 1946-1950


        Captulo XVIII



        No era a primeira vez que Tony visitava Paris, mas agora as circunstncias diferiam. A Cidade da Luz fora ofuscada pela ocupao alem, mas evitara a destruio 
ao considerarem-na cidade aberta. Os habitantes haviam sofrido profundamente, e conquanto os nazis tivessem saqueado o Louvre, Tony encontrou Paris relativamente 
intacta. De resto, agora viveria l, faria parte da cidade, em vez de ser um mero turista. Podia instalar-se no apartamento de Kate na Avenida Foch, poupado pela 
ocupao, mas preferiu alugar outro numa casa antiga restaurada, perto de Montparnasse, que consistia numa saleta com lareira, um pequeno quarto e uma cozinha minscula 
sem frigorfico. Entre o quarto e esta ltima, situava-se a casa de banho, com uma banheira para chuveiro, um bid rachado e uma sanita temperamental, com uma tampa 
revolucionria difcil de conservar na posio apropriada.
        Quando a dona da casa principiou a apresentar desculpas pelo aspecto geral, ele interrompeu-a, assegurando que considerava tudo perfeito.
        Passou todo o sbado no Mercado das Pulgas *. Segunda e tera-feira, percorreu as lojas de artigos em segunda mo, na margem esquerda, e na quarta dispunha 
de todo o mobilirio bsico de que necessitava: um sof-cama, uma mesa que conhecera melhores dias, duas poltronas, um guarda-fato de estilo indefinido e uma mesa 
oscilante e duas cadeiras para a cozinha. "A me ficava horrorizada se visse isto", pensou. Podia ter o apartamento repleto de antiguidades inapreciveis, mas isso 
equivaleria a armar em artista americano excntrico em Paris.
        A diligncia seguinte consistia em frequentar uma boa escola de arte, e a mais prestigiada de toda a Frana era a cole ds Beaux-Arts, particularmente exigente 
no tocante a quem admitia, e Tony acalentava reduzidas esperanas nesse captulo.

' Equivalente  nossa Feira da Ladra.


        No obstante, necessitava de provar  me que tomara a deciso certa. Levou l trs das suas telas e teve de aguardar quatro semanas para saber se fora aceito. 
No final desse perodo, a concierge entregou-lhe uma carta da escola, na qual o convocavam para a segunda-feira seguinte.
        A cole ds Beaux-Arts situava-se num amplo edifcio de pedra de dois pisos, com uma dezena de salas de aula cheias de alunos. Tony apresentou-se ao diretor, 
Matre Gessand, um homem de estatura elevada e olhar amargurado, praticamente sem pescoo e os lbios mais finos que ele jamais vira.
        - As suas telas so de amador - declarou em tom formal. - No entanto, prometem. A nossa comisso selecionou-o mais pelo que no figura nelas. Compreende?
        - No muito bem, matre.
        - Acabar por compreender, com o tempo. Vou destin-lo a Matre Cantai, que ser seu professor nos prximos cinco anos... se voc aguentar tanto tempo.
        "Hei-de aguentar", prometeu Tony a si mesmo.
        Matre Cantai era um homem de pequena estatura, com cabea totalmente calva, que cobria com uma boina roxa, olhos castanhos, nariz bolboso e lbios grossos 
como salsichas.
        - Os americanos so diletantes, brbaros - proferiu  guisa de saudao. - Para que veio?
        - Para aprender.
        Emitiu um grunhido de dvida como nica resposta.
        Havia vinte e cinco alunos na aula, na sua maioria franceses. Tony lanou uma olhadela aos vrios cavaletes dispostos em torno da sala e escolheu um perto 
da janela sobranceira a um bistro. Em seguida, procurou o modelo, mas no conseguiu descortin-lo.
        - Podem comear - indicou Matre Chantal.
        - No trouxe as minhas tintas - informou Tony.
        - No precisa delas. O primeiro ano destina-se a aprender a desenhar convenientemente. - O matre apontou para diversas peas de gesso da anatomia humana, 
obtidas de esttuas gregas dispersas pela sala. - Desenharo isto. Se porventura lhes parece muito fcil, prestem ateno ao seguinte. Mais de metade de vocs sero 
eliminados antes do final do ano. No primeiro aprendero anatomia. No segundo, os poucos que passarem trabalharo com modelos vivos e leos. No terceiro, em que 
a frequncia j ser muito reduzida, pintaro comigo, segundo o meu estilo, aperfeioando-o largamente, bem entendido. No quarto e no quinto anos, procuraro o estilo 
prprio. E, agora, toca a trabalhar.
        No necessitou de repetir a ordem, pois todos se debruaram sobre os cavaletes. De vez em quando, ele descrevia um circuito pela sala, a fim de emitir comentrios 
crticos. Quando chegou ao lugar de Tony, exclamou:
        - Isto no serve! O que vejo  o exterior de um brao. Interessa-me o interior. Os msculos, os ossos e os ligamentos. Quero ver que h sangue a circular 
l dentro. Sabe como deve proceder?
        - Sim, matre. Pensa-se, v-se, sente-se, e depois desenha-se.
        Quando no estava na aula, Tony costumava ficar no apartamento, entretido a fazer esboos. Podia manter-se a desenhar de manh  noite. O fato incutia-lhe 
uma sensao de liberdade que nunca conhecera. O simples ato de se sentar diante de um cavalete com um pincel na mo fazia-o julgar-se um deus. Tinha possibilidade 
de criar mundos completos com uma das mos. Formava uma rvore, uma flor, um ser humano, um universo. Era uma experincia arrebatadora. Nascera para aquilo. Quando 
no pintava, achava-se nas ruas em explorao da fabulosa cidade. Agora, era a sua, o lugar onde nascia a sua arte. Havia duas Paris, divididas, pelo Sena, em margem 
esquerda e margem direita, que constituam mundos separados. Esta ltima destinava-se s pessoas abastadas, estabelecidas na vida. A outra pertencia aos estudantes, 
aos artistas. Era Montparnasse, o Boulevard Raspail e Saint-Ger-main-des-Prs. O Caf Flore, Henry Miller e Elliot Paul. Para Tony, tratava-se do lar. Sentava-se 
durante horas no Boule Blanche ou em La Coupole com outros estudantes e discutiam o seu mundo arcano.
        - Ouvi dizer que o diretor de arte do Museu Guggenheim est em Paris e compra tudo o que lhe aparece.
        - Manda-o esperar por mim!
        Liam todos as mesmas revistas, que compartilhavam, em virtude do seu preo elevado: Studio e Cahiers d'Art, Formes et Couleurs e Gazette ds Beaux-Arts.
        Tony aprendera francs no Instituto L Rosey e resultava-lhe fcil criar amizade com outros estudantes da sua classe, pois todos partilhavam uma paixo comum. 
No faziam a mnima idia de quem era a famlia dele e aceitavam-no como pertencente ao mesmo nvel. Artistas pobres que lutavam pela vida reuniam-se no Caf Flore 
e no Ls Deus Magots, no Boulevard Saint-Germain, e comiam em L Pot d'Etian, na Rue ds Canettes ou na Rue de 1'Universit. Nenhum dos outros vira jamais o interior 
do Lassere ou do Maxim's.
        Em 1946, gigantes praticavam a sua arte em Paris. Uma vez por outra, Tony vislumbrava Pablo Picasso, e, um dia, ele e um amigo avistaram Marc Chagall, um 
homem corpulento de cinquenta e poucos anos e cabelos revoltos que comeavam a tornar-se grisalhos. Encontrava-se sentado  mesa de uma esplanada, imerso em animada 
conversa com um pequeno grupo.
        - Tivemos sorte em o ver - murmurou o amigo de Tony. -  muito raro vir a Paris. Vive em Vence, perto da costa do Mediterrneo.
        Havia tambm Max Ernst, saboreando um aperitivo noutra esplanada, e o insigne Alberto Giacometti, que percorria a Rue de Rivoli, parecido com uma das suas 
esculturas, alto, magro e ossudo. Tony conheceu Hans Belmer, que comeava a tornar-se popular com as suas pinturas erticas de raparigas que se convertiam em bonecas 
desmembradas. No entanto, o seu momento mais excitante foi porventura aquele em que lhe apresentaram Braque. O artista mostrou-se cordial, mas a emoo quase privou 
Tony do uso da fala.
        Os futuros gnios invadiam as novas galerias de arte, estudando a sua competio. A Galeria Drousand-David exibia trabalhos de um jovem artista desconhecido 
chamado Bernard Buffet, que estudara na cole ds Beaux-Arts, Soutine, Utril-lo e Dufy. Os estudantes afluam ao Salo de Outono e  Galeria Charpentier, onde trocavam 
impresses sobre os seus rivais bem sucedidos.
        A primeira vez que visitou o apartamento do filho, Kate ficou abismada, e, embora tivesse a prudncia de no emitir comentrios refletiu: "Raios para isto! 
Como pode um membro da minha famlia viver num antro destes?" Em voz alta, todavia, declarou:
        - Tem um aspecto utilitrio. Mas vejo que no h frigorfico. Onde conservas a comida?
        - No pa-parapeito da janela.
        Aproximou-se da janela, abriu-a e estendeu a mo para uma ma.
        - Espero no te desfalcar de um dos teus assuntos.
        - Claro que no, m-me - replicou Tony, rindo.
        - Agora - sugeriu ela, cravando os dentes no fruto -, fala-me dos teus estudos.
        - Por enquanto, pouco tenho para dizer. Este ano, s fa-fazemos desenhos.
        - Gostas de Maitre Cantai?
        -  ma-maravilhoso. Mas parece-me mais importante saber se ele gosta de mim. S cerca da tera parte dos alunos passar ao ano seguinte.
        E continuaram a conversar sem que Kate aludisse uma nica vez  possibilidade de ele ingressar na companhia.
        Maitre Cantai no era um homem que costumasse proferir encmios com facilidade. Assim, o melhor elogio com que Tony podia contar no ia alm de "J vi pior" 
ou "Quase comeo a ver por baixo".
        No final do perodo escolar, Tony figurava entre os oito aprovados para frequentar o segundo ano. Para comemorar o fato, ele e os outros sete visitaram um 
cabar de Montmar-tre, embriagaram-se e passaram a noite com umas jovens inglesas que efetuavam uma digresso turstica em Frana.
        Quando as aulas recomearam, Tony passou a trabalhar com leos e modelos vivos, o que lhe fez parecer que se libertara da escola pr-primria. Depois de 
um ano de desenhos de partes da anatomia humana, afigurava-se-lhe que conhecia todos os msculos, nervos e glndulas do corpo. Aquilo no era desenhar, mas copiar. 
Agora, com um pincel na mo e um modelo vivo na sua frente, principiava a criar, e o prprio Maitre Cantai se revelava impressionado.
        - Tem o sentir - admitiu com relutncia. - Agora, precisamos aperfeioar a tcnica.
        Havia cerca de uma dzia de modelos que posavam nas aulas e os que Maitre Cantai utilizava com mais frequncia eram Carlos, um rapaz que estudava medicina, 
Annette, uma morena de busto generoso e uma camada de acne nas costas, e Dominique Masson, uma loura de contornos harmoniosos, a qual tambm servia de modelo a vrios 
pintores conhecidos, sendo a favorita de todos. Invariavelmente, aps as aulas, os alunos assediavam-na numa tentativa para que aceitasse o convite para os acompanhar.
        - Nunca misturo o prazer com o trabalho - declarava ela. - De resto, no seria justo que sasse com algum de vocs - acrescentava., com um sorriso malicioso. 
- Viram o que tenho para oferecer, mas estou a zero quanto aos vossos atributos.
        Uma tarde, quando os outros j se haviam retirado e Tony terminava um retrato de Dominique, esta aproximou-se por detrs inesperadamente e comentou:
        - Tenho o nariz muito comprido.
        - Achas? Vou modific-lo.
        - No lhe mexas. Esse est timo. O comprido  o meu.
        - Esse  que no posso alterar - observou ele, com um sorriso.
        - Um francs teria dito: "O teu nariz  perfeito, chrie".
        - Gosto dele, e no sou francs.
        - V-se. Nunca me convidaste para sair. Confesso que no compreendo porqu.
        - No... no sei. Talvez porque todos os outros o fazem e nunca aceitas.
        - Toda a gente sai com algum - concluiu ela, sorrindo, e afastou-se.
        Tony notou que, sempre que ficava at mais tarde, Dominique ia vestir-se e depois se colocava atrs dele para o observar.
        - s muito bom - anunciou, um dia. - Hs-de ser um pintor importante.
        - Obrigado. Oxal no te enganes.
        - A pintura reveste-se de muita importncia para ti, oui?
        - Oui.
        - Achas que algum que se tornar um pintor importante me convidaria para jantar? - e apercebendo-se da expresso de surpresa no rosto dele, a rapariga advertiu: 
- Como pouco, para conservar a linha.
        - Com o maior prazer - declarou Tony, rindo.
        Jantaram num bistro prximo do Sacr-Coeur e discutiram pintores e a pintura em geral. Ele sentia-se fascinado com as histrias que Dominique lhe contava 
acerca de artistas conhecidos e, quando tomavam caf au lait, ela afirmou:
        - Considero-te to bom como qualquer deles.
        Embora extraordinariamente satisfeito, Tony apenas conseguiu articular:
        - Ainda tenho um longo caminho a percorrer. Quando abandonavam o bistro, ela perguntou:
        - No me levas a ver o teu apartamento?
        - Se quiseres. Mas olha que no  grande coisa.
        Uma vez chegados, contemplou a desarrumao que imperava e admitiu:
        - Tens razo. No  grande coisa. Quem se ocupa disto?
        - Vem uma mulher fazer a limpeza, uma vez por semana.
        - Despede-a. Est tudo num verdadeiro caos. No tens uma amiga?
        - No.
        Observou Tony pensativamente por um momento e inquiriu:
        - s invertido, por acaso?
        - De modo algum.
        - Ainda bem, porque era uma pena. Arranja-me um balde com gua e sabo.
        Dominique iniciou a limpeza e a arrumao do apartamento, at que lhe imprimiu um aspecto quase irreconhecvel. Quando se considerou satisfeita, voltou-se 
para Tony e anunciou:
        - Por hoje, chega. Agora, preciso de me lavar - esclareceu, aps o que entrou na casa de banho e abriu a torneira da minscula banheira. - Como te ajeitas 
nisto?
        - Dobro as pernas.
        - Gostava de assistir.
        Quinze minutos depois, reapareceu apenas com uma toalha em torno da cintura, e Tony refletiu que nunca tivera oportunidade de a admirar devidamente. Por 
estranho que parecesse, a presena da toalha tornava-a mais apetitosa.
        - Gostavas de fazer amor comigo? - sugeriu ela, adivinhando-lhe a reao.
        - Muito.
        - Ento, vamos a isso - condescendeu, libertando-se da toalha.
        Tony nunca conhecera uma mulher como Dominique, que dava tudo e no exigia nada em troca. Aparecia quase todas as noites, a fim de cozinhar para ele, e quando 
comiam fora insistia em frequentar bistros pouco dispendiosos ou snack-bars.
        - Tens de economizar - recomendava. - At os bons artistas sentem dificuldades nos primeiros tempos. E tu s bom, chri.
        Visitavam Ls Halles a altas horas da noite e saboreavam sopa de cebola no Pied de Cochon. Iam ao Muse Carnavalet e a locais que os turistas no frequentavam, 
como o Cimetire Pre-Lachaise, onde repousavam Oscar Wilde, Chopin, Honor de Balzac e Marcel Proust. Desciam s catacumbas e aproveitaram um fim-de-semana para 
percorrer o Sena numa barcaa pertencente a um amigo de Dominique.
        Esta constitua uma companhia encantadora. Possuidora de notvel sentido do humor, animava Tony com as suas observaes jocosas, quando o via deprimido. 
Parecia conhecer toda a gente em Paris e levava-o a reunies interessantes, onde lhe apresentava as figuras mais proeminentes do momento, como o poeta Paul luard 
e Andr Breton, responsvel da prestigiosa Galeria Maeght.
        Se Tony manifestava disposio para pintar  noite, ela apressava-se a posar para ele, embora tivesse trabalhado todo o dia. Era a primeira vez que podia 
estar certo de que algum o estimava por si prprio, sem a mnima relao com os seus antecedentes familiares. Receava dizer  rapariga que era herdeiro de uma das 
maiores fortunas do mundo, pois poderia perder aquilo que obtivera com ela. No obstante, no dia do seu aniversrio, no resistiu  tentao de lhe oferecer um casaco 
de pele de lince.
        -  a melhor prenda de anos de toda a minha vida! - exclamou Dominique, vestindo-o e rodopiando na sala. De sbito, porm, imobilizou-se e perguntou: - Onde 
arranjaste o dinheiro para o comprar?
        No entanto, ele achava-se preparado e explicou:
        - Foi roubado. No por mim, acredita. Comprei-o a um receptador, perto do Museu Rodin. No me custou muito mais que um bom casaco de algodo em Au Printemps.
        A rapariga olhou-o em silncio por uns instantes e rompeu numa gargalhada.
        - Hei-de us-lo, ainda que vamos ambos parar  cadeia! - rodeou-lhe o pescoo com os braos e bradou: - Grande pateta! Meu querido e fantstico pateta!
        Tony decidiu para consigo que merecera a pena mentir.
        Uma noite, Dominique sugeriu que fosse viver com ela. Devido ao fato de trabalhar na cole ds Beaux-Arts e servir de modelo a alguns dos artistas mais conhecidos 
de Paris, podia manter um apartamento moderno e espaoso na Rua Prtres-Saint Severin.
        - No deves continuar num lugar destes - acrescentou. -  horrvel. Instala-te comigo e no ters de pagar aluguel. Posso lavar-te a roupa, cozinhar para 
ti e...
        - Nem pensar. Obrigado.
        - Porqu?
        "Como poderia ele explicar-lhe?" Ao princpio, no haveria inconveniente de maior em lhe revelar que era rico, mas agora era demasiado tarde. Dominique suporia 
que se divertira  sua custa. Por conseguinte, declarou:
        - Era como se vivesse  tua custa. J te devo muitos favores.
        - Nesse caso, mudo-me eu para aqui. Quero viver a teu lado.
        E f-lo no dia seguinte.
        Existia uma intimidade simples e maravilhosa entre ambos. Passavam fins de semana no campo e alojavam-se em pequenas pousadas, onde Tony instalava o cavalete 
e pintava paisagens. Nunca se haviam sentido to felizes.
        Entretanto, o trabalho dele progredia admiravelmente. Uma manh, Maitre Cantai pegou numa das telas de Tony e mostrou-a aos alunos.
        - Vejam este corpo. Apercebemo-nos da sua respirao. Tony aguardou com mal contida ansiedade o momento de poder informar Dominique, quando chegou ao apartamento.
        - Sabes como consegui finalmente captar a respirao? Tendo o modelo nos braos, todas as noites.
        - No acredito que precises de mais trs anos de aulas - redarguiu ela, depois de soltar uma gargalhada. - Toda a gente v isso, na escola, incluindo Cantai.
        O receio de Tony residia em que no fosse suficientemente bom, limitando-se a ser mais um pintor cujo trabalho se perderia na torrente de pinturas apresentadas 
por milhares de artistas de todo o mundo, diariamente. A perspectiva afigurava-se-lhe intolervel. Ao mesmo tempo, acudia-lhe ao esprito a recomendao da me, 
segundo a qual o importante era vencer.
        Por vezes, quando conclua um trabalho, invadia-o uma sensao de euforia e pensava: "Tenho talento. Tenho realmente talento!" Noutras ocasies, contemplava 
o que acabava de executar e decidia: "No passo de um amador."
        Com o encorajamento de Dominique, adquiria confiana crescente naquilo que efetuava. Entretanto, completara cerca de duas dzias de pinturas, em que predominavam 
as paisagens e as naturezas-mortas. Havia tambm uma de Dominique, estendida, desnuda, debaixo de uma rvore, o corpo acariciado pelo sol. Viam-se um casaco e uma 
camisa de homem em segundo plano, e o observador compreendia que ela aguardava o amante.
        Quando contemplou o resultado, ela exclamou:
        - Tens de promover uma exposio!
        - Enlouqueceste. Ainda no reno as condies necessrias.
        - Enganas-te, mon cher.
        Naquela tarde, quando chegou ao apartamento, Tony descobriu que a rapariga no se encontrava s. Acompanhava-a Anton Goerg, um indivduo magro, de estmago 
dilatado e olhos castanhos protuberantes, proprietrio da Galeria Goerg, na Rue Dauphine. As telas de Tony achavam-se dispersas  sua volta.
        - Que se passa? - quis saber o recm-chegado.
        - Passa-se que, na minha opinio, o seu trabalho  brilhante, monsieur - e o homem desferiu-lhe uma palmada nas costas. - Terei o maior prazer em promover-lhe 
uma exposio na minha galeria.
        Tony desviou os olhos para Dominique, que o fitava com um sorriso de alegria.
        - No sei o que dizer.
        - J disse - redarguiu Goerg. - Nestas telas.
        Tony e Dominique passaram metade da noite imersos na discusso do assunto.
        - Penso que ainda no chegou o momento oportuno - alegava ele. - Os crticos crucificavam-me.
        - No concordo, chri. O ambiente  o ideal para ti. Trata-se de uma pequena galeria, e s as pessoas do bairro podero admirar os teus trabalhos e julg-los. 
No tens nada a perder. Goerg no sugeria a exposio se no te reconhecesse talento. Pensa, como eu, que sers um artista importante.
        - Est bem - acabou por capitular. - Quem sabe? At sou capaz de vender uma tela.
        O telegrama era do seguinte teor: "CHEGO EM PARIS SBADO. JANTAREMOS JUNTOS. ME."
        O primeiro pensamento de Tony quando viu Kate entrar no estdio foi: " uma bela mulher!" Na realidade, ela completara cinquenta e cinco anos e apenas exibia 
uns vestgios grisalhos nas tmporas, irradiando um ar de vitalidade impressionante. Uma ocasio, perguntara-lhe porque no voltara a casar e obtivera a resposta 
com prontido:
        - Houve apenas dois homens importantes na minha vida. Teu pai e tu.
        Agora, no pequeno apartamento de Paris, diante da me, Tony proferiu:
        - Te-tenho muito go-gosto em voltar a ver-te, m-me.
        - Ests com um aspecto absolutamente maravilhoso! A barba fica-te muito bem - e ela deu uma risada e acariciou-lha. - Lembras Abe Lincoln - olhou em volta 
com curiosidade. - Vejo que arranjaste uma mulher a dias competente. D a impresso de que te mudaste.
        Em seguida, aproximou-se do cavalete e contemplou demoradamente a tela por concluir, enquanto Tony aguardava a reao com ansiedade.
        Por fim, Kate exprimiu-se em voz pausada:
        -  brilhante. Realmente brilhante.
        Consagraram as duas horas seguintes ao exame das outras pinturas, discutindo-as pormenorizadamente. Ao cabo de numerosas palavras encomisticas intermitentes, 
ela anunciou:
        - Vou preparar uma exposio. Conheo alguns proprietrios de galerias que...
        - Obrigado, m-me, mas no  ne-necessrio. Tenho uma pre-prevista para sexta-feira.
        - Estupendo! - abraou o filho com entusiasmo. - Onde?
        - Na Galeria Go-Goerg.
        - Nunca ouvi falar dela.
        -  pequena, mas ainda no es-estou em condies de apresentar os meus trabalhos na Hammer ou na Wil-wildenstein.
        - Discordo - apontou para a pintura de Dominique debaixo da rvore. - S esta...
        Naquele momento, ouviu-se o som da porta de entrada e a voz de Dominique, ansiosa:
        - Estou com o cio, chri! Despe-te j para... - nesse instante, avistou Kate. - Oh, merda! No sabia que tinhas visitas.
        Seguiu-se um breve silncio embaraoso, cortado finalmente por Tony:
        - Apresento-te minha m-me. M-me, esta  Do-domini-que Masson.
        As duas mulheres observaram-se sem proferir palavra por alguns segundos, at que Dominique murmurou:
        - Tenho muito gosto em conhec-la, Mistress Blackwell.
        - Estava a admirar o seu retrato pintado por meu filho - redarguiu Kate,  guisa de retribuio.
        E estabeleceu-se novo silncio carregado.
        - Tony falou-lhe da sua prxima exposio, Mistress Blackwell?
        - Sim. Foi uma surpresa muito agradvel para mim.
        - Po-podes ficar para assistir, me?
        - Daria tudo para estar presente, mas tenho uma reunio da administrao em Joanesburgo, depois de amanh, a que no posso de modo algum faltar. Se soubesse 
mais cedo, tomava providncias para a adiar.
        - No faz m-mal - disse Tony. - Compreendo perfeitamente.
        Receava que ela aludisse a mais pormenores sobre a companhia diante de Dominique, mas o pensamento de Kate concentrava-se nas telas.
        -  importante que as pessoas apropriadas compaream na exposio.
        - Quem so as pessoas apropriadas, Mistress Blackwell?
        - Os formadores de opinio, os crticos - replicou, virando-se para a rapariga. - Algum como Andr d'Usseau deve estar presente.
        Referia-se ao crtico mais respeitado em Frana, um leo feroz que guardava o templo da arte, cujas impresses podiam favorecer ou destruir um artista de 
um dia para o outro. Era convidado para assistir  inaugurao de todas as exposies, mas s comparecia s de maior projeo. Os proprietrios de galerias e pintores 
tremiam enquanto a sua opinio no vinha a lume. Era um mestre do bon mot e as suas tiradas sarcsticas circulavam por Paris em asas envenenadas. Andr d'Us-seau 
podia considerar-se o homem mais odiado nos crculos da arte e, ao mesmo tempo, o mais venerado.
        - No vai s ga-galerias de importncia secundria - esclareceu Tony.
        - Mas tem de ir a essa! Pode tornar-te famoso num abrir e fechar de olhos.
        - Ou reduzir-me a p.
        - No acreditas em ti? - bradou Kate, olhando-o com assombro.
        - Claro que acredita - interps Dominique. - Mas no se atreve a esperar que D'Usseau comparea.
        - Posso procurar uns amigos que o devem conhecer.
        - Isso era divinal! - e os olhos da rapariga iluminaram-se. Virando-se para Tony, acrescentou: - J pensaste no que representaria a sua presena?
        -  esquecimento definitivo?
        - Falo a srio. Sei do que ele gosta e estou certa de que adoraria os teus trabalhos.
        - No efetuarei qualquer diligncia, a menos que o desejes - advertiu Kate.
        - Sem dvida que deseja, Mistress Blackwell.
        - Te-tenho medo - Tony respirou fundo. - Mas, que diabo! Vamos a isso.
        - Verei o que consigo - e Kate contemplou a tela no cavalete por um longo momento e voltou-se para o filho, com uma expresso de amargura no olhar. - Tenho 
de deixar Paris, amanh. Podemos jantar juntos, esta noite?
        - Sem dvida. Estamos livres.
        - Vamos ao Maxines ou prefere?... - comeou, dirigindo-se a Dominique.
        - Conhecemos um pequeno restaurante, perto daqui - acudiu Tony, com prontido.
        Afinal, entraram num bistro da Place Victoire, onde a comida era boa e o vinho excelente. As duas mulheres pareciam entender-se satisfatoriamente e o rapaz 
orgulhava-se de ambas. " uma das melhores noites da minha vida. Estou com a minha me e a mulher com quem casarei."
        Na manh seguinte, Kate telefonou do aeroporto:
        - Contatei com meia dzia de pessoas, mas nenhuma me forneceu uma resposta concreta acerca de Andr d'Usseau. No entanto, qualquer que seja o resultado, 
orgulho-me de ti, querido. As telas so maravilhosas. At breve.
        - At breve, m-me.
        A Galeria Goerg era espaosa apenas o suficiente para se furtar  classificao de intime. Duas dezenas de telas de Tony foram penduradas nas paredes, numa 
preparao de ltima hora para a abertura. Numa mesa de tampo de mrmore, viam-se fatias de queijo, biscoitos e garrafas de Chablis. Os nicos ocupantes da sala 
eram Anton Goerg, Tony, Domini-que e uma jovem assistente incumbida de pendurar os ltimos quadros.
        - O convite menciona as sete horas - disse o primeiro, consultando o relgio. - As pessoas devem comear a chegar a todo o momento.
        Tony, que no esperara estar nervoso, refletia: "E no estou. Entrei em pnico!"
        - E se no aparecer ningum? - aventou.
        - Ficamos com todos estes aperitivos para ns - volveu Dominique, acariciando-lhe a face.
        Com efeito, principiaram a chegar pessoas. Isoladamente ao princpio, e depois em maior nmero, enquanto Goerg, postado  entrada, as saudava com efuso. 
Por seu turno, Tony cogitava: "No tm aspecto de compradores de objetos de arte." O seu olhar arguto dividia-se em trs categorias: os artistas e estudantes de 
arte, que compareciam a todas as exposies para tomar o pulso  concorrncia, os negociantes, empenhados em difundir informaes detratoras sobre os aspirantes 
a pintores, e a multido de curiosos, composta em larga medida por homossexuais e lsbicas, que pareciam passar a vida na periferia do mundo da arte. "No conseguirei 
vender uma nica tela", acabou por pensar.
        De sbito, apercebeu-se de que Goerg lhe fazia sinal para que se aproximasse e segredou a Dominique:
        - No me apetece conhecer esta gente. Vieram todos para me reduzir a tiras.
        - No digas disparates. Vieram mas foi para te serem apresentados. Trata-os com amabilidade.
        Nessa conformidade, mostrou-se amvel. Foi apresentado a todos, sorriu com abundncia e pronunciou as frases apropriadas em resposta aos elogios que lhe 
dirigiam. "Mas tratar-se- na verdade de elogios?" Ao longo dos anos, desenvolvera-se um vocabulrio nos crculos da arte para abarcar as exposies de artistas 
desconhecidos. Frases que diziam tudo e nada.
        - Uma pessoa sente-se identificada com o assunto...
        - Nunca tinha visto um estilo como o seu...
        - A isto  que eu chamo pintar!...
        - Trata-se de um tema arrebatador...
        - No acredito que algum conseguisse fazer melhor... Entretanto, continuava a chegar gente, e Tony perguntava a si prprio se a atrao residia na curiosidade 
pelos seus trabalhos ou nos aperitivos e no vinho gratuitos. At quele momento, no fora vendido um nico quadro, mas o queijo e o vinho desapareciam a olhos vistos.
        - Seja paciente - recomendava Goerg. - Eles esto interessados. Primeiro, tm de captar o aroma das pinturas. Quando vem uma que lhes agrada, comeam a 
rond-la, at que perguntam o preo. Nessa altura, mordem o anzol!
        - Isto parece mais uma pescaria - disse Tony a Dominique.
        Por fim, Goerg procurou-o, para anunciar:
        - Vendemos uma! A paisagem da Normandia, por quinhentos francos.
        Foi um momento que Tony recordaria toda a vida. Algum comprara um quadro seu! Algum apreciara suficientemente o seu trabalho para dar dinheiro por ele, 
pendur-lo em sua casa ou no escritrio, viver com ele, mostr-lo aos amigos. Tratava-se de um pequeno fragmento de imortalidade. Era uma maneira de viver mais de 
uma vida, de estar em mais de um lugar ao mesmo tempo. Um artista coroado de xito encontrava-se em centenas de lares, escritrios e museus de todo o mundo, para 
proporcionar prazer a milhares, por vezes milhes, de pessoas. Tony sentia-se como se tivesse entrado no panteo de Da Vinci, Miguel ngelo e Rembrandt. Deixara 
de ser um amador para se tornar um profissional. Algum dera dinheiro pelo seu trabalho...
        Pouco depois, Dominique acercou-se, excitada.
        - Acabas de vender outra, chri!
        - Qual? - quis saber ele, com ansiedade.
        - A floral.
        O rudo das conversas, que fora aumentando gradualmente, extinguiu-se de sbito, como que em obedincia a um sinal, e todos os olhares se concentraram na 
entrada.
        Andr d'Usseau acabava de fazer a sua apario. Aparentava uns cinquenta e cinco anos, mais alto que o francs mdio, de expresso leonina e cabelos abundantes 
revoltos. Usava uma capa sem mangas e chapu estilo Borsalino e seguia-o uma comitiva de oportunistas. Automaticamente, todos comearam a desviar-se para que a importante 
personagem passasse. Com efeito, no havia um nico dos presentes que no soubesse de quem se tratava.
        - Afinal, veio! - sussurrou Dominique, apertando o brao de Tony.
        Goerg nunca fora alvo de semelhante honra e, quase transtornado, curvava-se diante do insigne crtico.
        - Que prazer inesperado, Monsieur D'Usseau - balbuciava. - Permita-me que lhe oferea uma taa de vinho - e amaldioava-se intimamente por no ter adquirido 
bebidas de melhor qualidade.
        - Obrigado, mas vim apenas para satisfazer os meus olhos - replicou o grande crtico. - Desejava conhecer o artista.
        Tony sentia-se demasiado aturdido para dar um passo, e Dominique teve de o impelir para a frente.
        - Ei-lo - anunciou Goerg. - Monsieur Andr d'Usseau, este  Tony Blackwell.
        - Muito prazer... - articulou Tony, a meia voz. - Agradeo a gentileza de ter comparecido.
        D'Usseau inclinou a cabea ligeiramente e aproximou-se das telas nas paredes, acompanhado pelos olhares curiosos e vidos de todos. Examinou cada uma demoradamente, 
antes de passar  seguinte, enquanto Tony desenvolvia esforos desesperados para lhe ler a expresso. No entanto, o crtico no enrugava a fronte nem sorria. Fez 
uma pausa mais longa diante do nu de Dominique e prosseguiu, at completar o circuito da sala. Por ltimo, dirigiu-se a Tony e limitou-se a declarar:
        - Estou contente por ter vindo.
        Escassos minutos depois de se retirar, todos os quadros expostos tinham sido vendidos. Acabava de nascer um grande artista e todos queriam participar no 
nascimento.
        - Nunca tinha assistido a nada assim - confessou Goerg. - Andr d'Usseau visitou a minha galeria. A minha galeria! Amanh, toda cidade ler a notcia nos 
jornais. "Estou contente por ter vindo." Ele no costuma desperdiar palavras. O momento exige champanhe. Celebremo-lo!
        Mais tarde, naquela noite, Tony e Dominique tiveram a sua celebrao privada. Anichada nos braos dele, ela admitia:
        - Dormi com diversos pintores, mas com nenhum to clebre como tu virs a ser. Amanh, Paris em peso saber quem s.
        E no se equivocava.
        s cinco horas da madrugada seguinte, vestiram-se apressadamente e saram para comprar o matutino que acabava de chegar ao quiosque mais prximo. Tony abriu-o 
na seo artstica e descobriu sem dificuldade a crtica que lhe interessava, assinada por Andr d'Usseau, a qual leu em voz alta:
        "A noite passada, foi inaugurada uma exposio de um jovem pintor americano, Anthony Blackwell, na Galeria Goerg, a qual constituiu uma experincia excepcional, 
para o autor destas linhas. Assisti a tantas mostras de pintores talentosos que j esquecera o aspecto de uma tela m. A memria foi-me avivada ontem  noite..."
        - No leias mais, por favor - murmurou Dominique, tentando arrancar o jornal das mos de Tony, que se tornara lvido.
        - Larga! - vociferou ele. E continuou a ler:
        "Ao princpio, pensei que se tratava de uma brincadeira. Custava-me a crer que algum tivesse o arrojo de exibir semelhantes trabalhos de amador e chamar-lhes 
arte. Esquadrinhei-os em busca de um indcio de talento, mas debalde. Deviam pendurar o pintor em vez das telas. Recomendo a Mr. Blackwell que regresse  sua verdadeira 
profisso, a qual decerto consiste em pintar paredes."
        - No acredito - disse Dominique. -  impossvel que no visse o talento. O bastardo! - e rompeu em soluos.
        Tony sentia a impresso de que tinha o peito cheio de chumbo e experimentava dificuldade em respirar.
        - Ele viu-o - afirmou. - E reconheceu-o - a voz denunciava profunda amargura. -  isso o que mais me magoa. Fui um imbecil!
        - Aonde vais? - perguntou ela, vendo que se afastava.
        - No sei.
        Tony vagueou pelas ruas, sem se aperceber das lgrimas que lhe deslizavam pelas faces. Dentro de poucas horas, todos os parisienses interessados pela arte 
teriam lido a crtica, e seria alvo de comentrios jocosos. Mas o que mais lhe custava era que se iludira a si prprio. Chegara a acreditar realmente que tinha um 
futuro brilhante  sua frente como pintor. Pelo menos, Andr d'Usseau impedira-o de cometer esse erro. Por fim, entrou num bar e embriagou-se metodicamente.
        Quando regressou ao apartamento, eram cinco horas da madrugada seguinte e Dominique esperava-o com profunda ansiedade.
        - Onde estiveste? Tua me tentou contatar contigo. Parecia preocupadssima.
        - Leste-lhe a crtica?
        - Sim. Insistiu, mas...
        Naquele momento, o telefone tocou, e a rapariga, depois de se entreolharem, levantou o auscultador.
        - Estou... Sim, Mistress Blackwell. Acaba de chegar. Estendeu-o a Tony, que o aceitou, aps breve hesitao.
        - Sim, m-me?
        - Escuta, querido - a voz de Kate achava-se alterada pela apreenso. - Posso obrig-lo a retratar-se...
        - Isto no  uma operao de negcios. Trata-se de um cr-crtico exprimindo uma opinio segundo a qual eu mereo que me en-enforquem.
        - Custa-me que estejas to amargurado. No consigo... - interrompeu-se, dominada pela emoo.
        - No te preocupes, m-me. Foi um capricho que no resultou. Fiquei com dio a D'Usseau, mas  o melhor crtico de arte do mundo. Devo reconhec-lo. No fundo, 
impediu-me de cometer um erro grave.
        - Gostava de poder dizer alguma coisa para te animar...
        - Ele j disse tudo. Foi prefervel inteirar-me agora do que dentro de dez anos. Te-tenho de abandonar esta cidade.
        - Espera a por mim. Sigo amanh para Joanesburgo e acompanhar-me-s at Nova Iorque.
        - Pois sim - Tony pousou o auscultador e voltou-se para Dominique. - Tenho muita pena. Escolheste o homem errado.
        Ela conservou-se silenciosa, limitando-se a contempl-lo com os olhos dominados por uma amargura indizvel.
        Na tarde seguinte, Kate Blackwell preenchia um cheque no escritrio da sucursal da Kruger-Brent, na Rue Matignon, enquanto o homem sentado na sua frente 
exalava um suspiro.
        -  pena, porque o seu filho tem realmente talento, Mistress Blackwell. Podia tornar-se um pintor importante.
        - H dezenas de milhares de pintores no mundo, Mon-sieur D'Usseau - replicou ela, glacialmente. - Meu filho no nasceu para se incorporar nessa multido 
- e fez deslizar o cheque ao longo do tampo da secretria na direo do interlocutor. - Cumpriu a sua parte do acordo e eu acabo de cumprir a minha. A Kruger-Brent 
patrocinar museus de arte em Joanesburgo, Londres e Nova Iorque e o senhor encarregar-se- de escolher as telas... por uma comisso generosa, evidentemente.
        No entanto, muito depois de o francs se haver retirado, Kate permanecia sentada sob o efeito de uma tristeza irreprimvel. Amava o filho profundamente, 
e se alguma vez ele descobrisse... Reconhecia o risco a que se expusera, mas no podia permitir, de braos cruzados, que Tony voltasse as costas  herana. Necessitava 
de o proteger por qualquer preo. Os interesses da companhia exigiam todos os meios para alcanar esse fim. Por fim, levantou-se, sentindo uma sbita e enorme fadiga. 
Eram horas de o ir buscar e levar para casa. Ajud-lo-ia a recompor-se, para que pudesse cumprir a tarefa para a qual nascera: dirigir a companhia.

















        Captulo XIX



        Nos dois anos que se seguiram, Tony Blackwell sentiu que se encontrava num instrumento de tortura gigantesco que no o conduzia a parte alguma. Era o herdeiro 
aparente de um imprio impressionante. O imprio da Kruger-Brent expandira-se, para incluir fbricas de papel, uma companhia area, bancos e uma rede de hospitais. 
Ele aprendera que um nome constitua uma chave que abria todas as portas. Havia clubes, organizaes e diques sociais onde a moeda corrente no era o dinheiro ou 
a influncia, mas o nome apropriado. Tony fora aceite como scio do Union Club, do Brook e do Links Club. Cumulavam-no de atenes aonde quer que se dirigisse, mas 
considerava-se um impostor, pois nada fizera para merecer tudo aquilo. Achava-se na sombra gigantesca do av e assolava-o a impresso de que o comparavam constantemente 
com ele. Afigurava-se-lhe injusto, porque j no havia campos de minas para transpor rastejando, guardas que o alvejassem ou tubares ameaadores. As velhas histrias 
de heroicidade no tinham nada de comum com ele. Pertenciam a outro sculo, outra poca, outro lugar, atos hericos praticados por um desconhecido.
        Tony trabalhava com afinco insupervel na Kruger-Brent, Ltd., numa tentativa para se libertar de recordaes demasiado pungentes para suportar. Escreveu 
vrias vezes a Dominique, mas as cartas foram devolvidas intactas. Telefonou a Matre Cantai e obteve a informao de que ela j no trabalhava como modelo na escola. 
Desaparecera.
        Tony executava a sua misso com percia e mtodo, sem paixo nem amor, e se sentia um vazio profundo no seu ntimo, ningum o suspeitava. Nem sequer Kate, 
que recebia relatrios semanais dele e ficava satisfeita com o que lia.
        - Tem uma aptido natural para os negcios - afirmou Brad Rogers.
        Para ela, as longas horas que o filho consagrava ao trabalho provavam que gostava do que fazia. Cada vez que pensava como estivera na iminncia de comprometer 
o futuro, estremecia e congratulava-se por o ter salvo a tempo.
        Em 1948, o Partido Nacionalista assumiu plenos poderes na frica do Sul, com a segregao em todos os locais pblicos. A migrao era controlada rigorosamente, 
com a separao de famlias para satisfazer as convenincias governamentais. Cada negro tinha de se munir de um bewyshoek, o qual, mais do que um salvo-conduto, 
constitua o seu salva-vidas, certificado de nascimento, licena para trabalhar e recibo de impostos. Por outras palavras, regulava-lhe os movimentos na vida. Registravam-se 
tumultos crescentes no pas, reprimidos impiedosamente pela Polcia. De vez em quando, Kate lia nos jornais casos de sabotagem e agitao a que o nome de Banda se 
achava invariavelmente ligado. Continuava a desempenhar as funes de dirigente na resistncia, apesar da idade.         "Compreende-se que lute pelo seu povo", 
pensava ela. " Banda!"
        Kate celebrou o seu quinquagsimo stimo aniversrio com Tony, na residncia da Quinta Avenida, e pensou: "Este belo rapaz de vinte e quatro anos, sentado 
na mesa diante de mim, no pode ser meu filho. Sou demasiado jovem." Entretanto, ele erguia a taa num brinde:
        - A m-minha fantstica m-me. Feliz aniversrio!
        - Diz antes " minha fantstica e velha me".
        "No tardarei a retirar-me da atividade, mas ele tomar o meu lugar. O meu filho!"
        Por insistncia dela, Tony mudara-se para a manso da Quinta Avenida, sob o pretexto de que era demasiado grande para viver s. Alm disso, prometera reservar-lhe 
toda a ala leste e o isolamento de que necessitasse, e ele considerara mais fcil aceder do que argumentar.
        Tomavam o pequeno-almoo juntos todas as manhs e o tpico abordado era sempre a Kruger-Brent, Ltd. Tony surpreendia-se com o fato de a me se preocupar 
to apaixonadamente com uma entidade sem rosto nem alma, uma coleo amorfa de edifcios, mquinas e nmeros registrados em livros. "Onde residir a magia?" Com 
toda a mirade de mistrios do mundo para explorar, porque desejaria algum desperdiar uma vida inteira acumulando riqueza para a juntar a outras riquezas, reunindo 
poder que se situava para alm do poder? Via-se forado a admitir que no a entendia. No obstante, amava-a. E tentava corresponder s suas esperanas.
        O vo da Pan American de Roma para Nova Iorque decorrera sem qualquer novidade. Tony gostava de viajar de avio, por o julgar um meio de transporte agradvel 
e eficiente. Debruara-se sobre os relatrios das aquisies no estrangeiro desde o momento da descolagem, ignorando o jantar e a hospedeira, que de vez em quando 
se aproximava para lhe oferecer bebidas, almofadas ou outra coisa suscetvel de atrair o interesse do importante passageiro.
        Uma mulher de meia-idade no assento ao lado dele lia uma revista e, no momento em que voltava a pgina, Tony lanou-lhe uma olhadela e estremeceu ao ver 
um modelo que apresentava um vestido de baile. Era Dominique. No podia haver a mnima dvida, e sentiu as pulsaes acelerarem-se.
        - Queira desculpar - proferiu, polidamente. - Empresta-me a revista, quando terminar de a ler?
        Na manh seguinte, telefonou ao costureiro autor do vestido e obteve o nome da agncia publicitria a que recorrera, com a qual se apressou a contatar.
        - Tento localizar um dos vossos modelos - explicou  telefonista. - Pode?...
        - Um momento, por favor.
        No instante imediato, surgia uma voz masculina na linha:
        - Em que lhe posso ser til?
        - Trata-se de uma fotografia publicada no ltimo nmero da Vogue.  de um modelo que exibe um vestido do costureiro Rothman. Foram vocs que trataram disso?
        - Sim.
        - Pode dar-me o nome da agncia desse modelo?
        - Deve tratar-se da Carleton Blessing - e o homem mencionou um nmero de telefone.
        Transcorrido menos de um minuto, Tony falava com uma mulher da agncia.
        - Interessa-me localizar um dos vossos modelos. Dominique Masson.
        - Lamento, mas no fornecemos informaes de natureza pessoal.
        E a ligao foi cortada, antes que ele pudesse acrescentar algo. Tinha de haver uma maneira de entrar em contato com Dominique. Por fim, dirigiu-se ao gabinete 
de Brad Rogers e perguntou:
        - Conhece a agncia Carleton Blessing?
        - Sem dvida. Pertence-nos.
        - O qu?
        - Encontra-se  sombra de uma das nossas subsidirias.
        - Quando a adquirimos?
        - H uns dois anos. Mais ou menos na altura em que voc ingressou na companhia. Qual  o seu interesse nela?
        - Queria localizar um dos seus modelos. Trata-se de uma velha amiga.
        - Nada mais fcil. Vou ligar para l e...
        - No. Eu encarrego-me disso. Obrigado, Brad. Entretanto, Tony sentia-se invadido por uma agradvel sensao de antecipao.
         tarde, visitou os escritrios da agncia Carleton Blessing e, sessenta segundos depois de se identificar, encontrava-se sentado no gabinete de um tal Tilton, 
o presidente.
        -  uma honra inesperada, Mister Blackwell. Espero que no haja nenhum problema. Os nossos lucros do ltimo trimestre...
        - No venho em misso oficial. Interessa-me um dos vossos modelos. Dominique Masson.
        -  uma das melhores - a expresso do homem iluminou-se. - Sua me sabe escolher o pessoal.
        - Desculpe... - articulou Tony, julgando ter ouvido mal.
        - Sua me insistiu pessoalmente em que contratssemos Dominique. Foi uma condio implcita na aquisio da nossa firma pela Kruger-Brent. Est tudo mencionado 
nos arquivos. Se lhe interessa consultar o processo...
        - No  necessrio - no conseguia encontrar uma explicao para o que escutava. "Que motivo levaria a me?..." - Pode dar-me o endereo de Dominique?
        - Decerto, Mister Blackwell. Hoje, teve de se deslocar a Vermont, em servio - informou Tilton, consultando uma agenda -, mas deve regressar amanh  tarde.
        Tony aguardava  entrada do prdio de apartamentos, quando um sedan negro se imobilizou e a rapariga desceu. Acompanhava-a um homem de porte atltico, com 
a mala dela na mo. Dominique estacou abruptamente no momento em que avistou Tony e exclamou:
        - Meu Deus! Que... que fazes aqui?
        - Preciso falar contigo.
        - Fica para outra vez, amigo - interveio o atleta. - Temos uma tarde muito atarefada.
        - Manda-o embora - indicou Tony, sem o olhar.
        - Quem diabo se julga, para?...
        - Deixa-nos, por favor, Ben - rogou ela. - Telefono-te  noite.
        O outro hesitou por um momento e acabou por encolher os ombros.
        - Est bem - e afastou-se, aps uma mirada incendiria a Tony.
        -  melhor entrarmos - sugeriu Dominique, voltando-se de novo para Tony.
        O apartamento era um duplex espaoso, com decorao moderna, que decerto custara uma pequena fortuna.
        - No se pode dizer que vivas mal - comentou ele.
        - Sim, tive sorte - e os dedos dela moviam-se nos botes da blusa com nervosismo. - Queres uma bebida?
        - No, obrigado. Tentei contatar contigo, depois de deixar Paris.
        - Mudei-me.
        - Para a Amrica?
        - Sim.
        - Como conseguiste trabalho na Carleton Blessing?
        - Bem... respondi a um anncio - explicou, cada vez mais embaraada.
        - Quando viste a minha me pela primeira vez?
        - No teu apartamento, em Paris. No te lembras que?...
        - Basta de mentiras! - Tony sentia uma clera surda propagar-se a todas as fibras do corpo. - Terminou a comdia. Nunca bati numa mulher, mas se insistes 
em dizer falsidades, palavra de honra que ficas com a cara imprpria para ser fotografada por uns tempos.
        Agora, no houve hesitao na resposta:
        - Quando foste admitido na cole ds Beaux-Arts. Ela conseguiu que me aceitassem como modelo.
        Experimentou uma sensao pungente no estmago, mas desenvolveu esforos para prosseguir.
        - Para que nos conhecssemos?
        - Sim, mas...
        - E pagou-te para que te tornasses minha amante e fingisses amar-me?
        - Exato. A guerra tinha acabado pouco antes e eu estava sem dinheiro. Procura compreender a situao. Mas acredita que o meu amor por ti no era fingido...
        - Limita-te a responder s minhas perguntas, sem comentrios desnecessrios. Qual a finalidade de tudo isso?
        - Tua me queria que te vigiasse.
        Tony recordou-se da ternura dela... - proporcionada pelo dinheiro da me - e sentiu-se dominado pela vergonha. No passara de um ttere, controlado e manipulado 
pela progenitora, que nunca se preocupara com ele. No era seu filho, mas o seu prncipe coroado, o herdeiro natural. A nica coisa que contava para ela era a companhia.
        Com um derradeiro olhar a Dominique, rodou nos calcanhares e afastou-se, enquanto ela o acompanhava com o olhar ofuscado pelas lgrimas. "No menti quando 
disse que te amava. Nisso, fui sincera."
        Kate encontrava-se na biblioteca, quando Tony surgiu, extremamente embriagado.
        - Fa-falei com Dominique. Vo-cs as duas devem ter rido como loucas  mi-minha custa.
        - Tony... - comeou ela, alarmada.
        - A partir de agora, no quero que te tor-tornes a imiscuir na mi-minha vida pessoal, ouviste?
        Viu-o retirar-se em passos incertos e acudiu-lhe um pressgio desagradvel.



























        Captulo XX



        No dia seguinte, Tony alugou um apartamento em Green-wich Village e ps termo aos jantares sociais com a me, mantendo as suas relaes a um nvel rigorosamente 
impessoal, de negcios. De vez em quando, Kate efetuava uma tentativa de reconciliao, que o filho ignorava.
        Apesar de assolada por profunda amargura, estava convencida de que procedera da melhor maneira para Tony, tal como acontecera numa ocasio em relao a David. 
No podia permitir que abandonassem a companhia. O filho era o nico ser humano do mundo que ela amava, e observava com pesar que se tornava cada vez mais insular, 
refugiando-se no seu ntimo e rejeitando os outros. No tinha amigos e, em contraste com a cordialidade e comunicabilidade do passado, mostrava-se frio e reservado. 
Erguera uma muralha  sua volta que ningum lograva transpor. "Precisa de uma esposa que se preocupe com ele. E de um filho que continue a herana. Tenho de o ajudar."
        Brad Rogers entrou precipitadamente no gabinete de Kate e anunciou:
        - Vai haver mais problemas.
        - Que aconteceu?
        - O Parlamento da frica do Sul ilegalizou o Conselho Representativo dos Nativos e aprovou a Lei Comunista - explicou, pousando um cabograma na secretria.
        - Meu Deus! - o diploma nada tinha a ver com o comunismo. Referia simplesmente que quem discordasse de qualquer medida governamental e tentasse alter-la 
incorria em transgresso da Lei Comunista e podia ser detido. -  a sua maneira de enfraquecer a resistncia dos negros. Se... - foi interrompida pela recepcionista, 
atravs do intercomunicador.
        - H uma chamada do estrangeiro para si. Trata-se de Mister Pierce, de Joanesburgo.
        Jonathan Pierce era o gerente da sucursal da firma na capital sul-africana, e Kate apressou-se a pegar no auscultador.
        - Ol, Johnny! Como vai?
        - Eu bem, mas lamento no poder dizer o mesmo da situao por c.
        - Que aconteceu?
        - Acabo de ser informado pela Polcia de que capturaram Banda.
        Kate encontrava-se a bordo do primeiro voo para Joanesburgo, depois de recomendar aos advogados da companhia que vissem o que podiam fazer por Banda. No 
entanto, receava que nem o poder e o prestgio da Kruger-Brent fossem suficientes para o auxiliar. Com efeito, fora considerado inimigo do Estado, e ela no se atrevia 
a pensar no que consistiria o castigo aplicado. Em todo o caso, impunha-se que pelo menos lhe falasse e oferecesse todo o apoio ao seu alcance.
        Assim que o avio aterrou em solo sul-africano, Kate dirigiu-se aos escritrios da firma e telefonou ao diretor das prises, que informou:
        - Ele encontra-se num bloco de isolamento e no pode receber visitas. No seu caso, porm, vou ver o que consigo.
        Na manh imediata, ela achava-se na priso de Joanesburgo, sentada diante de Banda, que estava algemado, e havia uma espessa chapa de vidro entre ambos. 
Kate no sabia bem o que esperava ver, todavia ele no apresentava um ar desesperado e sorriu ao dizer:
        - Tinha a certeza de que viria.  como seu pai. No consegue estar longe do barulho, hem?
        - Olha quem fala - redarguiu ela. - Raios para isto! Como te vamos tirar daqui?
        - Num caixo.  a nica maneira de me deixarem sair.
        - Disponho de um batalho de bons advogados que...
        - No merece a pena. Desta vez, apanharam-me com as mos na massa. Agora, tenho de me resignar.
        - No compreendo.
        - Sempre fui alrgico s prises. Ainda no construiram uma capaz de me conter.
        - No cometas loucuras, Banda. Eles no hesitavam em matar-te.
        - Lembre-se que fala com um homem que sobreviveu a tubares, a um campo de minas e a ces de guarda - ele deixou transparecer uma ponta de nostalgia no olhar. 
- Sabe uma coisa? Creio que foi o melhor perodo da minha vida.
        Quando Kate se apresentou para nova visita, no dia seguinte, o diretor da priso declarou:
        - Sinto muito, Mistress Blackwell, mas Banda foi transferido, por razes de segurana.
        - Para onde?
        - No estou autorizado a revel-lo.
        No outro dia, quando se levantou, pegou no jornal e leu a notcia que figurava na primeira pgina: "Chefe rebelde abatido na tentativa de fuga da priso". 
Uma hora mais tarde, encontrava-se no gabinete do diretor da priso, que explicou:
        - Banda perdeu a vida nas circunstncias reveladas pela Imprensa. No h nada a acrescentar.
        "Enganas-te. H mais. Muito mais!" Banda morrera, mas ter-se-ia porventura extinguido o sonho de liberdade do seu povo?
        Dois dias depois, Kate regressava a Nova Iorque, no sem antes se ter ocupado de todos os preparativos para o funeral. A bordo do avio, voltou-se para a 
janela, a fim de contemplar a sua terra amada pela ltima vez. O solo era vermelho e frtil e encerrava nas suas entranhas tesouros que excediam os sonhos dos homens 
mais ambiciosos. No entanto, dir-se-ia que fora lanada uma maldio sobre o territrio. "No tornarei a pr c os ps", prometeu a si prpria. "Nunca!"
        Uma das responsabilidades de Brad Rogers consistia em orientar o Departamento de Planejamento de Longo Alcance da Kruger-Brent. Na realidade, tinha uma propenso 
especial para descobrir firmas que constituam aquisies lucrativas.
        Um dia do princpio de Maio, entrou no gabinete de Kate e depositou duas pastas de cartolina sobre a secretria.
        - Deparou-se-me uma coisa interessante. Duas companhias. Se consegussemos ficar com qualquer delas, seria uma proeza.
        - Obrigada, Brad. Darei uma olhadela nisto, esta noite. Assim, ela jantou s e analisou os relatrios confidenciais sobre as duas firmas: Wyatt Oil & Tool 
e International Technology. Os elementos eram extensos e pormenorizados e terminavam com as iniciais NIV, que, segundo o cdigo da companhia, significavam "No Interessada 
na Venda" e exigiriam diligncias excepcionais para conseguir a sua aquisio. Cada uma delas era dirigida por um indivduo abastado e competente, o que eliminava 
qualquer tentativa para empregar os processos normais. Tratava-se de um desafio, situao que no se deparava a Kate desde longa data. Quanto mais pensava no assunto, 
maior a excitao que as possibilidades lhe suscitavam. A Wyatt Oil & Tool pertencia a um texano chamado Charlie Wyatt e as suas atividades incluam poos de petrleo, 
uma empresa de utilidade pblica e dezenas de outros ramos lucrativos. No subsistia a mnima dvida: representaria uma aquisio excelente para a Kruger-Brent, 
Ltd.
        Quanto  International Techonology, tinha  testa o conde alemo Frederick Hoffmann. A companhia principiara com uma pequena fundio de ao, em Essen, e 
com o passar dos anos expandira-se num vasto grupo que abarcava estaleiros navais, fbricas de petroqumica, uma frota de petroleiros e uma diviso de computadores.
Apesar da sua vasta envergadura, a Kruger-Brent s podia digerir um dos dois gigantes, e Kate sabia qual lhe interessava. No entanto, no final do relatrio figurava 
a ominosa advertncia: NIV.
        "Veremos", refletiu com determinao.
        Na manh imediata, mal entrou no gabinete mandou chamar Brad Rogers.
        - Gostava de saber como conseguiu estas folhas de balano confidenciais, mas respeito o segredo profissional - comeou, com um sorriso malicioso. - Fale-me 
de Charlie Wyatt e de Frederick Hoffmann.
        - Wyatt nasceu em Dallas.  um homem de temperamento autoritrio e impetuoso, arguto como poucos. Principiou do zero, teve sorte em alguns empreendimentos 
arriscados, foi se expandindo e hoje metade do Texas pertence-lhe.
        - Que idade tem?
        - Quarenta e sete.
        - Filhos?
        - Uma rapariga, de vinte e cinco, que, segundo as minhas informaes,  uma autntica brasa.
        - Casada?
        - Divorciada.
        - E Frederick Hoffmann?
        -  dois anos mais novo que Wyatt. Ostenta o ttulo de conde e pertence a uma famlia distinta que remonta  Idade Mdia. Enviuvou h algum tempo e o av 
comeou com uma modesta fundio de ao. Hoffmann herdou-a do pai e transformou-a num imprio. Foi um dos primeiros a enveredar pelo ramo dos computadores e possui 
numerosas patentes de miniprocessadores. Cada vez que utilizamos uma dessas mquinas, o nosso conde recebe direitos de explorao.
        - Tem filhos?
        - Tambm uma rapariga, de vinte e trs anos.
        - Como  ela?
        - No consegui averiguar. Trata-se de uma famlia muito fechada, que s se move dentro dos seus crculos restritos - Brad hesitou. - Talvez estejamos a perder 
tempo neste caso. Tomei umas bebidas com dois dirigentes de ambas as companhias e apurei que tanto Wyatt como Hoffmann no esto interessados na venda, fuso ou 
trabalho em conjunto. Como pode verificar pela sua posio financeira, s um louco pensaria o contrrio.
        No entanto, a sensao de desafio achava-se presente uma vez mais, estimulando Kate de forma irresistvel.
        Dez dias depois, foi convidada pelo presidente dos Estados Unidos para participar numa conferncia de industriais em Washington, a fim de discutirem as possibilidades 
de auxlio a pases subdesenvolvidos. Ato contnuo, Kate fez uma chamada telefnica, e, transcorrido pouco tempo, Charlie Wyatt e o conde Frederick Hoffmann recebiam 
convites idnticos.
        Ela formara uma impresso mental do texano e do alemo e verificou que no se equivocara muito. Nunca conhecera um habitante do Texas tmido, e Charlie Wyatt 
no constitua uma exceo. Era um homem quase gigantesco, com corpo de praticante de rguebi, que o deixara engordar em excesso. Kate compreendeu que ele no construra 
o seu imprio em resultado de mera sorte nas operaes que empreendera. Tratava-se de um gnio no campo dos negcios. Dez minutos de conversa bastaram para a convencer 
de que aquele homem no faria coisa alguma que no desejasse. Ningum lograria lev-lo a desfazer-se da sua companhia. No obstante, descobriu-lhe o calcanhar de 
Aquiles, o que bastava para os seus desgnios.
Frederick Hoffmann era a anttese de Wyatt, um indivduo bem-parecido, de ar aristocrtico e maneiras irrepreensveis. Superficialmente, deixava transparecer cordialidade 
e deferncia. No ntimo, porm, Kate pressentiu um ncleo de ao.
        A conferncia em Washington prolongou-se por trs dias e decorreu o melhor possvel. As reunies desenrolavam-se sob as vistas do vice-presidente, e o presidente 
efetuou uma breve apario. Todos os presentes se sentiram impressionados com Kate Blackwell, uma mulher atraente e carismtica, chefe de um imprio industrial que 
construra, e, sobretudo, fascinados, como ela pretendia.
Quando conseguiu achar-se a ss com Charlie Wyatt por um momento, perguntou:
        - A sua famlia acompanhou-o?
        - Vim com minha filha, que necessitava fazer umas compras .
        - Ah, sim? - ningum teria suspeitado de que Kate at se encontrava ao corrente do gnero de vestido que a rapariga comprara naquela manh. - Promovo um 
pequeno jantar, na sexta-feira, em Dark Harbor, e gostaria que comparecesse com ela, para passarem o fim-de-semana.
        - Ouvi falar na importncia da sua organizao, Mistress Blackwell - o texano no hesitou um segundo. - Teremos muito gosto.
        - timo. Providenciarei para que sigam para l de avio, amanh  noite.
        Dez minutos depois, ela conversava com Frederick Hoffmann.
        - Encontra-se s em Washington, Mister Hoffmann, ou veio com sua esposa?
        - Enviuvei h vrios anos - esclareceu o alemo. - No entanto, trouxe minha filha.
        - Promovo uma recepo em Dark Harbor - Kate sabia que eles se alojavam na sute quatrocentos e dezoito do Hotel Hay Adams. - Teria o maior prazer em contar 
com a vossa presena para o fim-de-semana.
        - Convm-me regressar  Alemanha sem demora - Hoffmann fez uma pausa e observou a interlocutora por uns instantes, at que esboou um sorriso. - Mas mais 
dois ou trs dias nos Estados Unidos no me levaro  bancarrota.
        - Esplndido. Ocupar-me-ei do vosso transporte.
        Era costume de Kate realizar uma pequena festa em Dark Harbor cada dois meses, a que compareciam as pessoas mais interessantes e poderosas do mundo. Agora, 
estava empenhada em que fosse uma reunio de cariz especial e o nico problema consistia em que Tony estivesse presente. Nos ltimos meses, ele raramente se preocupava 
em assistir e, nas escassas excees, retirava-se na primeira oportunidade. Agora, porm, era imperioso que no faltasse e protelasse a partida para o mais tarde 
possvel.
        Quando lhe mencionou a festa, ele apressou-se a declarar secamente:
        - No po-posso ir. Sigo para o Ca-Canad, segunda-feira, e tenho muitos assuntos a tratar at l.
        -  importante - insistiu Kate. - Charlie Wyatt e Frederick Hoffmann prometeram comparecer e...
        - Sei de quem se trata. Fa-falei com Brad Rogers. No existe a m-mnima hiptese de adquirir qualquer de-dessas companhias.
        - Em todo o caso, quero tentar.
        - Qual te in-interessa mais?
        - A Wyatt Oil & Tool, que podia contribuir para aumentar os nossos lucros em quinze por cento, pelo menos. Quando os pases rabes compreenderem que tm 
o mundo entre a espada e a parede, formaro um cartel e os preos do petrleo subiro s nuvens.
        - E a In-International Techonology?
        -  uma boa companhia, mas a outra reveste-se de mais interesse - declarou ela, com um encolher de ombros. - Preciso de ti l, Tony. O Canad pode esperar 
uns dias.
        Ele detestava as reunies daquela natureza, com as conversas fteis interminveis, homens fanfarres e mulheres predatrias. No entanto, desta vez tratava-se 
de uma diligncia de negcios.
        - Est bem - acabou por capitular.
        Todas as pedras se achavam nos seus lugares do tabuleiro.
        Os Wyatt seguiram para o Maine num Cessna da companhia e,  chegada do ferryboat, havia uma limusine que os conduziu a Cedar Hill, onde Kate os aguardava 
 entrada. Brad Rogers no se equivocara. A filha, Lucy, era uma autntica "brasa", alta, de cabelos pretos e olhos castanhos num rosto perfeito. O vestido, sado 
das mos de um costureiro dispendioso, moldava um corpo de linhas deslumbrantes. Kate apresentou-a a Tony e observou a reao deste ltimo. Todavia ele conservou-se 
impvido. Saudou os Wyatt com deferncia formal e acompanhou-os ao bar.
        - Que bela sala! - exclamou Lucy. - Passa muito tempo nesta manso?
        - No - foi a resposta seca de Tony. Apercebendo-se do perigo iminente de a reserva do filho comprometer os seus interesses, Kate tratou de intervir.
        - As suas recordaes mais agradveis referem-se a esta casa. O trabalho absorve-o tanto, coitado, que raramente tem oportunidade de saborear esta atmosfera 
aprazvel. No  verdade?
        - Sem dvida - assentiu ele, com uma expresso glacial. - Neste momento, por exemplo, devia estar no Canad...
        - Mas adiou a viagem para os conhecer.
        - Sinto-me honrado - declarou Charlie Wyatt. - Tenho ouvido falar de seu filho, Mistress Blackwell - com um sorriso, acrescentou: - Suponho que no lhe interessa 
vir trabalhar para o Texas.
        - No creio que isso seja exatamente o que minha me tem em vista para mim - alegou Tony.
        - Acredito - o texano soltou uma gargalhada e virou-se de novo para Kate. - Sua me  uma mulher incomparvel. Gostava que visse enrodilhar toda a gente 
na reunio da Casa Branca e...
        Interrompeu-se no instante em que Frederick Hoffmann e a filha, Marianne, entravam na sala. A rapariga era uma verso plida do pai, com o mesmo semblante 
aristocrtico. Tinha cabelos louros que se prolongavam at aos ombros e usava um vestido de chiffon branco. Ao lado de Lucy Wyatt, quase passava despercebida.
        - Queiram desculpar o atraso - proferiu o alemo. - O avio ficou retido em La Guardi.
        - Que pena! - exclamou Kate, que providenciara para que tal acontecesse, a fim de os Wyatt chegarem em primeiro lugar. - Que tomam?
        - Um scoth, por favor - pediu o conde Hoffmann.
        - E voc? - perguntou ela a Marianne.
        - Nada, obrigada.
        Os outros convidados comearam a surgir pouco depois e Tony passou a circular entre eles, em obedincia s suas funes de anfitrio atencioso. Ningum, 
 parte a me, suspeitava do reduzido significado que aquelas reunies tinham para ele. No era que estivesse enfastiado. Achava-se simplesmente isolado de tudo 
o que ocorria  sua volta. Perdera o prazer proporcionado pelo convvio, circunstncia que preocupava Kate profundamente.
        Tinham sido preparadas duas mesas na vasta sala de jantar. Ela instalou Marianne Hoffmann entre um magistrado do Supremo Tribunal e um senador, numa, e Lucy 
Wyatt  direita de Tony, na outra. Todos os homens presentes - solteiros e casados - concentravam os olhares na filha do texano. Kate apercebia-se dos esforos da 
rapariga para conversar com o filho, deixando transparecer que simpatizava com ele, o que representava um bom comeo.
        Na manh seguinte, sbado, durante o pequeno-almoo, Wyatt disse a Kate:
        - Tem um iate estupendo, Mistress Blackwell. Quanto mede?
        - No sei bem - ela voltou-se para Tony. - Que comprimento tem o Corsair?
        - Vinte e cinco metros - informou o interpelado, refletindo que a me estava perfeitamente ao corrente.
        - No Texas, no ligamos aos barcos. Estamos sempre com muita pressa. Viajamos quase sempre de avio.
        - Gostava que me deixasse mostrar-lhe a ilha, do mar - observou Kate. - Podemos faz-lo no iate, amanh.
        - Excelente idia! - aprovou o texano.
        Entretanto, Tony assistia aos manejos da me sem se pronunciar. Acabava de efetuar uma das primeiras jogadas importantes, e perguntava a si prprio se Wyatt 
se teria apercebido. Talvez no. Apesar de ser um homem de negcios arguto, nunca enfrentara ningum como Kate Blackwell.
        Pouco depois, esta virou-se para o filho e para Lucy e sugeriu:
        - Porque no aproveitam o tempo estupendo que faz para dar uma volta na lancha?
        - Agradava-me imenso - afirmou a rapariga, antes que Tony tivesse ensejo de abrir a boca.
        Todavia, ele advertiu:
        - No posso, porque espero um telefonema importante. Esforando-se por dissimular o desagrado, Kate voltou-se para Marianne Hoffmann.
        - Ainda no vi o seu pai, esta manh.
        - Foi explorar a ilha. Costuma levantar-se muito cedo.
        - Ouvi dizer que gosta de montar a cavalo. Temos uma coudelaria muito satisfatria.
        - Agradeo-lhe, Mistress Blackwell, mas prefiro andar por a, se no v inconveniente.
        - Claro que no. Esteja  sua vontade - concentrou-se de novo no filho. - No queres mesmo levar Miss Wyatt a dar um passeio? - inquiriu numa inflexo spera.
- No posso, como j expliquei.
        Embora pequena, tratava-se de uma vitria. A batalha fora travada, e Tony no fazia teno de a perder. A me j no dispunha do poder de o iludir. Utilizara-o 
como peo outrora e ele estava bem ciente de que pretendia faz-lo de novo, mas desta vez os seus esforos no resultariam. Desejava adquirir a Wyatt Oil & Tool, 
que o texano no pretendia vender, mas Kate julgara encontrar uma maneira de o vencer por intermdio do seu nico ponto fraco: a filha. Se Lucy ingressasse na famlia 
Blackwell, tornar-se-ia inevitvel a fuso das duas firmas.
        No final do pequeno-almoo, Kate levantou-se e props ao filho:
        - Enquanto o teu telefonema no chega, porque no mostras os jardins a Miss Wyatt?
        Ele reconheceu que no existia possibilidade de se esquivar graciosamente, pelo que assentiu, decidido a abreviar a visita.
        Por seu turno, a me virou-se para Charlie Wyatt e perguntou:
        - Interessa-se por livros raros? Temos uma vasta coleo, na biblioteca.
        - Interessa-me tudo o que quiser mostrar-me - redarguiu ele, com um largo sorriso.
        Como que obedecendo a uma inspirao de ltima hora, ela voltou-se para Marianne Hoffmann.
        - Quer acompanhar-nos?
        - Obrigada, mas prefiro dar uma volta por a, como disse. No se preocupe comigo.
        - Claro que no.
        Tony refletiu que estas palavras da me se revestiam da maior sinceridade. A alem no figurava nos seus projetos, pelo que tratava de a marginalizar. Fazia-o 
numa atitude amvel, sorridente, que encobria uma firmeza implacvel que ele detestava.
        - Vamos, Tony? - sugeriu Lucy.
        - Com certeza.
        Encaminharam-se para a porta, e preparavam-se para a transpor, quando ele ouviu a me dizer aos outros:
        - Fazem um par admirvel.
        Dirigiram-se para o molhe onde o Corsair se encontrava acostado, percorrendo uma extensa rea repleta de flores e rvores.
        -  um lugar celestial - murmurou Lucy.
        - Pois .
        - No temos flores destas, no Texas.
        - No?
        -  um ambiente tranquilo e pacfico.
        - Tem razo.
        De sbito, deteve-se e fitou o companheiro, com uma expresso agastada.
        - Disse alguma coisa que a ofendesse? - viu-se ele na necessidade de perguntar.
        - No disse absolutamente nada.  isso que considero ofensivo. No consigo arrancar-lhe mais do que monosslabos ou palavras secas. Faz-me ficar com a impresso 
de que pretendo ca-lo.
        - E pretende?
        - Adivinhou - a rapariga soltou uma risada. - Se pudesse ensin-lo a falar, talvez nos entendssemos - e vendo-o esboar um sorriso, inquiriu. - Em que pensa?
        - Em nada de especial.
        Na realidade, Tony pensava na me e no que lhe custava perder.
        Entretanto, Kate acompanhava Charlie Wyatt na visita  biblioteca, em cujas estantes se viam primeiras edies de Oliver Goldsmith, Laurence Sterne, Tobias 
Smollett e John Donne, juntamente com um inflio de Ben Johnson. O texano percorria com a vista os tesouros que o rodeavam, at que se imobilizou diante de um volume 
encadernado do Endymion, de John Keats.
        -  um exemplar da Roseberg - afirmou, voltando-se para Kate.
        - Exato - confirmou ela, surpreendida. - H apenas dois conhecidos.
        - O outro encontra-se na minha biblioteca.
        - Era de prever - articulou, rindo. - Os seus ares de texano do petrleo conseguiram iludir-me.
        - Sim? So uma camuflagem excelente.
        - Onde estudou?
        - Primeiro na Escola de Minas do Colorado e depois em Oxford como bolseiro - e Wyatt contemplou Kate em silncio, por um momento. - Constou-me que foi voc 
que sugeriu a minha presena na conferncia da Casa Branca.
        - Limitei-me a mencionar o seu nome.
        - Foi um gesto que no posso deixar de agradecer. E, agora que estamos ss, porque no me explica exatamente o que tem em mente?
        Tony encontrava-se no seu gabinete de trabalho, uma pequena dependncia a meio do corredor do rs-do-cho, afundado numa poltrona de espaldar elevado, examinando 
uns documentos, quando sentiu a porta abrir-se e entrar algum.
        Era Marianne Hoffmann, e antes que ele pudesse revelar a sua presena, ouviu-a soltar uma exclamao abafada.
        Acabava de ver os quadros na parede. Tratava-se de trabalhos de Tony, os poucos que trouxera do apartamento de Paris, e s permitira que estivessem expostos 
naquela saleta. Viu a rapariga mover-se em redor para os contemplar, mas era demasiado tarde para o poder evitar.
        - No acredito - murmurou ela, finalmente. Assolou-o uma irritao repentina, pois sabia que no eram maus a esse ponto. De sbito, fez um movimento na poltrona 
e o couro rangeu, obrigando Marianne a voltar-se.
        - Peo desculpa - balbuciou. - No sabia que estava aqui algum.
        - No tem importncia - retorquiu Tony, com certa brusquido, pois desagradava-lhe que invadissem o seu santurio. - Procurava alguma coisa?
        - No. Vagueava simplesmente. A sua coleo de quadros devia encontrar-se num museu.
        - Exceto estes.
        Intrigada, a rapariga voltou a observ-los e distinguiu a assinatura.
        - So seus!
        - Lamento que no lhe agradem.
        - Acho-os fantsticos! No compreendo. Se sabe pintar to bem, porque decidiu fazer outra coisa? Considero os seus trabalhos, no bons, mas maravilhosos! 
- calou-se por um momento, mas ele no reagiu visivelmente. - Em tempos, quis ser pintora e cheguei a estudar com Oskar Kokoschka durante um ano. Finalmente, desisti, 
porque reconheci que nunca atingiria o nvel que pretendia. Mas voc! - virou-se de novo para os quadros. - Esteve em Paris?
        - Sim.
        - Que pena...
        - Ah, esto aqui? - Kate acabava de assomar  entrada e olhava-os com curiosidade. Por fim, aproximou-se de Marianne e prosseguiu: - Procurei-a por toda 
a parte. Seu pai diz que adora as orqudeas e quero que visite a nossa estufa.
        - Obrigada, Mistress Blackwell, mas...
        - Ocupa-te dos outros convidados, Tony - indicou, sem prestar ateno s objees da rapariga.
        Ele experimentava uma fascinao especial pela maneira como a me manobrava as pessoas. Na realidade, agia com uma suavidade admirvel, sem desperdiar um 
nico movimento. A operao principiara com a chegada dos Wyatt antes dos Hoffmann e continuara com a colocao de Lucy ao lado dele a todas as refeies e as conferncias 
a ss com Charlie Wyatt. A filha deste era uma moa atraente e constituiria a esposa ideal para o futuro chefe da Kruger-Brent.
        Meneando a cabea num gesto de amargura, Tony perguntava-se qual seria o movimento seguinte de Kate. Na verdade, no necessitou de esperar muito tempo para 
se inteirar.
        Encontravam-se no terrao, tomando cocktails, quando ela revelou ao filho:
        - Mister Wyatt convidou-nos para passar o prximo fim-de-semana no seu rancho. No achas uma idia maravilhosa? - acrescentou, com uma expresso de prazer. 
- Nunca estive num rancho do Texas.
        "Ora, a Kruger-Brent possua um rancho no Texas que tinha provavelmente o dobro da superfcie do dos Wyatt."
        - Espero que tambm v - interps o texano, dirigindo-se a Tony.
        - Por favor... - sussurrou Lucy.
        Parecia uma conspirao. Ao mesmo tempo, porm, era um desafio. Por conseguinte, ele decidiu enfrent-lo.
        - Com o maior prazer.
        "Se Lucy tem em mente seduzir-me, perde o seu tempo", pensou. A mgoa provocada pela me e por Dominique haviam-lhe implantado uma desconfiana to profunda 
nas mulheres, que a sua nica associao com elas passara a manifestar-se atravs das prostitutas dispendiosas, sem dvida as mais sinceras, pois s desejavam o 
dinheiro e mencionavam a quantia desde o princpio. Tony esportulava o preo pedido e obtinha aquilo que pagava. Sem complicaes, lgrimas ou embustes.
        Lucy Wyatt teria uma surpresa.
        Domingo de manh, Tony dirigiu-se  piscina para nadar um pouco e verificou que Marianne Hoffmann j se encontrava na gua, com um fato de banho branco que 
lhe acentuava os contornos do corpo esbelto. Quando o avistou, acercou-se em braadas graciosas e sorriu-lhe.
        - Bom dia.
        - Bom dia. Nada muito bem.
        - Adoro praticar desportos. Herdei-o de meu pai. Ergueu-se para a borda da piscina e ele estendeu-lhe uma toalha, ao mesmo tempo que perguntava:
        - J tomou o pequeno-almoo?
        - No. Pensei que a cozinheira no se levantava to cedo.
        - Isto  um hotel com servio de copa permanente.
        - Um sistema muito til - Marianne voltou a sorrir.
        - Onde vive?
        - Na maior parte do tempo, em Munique. Possumos um schloss, um castelo, nos arredores.
        - Onde se criou?
        - Isso j  mais complicado. Durante a guerra, mandaram-me para um colgio na Sua. Depois, fui para Oxford, estudei na Sorbona e vivi alguns anos em Londres 
- olhou-o sem pestanejar. - E voc?
        - Bem, saltitei entre Nova Iorque, Maine, Sua, frica do Sul, uns anos no Pacfico durante a guerra, Paris... - Tony interrompeu-se, como se decidisse 
que falara de mais.
        - Desculpe se me intrometo no que no devo, mas no compreendo porque desistiu de pintar.
        - Contos largos - replicou secamente. - Vamos ao pequeno-almoo.
        Comeram ss, no terrao sobranceiro  baa, ao mesmo tempo que conversavam despreocupadamente. Marianne parecia interessada no que lhe dizia respeito e Tony 
experimentava uma atrao estranha por ela.
        - Quando regressa  Alemanha? - perguntou em dado momento.
        - Para a semana. Vou casar.
        - Ah! - a revelao apanhou-o desprevenido. - Quem  ele?
        - Um mdico que conheo desde criana. Obedecendo a um impulso irresistvel, aventurou:
        - Quer jantar comigo, em Nova Iorque?
        Ela observou-o por instantes e ponderou a resposta antes de aquiescer:
        - Com todo o gosto.
        - Ento, fica combinado - concluiu Tony, sorrindo.
        Jantaram num pequeno restaurante  beira-mar, em Long Island. Ele desejava Marianne s para si, fora do raio de ao da me. Embora se tratasse de um sero 
inofensivo, se ela o descobrisse no hesitaria em envenen-lo. Era um assunto privado entre os dois e, durante o breve lapso de tempo que perdurasse, ningum o perturbaria. 
A companhia de Marianne agradava-lhe ainda mais do que previra. "Quando regressa  Alemanha?" "Para a semana. Vou casar."
        Nos cinco dias que se seguiram, viram-se com frequncia. Tony cancelou a viagem ao Canad, conquanto no soubesse explicar claramente porqu. Supusera que 
se tratava de uma forma de rebelio contra o plano da me, uma vingana mesquinha, mas se isso correspondera  verdade, no incio, tudo se alterara depois. Cada 
vez se sentia mais atrado pela rapariga. Admirava-lhe a sinceridade, qualidade que desesperara de voltar a encontrar.
        Como ela era uma turista em Nova Iorque, ele acompanhava-a a toda a parte. Os dias sucediam-se quase sem que se apercebessem, at que chegou sexta-feira, 
quando Tony devia partir para o rancho dos Wyatt.
        - Quando regressa  Alemanha?
        - Segunda-feira de manh - informou Marianne, sem a mnima alegria na voz.
Ele seguiu para Houston naquela tarde. Podia ter ido com a me num dos avies da companhia, mas preferira evitar todas as situaes que o obrigassem a ficar a ss 
com ela. Pela parte que lhe dizia respeito, Kate no passava de uma associada na firma: brilhante, poderosa, simulada e perigosa.
        No Aeroporto William P. Hobby de Houston, aguardava-o um Rolls Royce que o conduziu ao rancho, guiado por um motorista de cala Levi's e camisa de meia-manga.
        - A maior parte dos convidados prefere voar diretamente para o rancho - explicou o homem. - Mister Wyatt possui um aerdromo excelente. Daqui,  cerca de 
uma hora at ao porto da propriedade e mais meia at  residncia.
        Tony pensava que ele exagerava, mas no tardou a mudar de opinio, pois o territrio dos Wyatt parecia mais uma cidade que um rancho. Transpuseram o porto 
principal por uma estrada privativa e, transcorridos trinta minutos, comearam a passar por edifcios de geradores, celeiros, currais, casas de hspedes e bangals 
do pessoal. A residncia era uma construo imponente de um nico piso, e Tony considerou-a deprimentemente hedionda.
        Kate j chegara e encontrava-se sentada no terrao sobranceiro a uma piscina do tamanho de um pequeno lago, parecendo imersa em animada conversa com Charlie 
Wyatt. Quando avistou o recm-chegado, o texano interrompeu-se abruptamente a meio de uma frase, e Tony pressentiu que era o tpico abordado.
        - Vem a o seu rapaz! Fez boa viagem, Tony?
        - tima, obrigado.
        - Lucy esperava que viesse mais cedo.
        - Ah, sim? - articulou, com um olhar de travs  me.
        - Vai haver um churrasco em vossa honra - volveu Wyatt. - Convidei praticamente todas as pessoas importantes da regio.
        Naquele momento, Lucy surgiu  entrada, de cala jeans e blusa branca cingidas, que lhe realavam os inequvocos atributos fsicos, como Tony no pde deixar 
de admitir para consigo.
        - Julgava que nunca mais aparecia! - exclamou, pegando-lhe no brao.
        - Peo desculpa pelo atraso, mas tive de ultimar uns assuntos.
        - No tem importncia, agora que chegou - a rapariga exibiu um sorriso cativante. - Que lhe apetece fazer, esta tarde?
        - Que tem para oferecer?
        - Tudo o que quiser - proferiu num murmrio. Entretanto, Kate e Wyatt observavam-nos com sorrisos de satisfao.
        O churrasco atingiu um nvel espetacular, mesmo atendendo aos padres texanos. Apresentaram-se cerca de duzentos convidados, que se faziam transportar em 
avies particulares, Mercedes ou Rolls Royce. Duas orquestras tocavam simultaneamente em diferentes reas do recinto. Meia dzia de bartenders serviam champanhe, 
usque, refrigerantes e cerveja, enquanto quatro "chefes" preparavam a comida ao ar livre. Alm disso, havia vrias longas mesas repletas de sobremesas de quase 
todas as qualidades concebveis.
        Cada vez que se voltava, Tony esbarrava num empregado da casa que lhe oferecia bebidas ou aperitivos. Dava a impresso de que o pessoal domstico igualava 
os convidados em nmero. Ao mesmo tempo, acudiam-lhe aos ouvidos fragmentos de conversas.
        - O tipo veio propositadamente de Nova Iorque para me levar  certa, mas tratei de o prevenir: "Tenho muita pena, amigo. No entro em acordos referentes 
a petrleo com firmas a leste de Houston..."
        -  preciso cuidado com os fulanos de falas mansas. Se no nos precavemos, enrolam-nos...
        Em dado momento, Lucy acercou-se dele e comentou:
        - No o vejo comer - olhou-o com apreenso. - Sente-se mal?
        - De modo algum.  uma reunio impressionante.
        - Ainda no viu nada. Espere at  hora do fogo-de-artifcio.
        - Fogo-de-artifcio?
        - Exato. Desculpe este ajuntamento, mas meu pai quis impressionar sua me. Amanh, j c no esto.
        "Nem eu", pensou Tony, cada vez mais convencido de que a sua comparncia no rancho constitura um erro. Se a me estava to empenhada em absorver a Wyatt 
Oil & Tool, que arranjasse outra maneira de o conseguir. Esquadrinhou a multido com a vista e localizou-a no meio de um grupo de admiradores. No havia dvida de 
que continuava atraente, apesar de estar quase com sessenta anos. Na realidade, Kate Black-well parecia muito divertida, mas Tony sabia que ela detestava solenemente 
tudo o que a circundava. "Mas no hesita em fazer todos os sacrifcios para alcanar aquilo que pretende." Pensou em Marianne e na averso que experimentaria por 
semelhante orgia insensata. Ao lembrar-se dela, todavia, sentiu um profundo desconforto. "Vou casar com um mdico que conheo desde criana."
        Meia hora depois, quando Lucy voltou a procur-lo, j ia a caminho de Nova Iorque.
        Telefonou a Marianne de uma cabine do aeroporto.
        - Preciso falar-lhe.
        - Muito bem - foi a resposta, sem a mnima hesitao.
        Tony no conseguira afast-la do pensamento por um nico instante. Separado dela, assolava-o a solido, a sensao de que lhe faltava uma parte de si mesmo. 
Tinha o pressentimento aterrador de que, se a deixasse partir, ficaria perdido para sempre. Necessitava-a como a ningum em toda a sua vida.
        Encontraram-se no apartamento dele, e quando a viu entrar, Tony sentiu um desejo que julgava extinto para sempre. Ao contempl-la, compreendeu que a sensao 
era compartilhada, e no havia palavras capazes de exprimir o milagre operado.
        Ela anichou-se-lhe nos braos, e a emoo de ambos assemelhava-se a uma torrente que os arrastava numa exploso gloriosa, uma erupo e um contentamento 
para alm de qualquer descrio. Flutuavam juntos numa suavidade aveludada que no conhecia tempo nem lugar, perdidos numa glria e numa magia maravilhosas e mtuas. 
Mais tarde, esgotados, permaneceram deitados, mantendo-se num amplexo de profunda ternura.
        - Vou casar contigo, Marianne.
        - Tens a certeza? - murmurou ela, olhando-o atentamente. - H um problema, querido.
        - O teu compromisso?
        - No. Posso desfaz-lo, sem dificuldade. Refiro-me a tua me.
        - Ela no tem nada a ver...
        - Deixa-me acabar. Pretende que cases com Lucy Wyatt.
        - Isso  o plano dela. O meu encontra-se aqui.
        - Ficava a odiar-me. No quero que tal acontea.
        - No te interessa saber o que eu quero? E o milagre recomeou.
        Escoaram-se quarenta e oito horas antes de Kate Blackwell voltar a ter notcias de Tony, que desaparecera do rancho Wyatt sem se despedir, para regressar 
a Nova Iorque, deixando o texano perplexo e a filha furiosa. Depois de apresentar desculpas, aceites com relutncia, Kate partiu igualmente e, uma vez em casa, ligou 
ao apartamento de Tony. No entanto, no obteve resposta em todo esse dia nem no seguinte.
        Ela encontrava-se no seu gabinete, quando o telefone tocou, e adivinhou quem era mesmo antes de levantar o auscultador.
        - Ests bem, Tony?
        - Perfeitamente, me.
        - De onde falas?
        - Ando em lua-de-mel. Casei com Marianne Hoffman, ontem - registrou-se um longo silncio. - Me?
        - Sim?
        - Podias dar-me os parabns ou pronunciar uma das frases habituais nestas ocasies - articulou Tony, com uma ponta de amargura.
        - Com certeza. Desejo-te as maiores felicidades, filho.
        - Obrigado - e a ligao foi cortada.
        Kate conservou o aparelho na mo por um momento e acabou por pous-lo, aps o que premiu um boto do intercomunicador.
        - Pode chegar aqui, Brad? - e assim que este entrou no gabinete, anunciou: - Tony telefonou agora mesmo.
        - Com a breca! - bradou ele, ao observar-lhe a expresso de triunfo. - No me diga que conseguiu!
        - O trabalho foi todo dele - declarou Kate, modestamente. - Temos o imprio Hoffmann servido numa bandeja.
        - Custa-me a crer! - Brad afundou-se numa poltrona. - Como o convenceu a casar com Marianne Hofmann?
        - Foi muito simples. Empurrei-o na direo que no me convinha.
        No fundo, porm, ela sabia que se tratava da direo acertada, pois Marianne seria uma esposa maravilhosa para o filho. Dissiparia as trevas que o consumiam.
        Lucy sofrera uma histerectomia.
        Marianne, por seu turno, dar-lhe-ia um filho.









        Captulo XXI



        Seis meses aps o casamento de Tony e Marianne, a companhia Hoffmann foi absorvida pela Kruger-Brent, Ltd. A assinatura formal dos contratos realizou-se 
em Munique, num gesto de considerao para com Frederick Hoffmann, que ficaria  testa da subsidiria na Alemanha. Tony no pudera dissimular a surpresa causada 
pela passividade com que a me aceitara o enlace. Apesar de no costumar perder com graciosidade, mostrara-se cordial para com a nora, quando ela e Tony regressaram 
da lua-de-mel nas Baamas, e at se confessara encantada com a unio. E o que mais o intrigava era a circunstncia de a atitude parecer sincera. No fundo, talvez 
no a compreendesse como sempre supusera.
        O matrimnio constituiu um xito brilhante desde o princpio. Marianne satisfazia uma necessidade de longa data do marido, e todos os que o rodeavam se apercebiam 
da mudana operada nele, em particular Kate.
        Quando Tony efetuava viagens de negcios, ela acompanhava-o. Observando-lhes a felicidade, Kate reconhecia: "Procedi o melhor possvel no interesse de meu 
filho."
        Foi Marianne quem se encarregou de eliminar o fosso que se cavara entre Tony e a me. Quando regressaram da lua-de-mel, anunciou o desejo de convidar Kate 
para jantar, mas ele tentou opor-se:
        - No a conheces.  capaz...
        - Quero precisamente conhec-la. Por favor, querido. Tony acabou por ceder e preparou-se para um sero difcil e mesmo tenso, mas verificou com admirao 
que a me se mostrava feliz entre eles. Na semana seguinte, foi a sua vez de os convidar e a partir de ento os jantares converteram-se num ritual.
        Kate e a nora tornaram-se amigas. Conversavam ao telefone diversas vezes por semana e almoavam juntas com frequncia.
        Tinham combinado encontrar-se num restaurante, no dia em que Kate pressentiu algo de anormal em Marianne, ao v-la entrar.
        - Um usque duplo - pediu esta ltima ao empregado. - Sem gelo.
        - Que aconteceu? - inquiriu Kate, ciente de que a outra raramente consumia bebidas alcolicas.
        - Fui consultar o doutor Harley.
        - Suponho que no est doente? - articulou, com uma sensao de alarme.
        - No. Simplesmente...
        A verdade surgiu entrecortada por hesitaes. Tudo principiara uns dias antes. Sentira-se indisposta e procurara o mdico...
        - Acho-lhe um aspecto saudvel - declarou o dr. Harley. - Que idade tem, Mistress Blackwell?
        - Vinte e trs.
        - H algum caso de perturbao cardaca na famlia?
        - No.
        - Cancro? - continuou, inscrevendo anotaes numa ficha.
        - To pouco.
        - Seus pais so vivos?
        - Apenas o meu pai. Minha me morreu num acidente.
        - Teve papeira?
        - No.
        - Sarampo?
        - Sim, aos dez anos.
        - Tosse convulsa?
        - No.
        - Sofreu alguma interveno cirrgica?
        - Apenas para extrair as amdalas, aos nove anos.
        -  parte isso, nunca esteve hospitalizada?
        - No. Ou, melhor, uma vez. Mas por pouco tempo.
        - Qual o motivo?
        - Pertencia  equipe feminina de hquei do colgio e, durante uma partida, perdi os sentidos, s acordando no hospital. Estive internada dois dias. No foi 
nada de importncia.
        - Magoou-se durante o jogo?
        - No. Fiquei inconsciente, sem motivo aparente.
        - Que idade tinha?
        - Dezesseis. O mdico disse que devia tratar-se de alguma perturbao glandular prpria da adolescncia.
        O dr. Harley inclinou-se para a frente e perguntou:
        - Quando recuperou os sentidos, sentiu alguma impresso em qualquer dos lados do corpo?
        Marianne refletiu por um momento e inclinou a cabea.
        - Sim, no direito. Mas desapareceu passados poucos dias. No me voltou a incomodar.
        - Teve dores de cabea? Viso enevoada?
        - Sim, mas tambm passou - comeou a sentir-se alarmada. - Parece-lhe que tenho alguma coisa grave, doutor?
        - Antes de me pronunciar, gostava de proceder a uns testes... para jogar pelo seguro.
        - De que gnero?
        - Um agiograma cerebral, por exemplo. No  nada de especial. Podemos tratar disso imediatamente.
        Trs dias mais tarde, ela recebia um telefonema da enfermeira do mdico, que a convocou para uma consulta.
        - Solucionamos o mistrio - anunciou o dr. Harley, mal a viu.
        -  de fato grave?
        - Nem por isso. O agiograma indica que sofreu um pequeno colapso. Tecnicamente, chama-se aneurisma e  muito comum nas mulheres, sobretudo nas adolescentes. 
Um pequeno vaso do crebro rebentou e derramou pequenas quantidades de sangue. Foi a presso da resultante a responsvel pelas dores de cabea e a viso enevoada. 
Por sorte, essas coisas curam-se espontaneamente.
        Marianne escutava com apreenso crescente, at que perguntou:
        - Que quer dizer, com exatido? Pode repetir-se?
        -  pouco provvel - o dr. Harley esboou um sorriso. - A menos que tencione voltar a praticar o hquei, pode fazer uma vida absolutamente normal.
        - Eu e Tony costumamos andar a cavalo e jogar o tnis. Acha que?...
        - Desde que no exagere, no corre perigo. Pode entregar-se a desportos dessa natureza, assim como ao sexo, sem problemas.
        - Graas a Deus - e Marianne soltou um suspiro de alvio.
        No entanto, quando se levantava para sair, o mdico acrescentou:
        - H s uma coisa, Mistress Blackwell. Se planeja ter filhos, sugiro que recorra a adotivos.
        - Disse que podia fazer uma vida normal - argumentou ela, estremecendo.
        - D-se, porm, o caso de a gravidez aumentar o volume vascular enormemente e, durante as ltimas seis a oito semanas, verifica-se uma elevao suplementar 
da tenso arterial. Ora, em virtude do aneurisma, o risco atingiria um ponto inaceitvel. Podia tornar-se no s perigoso como fatal. As adoes so fceis, nos 
tempos atuais. Posso encarregar-me...
        Todavia, Marianne deixara de escutar o que ele dizia. Tinha apenas presentes as palavras de Tony: "Havemos de ter uma filha. Uma rapariga exatamente como 
tu."
        - ... No consegui ouvir mais - explicou Marianne. - Sa a correr do consultrio e vim para aqui diretamente.
        Kate desenvolvia esforos prodigiosos para no deixar transparecer o que sentia. Era um abalo demolidor, mas devia haver uma sada. Havia sempre soluo 
para tudo.
        - Bem! - exclamou com um sorriso. - Esperava muito pior.
        - Mas eu e Tony desejamos tanto ter um filho!
        - O doutor Harley  um alarmista. Voc teve pequenos problemas, h anos, e ele pretende envolv-los de uma importncia inexistente - pegou na mo da nora. 
- Sente-se bem, suponho?
        - Sentia, at...
        - No voltou a ter desmaios?
        - Decerto que no.
        - Isso significa que tudo passou. Pertence ao passado. Alis, ele prprio afirmou que essas coisas se curavam espontaneamente.
        - Tambm mencionou os riscos.
        - Os riscos existem sempre que uma mulher engravida. Alis, a vida est cheia deles. O essencial  decidir quais merece a pena correr, no acha?
        - Talvez - admitiu Marianne, pensativamente. De sbito tomou uma deciso. - Tem razo. No diremos nada a Tony, para lhe evitar preocupaes desnecessrias. 
O segredo fica entre ns.
        - Sem dvida - assentiu Kate, ao mesmo tempo que refletia: "Apetecia-me matar John Harley por a ter assustado."
        Trs meses depois, Marianne engravidou, enquanto Tony ficava encantado, Kate silenciosamente triunfante e o dr. Harley horrorizado.
        - Vou tomar as medidas convenientes para o aborto imediato - anunciou este ltimo.
        - No, doutor - redarguiu ela. - Sinto-me bem e vou ter a criana.
        Quando informou a sogra da sugesto do mdico, esta ltima dirigiu-se ao consultrio para o increpar:
        - Que idia foi essa de recomendar o aborto a minha nora?
        - Expliquei-lhe que, se leva a gravidez at ao fim, corre o risco de morrer.
        -  uma conjetura. No pode ter a certeza. H de correr tudo bem. Portanto, evite alarm-la.
        Oito meses mais tarde, s quatro da madrugada de princpios de Fevereiro, Marianne entrou em parto prematuramente. Os seus gemidos acordaram Tony, que comeou 
a vestir-se com rapidez, enquanto recomendava:
        - No te preocupes, querida. Levo-te ao hospital num instante.
        - Depressa, por favor - murmurou ela, cujas dores se tornavam excruciantes.
        Ao mesmo tempo, perguntava a si prpria se no devia ter comunicado ao marido a natureza da conversa que tivera com o dr. Harley. Mas no. Como Kate afirmara, 
a deciso competia-lhe exclusivamente. A vida era to maravilhosa que Deus no permitiria que lhe acontecesse alguma coisa.
        Quando Marianne e Tony chegaram ao hospital, encontrava-se tudo preparado. Ele acompanhou-a a uma sala de espera, de onde a levaram para os exames preliminares. 
O obstetra, dr. Mattson, mediu-lhe a tenso arterial, enrugou a fronte e repetiu a operao. Em seguida, voltou-se para a enfermeira a seu lado e indicou:
        - Mande lev-la para a sala de partos, sem demora!
        Tony acabava de recorrer  mquina que se achava no corredor, para obter um mao de tabaco, quando uma voz spera proferiu atrs dele:
        - Mas  o nosso Rembrandt!
        Reconheceu o homem que vira com Dominique  entrada do apartamento desta. Como lhe chamara? Sim, Ben. De momento, fitava-o com uma expresso de antagonismo. 
Cime? Que lhe teria ela dito? Nesse instante Dominique fez a sua apario e comunicou a Ben:
        - A enfermeira diz que Micheline no pode receber visitas. Voltaremos... - de sbito, avistou Tony e interrompeu-se. - Que fazes aqui?
        - Minha mulher entrou em parto.
        - Foi sua me que preparou a situao? - interps Ben.
        - Que quer dizer?
        - Dominique explicou-me que ela trata de todos os seus assuntos.
        - Para com isso, Ben!
        - Porqu? No  verdade? No foi o que disseste?
        - De que est ele a falar? - inquiriu Tony, virando-se para Dominique.
        - No faas caso. Vamos, Ben.
        No entanto, este parecia divertir-se com a perplexidade de Tony e prosseguiu:
        - Quem me dera ter uma me assim. Se quer um modelo atraente para a cama, ela compra-lho. Se deseja promover uma exposio de quadros em Paris, trata disso 
num pice.
        - Endoideceu.
        - Parece-lhe? - dirigiu-se  rapariga. - Ele no sabe?
        - No sei o qu? - bradou Tony.
        - Nada.
        - Ele afirma que minha me preparou a minha exposio em Paris.  verdade? - e vendo a expresso de Dominique, insistiu: - Responde!
        - Pagou a Goerg para que me deixasse expor as telas?
        - Mas gostou realmente delas.
        - Explica-lhe aquilo do crtico - sugeriu Ben.
        - Basta!
        Dominique rodou nos calcanhares para se afastar, porm, Tony segurou-a pelo brao.
        - Espera! Foi tambm minha me que providenciou para que ele aparecesse na exposio?
        - Foi - e a voz dela convertera-se num murmrio quase inaudvel.
        - Mas considerou os meus trabalhos horrveis.
        - No, Tony. Andr d'Usseau disse a tua me que te podias ter tornado um artista.
        - Ela pagou-lhe para que me destrusse?! - vociferou ele, incrdulo.
        - Estava convencida de que agia em conformidade com o teu interesse futuro.
        A enormidade do ato da me afigurava-se-lhe esmagadora. "Tudo o que me disse era mentira. Nunca teve em mente permitir que vivesse a minha vida". E Andr 
d'Usseau! Como podia deixar-se comprar um homem daqueles? Mas evidentemente que Kate conhecia o preo de toda a gente. Oscar Wilde referia-se a pessoas como ela 
quando descrevera algum que estava ao corrente do preo de tudo e do valor de nada. Todos os seus manejos tinham sempre a Kruger-Brent como alvo. E a Kruger-Brent 
era Kate Blackwell. Por fim, Tony voltou as costas a Dominique e a Ben e afastou-se com ar desvairado.
        Na sala de operaes, os mdicos lutavam desesperadamente para salvar a vida de Marianne, cuja tenso arterial baixara de forma alarmante, ao mesmo que as 
palpitaes do corao se tornavam desordenadas. Administraram-lhe oxignio e uma transfuso de sangue, mas no obtiveram o mnimo efeito. Ela estava inconsciente, 
em virtude de uma hemorragia cerebral, quando nasceu o primeiro beb, e morta trs minutos depois, no momento em que veio ao mundo o segundo.
        Tony ouviu uma voz distante cham-lo e voltou-se. Era o dr. Mattson, que anunciou:
        - Tem duas belas e saudveis filhas, Mister Blackwell.
        - E Marianne? - a expresso do mdico f-lo estremecer. - Est bem?
        O dr. Mattson respirou fundo e meneou a cabea com lentido.
        - Lastimo, mas os nossos esforos resultaram infrutferos. Faleceu na...
        - O qu? - Tony segurou o interlocutor pelas bandas do casaco e sacudiu-o com violncia. - Mente! Minha mulher no morreu!
        - Mister Blackwell...
        - Onde est ela? Quero v-la!
        - De momento, no  possvel. Esto a prepar-la para...
        - Matou-a, bastardo!
        Principiou a agredir o obstetra, o que obrigou dois internos a intervir e a segurar-lhe os braos com firmeza.
        - Acalme-se, Mister Blackwell.
        - Quero ver minha mulher! - rugia Tony, debatendo-se como um louco.
        - Larguem-no - ordenou o dr. Harley, aproximando-se. - Deixem-nos a ss.
        O dr. Mattson e os dois internos retiraram-se, enquanto Tony chorava como uma criana.
        - Ma-mataram Marianne, John! Assassinaram-na!
        - Ela morreu, Tony, e lamento-o profundamente, mas ningum a matou. Preveni-a h meses de que, se deixasse a gravidez prosseguir, arriscaria a vida.
        - No... no compreendo.
        - Marianne no lhe explicou? Sua me no disse nada?
        - Minha me? - balbuciou Tony, estupefato.
        - Considerou-me alarmista e aconselhou Marianne a no fazer caso das minhas recomendaes - o mdico calou-se por uns segundos. - Vi as gmeas. So admirveis. 
Quer que?...
        Todavia, Tony afastava-se sem lhe prestar ateno.
        - Bom dia, Mister Blackwell - saudou o mordomo, abrindo a porta a Tony.
        - Bom dia, Lester.
        - H alguma novidade? - perguntou, apercebendo-se do aspecto desgrenhado do recm-chegado.
        - No. Est tudo em ordem. Importa-se de me trazer um caf?
        - Imediatamente.
        Tony aguardou que o mordomo se encaminhasse para a cozinha e obedeceu  voz na sua cabea que lhe comandava os movimentos.
        Entrou na sala dos trofeus, abriu a vitrine que continha a coleo de armas de fogo e contemplou os numerosos instrumentos de morte.
        Continuando a obedecer  voz ntima, pegou num revlver e examinou o tambor, para se certificar de que estava carregado.
        "Ela deve estar l em cima, Tony."
        Dirigiu-se para a escada e principiou a subi-la em passos firmes. Agora, sabia que a me no era culpada do mal que espalhava  sua volta. Estava possessa 
e ele tencionava cur-la. A Kruger-Brent arrebatara-lhe a alma e Kate no tinha a mnima responsabilidade dos seus atos. Ela e a companhia haviam-se convertido num 
corpo nico e quando a matasse, a firma tambm morreria.
        Fez uma pausa diante da porta e abriu-a. A me vestia-se diante do espelho, quando o ouviu entrar.
        - Tony! Que?...
        Ele apertou o revlver e, meticulosamente, comeou a puxar o gatilho.











        Captulo XXII



        O direito de primogenitura - a pretenso daquele que nasce primeiro a um ttulo ou propriedade da famlia - acha-se profundamente enraizado na Histria. 
Entre as famlias reais na Europa, uma entidade oficial de patente elevada encontra-se presente em cada nascimento de um possvel herdeiro de uma rainha ou princesa, 
para que, na eventualidade de surgirem gmeos, o direito de sucesso no constitua motivo de controvrsia. Nessa conformidade, o dr. Mattson tomou a precauo de 
anotar qual das gmeas viera ao mundo em primeiro lugar.
        Todos concordavam em que as gmeas Blackwell eram os bebs mais belos jamais vistos. Saudveis e invulgarmente vivas, as enfermeiras do hospital invocavam 
o mnimo pretexto para entrar na sala e contempl-las. Parte da fascinao, embora nenhuma delas o admitisse, residia nas histrias misteriosas que circulavam acerca 
da famlia das recm-nascidas. A me morrera durante o parto, o pai desaparecera e constava  boca pequena que tentara assassinar sua prpria me, conquanto ningum 
estivesse em condies de o confirmar. Os jornais guardavam silncio sobre o assunto,  parte a breve referncia ao colapso nervoso sofrido por Tony Blackwell em 
resultado da morte da esposa, o que motivara o seu internamento numa clnica no mencionada.
        Os ltimos dias tinham sido infernais para John Harley. Nunca esqueceria a cena que se lhe deparara, quando entrara no quarto de Kate Blackwell, aps o telefonema 
histrico do mordomo. Ela encontrava-se estendida no cho, em estado de coma, com ferimentos de bala no pescoo e no peito, no meio de um charco de sangue, enquanto 
Tony, empunhando uma tesoura, reduzia a farrapos todos os vestidos e agasalhos da me contidos no roupeiro.
        O mdico lanou uma simples olhadela a Kate e apressou-se a chamar uma ambulncia. Em seguida, ajoelhou ao lado do corpo e tomou-lhe o pulso, que era fraco 
e irregular, alm de que as faces adquiriam uma tonalidade azulada, fato indicativo de que entrava em estado de choque. Sem perda de um segundo, deu-lhe uma injeo 
de adrenalina e bicarbonato de sdio.
        - Que aconteceu? - perguntou, por fim, ao mordomo, alagado em transpirao glacial.
        - No sei ao certo. Mister Blackwell pediu-me um caf, e estava na cozinha quando ouvi tiros. Corri c acima e encontrei a senhora no cho, enquanto ele, 
de revlver em punho, dizia: "J no te incomodar mais, me. Acabo de a matar." Depois, abriu o roupeiro e comeou a retalhar os vestidos.
        Com um suspiro de desolao, o dr. Harley voltou-se para Tony.
        - Que est a fazer?
        - Ajudo a me - foi a resposta, com uma expresso feroz. - Destruo a companhia que matou Marianne.
        Kate foi transportada para a enfermaria de emergncia de um hospital particular do centro da cidade pertencente  Kruger-Brent, Ltd., onde recebeu quatro 
transfuses de sangue durante a operao para extrair as balas.
        Foram necessrios trs enfermeiros para arrastar Tony at  ambulncia, e s depois de o dr. Harley lhe dar uma injeo principiou a acalmar um pouco.
        No dia em que o mdico visitou Kate pela primeira vez, ela apressou-se a perguntar num murmrio:
        - Onde est o meu filho?
        - Cuidamos dele. No se preocupe.
        Na realidade, Tony fora levado para um sanatrio particular em Connecticut.
        - Porque tentou matar-me?
        - Atribui-lhe a culpa da morte de Marianne.
        - Mas isso  uma loucura!
        O dr. Harley no comentou esta afirmao. "Atribui-lhe a culpa da morte de Marianne." Muito depois de ele se haver retirado, Kate continuava empenhada em 
rejeitar estas palavras. Estimava a nora, porque tornara o filho feliz. "Tudo o que fiz foi por ti, Tony. Todos os meus sonhos tinham-te por alvo. Como  possvel 
que no o soubesses?" No obstante, odiava-a tanto que tentara mat-la. Assolava-a uma angstia to profunda que desejava morrer. Mas no sucumbiria. Procedera como 
devia. Os outros laboravam num erro. Tony era um fraco. Todos o tinham sido. O pai fora demasiado fraco para enfrentar a morte do filho e a me para, s, fazer face 
 vida. "Eu no o sou. Posso enfrentar isto e resistir. Viverei. Sobreviverei. A companhia h de sobreviver."

QUINTA PARTE



                Eva e Alexandra 1950-1975


        Captulo XXIII



        Kate convalescia em Dark Harbor, permitindo que o sol e o ar do mar a curassem.
        Tony encontrava-se numa clnica de alienados particular, onde podia receber os melhores cuidados possveis. Ela mandara chamar psiquiatras de Paris, Viena 
e Berlim, mas todos os diagnsticos indicavam a mesma concluso: o filho era um esquizofrnico e paranico homicida.
        - No reage s drogas ou ao tratamento psiquitrico e  violento. Temos de o conservar isolado.
        - De que modo? - perguntou Kate.
        - Mantemo-lo numa cela almofadada. A maior parte do tempo, vemo-nos obrigados a vestir-lhe a camisa-de-foras.
        -  indispensvel?
        - Sem ela, mataria todas as pessoas ao seu alcance.
        Fechou os olhos, com uma expresso de dor. No era do seu dcil e afvel Tony que falavam. Tratava-se de um estranho, um possesso. Por fim, descerrou as 
plpebras e murmurou:
        - No se pode fazer nada?
        - Sem estabelecermos contato com a mente, no. Administramos-lhe drogas, mas quando o efeito se atenua, torna a enfurecer-se. No podemos manter o tratamento 
indefinidamente.
        - Que sugere?
        - Em casos similares, verificamos que a remoo de uma pequena poro do crebro produziu resultados notveis.
        - Uma lobotomia?
        - Exato. Seu filho continuaria a funcionar em todos os aspectos, com a diferena de que no voltariam a registrar-se manifestaes de violncia.
        Kate conservou-se silenciosa por longos momentos, ponderando a situao, que ainda se lhe afigurava incrvel. Por ltimo, o dr. Morris, um jovem interno 
da Clnica Menninger, volveu:
        - Compreendo como a deciso lhe deve ser difcil, Mistress Blackwell. Se deseja refletir uns dias...
        - Se  a nica coisa que por termo ao seu tormento, tem a minha autorizao - declarou ela com firmeza.
        Frederick Hoffmann desejava ficar com as netas e lev-las para a Alemanha. Ao observ-lo, Kate tinha a impresso de que envelhecera vinte anos desde a morte 
da filha e compadecia-se dele, mas no estava disposta a abdicar das gmeas de Tony.
        - Precisam das atenes de uma mulher. Marianne gostaria que se criassem aqui. Pode vir v-las sempre que queira.
        E ele acabou por se deixar convencer.
        As gmeas foram transferidas para a residncia de Kate, a qual entrevistou vrias preceptoras, at que admitiu uma jovem francesa chamada Solange Dunas.
        A que nascera primeiro recebeu o nome de Eva e, a outra, Alexandra. Eram idnticas, impossveis de distinguir. Quem as via juntas ficava com a impresso 
de que tinha na sua frente uma imagem num espelho, e Kate maravilhava-se com o duplo milagre criado pelo filho e Marianne. Apesar de vivas e possuidoras de reflexos 
rpidos, transcorridas poucas semanas Eva principiou a revelar-se mais madura do que a irm. Foi a primeira a gatinhar, a falar e a andar, conquanto Alexandra no 
tardasse a seguir-lhe o exemplo. Esta ltima adorava-a e tentava imit-la em tudo. Kate passava com elas tanto tempo quanto as ocupaes lhe permitiam. Faziam-na 
sentir-se mais jovem e em breve recomeou a sonhar. "Um dia, quando for velha e decidir afastar-me dos negcios..."
        No primeiro aniversrio das netas, promoveu uma festa. Mandou confeccionar dois bolos idnticos e houve dezenas de prendas de amigos, empregados da companhia 
e pessoal domstico. O segundo pareceu seguir-se quase imediatamente. Kate tinha dificuldade em acreditar que o tempo passava to depressa e as gmeas cresciam com 
tanta rapidez. Ao mesmo tempo, comeava a distinguir claramente as diferenas nas suas personalidades. Eva, a mais forte, revelava maior arrojo, enquanto Alexandra, 
mais recatada, se contentava em acompanhar as iniciativas da irm. "Sem me nem pai,  extraordinrio que se estimem tanto", pensava Kate com frequncia.
        Na vspera do seu quinto aniversrio, Eva tentou assassinar Alexandra.
        Est escrito no Gnese 25, 22-23:
        "E as crianas labutaram juntas com ela...
        E o Senhor disse-lhe: Duas (naes) esto no ventre,
        e duas maneiras de povos sero separadas das tuas entranhas;
        e um (povo) ser mais forte que o outro (povo);
        e o mais velho servir o mais jovem."
        No caso de Eva e Alexandra, porm, a primeira no tinha a mnima inteno de servir a irm mais nova.
        Na verdade, odiava-a desde que se conhecia e enfurecia-se em silncio, quando algum pegava em Alexandra, a acariciava ou lhe oferecia um presente. Afigurava-se-lhe 
que era ludibriada. Queria tudo para si - o afeto e as coisas bonitas que as rodeavam. No podia sequer ter um aniversrio s dela. Detestava a irm porque se parecia 
com ela, vestia da mesma maneira e absorvia a parte da estima da av que lhe pertencia. Alexandra adorava-a e Eva desprezava-a por isso. O que tinha era apenas dela, 
mas resultava insuficiente.  noite, sob as vistas de Solange Dunas, as duas garotas pronunciavam as suas oraes juntas, mas Eva acrescentava sempre uma prece silenciosa 
para que Deus fulminasse Alexandra. No entanto,  medida que o tempo passava sem que fosse escutada, decidiu que devia agir por suas prprias mos. O quinto aniversrio 
achava-se prximo e custava-lhe aceitar a idia de que o compartilhariam, mais uma vez. Impunha-se que matasse Alexandra, e sem demora.
        Na vspera do aniversrio, Eva encontrava-se deitada, mas bem acordada, e, quando se certificou de que todos dormiam, acercou-se da cama da irm e despertou-a.
        - Vamos  cozinha ver os bolos para amanh.
        - Est toda a gente a dormir - argumentou Alexandra, esfregando os olhos.
        - No acordamos ningum.
        - Mademoiselle Dunas  capaz de no gostar. Porque no os vemos antes de manh?
        - Porque quero que seja agora. Vens ou no?
        Tentou afastar o sono, refletindo que, embora no desejasse v-los, convinha no contrariar Eva.
        - Est bem - assentiu, por fim.
        Saltou da cama, enfiou o roupo de nylon, igual ao da irm, e calou as pantufas.
        - No faas barulho - recomendou Eva, encaminhando-se para a porta.
        Atravessaram o longo corredor, desceram a escada e entraram na ampla cozinha, que continha dois enormes foges de gs, seis fogareiros eltricos, trs frigorficos 
e uma arca congeladora.
        Eva descobriu num dos frigorficos os bolos de aniversrio confeccionados pela cozinheira, Mrs. Tyler. Num deles, lia-se Parabns, Alexandra e no outro Parabns 
Eva.
        "Para o ano, s haver um", pensou esta.
        Em seguida, pegou no da irm e colocou-o sobre o tampo de mrmore da mesa, aps o que abriu uma gaveta e extraiu uma embalagem de velas coloridas.
        - Que vais fazer? - quis saber Alexandra.
        - Quero ver como fica com as velas acesas - murmurou Eva, comeando a disp-las no bolo.
        - Ainda ds cabo dele e Mistress Tyler fica fula.
        - No se importa - abriu outra gaveta e puxou de duas caixas de fsforos de cozinha. - Ajuda-me.
        - Quero voltar para a cama.
        - Ento, volta, gata medrosa. Desenrasco-me sozinha.
        - Que queres que faa? - perguntou Alexandra, depois de breve hesitao.
        - Vai acendendo as velas - indicou a irm, passando-lhe uma das caixas.
        Alexandra tinha medo do fogo, em resultado das advertncias da preceptora sobre os perigos de brincar com fsforos. Alis, ambas conheciam as histrias horrveis 
que circulavam acerca das crianas que infringiam essa regra. Todavia, Alexandra no queria desapontar a irm, pelo que principiou obedientemente a acender as velas.
        Eva observou-a por um momento e disse:
        - Esqueces as do outro lado, pateta.
        Alexandra inclinou-se para a frente, a fim de chegar l, de costas para a outra, que se apressou a acender um fsforo, aproximando-o da caixa que tinha na 
mo. No instante em que esta irrompeu em chamas, largou-a aos ps de Alexandra e a ponta do roupo comeou a arder. Escoaram-se uns segundos, primeiro que Alexandra 
se apercebesse do que acontecia, e, ao experimentar a sensao de queimadura, soltou um grito de dor.
        Eva contemplou o roupo em chamas por um momento, impressionada com a extenso do seu xito, e acabou por exclamar:
        - No te mexas, que vou buscar um balde de gua!
        E precipitou-se para a copa, o corao inundado de alegria.
        Foi uma pelcula de terror que salvou a vida a Alexandra. Mrs. Tyler fora ao cinema com um sargento da Polcia, cuja cama compartilhava de vez em quando, 
mas o cran achava-se sulcado de tantos cadveres e corpos mutilados, que no conseguiu suportar o suplcio at ao fim e desabafou:
        - Isto talvez sejam ossos do ofcio para ti, Richard, mas j no aguento mais.
        O sargento seguiu-a com relutncia em direo  sada e chegaram  manso Blackwell uma hora mais cedo. No instante em que abriu a porta, a cozinheira ouviu 
os gritos de Alexandra e correram ambos para a cozinha. Aps breves segundos de hesitao para abarcar a cena, ele arrancou o roupo do corpo da garota e verificou 
que apresentava queimaduras nas pernas e nas coxas, mas as chamas no haviam atingido os cabelos ou qualquer rea vital. No obstante, ela caiu, inconsciente.
        - Chama uma ambulncia - disse o sargento. - Mistress Blackwell est em casa?
        - Suponho que sim.
        - Vai preveni-la.
        Quando Mrs. Tyler pousava o auscultador, depois de chamar a ambulncia, soou um grito na copa e Eva surgiu com um balde na mo, chorando convulsivamente.
        - Alexandra morreu? - balbuciou. - Est morta?
        - No, minha filha, salvou-se - e a cozinheira tomou-a nos braos, para a serenar. - H-de ficar boa.
        - A culpa foi minha! Ela quis acender as velas do bolo de aniversrio, mas eu no a devia ter deixado.
        - No se preocupe - murmurou, acariciando-lhe a cabea. - Tudo se h-de compor.
        - Os fsforos caram-me da mo e o roupo dela comeou a arder.
        - Pobre criana - articulou o sargento, olhando Eva com uma expresso de pesar.
        - Tem queimaduras de segundo e terceiro graus, nas pernas e na parte inferior das costas - informou o dr. Harley. - No entanto, ficar como nova, embora 
pudesse registrar-se uma tragdia.
        - Acredito - aquiesceu Kate, horrorizada com o aspecto do corpo da neta. Aps uns segundos de hesitao, acrescentou: - Mas ainda estou mais preocupada com 
Eva.
        - Tambm foi atingida?
        - Fisicamente no, mas atribui-se a culpa do acidente. Tem pesadelos medonhos. Nas ltimas trs noites, precisei de a conservar nos braos para que voltasse 
a adormecer. No quero que isto se torne mais traumtico.  uma garota muito sensvel.
        - As crianas recompem-se depressa de tudo. Se surgir algum problema, previna-me, para que lhe recomende um pediatra.
        - Obrigada - murmurou Kate, pensativamente.
        Eva sentia-se profundamente indignada, pois a festa de aniversrio fora cancelada. "Alexandra privou-me deste prazer", refletiu com amargura.
        A irm restabeleceu-se com prontido e as marcas das queimaduras acabaram por desaparecer. Por seu turno, Eva libertou-se da remota sensao de culpa com 
notvel facilidade. Alis, Kate assegurava-lhe com frequncia: "Um acidente pode acontecer a qualquer pessoa. No te consideres culpada".
        Na realidade, a garota atribua a culpa a Mrs. Tyler. Porque regressara mais cedo do cinema, para estragar tudo? No fundo, tratava-se de um plano perfeito.
        A clnica em que Tony se encontrava situava-se numa tranquila rea arborizada de Connecticut e Kate visitava-o uma vez por ms. A lobotomia fora coroada 
de xito, originando o desaparecimento da agressividade. Ele reconhecia a me e perguntava sempre polidamente por Eva e Alexandra, sem todavia manifestar o menor 
interesse em v-las. Alis, deixava transparecer escasso interesse por coisa alguma, conquanto parecesse feliz. "Feliz, no satisfeito", cogitava Kate. "Mas satisfeito 
com qu?"
        Numa das visitas, procurou o diretor da clnica, antes de sair, e perguntou:
        - Meu filho no faz nada em todo o dia?
        - Entretm-se a pintar.
        Tony, que podia ter possudo virtualmente o mundo, passava os dias a pintar! Esforando-se por dissimular a desolao que a percorria, insistiu:
        - O qu?
        - Ningum consegue compreend-lo.



        Captulo XXIV



        Durante os dois anos seguintes, Kate preocupou-se seriamente com Alexandra. No restavam dvidas de que a garota revelava marcada tendncia para os acidentes. 
Nas frias de Vero passadas na propriedade das Baamas, quase pereceu afogada, quando brincava com a irm na piscina, valendo-lhe a interveno oportuna de um jardineiro. 
No ano imediato, quando efetuavam um piquenique numa rea acidentada, Alexandra resvalou  beira de uma ravina e conseguiu salvar-se porque teve a presena de esprito 
de se agarrar a uns arbustos que se destacavam do declive.
        - Deves vigiar melhor tua irm - indicou Kate a Eva. - Parece incapaz de tomar conta dela, como tu.
        - Pois  - assentiu a interpelada, com uma expresso grave. - No a perderei de vista.
        Kate estimava ambas as netas, mas de maneiras diferentes. Contavam agora sete anos e eram igualmente bonitas, com cabelos louros compridos, semblantes exticos 
e olhos dos McGregor. Apesar de idnticas, possuam personalidades muito distintas. Para Kate, a afabilidade de Alexandra recordava-lhe Tony, enquanto Eva se parecia 
mais com ela, em determinao e auto-suficincia.
        Um motorista conduzia-as ao colgio no Rolls Royce da famlia, e Alexandra sentia-se embaraada por as colegas a verem rodeada de semelhante aparato, ao 
passo que a irm ficava encantada. Kate dava, a cada uma, sua mesada, com a recomendao de que mantivessem um registro de como a despendiam. Eva costumava ficar 
sem dinheiro no final da primeira quinzena e pedia emprestado a Alexandra, conseguindo depois falsear os dados inscritos no livro, para que a av no se apercebesse. 
Contudo, Kate descobria a artimanha e esboava um sorriso. Com apenas sete anos de idade e j se revelava uma contabilista criativa!
        Ao princpio acalentara o sonho secreto de que Tony acabasse por se recompor e regressar  Kruger-Brent, mas  medida que o tempo se escoava, as esperanas 
dissipavam-se. Foi informada de que, embora ele pudesse ausentar-se da clnica para breves visitas ao lar materno, acompanhado por um enfermeiro, jamais conseguiria 
voltar a participar nas atividades do mundo exterior.
        Decorria o ano de 1962 e a companhia continuava a prosperar e a expandir-se, pelo que as exigncias de uma direo nova se avolumavam. Kate acabava de celebrar 
o septuagsimo aniversrio. Tinha agora os cabelos completamente brancos, mas conservava um porte ereto e firme, pleno de vitalidade. No entanto, sabia que a ao 
inexorvel do tempo terminaria por a dominar e achava-se preparada para enfrentar esse dia. Impunha-se que a Kruger-Brent fosse preservada para a famlia. Brad Rogers, 
embora um gerente de excelente qualidade, no era um Blackwell. "Tenho de resistir at que as gmeas possam ocupar o meu lugar." E Kate evocava as derradeiras palavras 
de Cecil Rhodes: "To pouco feito e tanto para fazer!"
        As duas irms completaram doze anos, no limiar da adolescncia. A av, que lhes consagrara todo o tempo humanamente possvel, redobrava de esforos para 
as acompanhar de perto. Aproximava-se o momento de tomar uma deciso importante.
Durante a semana da Pscoa, ela e as netas seguiram para Dark Harbor num avio da companhia. As gmeas haviam visitado todas as propriedades da famlia,  exceo 
da de Joanesburgo, e, de entre todas, Cedar Hill era a sua favorita. Apreciavam em particular a liberdade de movimentos e o isolamento da ilha, juntamente com as 
oportunidades para nadar e praticar esqui aqutico. Eva perguntou se podia levar umas colegas, como acontecera no passado, mas desta vez Kate no concordou. A av, 
aquela figura poderosa e imponente, desejava achar-se a ss com elas. As duas irms pressentiam que se iria passar algo de diferente.
        Entretanto, Eva e Alexandra continuavam surpreendentemente parecidas, duas beldades de cabelos dourados; contudo, Kate sentia-se menos interessada nas suas 
similaridades que nas diferenas. Sentada no terrao, observando-as no final de uma partida de tnis, analisava-as mentalmente. Eva era a chefe e Alexandra a seguidora. 
A primeira possua um temperamento voluntarioso, enquanto a segunda se revelava flexvel. Uma podia considerar-se atleta natural, ao passo que a outra continuava 
a sofrer acidentes. Poucos dias antes, por exemplo, quando se encontravam num pequeno barco  vela, com Kate ao leme, levantara-se um golpe de vento sbito e Alexandra 
fora projetada no mar, escapando de perecer afogada por um triz. A tripulao de uma embarcao que se achava nas proximidades auxiliara Eva a salvar a irm. Kate 
perguntava a si prpria se tudo aquilo teria alguma relao com o fato de Alexandra haver nascido trs minutos depois de Eva, mas as razes careciam de importncia. 
A deciso fora tomada. J no lhe subsistia a mnima dvida no esprito. Apostava o seu dinheiro em Eva e tratava-se de uma aposta de dez bilhes de dlares. Encontraria 
o marido apropriado para ela e, na altura devida, ascenderia  direo suprema da Kruger-Brent. Quanto a Alexandra, teria uma vida de abundncia e conforto e poderia 
gerir alguns dos estabelecimentos de caridade que Kate fundara.
        O primeiro passo para que o plano de Kate arrancasse consistia em providenciar para que Eva frequentasse o colgio conveniente.
        - As minhas netas so ambas encantadoras, mas descobrir que Eva possui mais inteligncia. Posso mesmo afirmar que se trata de uma rapariga extraordinria 
e espero que possa apurar as suas faculdades devidamente neste estabelecimento.
        - Todas as nossas alunas dispem de meios apropriados para se aperfeioar. Referiu-se apenas a Eva. E a irm?
        - Alexandra?  uma moa bonita - e a apreciao parecia pejorativa, nos lbios dela. - Inteirar-me-ei dos seus progressos com regularidade.
        E a diretora ficou com a impresso de que estas palavras constituam uma advertncia.
        As duas gmeas adoravam o colgio, em particular Eva, que apreciava a liberdade de se encontrar longe de casa e no ter de prestar contas dos seus atos  
av e a Solange Dunas. O regulamento em Briarcrest era rigoroso, mas isso no a apoquentava, pois estava habituada a furtar-se s regras. A nica coisa que a preocupava 
era a presena de Alexandra, e chegara a rogar  av que a matriculasse apenas a ela, mas deparara-se-lhe uma negativa firme e irrevogvel.
        Manifestava sempre prontido em acatar as disposies dela, pois sabia onde se situava o poder. O pai era um louco, internado numa clnica, e a me morrera. 
Por conseguinte, o controle do dinheiro encontrava-se nas mos da av. Eva sabia que a famlia dispunha de larga fortuna e, conquanto ignorasse o quantitativo exato, 
ou mesmo aproximado, compreendia que bastava para lhe proporcionar tudo o que ambicionava. Subsistia unicamente um problema: Alexandra.
        Uma das atividades favoritas das gmeas em Briarcrest consistia na aula matinal de equitao. A maior parte das raparigas possuam calo de montar, e Kate 
no descurara esse pormenor quando lhes fornecera o equipamento para o colgio. O instrutor, Jerome Davis, observava as evolues das suas pupilas, e reconhecia 
que uma das novas, Eva Blackwell, reunia as condies para se tornar perita na matria. No necessitava pensar no que fazia, na maneira de pegar nas rdeas ou na 
posio a adotar na sela. Ela e a montada constituam um bloco nico admirvel de contemplar.
        Por seu turno, o moo de estrebaria, Tommy, inclinava-se para Alexandra. Naquela manh, Davis aguardava que ela iniciasse a sua atuao, e via-a selar o 
cavalo. Sabia que se tratava de Alexandra e no da irm, porque usavam fitas de cores diferentes na manga da blusa. Em dado momento, Eva acudiu para a auxiliar, 
enquanto Tommy se ocupava com outra aluna e o instrutor era chamado ao edifcio principal do colgio, a fim de atender um telefonema.
        O que aconteceu a seguir revestiu-se de grande confuso. Segundo Davis conseguiu apurar mais tarde, em face das verses escutadas das testemunhas, Alexandra 
subiu para a montada, descreveu uma volta no picadeiro e partiu em direo ao primeiro obstculo. Todavia, o cavalo estacou imediatamente e principiou a erguer-se 
nas patas anteriores, atirando-a contra a parede. A rapariga perdeu os sentidos e foi por escassos centmetros que os cascos do animal excitado no lhe atingiram 
o rosto. Tommy apressou-se a transport-la  enfermaria, onde o mdico diagnosticou uma simples concusso.
        - No h nada partido, nem grave - declarou. - Amanh, estar capaz de outra..
        - Mas podia ter morrido! - exclamou Eva, a qual se recusava a sair de junto da irm, numa manifestao de devoo como Mrs. Chandler, a diretora, nunca observara.
        Quando finalmente Davis conseguiu serenar o cavalo e retirar-lhe a sela, descobriu a manta manchada de sangue. Ergueu-a e deparou-se-lhe um fragmento de 
lata de cerveja que emergia do dorso, onde fora comprimido pela sela. Apressou-se a comunicar o fato a Mrs. Chandler, que mandou promover um inqurito, em resultado 
do qual foram interrogadas todas as raparigas que se encontravam nas proximidades do estbulo.
        - Estou certa de que a culpada pensou que se tratava de uma brincadeira inofensiva, mas podia ter consequncias funestas - declarou com firmeza. - Quero 
conhecer o nome da responsvel.
        Em face da inutilidade da advertncia, interrogou-as individualmente no seu gabinete, mas todas afirmaram ignorncia absoluta do assunto. Todavia, quando 
foi a vez de Eva, mostrou-se curiosamente embaraada.
        - Tens alguma suspeita de quem fez aquilo  tua irm?
        - Prefiro no dizer - murmurou, com os olhos fixos na carpeta.
        - Ento, viste alguma coisa!
        - Por favor, Mistress Chandler...
        - Alexandra podia ter sofrido ferimentos graves. A autora da brincadeira, chamemos-lhe assim, deve ser castigada, para que o incidente no se repita.
        - No foi nenhuma das minhas colegas.
        - Que queres dizer?
        - Foi Tommy.
        - O moo?
        - Sim. Eu vi-o e, na altura, pensei que apertava a cilha. Mas tenho a certeza de que no o fez por mal. Alexandra costuma embirrar com ele e calculo que 
pretendeu dar-lhe uma lio. Mas preferia que no me obrigasse a dizer isto, Mistress Chandler! - balbuciou a pobre moa, dominada pelo pavor. - No quero prejudicar 
ningum.
        - No te apoquentes, minha filha - e a diretora contornou a secretria, pousando o brao nos ombros da aluna. - Procedeste como devias. Esquece o assunto. 
O resto  comigo.
        Na manh seguinte, quando entraram no picadeiro, as raparigas viram que o moo fora substitudo.
        Alguns meses depois, registrou-se novo incidente desagradvel. Vrias alunas foram surpreendidas a fumar marijuana e uma delas acusou Eva de lhes vender 
a droga. Esta mostrou-se profundamente indignada, e a busca mandada efetuar por Mrs. Chandler descobriu marijuana oculta no compartimento de Alexandra, no vestirio.
        - No acredito que seja a culpada - proclamou Eva, corajosamente. - Tenho a certeza de que algum a colocou l.
        Kate recebeu um relatrio do ocorrido e admirou a lealdade de Eva ao proteger a irm. No havia dvida de que se tratava de uma McGregor.
        No dcimo quinto aniversrio das netas, Kate levou-as  propriedade da Carolina do Sul, onde promoveu uma festa em sua honra. No se lhe afigurava prematuro 
providenciar para que Eva comeasse a conviver com os jovens apropriados.
        Embora os rapazes convidados se achassem na idade ingrata em que ainda no se interessavam prioritariamente pelas raparigas, ela desenvolveu os esforos 
necessrios para que se estabelecessem os contatos convenientes. Um dos presentes podia ser o homem do futuro da neta, o futuro da Kruger-Brent, Ltd.
        Alexandra no apreciava as festas, mas fingia sempre que se divertia, para no desapontar a av. Na realidade, preferia a leitura e a pintura e passava horas 
na contemplao das telas do pai em Dark Harbor, lamentando no o ter conhecido antes de adoecer. Aparecia em casa aos domingos, acompanhado por um enfermeiro, mas 
ela no conseguia estabelecer comunicao. Era um estranho amvel e dcil, sem nada de especial para dizer. O av, Frederick Hoffmann, vivia na Alemanha, mas estava 
adoentado e as gmeas raramente o viam.
        No seu segundo ano no colgio, Eva engravidou. Durante vrias semanas, apresentara-se plida e abatida, tendo faltado a algumas aulas da manh, e quando 
comeou a sofrer de frequentes acessos de nuseas foi enviada  enfermaria e examinada. Em resultado disso, o mdico contatou imediatamente Mrs. Chandler.
        - Eva est grvida.
        - Mas...  impossvel! Como pode ter acontecido uma coisa dessas?
        - Da maneira habitual, sem dvida - foi o comentrio custico.
        - No passa de uma criana.
        - Pois essa criana vai ser me.
        Interrogada, a rapariga principiou por se negar a falar, alegando que no queria comprometer ningum.
        - Tens de me contar o que se passou - insistiu Mrs. Chandler, enternecida com o habitual estoicismo de Eva.
        Por fim, surgiu a revelao entre soluos:
        - Fui violada.
        A diretora ficou positivamente petrificada e, aps a perturbao inicial, ordenou:
        - Quero saber o nome dele!
        - Mister Parkinson.
        Era o professor de ingls.
        Se a confisso proviesse de outros lbios, Mrs. Chandler no acreditaria, pois Joseph Parkinson era um homem pacato, casado, com trs filhos, que lecionava 
em Briarcrest h oito anos e parecia a pessoa menos indicada para praticar um ato to ignbil. No entanto, quando o convocou ao seu gabinete, compreendeu instantaneamente 
que a rapariga no mentira, pois ele enfrentava-a com inequvoco nervosismo.
        - Sabe porque o mandei chamar, Mister Parkinson?
        - Creio... creio que sim.
        - Trata-se de Eva.
        - Calculava isso mesmo.
        - Diz que a violou.
        - O qu? - ele arqueou as sobrancelhas, numa expresso de incredulidade. - Santo Deus! Se houve algum violado, fui eu!
        - Avalia a gravidade do que afirma? Esta criana...
        - No  uma criana, mas um demnio! - fez uma pausa para limpar a transpirao da fronte. - Passou todo o perodo sentada na primeira fila da aula, com 
a saia levantada. Depois das aulas, procurava-me para fazer uma infinidade de perguntas despropositadas, ao mesmo tempo que se roava por mim. Ao princpio, no 
a tomei a srio, at que, numa altura em que estava s... - interrompeu-se com um gemido. - No o pude evitar!
        Em seguida, Mrs. Chandler mandou entrar Eva. Achavam-se igualmente presentes a subdiretora e o chefe da Polcia da pequena localidade onde o colgio se situava.
        - Quer explicar-nos o que aconteceu? - perguntou este ltimo, com brandura.
        - Sim, senhor - ela exprimia-se com serenidade. - Mister Parkinson disse que queria trocar impresses comigo sobre o meu ponto de ingls e sugeriu que aparecesse 
em sua casa, um domingo  tarde. Quando entrei, vi que estava s. Passado pouco tempo, atraiu-me ao quarto, a pretexto de me mostrar uma coisa interessante, empurrou-me 
para a cama e...
        -  falso! - bradou Parkinson. - No foi assim que as coisas se passaram!
        A diretora mandou chamar Kate e explicou-lhe a situao, ficando decidido que, no interesse de todos, convinha manter o incidente em segredo. Parkinson foi 
despedido, com a determinao de abandonar o estado dentro de quarenta e oito horas. Em seguida, Eva teve um aborto discreto.
        Por seu turno, Kate adquiriu a hipoteca do colgio, em poder de um banco local, e mandou execut-la.
        Quando se inteirou, Eva soltou um suspiro.
        - Tenho muita pena, av. Gostava realmente do colgio.
        Algumas semanas mais tarde, recuperada da operao, ela e Alexandra eram matriculadas no Instituto Fernwood, um colgio suo nas proximidades de Lausana.







































        Captulo XXV



        O fogo que ardia no ntimo de Eva era to intenso que no o conseguia dominar. No estava apenas envolvido o sexo, mas uma fria de viver, uma necessidade 
de fazer tudo, ser tudo. Encarava a vida como um amante que pretendia possuir desesperadamente. Invejava toda a gente. Se assistia a um espetculo de bailado, desejava 
encontrar-se no lugar da bailarina principal, para conquistar as aclamaes da assistncia. Queria ser uma cientista, uma cantora, uma cirurgi, uma atriz de renome. 
Numa palavra, ambicionava tudo neste mundo e no podia esperar para o obter.
        Do outro lado do vale em que se situava o Instituto Fernwood, havia um colgio militar e, quando Eva completou os dezessete anos, virtualmente todos os alunos 
e grande parte dos instrutores estavam envolvidos com ela. Agora, porm, tomava as precaues apropriadas, pois no lhe interessava voltar a engravidar. Desfrutava 
com a prtica sexual, mas no em virtude do ato em si. Incutia-lhe um poder extraordinrio, j que s cedia aos rogos dos parceiros depois de os obrigar s atitudes 
e, mesmo, s situaes mais vexatrias. A experincia acabou por a levar a decidir que todos os homens eram imbecis.
        Eva era atraente, inteligente e herdeira de uma das maiores fortunas do Globo, pelo que no surpreendia que tivesse recebido diversas propostas de casamento. 
No entanto, no se achava interessada. Os nicos rapazes que a atraam eram aqueles de quem Alexandra gostava.
        Num baile de sbado  noite, esta ltima conheceu um jovem francs chamado Ren Mallot, inteligente e sensvel, embora sem atrativos fsicos especiais, com 
o qual simpatizou profundamente, e combinaram encontrar-se na cidade, na semana seguinte.
        - s sete - indicou ele.
        - Serei pontual.
        No quarto que compartilhavam, Alexandra referiu-se ao rapaz na presena de Eva.
        - No  como os outros. No sbado, vamos ao teatro.
        - Parece que te caiu no gosto.
        - Acabo de o conhecer - alegou, corando. - Em todo o caso... bem, tu compreendes...
        - Confesso que no - Eva reclinou-se numa poltrona, as mos unidas sob a nuca. - Tentou levar-te para a cama?
        - No  desses! Pelo contrrio, acho-o at um pouco tmido.
        - Desconfio que a minha irmzinha est apaixonada.
        - No estou nada! J me arrependi de te ter contado.
        - Penso que fizeste muito bem - declarou com sinceridade.
        Quando se apresentou  entrada do teatro, no sbado seguinte, Alexandra no vislumbrou Ren. Depois de esperar durante mais de uma hora, consciente dos olhares 
de curiosidade que os transeuntes lhe lanavam, jantou num pequeno restaurante e regressou ao instituto, desolada e decepcionada. Eva no se encontrava no quarto 
e ela leu at  hora do recolher, aps o que apagou a luz. Quando a irm entrou, cerca das duas horas da madrugada, Alexandra comentou a meia voz:
        - Comeava a apoquentar-me contigo.
        - Encontrei umas pessoas amigas. Como te correu o sero?
        - Ele no se deu ao incmodo de aparecer.
        - Tens de aprender a no confiar nos homens, mana.
        - S se lhe aconteceu alguma coisa...
        - Que idia! - Eva abanou a cabea com veemncia. - Deve ter-lhe surgido outra mais do seu agrado.
        "No me custa a crer", pensou Alexandra. Na realidade, no fazia a mnima idia de como era bonita e admirvel, pois vivera sempre  sombra da irm. Adorava-a 
e afigurava-se-lhe natural que toda a gente se sentisse atrada por ela. Julgava-se-lhe inferior, mas nunca lhe passara pela cabea que Eva encorajava sutilmente 
essa convico desde a infncia.
        Houve outros encontros que no se concretizaram. Alguns rapazes dos quais Alexandra gostava pareciam reagir favoravelmente, para depois no voltarem a aparecer. 
Um fim-de-semana, avistou Ren inesperadamente numa rua de Lausana e ele aproximou-se com uma expresso ansiosa.
        - Que aconteceu? Prometeste telefonar.
        - Eu? No entendo...
        - No s Eva? - perguntou, subitamente perturbado.
        - No, sou Alexandra.
        - Desculpa, mas estou atrasado.
        E afastou-se apressadamente, deixando-a petrificada, imersa em confuso.
        Naquela noite, quando descreveu o episdio a Eva, esta encolheu os ombros e articulou com desprendimento:
        - Deve estar fou. No perdeste nada, Alex.
        Apesar da sua sensao de experincia com os homens, existia um ponto fraco no elemento masculino que ia resultando fatal para Eva. Desde o incio da Humanidade 
que os homens gostam de se vangloriar das suas conquistas e os alunos do colgio militar no constituam uma exceo, trocando impresses sobre Eva Blackwell com 
entusiasmo e admirao.
        - Quando acabamos de nos rebolar, eu estava esgotado...
        - Nunca pensei possuir um corpo como aquele...
        - Tem um sexo que fala...
        -  uma autntica pantera na cama!...
        Como pelo menos duas dezenas de rapazes e meia dzia de professores enalteciam os talentos libidinosos dela, o assunto no tardou a tornar-se no segredo 
mais guardado da regio. Por fim, um dos instrutores mencionou o caso a uma professora do Instituto Fernwood, que no hesitou em informar a diretora, Mrs. Collins. 
Esta mandou promover um inqurito discreto, em resultado do qual Eva foi chamada  sua presena.
        - No interesse da reputao do instituto, parece-me conveniente que o abandone imediatamente - foram as palavras introdutrias.
        Eva olhou-a, como se se achasse na presena de uma demente.
        - No compreendo.
        - Refiro-me ao fato de exerceres as funes de estao de servio de metade dos alunos e instrutores do colgio militar. A outra metade deve formar bicha 
 espera de vez.
        -  uma calnia inconcebvel! - e a voz da rapariga tremia de indignao. - Garanto-lhe que vou comunicar isto a minha av e...
        - Posso poupar-te o incmodo - atalhou Mrs. Collins. - Preferia evitar embaraos ao Instituto Fernwood, mas se no partires sem provocar escndalo, enviarei 
a Mistress Blackwell uma lista de nomes que me forneceram.
        - Gostava de a ver!
        Entregou-a a Eva, sem uma palavra. Era extensa e, depois de a examinar, a rapariga verificou que faltavam pelo menos sete nomes. Por ltimo, ergueu os olhos 
e afirmou com serenidade:
        - Tudo indica que se trata de um conluio contra a minha famlia. Algum pretende embaraar minha av por meu intermdio. Portanto, para que isso no acontea, 
partirei.
        -  uma deciso muito sensata - aprovou a diretora, secamente. - Um carro conduzir-te- ao aeroporto, de manh. Entretanto, telegrafarei a tua av, prevenindo-a 
do teu regresso. Podes retirar-te.
        Eva moveu-se em direo  porta, e de sbito, antes de a abrir, virou-se para trs e perguntou:
        - E minha irm?
        - Alexandra pode ficar, se quiser.
        Quando recolheu ao quarto, aps a ltima aula, Alexandra encontrou a irm atarefada com a bagagem.
        - Que ests a fazer?
        - Vou para casa.
        - A meio do perodo?
        - Ainda no chegaste  concluso de que perdemos o nosso tempo aqui? No aprendemos nada de novo. Limitamo-nos a gastar o dinheiro da av, sem proveito.
        - No sabia que pensavas assim - balbuciou Alexandra, surpreendida.
        - Ficaste a saber. E garanto-te que aguentei at agora s por tua causa, pois pareces satisfeita.
        - Realmente, mas...
        - Lamento, Alex, mas no aguento mais. Quero voltar para Nova Iorque, para o meio a que pertencemos.
        - Falaste com Mistress Collins?
        - H momentos.
        - Como reagiu?
        - Como querias que reagisse? Ficou apavorada, com receio de que a minha sada provoque uma imagem indesejvel ao instituto. Suplicou-me mesmo que ficasse.
        - Confesso que no sei o que dizer - murmurou Alexandra, sentando-se na borda da cama.
        - No precisas de dizer nada. O assunto no  contigo.
        - Claro que ! Se te sentes to mal aqui... - interrompeu-se e assumiu uma expresso voluntariosa. - Talvez tenhas razo. Limitamo-nos a perder tempo. Para 
que precisamos de conjugar verbos latinos?
        - Exato. Ou que nos interessam as campanhas de Anbal ou do raio do irmo Asdrbal? - Eva fez uma pausa e sorriu dissimuladamente ao ver a irm pegar na 
sua mala e abri-la em cima da cama. - No queria pedir-te que me acompanhasses, mas alegra-me que venhas comigo.
        - No me interessa ficar sem ti.
        - J agora, enquanto acabo de fazer a mala, telefona  av e previne-a de que seguimos para casa de avio, amanh. Diz-lhe que no suportamos isto. Importas-te?
        - De modo algum - Alexandra hesitou. - Mas desconfio de que no vai ficar contente.
        - No te preocupes com a velhota. Eu trato de a tranquilizar.
        Kate Blackwell tinha amigos, inimigos e associados de negcios em posies elevadas, pelo que, nos ltimos meses, lhe haviam acudido aos ouvidos rumores 
singulares. Ao princpio, tomara-os por meras manifestaes de inveja mesquinha. No obstante, persistiam: Eva tinha encontros de natureza inconfessvel com alunos 
de um colgio militar na Sua, praticara um aborto, recebera tratamento por contrair uma doena venrea...
        Assim, foi com profundo alvio que se inteirou de que as netas regressavam a casa, pois tencionava aprofundar o assunto.
        No dia em que as gmeas chegaram, Kate aguardava-as em casa e levou imediatamente Eva para a saleta contgua ao seu quarto.
        - Contaram-me coisas desagradveis - principiou. - Para j, quero saber porque foram expulsas.
        - No nos expulsaram - replicou a rapariga. - Decidimos vir-nos embora.
        - Por causa de certos incidentes com rapazes?
        - Por favor, av - murmurou, embaraada. - Preferia no falar nisso.
        - Mas vais ter de falar. Que andaste a fazer?
        - Eu, nada. Foi Alex que... - interrompeu-se e levou a mo  boca.
        - Continua - insistiu Kate, implacvel.
        - No lho devemos levar a mal. Deve ser mais forte que ela. Gosta de fingir que  irresistvel. Eu no fazia a mnima idia do que sucedia, at que as colegas 
comearam a tecer comentrios. Parece que se... encontrava com muitos rapazes.
        - Porque no a convenceste a pr termo a isso?
        - Bem tentei, mas ela ameaou matar-se. Oh, av, penso que  um pouco... instvel. Se aludisses ao assunto na sua frente, era capaz de cometer um disparate 
- e os olhos de Eva humedeceram-se de lgrimas.
        - No chores - recomendou Kate, comovida. - No lhe direi nada. Fica tudo entre ns.
        - No queria que soubesses - soluou a rapariga. - Sabia que te desgostava.
        Mais tarde, durante o ch, Kate observou Alexandra dissimuladamente. " bonita por fora e corrupta por dentro", pensou. O reconhecimento do fato apavorava-a.
        Nos dois anos seguintes, enquanto completavam os estudos num colgio americano, Eva revelou-se particularmente discreta. O alarme registrado na Sua obrigara-a 
a rodear-se das maiores precaues. Impunha-se que nada afetasse as suas relaes com a av. Alis, a velhota no podia durar muito mais - j completara setenta 
e nove anos! - e ela tencionava desenvolver todos os esforos para ser a sua herdeira.
        Quando as gmeas fizeram vinte e um anos, Kate levou-as a Paris e comprou-lhes guarda-roupas completos no Coco Chanel.
        Numa pequena reunio no Restaurante L Petit Bedouin, Eva e Alexandra foram apresentadas ao conde Alfred Maurier e esposa, Vivien. Ele era um homem de cinquenta 
e poucos anos, aspecto distinto, cabelos grisalhos e corpo disciplinado de atleta e a companheira ainda atraente, apesar da idade, com reputao firmada como anfitri 
internacional.
        Eva no lhes teria prestado ateno especial se no se apercebesse do comentrio que uma componente do grupo dirigiu  condessa.
        - Confesso que os invejo. So o casal mais feliz que conheo. H quantos anos casaram? Vinte e cinco, salvo erro.
        - Vinte e seis, no prximo ms - interps Alfred. - E talvez me possa considerar o nico francs da Histria que nunca foi infiel  esposa.
        Soou uma gargalhada geral em que Eva no participou e, durante o resto do sero, preocupou-se em observar o conde Maurier e a mulher. No conseguia compreender 
o que ele via nela. Provavelmente, nunca tivera ensejo de fazer amor como mandavam as regras do prazer supremo. Na realidade, considerava-o um desafio que a estimulava 
particularmente.
        No dia seguinte, Eva telefonou a Maurier, que se encontrava no gabinete de trabalho.
        - Fala Eva Blackwell. Provavelmente nem reparou em mim, mas...
        - Que idia!  uma das atraentes netas da minha amiga, Kate.
        - A sua boa memria lisonjeia-me. Desculpe incomod-lo, mas dizem que  uma autoridade em vinhos. Ora, tenciono promover uma festa-surpresa em honra de minha 
av e, embora tenha idias bem definidas sobre a ementa, gostava que me aconselhasse acerca das bebidas.
        - Com o maior prazer. Depende do que for servido, claro. Se principiar com peixe, um Chablis pouco encorpado...
        - Tenho uma memria horrvel. No nos podamos reunir para trocar impresses? Se estiver livre para o almoo, por exemplo...
        - Em ateno  velha amizade com sua av, abro uma exceo.
        - timo.
        Eva pousou o auscultador com lentido. Seria um almoo que o conde recordaria toda a vida.
        Encontraram-se no Lasserre e a discusso respeitante aos vinhos foi breve. Ela escutou com resignao as opinies de Maurier, at que perdeu a pacincia 
e o interrompeu:
        - Amo-o, Alfred.
        Ele calou-se abruptamente a meio de uma frase.
        - Perdo...
        - Estou apaixonada por si. Levou o copo aos lbios e declarou:
        - Excelente nctar - dando uma palmada amvel na mo dela, acrescentou: - Todos os bons amigos se devem estimar.
        - No me refiro a essa espcie de afeto, Alfred.
        Este fitou os olhos flamejantes de Eva e compreendeu a que espcie se referia, o que o enervou visivelmente. Ela tinha vinte e um anos e ele j ultrapassara 
a meia-idade e amava a esposa. No entendia o que se passava com as moas atuais. Por fim, incapaz de descobrir as palavras apropriadas para manter as devidas distncias, 
balbuciou:
        - Nem... nem sequer me conhece.
        - Sonho consigo desde a infncia. Imaginava um homem de armadura reluzente, alto, bem-parecido...
        - Receio que a minha armadura esteja um pouco enferrujada.
        - No troce de mim, por favor - suplicou Eva. - Quando o vi, ontem  noite, no consegui desviar mais os olhos de si. No fui capaz de pregar olho.
        - No sei o que dizer-lhe. Sou casado, amo minha mulher e...
        - Nem faz uma idia de como a invejo! Talvez nem imagine a sorte que tem.
        - Sem dvida que imagina - e ele esboou um sorriso amarelo, empenhado em mudar de assunto. - Lembro-lho a cada momento.
        - Mas aprecia-o realmente? Compreende a sua sensibilidade? Preocupa-se com a sua felicidade?
        -  uma mulher muito atraente, Eva, e um dia encontrar o seu cavaleiro de armadura reluzente... sem ferrugem.
        - J o encontrei e quero ir para a cama com ele.
        O conde lanou um olhar apavorado em volta, para verificar se algum das mesas prximas ouvira.
        - Por favor!
        -  a nica coisa que lhe peo - volveu ela, baixando a voz e inclinando-se para a frente. - A recordao perdurar at ao fim da minha vida.
        -  impossvel - articulou ele com firmeza. - Tem-me nessa conta? Julga que ando por a a engatar?...
        - Conheci apenas um homem que me interessou. Estvamos para casar, quando morreu num acidente de alpinismo, a que assisti. Foi horrvel.
        - Lastimo profundamente.
        - Parece-se tanto com ele! Quando o vi pela primeira vez, cheguei a pensar que Bill tinha ressuscitado. Se me conceder uma hora, no tornarei a importun-lo. 
Por favor, Alfred!
        O conde olhou a interlocutora demoradamente, ponderando os prs e os contras.
        No fundo, porm, era francs.
        Passaram toda a tarde num pequeno hotel da Rue Sainte-Anne, e ele viu-se forado a admitir que, em toda a sua experincia pr-matrimonial, nunca fora para 
a cama com uma mulher como Eva. Na verdade, era um furaco, uma ninfa, um demnio. Sabia demasiado. Ao anoitecer, sentia-se totalmente exausto.
        - Quando nos voltamos a ver, querido? - perguntou ela, no momento em que se vestiam.
        - Eu telefono-te.
        Na realidade, no tencionava dar azo a que a situao se repetisse. Havia naquela rapariga algo de assustador, quase diablico.
        O assunto teria terminado a, se no fossem vistos  sada do hotel por Alicia Vanderlake, que fizera parte de uma comisso de caridade com Kate, no ano 
anterior. Tratava-se de uma trepadora social e aquilo constitua uma escada fornecida pelo cu. Observara nos jornais fotografias do conde Maurier e esposa, assim 
como das gmeas Blackwell. Ignorava qual das duas acabava de ver, mas o pormenor carecia de importncia. Por conseguinte, consultou a agenda e marcou o nmero do 
telefone de Kate.
        - Bonjour - proferiu o mordomo, do outro lado do fio.
        - Desejava falar com Mistress Blackwell.
        - Da parte de quem?
        - Alicia Vanderlake.  para um assunto de natureza pessoal. Momentos depois, a voz de Kate vibrava no auscultador.
        - Estou...
        - Penso que se recorda de mim, Mistress Blackwell. Participamos numa comisso, o ano passado, e...
        - Se  para um donativo, contate com o meu...
        - No se trata disso. Diz respeito a sua neta.
        - Sim? - articulou, na expectativa.
        - Considero meu dever revelar-lhe que acabo de a ver sair de um hotel com o conde Alfred Maurier. O motivo por que o visitaram, parece-me bvio.
        - Custa-me a crer - afirmou em tom glacial. - A qual das minhas netas se refere?
        - Bem... no sei - Alicia Vanderlake soltou uma risada de nervosismo. - No sou capaz de as distinguir.
        - Obrigada pela informao - e Kate cortou a ligao. Conservou-se imvel por um momento, assimilando o que acabava de escutar. Conhecia Maurier de longa 
data e a acusao de Alicia Vanderlake afigurava-se-lhe em discordncia absoluta com o seu carter, impensvel mesmo. No obstante, os homens deixavam-se impressionar. 
Se Alexandra lhe preparara uma armadilha...
        Por fim, voltou a pegar no telefone e indicou  telefonista:
        - Quero falar para o Instituto Fernwood, em Lausana, Sua.
        Quando regressou a casa, naquela tarde, Eva sentia-se dominada por intensa satisfao. No por ter experimentado prazer especial com o conde Maurier, mas 
em virtude da vitria sobre ele. "Se o conquistei com tanta facilidade, posso repetir a proeza com qualquer homem. Posso at dominar o mundo." Em seguida, entrou 
na biblioteca, onde se lhe deparou Kate.
        - Ol, av. Tiveste um bom dia?
        - Nem por isso - foi a resposta seca. - E tu?
        - Fui comprar umas coisas, mas...
        - Fecha a porta e senta-te.
        O tom que ouviu indicou a Eva que se devia preparar para uma situao delicada. No entanto, esforou-se por deixar transparecer serenidade, quando indagou:
        - H alguma novidade?
        -  o que espero escutar da tua boca. Pensei em convidar Alfred Maurier para assistir a esta conversa, mas decidi poupar-nos a humilhao.
        O crebro da rapariga comeou a rodopiar, ao mesmo tempo que refletia: " impossvel! Ningum est ao corrente do meu encontro com ele."
        - No... no compreendo o que queres dizer.
        - Nesse caso, permite-me que te elucide sem rodeios. Estiveste na cama com ele, esta tarde.
        - Esperava que no descobrisse o que me fez, porque  teu amigo - as lgrimas assomaram com prontido. - Foi horrvel. Convidou-me para almoar, embriagou-me 
e...
        - Cala-te! - a voz de Kate possua a inflexo cortante de um chicote. - s desprezvel.
        Conhecera a hora mais pungente da sua vida ao abarcar a verdade acerca da neta. Ainda conservava bem ntidas no esprito as palavras da diretora do colgio 
suo: "Sabemos o que  a juventude, Mistress Blackwell, e se uma das raparigas tem uma ligao secreta, no me imiscuo. Mas Eva revelava-se to promscua, que, 
no interesse da reputao deste estabelecimento..."
        E Eva atribura a culpa a Alexandra.
        Em seguida, Kate comeou a evocar os acidentes. O roupo em chamas, que quase provocara a morte de Alexandra. A queda desta na ravina. O incidente na embarcao 
 vela, que estivera prestes a terminar no afogamento. Recordou a descrio dos pormenores da "violao" de Eva pelo professor de ingls: "Mr. Parkinson disse que 
queria trocar impresses comigo sobre o meu ponto de ingls e sugeriu que aparecesse em sua casa, um domingo  tarde. Quando entrei, vi que estava s. Passado pouco 
tempo, atraiu-me ao quarto, a pretexto de me mostrar uma coisa interessante, empurrou-me para a cama e..."
        Houve igualmente o caso de marijuana em Briarcrest, cuja responsabilidade Eva atribura  irm, simulando defend-la. Era essa a sua tcnica: ser a vil 
e apresentar-se como herona. Inteligncia no lhe faltava, sem dvida.
        Agora, Kate estudava o monstro de rosto de anjo na sua frente. "Constru todos os meus planos para o futuro  tua volta. Serias tu que um dia dirigirias 
a Kruger-Brent."
        Com um suspiro de pesar, anunciou pausadamente:
        - Quero que saias desta casa. Espero jamais voltar a pr-te a vista em cima - fez uma pausa, enquanto Eva adquiria uma lividez cadavrica. - s uma prostituta, 
mas suponho que poderia fechar os olhos a isso. Infelizmente, s tambm falsa, ardilosa e uma mentirosa psicopata, o que de modo algum desejo tolerar.
        Os acontecimentos desenrolavam-se com demasiada rapidez, e a rapariga ainda tentou estender a mo para uma tbua de salvao:
        - Se Alexandra te mentiu a meu respeito...
        - Ela no sabe de nada. Limitei-me a ter uma longa conversa com Mistress Collins.
        - Foi s isso? - tentou incutir um tom de alvio  voz. - Detesta-me, porque...
        - No percas tempo - murmurou Kate, que parecia repentinamente fatigada. - Terminou tudo. J mandei chamar o meu advogado. Vou deserdar-te.
        - No  possvel! - Eva sentiu o seu mundo desmoronar-se. - De que viverei?
        - Recebers uma pequena mesada. Doravante, vivers a tua prpria vida. Podes dar-lhe o rumo que entenderes. No entanto, presta ateno ao seguinte - e Kate 
reassumiu a inflexo autoritria. - Se me chegar aos ouvidos ou ler uma palavra de escndalo a teu respeito ou manchares o nome dos Blackwell de algum modo, ficars 
sem um cntimo. Entendido?
        A rapariga viu a expresso firme da av e compreendeu que desta vez no havia sada possvel. Acudiram-lhe aos lbios vrias explicaes, mas no passaram 
da.
        - Talvez te interesse saber - acrescentou Kate, agora em voz trmula -, mas  a deciso mais penosa que tive de tomar em toda a vida.
        E afastou-se em passos firmes e cabea bem erguida.
        Kate permanecia sentada no quarto s escuras, tentando determinar o motivo por que tudo correra mal.
        Se David no morresse no acidente na mina e Tony tivesse conhecido o pai...
        Se Tony no quisesse ser um artista...
        Se Marianne tivesse vivido...
        "Se. Uma palavra de duas letras, smbolo de futilidade."
        O futuro era barro, a ser moldado dia a dia, mas o passado consistia em rocha grantica, imutvel. "Todos os que amava me traram. Tony. Marianne. Eva. Sartre 
tinha razo: "O inferno so os outros"." Ao mesmo tempo, perguntava-se quando se extinguiria a dor.
        Se Kate era assolada pela dor, Eva no conseguia dominar a fria. Limitara-se a estar na cama por umas horas com um homem, e a av agira como se tivesse 
praticado um crime hediondo. "A cadela antiquada!" Antiquada, no. Senil. Isso mesmo. Estava senil. Havia de recorrer a um bom advogado, para que o novo testamento 
fosse contestado nos tribunais. O pai e a me no possuam o funcionamento normal das faculdades mentais. Ningum a deserdaria. A Kruger-Brent era a sua companhia. 
Alis, a av repetira numerosas vezes que um dia lhe pertenceria. E Alexandra! Consagrara todos aqueles anos a manobras para a caluniar e desacreditar definitivamente. 
Ambicionava a companhia para ela e, por ironia e crueldade do destino, tudo indicava que a irm a conseguiria. O que acontecera naquela tarde era horrvel, mas a 
idia de a irm dirigir um imprio quase incomensurvel era-lhe insuportvel. "No posso consentir que isso acontea. Descobrirei uma maneira de o impedir!" Por 
fim, parou de fazer a mala e foi procur-la.
        Alexandra encontrava-se no jardim, com um livro na mo, e ergueu os olhos quando ouviu Eva aproximar-se.
        - Resolvi voltar para Nova Iorque, Alex.
        - J? A av projeta um cruzeiro  costa da Dalmcia, na prxima semana.
        - Quero l saber disso! Refleti maduramente e cheguei  concluso de que  a altura de possuir um apartamento s meu - Eva exibiu um sorriso. - Procurarei 
um a meu gosto e, se te portares bem, deixo-te visitar-me, uma vez por outra.
        " este o tom exato", pensou. "Cordial, mas no aduladora, para que no desconfie de nada..."
        Entretanto, Alexandra observava-a com apreenso crescente.
        - A av j sabe?
        - Disse-lhe esta tarde. Ficou desolada, claro, mas compreende. Eu queria arranjar um emprego, mas insistiu em conceder-me uma mesada.
        - Queres que v contigo?
        "A descarada cadela de duas caras!" Primeiro, obrigava-a a sair de casa e agora fingia que desejava acompanh-la. "Ningum se livra de mim com essa facilidade. 
Vero como elas mordem!" Encontraria um apartamento satisfatrio (procuraria um decorador fabuloso para lho arranjar) e disporia de inteira liberdade de movimentos. 
Poderia convidar homens a passar a noite com ela. Seria verdadeiramente livre pela primeira vez na vida. A perspectiva era a todos os ttulos inebriante.
        Todavia, replicou:
        - Agradeo a ateno, Alex, mas quero estar s por uma temporada.
        Alexandra continuava a olh-la com ar desolado. Seria a primeira vez que se separariam.
        - Havemos de nos ver com frequncia, hem?
        - Sem dvida - prometeu Eva. - Muito mais do que imaginas.
        

































        Captulo XXVI



        Quando regressou a Nova Iorque, Eva alojou-se num hotel do centro da cidade, em conformidade com as instrues recebidas. Uma hora mais tarde, Brad Rogers 
telefonava-lhe.
        - Sua av contatou comigo de Paris. Parece que houve qualquer problema entre as duas.
        - Nada de importncia - e ela soltou uma gargalhada. - Uma pequena divergncia familiar.
        Preparava-se para apresentar uma defesa pormenorizada, mas apercebeu-se a tempo do perigo existente em algo do gnero. A partir de agora, necessitava de 
usar da maior prudncia. Nunca tivera de se preocupar com o dinheiro. Achava-o sempre disponvel. De futuro, precisava de o conservar bem presente no pensamento. 
No fazia a mnima idia do quantitativo da mesada e, pela primeira vez na vida, invadia-a um temor irresistvel.
        - Explicou-lhe que vai redigir novo testamento? - perguntou Brad.
        - Sim, acho que tocou no assunto.
        - Parece-me prefervel trocarmos impresses pessoalmente. Segunda-feira s trs da tarde, est bem?
        - Sem dvida.
        - No meu gabinete.
        - No faltarei.
        Eva entrou no edifcio da Kruger-Brent, Ltd., s 15.55 e foi saudada com deferncia pelo guarda de segurana, o porteiro e o ascensorista. "Todos me conhecem", 
pensou. "Sou uma Blackwell." O elevador conduziu-a ao piso da administrao e, momentos depois, encontrava-se sentada no gabinete de Brad Rogers.
        Este ficara surpreendido, quando Kate lhe telefonara para comunicar que ia deserdar Eva, pois sabia que ela manifestava predileo especial pela neta e a 
inclua em planos de grande envergadura. No fazia a mnima idia do motivo e, no fundo, admitia que no era de sua conta. Se Kate quisesse revelar-lho mais tarde, 
muito bem. Para j, o seu dever consistia em cumprir as ordens dela. Sentiu compaixo momentnea pela atraente jovem na sua frente. A av no era muito mais velha 
quando ele a vira pela primeira vez. E o mesmo se passava consigo prprio. Agora, convertera-se num velho de cabelos grisalhos, ainda esperanado em que Kate reconhecesse 
que algum a amava profundamente.
        - Tenho aqui uns documentos para voc assinar - informou. - Leia-os primeiro e...
        - No  necessrio.
        - Tem de compreender a situao. Segundo o testamento de sua av,  beneficiria de um fundo calculado em mais de cinco milhes de dlares, de que ela  
a executora. Por sua determinao, o dinheiro pode ser-lhe entregue em qualquer altura entre os vinte e um e os trinta e cinco anos de idade - aclarou a voz. - Decidiu 
faz-lo aos trinta e cinco. A partir de hoje, receber duzentos e cinquenta dlares semanais.
        Era impossvel, uma autntica bofetada sem mo! Um vestido decente custava mais do que isso. Nunca conseguiria manter-se com semelhante quantia. Aquele bastardo 
devia achar-se de conivncia com a chanfrada da av e desfrutava intimamente, refastelado atrs da secretria. Eva sentia o desejo quase irreprimvel de pegar no 
pesa-papis de bronze e utiliz-lo para lhe esmagar o crnio.
        Entretanto, Brad prosseguia:
        - No dispor de qualquer espcie de crdito no comrcio, nem dever mencionar o nome Blackwell para o obter. Tudo o que adquirir ser pago com dinheiro 
 vista.
        O pesadelo tornava-se cada vez mais tenebroso.
        - Se houver alguma notcia desagradvel nos jornais ligada ao seu nome, a mesada ser suspensa. Entendeu?
        - Sim - foi a resposta, num murmrio quase inaudvel.
        - Voc e sua irm Alexandra eram beneficirias de um seguro de vida de vossa av no valor de cinco milhes de dlares cada uma. A aplice em seu nome foi 
cancelada esta manh. Decorrido um ano, se Mistress Balckwell estiver satisfeita com o seu comportamento, duplicar o quantitativo da mesada - e Brad hesitou, antes 
de acrescentar: - Existe uma estipulao final.
        - Qual? - perguntou ela, ao mesmo tempo que pensava: "Quer mandar-me suspender pelos polegares em pblico."
        - Sua av no quer voltar a v-la.
        "Mas quero v-la eu. Na agonia da morte."
        - Se tiver algum problema, deve telefonar-me - continuou ele - Ela no deseja que torne a aparecer neste edifcio ou visite qualquer das propriedades da 
famlia.
        Enquanto pronunciava estas palavras, recordava que tentara dissuadir Kate de tomar uma medida to drstica.
        -  sua neta, que diabo! Corre-lhe o seu sangue nas veias, e trata-a como uma leprosa.
        - Ela  uma leprosa.
        E a discusso terminara.
        Agora, proferiu, levemente embaraado:
        - Penso que abordei todos os pormenores. Ocorre-lhe alguma pergunta?
        - No - articulou Eva, quase em estado de choque.
        - Nesse caso, queira assinar os documentos.
        Dez minutos mais tarde, encontrava-se de novo na rua, com um cheque de duzentos e cinquenta dlares na bolsa.
        Na manh seguinte, Eva telefonou a uma agncia e principiou a procurar casa. Nas suas fantasias, imaginara um belo apartamento sobranceiro ao Central Park, 
com decorao moderna e confortvel, um ambiente prprio para receber convidados. A realidade, porm, produziu-lhe um abalo demolidor. Parecia no haver habitaes 
disponveis naquela rea para quem possusse o rendimento semanal de duzentos e cinquenta dlares. Subsistia apenas um apartamento-estdio de uma assoalhada, com 
um sof-cama, um recanto que a boa vontade do funcionrio da agncia considerava "escritrio", uma reduzida kitchenette e uma minscula casa de banho;
        -  o melhor que me pode oferecer? - perguntou Eva, desolada.
        - No - replicou o homem, secamente. - Tenho uma casa de vinte divises em Sutton Place por meio milho de dlares.
        "Bastardo", pensou ela, com amargura.
        No entanto, o desespero s a invadiu verdadeiramente na tarde seguinte, quando se mudou. O quarto de vestir na residncia anterior era maior que todo o apartamento, 
e ela no pde deixar de configurar Alexandra na vasta moradia da Quinta Avenida. "Porque no teria morrido queimada? Faltara to pouco!" Se a irm perdesse a vida 
e Eva fosse a nica herdeira, tudo se desenrolaria de maneira diferente, pois a v no a deserdaria.
        No entanto, se Kate Blackwell supunha que ela tencionava renunciar  herana com tanta facilidade, no a conhecia. No fazia a mnima teno de viver com 
duzentos e cinquenta dlares por semana. Havia cinco milhes que lhe pertenciam, depositados no banco, e aquela mulher senil impedia-a de lhes pr as mos. "Tem 
de haver um meio de me apoderar desse dinheiro. Descobri-lo-ei, por muito que custe."
        A soluo do problema apresentou-se-lhe no dia seguinte.
        - Em que lhe posso ser til, Miss Blackwell? - perguntou com deferncia Alvin Seagram, vice-presidente do National Union Bank, disposto na verdade a fazer 
praticamente tudo para a comprazer. Que boa fada teria conduzido a jovem  sua presena? Se conseguisse assegurar a conta da Kruger-Brent, ou parte, nos seus cofres, 
veria a carreira descrever uma curva ascensional veloz.
        - H uma determinada quantia depositada em meu nome - principiou Eva. - Cinco milhes de dlares, mais concretamente. No entanto, em virtude das condies 
envolvidas, s o poderei utilizar quando completar trinta e cinco anos - esboou um sorriso ingnuo. - Parece uma data to distante!
        -  natural que parea, na sua idade - o banqueiro sorriu igualmente. - Tem dezenove anos, talvez?
        - Vinte e um.
        - E  bonita, se me permite que lho diga.
        - Obrigada, Mister Seagram - e o sorriso dela acentuou-se. Afinal, tudo se desenrolaria muito mais facilmente do que supusera, pois o homem era um imbecil.
        - De que modo lhe posso valer?
        - Bem, gostava de saber se posso contrair um emprstimo sobre o fundo depositado em meu nome e, por assim dizer, congelado.  que preciso mais do dinheiro 
agora do que aos trinta e cinco anos. Tenciono casar em breve e o meu noivo trabalha na construo civil em Israel, s regressando dentro de trs anos.
        - Compreendo perfeitamente - afirmou Alvin Seagram, compadecido com a situao. Nada mais fcil do que satisfazer o pedido da bela moa. Os bancos concediam 
emprstimos sobre fundos congelados quase todos os dias. Ao mesmo tempo, comprazeria um membro da famlia Blackwell, o que decerto se refletiria em operaes financeiras 
futuras. - No vejo problema algum - acrescentou com firmeza. - Trata-se de uma transaco muito simples.  claro que o banco no lhe pode emprestar a totalidade 
da quantia depositada, mas fornecer-lhe- pelo menos um milho. Acha satisfatrio?
        - Absolutamente - assentiu Eva, esforando-se por dissimular a alegria.
        - Nesse caso, queira revelar-me os pormenores desse fundo.
        - Pode contatar com Brad Rogers, na Kruger-Brent, que lhe dar todos os elementos necessrios.
        - Muito bem. Telefonar-lhe-ei em seguida.
        - Quanto tempo calcula que demorar? - perguntou, levantando-se.
        - Um ou dois dias, no mximo. Farei presso para que as formalidades sejam reduzidas tanto quanto possvel.
        -  muito amvel - murmurou, estendendo a mo.
        No instante em que Eva saiu do gabinete, Alvin Seagram pegou no telefone e indicou:
        - Ligue-me a Brad Rogers, da Kruger-Brent, Limited. S de pronunciar o nome da firma sentia um estremecimento de emoo por todo o corpo.
        Dois dias depois, Eva apresentou-se no banco e foi imediatamente conduzida  presena de Seagram, que anunciou sem rodeios:
        - Lamento, mas o banco no lhe pode ser til, Miss Blackwell.
        - No compreendo - ela tinha dificuldade em acreditar no que ouvia. - Disse que se tratava de uma transaco muito simples.
        - Nessa altura, no conhecia todos os fatos.
        Ao mesmo tempo que proferia estas palavras, o banqueiro recordava o que Brad Rogers lhe revelara:
        - Sim, existe um depsito de cinco milhes de dlares em nome de Eva Blackwell e o seu banco pode adiantar-lhe o dinheiro que quiser. No entanto, quero preveni-lo 
de que Kate Blackwell encararia semelhante atitude com profundo desagrado.
        No havia necessidade de pormenorizar quanto s consequncias, pois a Kruger-Brent contava com amigos poderosos em todos os setores. E, se esses amigos comeassem 
a retirar os seus depsitos do National Union Bank, Seagram no necessitava entregar-se a conjeturas minuciosas para saber como isso se refletiria na sua carreira.
        - Lamento, mas nada posso fazer - reiterou a Eva. Esta encarava-o, frustrada. Todavia, estava decidida a no permitir que aquele homem se apercebesse do 
abalo que acabava de sofrer.
        - Desculpe o incmodo - articulou, friamente. - H mais bancos em Nova Iorque. Passe muito bem.
        - Devo preveni-la de que nenhum dos meus colegas lhe emprestar um cntimo.
        Alexandra estava perplexa. No passado, a av tornara bvio, por uma infinidade de atitudes, que se inclinava para Eva. Agora, de um dia para o outro, tudo 
se modificara. Devia ter ocorrido algo de terrvel entre as duas, embora no fizesse a mnima idia de que se tratava.
        Quando tentava abordar o assunto, Kate replicava em tom peremptrio:
        - No h mistrio nenhum nisso. Eva decidiu seguir a sua vida.
        E tambm no conseguia extrair nada da irm.
        Entretanto, Kate principiou a consagrar mais tempo a Alexandra, a qual se sentia particularmente intrigada. Dir-se-ia que a av se apercebia da sua presena 
pela primeira vez, e assolava-a a desconfortvel sensao de que era estudada.
        Na verdade, Kate via a neta pela primeira vez, e em virtude da decepo que sofrera, ponderava tudo demoradamente antes de formar uma opinio definitiva 
acerca de Alexandra. Por fim, considerou-se satisfeita.
        No era fcil conhecer a gmea de Eva, muito mais reservada que esta ltima. Possua uma inteligncia viva, e a sua inocncia, combinada com a beleza, tornava-a 
ainda mais atraente. Sempre recebera inmeros convites para festas, bailes ou teatros, mas agora era a av quem decidia quais devia aceitar ou recusar. O fato de 
um pretendente dispor de fortuna no bastava. Kate procurava um homem capaz de ajudar a neta a dirigir a dinastia da famlia. Entretanto, abstinha-se de revelar 
ou denunciar as suas intenes a Alexandra. Haveria muito tempo para o fazer, quando surgisse o companheiro que se lhe afigurasse ideal.
        Por seu turno, Eva singrava num mar de rosas. O episdio com a av afetara-lhe o ego to profundamente que, por uns tempos, esquecera um fato de importncia 
capital: o efeito que exercia nos homens. Durante a primeira festa para a qual foi convidada, depois de se instalar no apartamento, deu o nmero do telefone a seis 
- quatro dos quais casados - e, em menos de vinte e quatro horas, fora para a cama com todos. A partir de ento, compreendeu que no necessitaria de se preocupar 
com o dinheiro, pois inundavam-na de ofertas: jias dispendiosas, quadros valiosos e, na maioria dos casos, quantias avultadas.
        - Acabo de ver umas credncias timas para a minha sala, mas ainda no recebi o cheque da mesada. Importas-te, querido?...
        E eles nunca se importavam.
        Sempre que se apresentava em pblico, Eva provindenciava para que a acompanhassem homens solteiros. Os casados recebia-os discretamente,  tarde, no seu 
apartamento. Alis, revelava a mxima prudncia em todos os seus atos. Desenvolvia os maiores esforos, coroados de xito, para que o seu nome no figurasse nas 
colunas de mexericos dos jornais, no porque se preocupasse com o perigo de lhe suspenderem a mesada, mas por estar convencida de que a av ainda se lhe arrojaria 
aos ps. Kate Blackwell necessitava de um herdeiro para dirigir a Kruger-Brent e Alexandra s se achava preparada para no passar de uma dona de casa estpida.
        Uma tarde, quando folheava o ltimo nmero de Town and Country, deparou-se-lhe uma fotografia da irm danando com um homem atraente. O fato suscitou-lhe 
reflexes tenebrosas. Se Alexandra casasse e tivesse um filho, os seus planos desmoronar-se-iam irremedivel e definitivamente.
        Durante quase um ano, a irm telefonara-lhe com regularidade, a fim de a convidar para almoar ou jantar, mas Eva esquivara-se sempre com uma ou outra desculpa. 
Agora, reconheceu que chegara o momento de terem uma conversa e sugeriu que se encontrassem no seu apartamento.
        Alexandra nunca l estivera e Eva preparou-se para assistir a uma manifestao de pesar. Ao invs, porm, ouviu-a exclamar:
        -  encantador! Muito funcional, no achas?
        - Para as minhas necessidades, chega - replicou Eva, com um sorriso de resignao, - Interessa-me uma coisa ntima. Como est a av?
        - tima - Alexandra hesitou. - No sei o que se passou entre as duas, mas se vires que te posso ajudar...
        - Ela no te disse?
        - No. Recusa-se a abordar o assunto.
        -  natural. A pobrezinha deve sentir-se culpada. Aconteceu o seguinte. Conheci um rapaz mdico, com o qual tencionava casar, e fomos para a cama. A av 
descobriu e ps-me fora de casa. Nunca vi uma mulher to antiquada...
        - Mas isso  horrvel! - proferiu, com uma expresso desolada. - Tm de a procurar os dois e...
        - Infelizmente, ele morreu num acidente de aviao.
        - Meu Deus! Porque no me contaste isto antes?
        - Estava demasiado envergonhada para o revelar a algum, mesmo a ti. Costumava dizer-te tudo, como sabes.
        - Deixa-me falar  av. Explico-lhe...
        - No! O amor-prprio no me permite. Promete que nunca lhe dirs nada.
        - Mas estou certa de que ela...
        - Promete!
        - Est bem - acedeu Alexandra, com um suspiro.
        - Acredita que me sinto feliz aqui. Gozo de plena liberdade de movimentos.  estupendo! - Eva colocou o brao em torno da cintura da irm. - Mas basta de 
falar de mim. Conta-me a tua vida. J encontraste o teu prncipe encantado? Aposto que sim!
        - No.
        - Hs-de encontrar - asseverou, olhando-a pensativamente. Era a sua imagem, mas estava decidida a destru-la.
        - No tenho pressa. Resolvi comear a ganhar a vida e falei nisso  av. Para a semana, sou recebida pelo diretor de uma agncia publicitria, com vista 
a um emprego.
        Almoaram num pequeno restaurante perto do apartamento e Eva insistiu em pagar a conta, pois no queria nada da irm. Quando se despediram, esta ltima aventurou:
        - Se precisares de dinheiro...
        - Que idia! Tenho mais do que o suficiente.
        - Em todo o caso, se te escassear, podes contar com tudo o que tenho.
        - Eu sei - declarou Eva, com um sorriso enigmtico. - Mas na verdade no me falta nada.
        No lhe interessavam migalhas. Estava empenhada em obter todo o bolo. A questo consistia em descobrir um meio.
        Havia uma reunio de fim-de-semana em Nassau, e Eva recebeu um telefonema de Nita Ludwig, sua antiga colega no colgio da Sua:
        - Sem a tua presena, no tem graa. Estaro l todas as nossas amigas.
        - Talvez seja divertido - admitiu. - No faltarei. Naquela tarde, foi empenhar uma pulseira de esmeraldas, oferta de um presunoso funcionrio superior de 
uma companhia de seguros com esposa e cinco filhos, e comprou vesturio de Vero na Lord & Taylor e uma passagem de ida e volta para Nassau, embarcando na manh 
seguinte.
        A propriedade dos Ludwig situava-se nas proximidades da praia e inclua uma vasta manso, com trinta divises, a menor das quais excedia as dimenses do 
apartamento de Eva. Esta foi conduzida ao quarto que lhe estava destinado por uma empregada uniformizada, aps o que desceu  sala para se reunir aos outros convidados.
        Depararam-se-lhe dezesseis pessoas possuidoras de um fator comum: eram abastadas. Nita Ludwig perfilhava a filosofia de "cartas do mesmo naipe". Um jornalista 
que assinava colunas de mexericos denominava o grupo de "conjunto jato", expresso que os visados enjeitavam publicamente e apreciavam na intimidade. Eram os privilegiados, 
os poucos eleitos, separados de todos os restantes seres humanos por um deus discriminativo. Os outros, que continuassem convencidos de que no se comprava tudo 
com o dinheiro. Eles sabiam que isso no correspondia  verdade. O dinheiro proporcionava-lhes beleza, amor, luxo e um lugar no cu. E Eva vira-se excluda de tudo 
aquilo pelo capricho de uma velha de vistas estreitas. "Mas no por muito tempo", decidiu para consigo.
        No momento em que entrou na sala, as conversas interromperam-se. Num ambiente cheio de mulheres atraentes, tornou-se subitamente o foco das atenes gerais. 
Nita pegou-lhe no brao, a fim de proceder s apresentaes daqueles que ela no conhecia. Eva mostrava-se cordial e comunicativa, ao mesmo tempo que observava os 
homens com ares de entendida, para selecionar os alvos. Na sua maioria eram casados, mas isso s servia para lhe facilitar os projetos.
        Em dado momento, um indivduo de cala enxadrezada e camisa havaiana acercou-se dela e observou:
        - Aposto que est farta de ouvir dizer que  bonita.
        - Nunca me farto de uma coisa dessas, Mister?...
        - Peterson, mas pode tratar-me por Dan. Devia ser estrela de Hollywood.
        - Receio no ter talento para representar.
        - Mas estou convencido de que possui muitos outros.
        -  uma coisa que s se pode saber depois de os experimentar, Dan - sussurrou Eva, com um sorriso malicioso.
        - Veio s? - perguntou ele, umedecendo os lbios.
        - Vim.
        - Tenho o iate ancorado na baa. Que diz a efetuarmos um pequeno cruzeiro, amanh?
        -  uma idia excelente. .
        - No compreendo porque nunca nos encontramos. Conheo sua av, Kate, h muitos anos.
        - A av  uma jia - articulou ela, esforando-se por manter o sorriso. - Acho conveniente juntarmo-nos aos outros.
        - No se esquea do que combinamos.
        O homem no voltou a ter oportunidade de lhe falar a ss. Eva evitou-o durante o almoo e  tarde meteu-se num dos carros destinados aos convidados e seguiu 
em direo  cidade. No cais, deteve-se para observar o movimento dos pesqueiros que descarregavam o abundante produto da faina, no qual abundava o marisco de numerosas 
espcies.
        Soprava uma brisa agradvel e a superfcie do mar sereno brilhava como se estivesse coberta de diamantes. Eva avistava, do outro lado da gua, a curva crescente 
da praia de Paradise Island. Uma lancha motorizada partiu naquele momento e, no instante imediato, ergueu-se a figura de um homem na sua esteira. Ela contemplou-o, 
fascinada, equilibrado nos esquis, e, no momento em que deslizou nas proximidades, vislumbrou um atraente rosto bronzeado.
        Ele entrou na sala de Nita Ludwig, cinco horas mais tarde, e Eva foi assolada pela impresso de que acudia  sua chamada. De perto, era ainda mais atraente. 
De um metro e noventa de altura, com feies bronzeadas perfeitamente modeladas, olhos negros e corpo escultural, quando sorriu revelou dentes brancos e regulares.
        - George Mellis. Eva Blackwell - apresentou Nita.
        - Voc devia estar no Museu do Louvre - afirmou ele em voz grave e levemente rouca em que se notava um sotaque remoto.
        - Anda da, rapaz - volveu a dona da casa. - Vou apresentar-te aos outros.
        - No merece a pena. Acabo de conhecer a nica pessoa que me interessa.
        - Estou a ver - e ela fez uma pausa, olhando-os com curiosidade. - Bem, se precisarem de alguma coisa, chamem.
        - No acha que foi um pouco brusco? - observou Eva.
        - Deixei de ser responsvel pelas minhas palavras ou atos. Apaixonei-me - e vendo-a rir, Mellis acrescentou: - A srio.  a mulher mais bonita que conheci 
at hoje.
        - Tem piada que a minha opinio a seu respeito  mais ou menos da mesma natureza.
        Ela refletia que lhe era indiferente que aquele homem possusse ou no dinheiro. Sentia-se absolutamente fascinada. No se tratava apenas do seu aspecto. 
Irradiava um magnetismo, uma sensao de poder que a excitava como jamais acontecera.
        - Quem  voc?
        - Nita j lhe disse. George Mellis.
        - Mas quem?
        - Ah, no sentido filosfico! O eu real. Nada de extraordinrio, lamento confessar. Sou grego. A minha famlia cultiva azeitonas e coisas do gnero. 
        "Esse Mellis! Os produtos alimentares Mellis podiam encontrar-se em qualquer mercearia ou supermercado dos Estados Unidos."
        - Casado?
        - Costuma ser sempre to direta nas perguntas? - quis saber ele, com novo sorriso deslumbrante.
        - No.
        - Sou solteiro.
        A revelao deixou Eva extasiada. S de o olhar, desejava possu-lo e que a possusse.
        - Porque no apareceu ao jantar?
        - Quer a verdade?
        - Sim.
        -  muito pessoal. Entretive-me a impedir que uma jovem pusesse termo  vida - explicou ele, como se aludisse a uma ocorrncia banal.
        - Espero que tenha sido bem sucedido.
        - De momento. Suponho que voc no manifesta propenso para o suicdio?
        - De modo algum.
        - Amo-a a valer - declarou sem reservas.
        No momento em que lhe pegou no brao, Eva no pde evitar um estremecimento de emoo.
        Conservou-se ao lado dela durante todo o sero, cumulando-a de atenes, indiferente aos outros. Tinha mos alongadas e delicadas, aparentemente empenhadas 
em ser prestveis a Eva por qualquer meio: oferecia-lhe uma bebida, acendia-lhe o cigarro, tocava-lhe discretamente. A sua proximidade produzia-lhe um ardor quase 
irresistvel, e ansiava pelo momento em que se encontrariam ss. Pouco depois da meia-noite, quando os convidados principiaram a recolher aos quartos, George Mellis 
perguntou:
        - Onde est instalada?
        - Ao fundo do corredor da ala norte.
        Inclinou a cabea num gesto de entendimento, ao mesmo tempo que a fitava com uma expresso de inteligncia.
        Eva despiu-se, tomou banho e enfiou um neglige preto que lhe aderia ao corpo.  uma hora, registrou-se uma pancada discreta na porta e apressou-se a abri-la.
        George Mellis entrou e deteve-se para a contemplar com admirao.
        - Matia mou, faz com que a Vnus de Milo parea um lastro detestvel.
        - Pelo menos, h um pormenor a meu favor. Tenho os dois braos completos.
        E, porventura para o demonstrar, ela utilizou-os para lhe rodear o pescoo. O beijo que se seguiu provocou-lhe como que uma exploso ntima. Os lbios dele 
pareciam querer esmagar os seus e sentiu-lhe a lngua em vida explorao. Achavam-se completamente despidos em escassos segundos e encaminharam-se para a cama, 
o pnis de Mellis ereto como um poste.
        - Vira-te! - disse. - Quero o teu traseiro!
        - No estou a per... - comeou Eva, perplexa. Uma bofetada brutal impediu-a de prosseguir.
        - Vira-te!
        - No!
        Ele agrediu-a de novo e ela viu os objetos principiarem a oscilar  sua volta.
Como num sonho, sentiu-o erguer-lhe os hemisfrios posteriores e, no momento em que iniciou a penetrao, uma dor excruciante. Descerrou os lbios para gritar, mas 
conteve-se ao pensar nas consequncias.
        - Por favor... - gemeu. - Magoas-me...
        Contudo, ele continuou a introduzir-lhe o pnis enorme e Eva acabou por perder o conhecimento.
        Quando recuperou os sentidos, George Mellis sentava-se numa cadeira, vestido, com um cigarro entre os lbios. Ao ver que voltara a si, aproximou-se da cama 
e acariciou-lhe a cabea, murmurando:
        - Como te sentes, querida?
        Ela tentou soerguer-se, mas a dor era demasiado intensa, como se a tivesse rasgado ao meio.
        - Animal infame!... - articulou entre dentes.
        - Tratei-te com o maior carinho - asseverou ele, com uma risada. - Se quisesse, podia ter sido brutal. No o fiz porque te amo. Hs-de habituar-te, podes 
crer, Hree-se'e-moo.
        - s louco! - bradou Eva, refletindo que, se dispusesse de uma arma, no hesitaria em o matar.
        Ato contnuo, viu-o assumir uma expresso glacial e a mo cerrar-se num punho ameaador, e compreendeu que era mesmo louco.
        - No faas caso - apressou-se a retificar. - Como foi a primeira vez, estranhei. Agora, queria dormir, se no te importas.
        George Mellis contemplou-a em silncio, por um longo momento, e descontraiu-se. Em seguida, dirigiu-se ao toucador onde Eva colocara as jias e apoderou-se 
de um colar de brilhantes.
        - Vou lev-lo como recordao. Boa noite, querida.
        Beijou-a formalmente e saiu. Eva deixou transcorrer uns segundos e levantou-se, esforando-se por ignorar as dores. S depois de fechar a porta  chave se 
sentiu em segurana. Custava-lhe aceitar a enormidade da clera que a assolava. Fora vtima de sodomia, horrvel e brutal. O fato levou-a a especular na forma como 
decerto tratara a rapariga que tentara pr termo  vida.
        Aps demorada visita  casa de banho, voltou para a cama, mas permaneceu acordada o resto da noite, aterrorizada pela idia de ele reaparecer.
        De manh, quando acordou, depois de duas horas de sono j ao alvorecer, verificou que os lenis apresentavam manchas de sangue. Ele havia de pagar o que 
fizera, de uma maneira ou de outra. Dirigiu-se de novo  casa de banho e imergiu na banheira cheia de gua quente. O espelho indicou-lhe que tinha as faces inchadas 
e um dos olhos violceo. Hesitou por uns momentos e aplicou uma toalha embebida em gua fria nos locais atingidos. Por fim, conservou-se na banheira, pensando em 
George Mellis. Havia algo de estranho no seu comportamento que no tinha nada a ver com o sadismo. De sbito, fez-se-lhe luz no esprito. O colar! Porque o levara?
Duas horas mais tarde, desceu  sala de jantar, para se juntar aos outros convidados em torno da mesa do pequeno-almoo, embora no sentisse apetite.
        - Santo Deus! - exclamou Nita Ludwig. - Que te aconteceu?
        - A coisa mais estpida deste mundo - explicou Eva, com um sorriso de embarao. - Levantei-me a meio da noite para ir  casa de banho, sem acender a luz, 
e colidi com a porta.
        - Queres que chame o mdico para te examinar?
        - No  necessrio. So escoriaes superficiais - olhou em volta. - Onde est George Mellis?
        - Foi jogar tnis. Pediu-me que te dissesse que falaria contigo  hora do almoo. Desconfio que engraou contigo.
        - Fala-me dele.
        - Pertence a uma famlia de gregos abastados.  o oitavo filho e podre de rico. Trabalha numa firma de corretagem de Nova Iorque, a Hanson and Hanson.
        - No se interessa pelo negcio da famlia?
        - Suponho que detesta as azeitonas. De resto, com a fortuna dos Mellis, no precisa de trabalhar. Deve faz-lo apenas para ocupar o tempo - Nita esboou 
um sorriso malicioso. - O trabalho no lhe falta,  noite.
        - Parece-te?
        -  o melhor partido destas redondezas. As moas anseiam pela oportunidade de despir as cuecas na sua frente, na esperana de o levar ao altar. Aqui para 
ns, se o meu marido no fosse to ciumento, tambm no me importava de uma pequena experincia com ele.  um animal deslumbrante!
        - Sim - aquiesceu Eva, amargurada. - Deslumbrante.
        George Mellis surgiu no terrao onde Eva se sentava, s, e esta experimentou um estremecimento de medo.
        - Bom dia, Eva! - saudou ele, acercando-se. - Sentes-te bem? - perguntou com uma expresso apreensiva, ao mesmo tempo que pousava os dedos no rosto maltratado. 
- Como s bonita! - puxou de uma cadeira, sentou-se voltado para o espaldar, e, abarcando o mar com um gesto largo, declarou: - Que espetculo to belo!
        Dir-se-ia que os acontecimentos da vspera no tinham ocorrido. Ela escutava-o enquanto perorava sobre as belezas da Natureza e apercebeu-se uma vez mais 
do magnetismo que irradiava. Conseguia senti-lo, apesar do pesadelo que experimentara, o que se lhe afigurava incrvel. "Parece um deus grego. Pertence a um museu. 
No, a uma clnica de loucos!"
        - Tenho de regressar a Nova Iorque esta noite - anunciou ele, em dado momento. - Como posso contatar contigo?
        - Mudei-me recentemente - apressou-se Eva a alegar. - Ainda no tenho telefone. Ligarei para ti.
        - Pois sim, querida. Desfrutaste esta noite, hem? - e baixando a voz, Mellis acrescentou: - Tenho muitas variantes para te ensinar.
        "Tambm hs-de aprender alguma coisa comigo!", pensou ela.
        Assim que se encontrou de regresso a Nova Iorque, Eva telefonou a Dorothy Hollister, uma verdadeira fonte de informaes sobre a "gente bela", como gostava 
de chamar a determinado estrato da sociedade. Fora casada com um indivduo de posio elevada e, quando ele a trocara pela secretria de vinte e um anos, vira-se 
forada a procurar uma atividade remuneradora, acabando por enveredar pela que melhor se adaptava aos seus talentos: autora de uma coluna de inconfidncias sociais 
num jornal.
        Portanto, se algum podia elucidar Eva a respeito de George Mellis, era, sem dvida, Dorothy Hollister.
        Encontraram-se para almoar e, depois de escolherem a ementa, Eva informou com naturalidade:
        - Passei o fim-de-semana nas Baamas. Aquilo  realmente encantador.
        - J sabia - replicou Dorothy. - Tenho a lista dos convidados de Nita Ludwig. Foi divertido?
        - Voltei a ver algumas velhas amigas. Por sinal, conheci um homem interessante chamado... como era?... George qualquer coisa. Miller, salvo erro. Um grego.
        - Mellis - soltou uma risada que se propagou a todos os cantos da sala. - George Mellis.
        - Isso. Conhece-o?
        - Vi-o, uma vez ou duas. Pensei que se transformaria numa coluna de sal. Realmente, tem um aspecto fantstico.
        - Quais so os seus antecedentes?
        Olhou em redor e inclinou-se para a frente numa atitude conspiratria.
        - Ningum sabe isto, mas espero que no passe daqui.  a ovelha ranhosa da famlia. Devia ficar  testa do negcio paterno, que produz lucros fabulosos, 
mas envolveu-se em tantos escndalos com raparigas, rapazes e provavelmente at cabras, que o pai e os irmos acabaram por perder a pacincia e mand-lo para fora 
do pas. Cortaram-lhe todos os rendimentos, o que obrigou o pobre rapaz a procurar um emprego para se sustentar.
        "Estava explicado o roubo do colar!"
        - No fundo, no precisa de se preocupar - continuou Dorothy. - Mais dia menos dia, casa com uma mulher rica. Porqu esta curiosidade? Ests interessada?
        - Nem por isso.
        Todavia, Eva estava mais do que interessada. George Mellis podia ser a chave que procurava. A chave da sua fortuna.
        Na manh seguinte, telefonou-lhe para o emprego e verificou que Mellis reconhecia a sua voz imediatamente.
        - Aguardava o teu telefonema com ansiedade louca. Jantamos juntos esta noite e...
        - No, almoamos amanh. Ele hesitou, surpreendido.
        - Muito bem. Tinha de almoar com um cliente, mas arranjo uma desculpa.
        - No meu apartamento - advertiu Eva, custando-lhe a crer que falava com o alucinado de poucos dias antes. Indicou o endereo e concluiu: - Ao meio-dia e 
meia.
        - Combinado.
        Cortou a ligao, cogitando que George Mellis encontraria uma surpresa imprevista.
        Ele apresentou-se com meia hora de atraso, e Eva compreendeu que isso obedecia  sua maneira de proceder. No se tratava de falta de deferncia deliberada, 
mas de uma indiferena, a certeza de que os outros esperariam o tempo que fosse necessrio. Com a sua aparncia irresistvel e maneiras cativantes, o mundo pertencia-lhe. 
Existia apenas um bice: a falta de dinheiro. Era esse o seu nico ponto vulnervel.
        Mellis olhou em volta e admitiu, depois de calcular o valor do recheio:
        - Muito agradvel - aproximou-se de Eva, estendendo os braos. - Tenho pensado em ti constantemente.
        - Mais devagar - recomendou ela, esquivando-se. - Primeiro, quero dizer-te uma coisa.
        - Conversamos depois.
        - No, agora - articulou pausada e distintamente. - Se me tornas a tocar, mato-te.
        - Que brincadeira  esta? - rosnou ele, com um leve sorriso de incredulidade.
        - Falo a srio. Quero apresentar-te uma proposta de negcios.
        - Mandaste-me vir para discutir negcios? - estranhou, arqueando as sobrancelhas.
        - Exato. No sei quanto ganhas com as diligncias para convencer velhotas crdulas a adquirir aes e ttulos da Bolsa, mas penso que no  muito.
        - Endoideceste? - rugiu, assumindo uma expresso irada. - A minha famlia...
        - A tua famlia  rica e tu no. A minha  rica e eu tambm no. Encontramo-nos no mesmo barco cheio de buracos, meu amigo, mas conheo uma maneira de o 
transformarmos num luxuoso iate.
        Eva fez uma pausa para observar o efeito do que acabava de dizer e verificou que a irritao do interlocutor era substituda gradualmente por curiosidade.
        - Troca l isso por midos, antes que perca a pacincia.
        -  muito simples. Fui deserdada de uma vasta fortuna e minha irm Alexandra no.
        - Em que me pode isso interessar?
        - Se casasses com ela, essa fortuna seria tua... nossa.
        - Lamento, mas nunca consegui aceitar a idia de me amarrar a algum.
        - Neste caso, no correrias o menor perigo - declarou ela, sem pestanejar. - Minha irm sempre teve propenso para sofrer acidentes.


































        Captulo XXVII



        A agncia publicitria Berkley and Mathews fora sempre o diadema no estendal de firmas do gnero existentes na Avenida Madison. O seu volume de negcios 
excedia os dos dois concorrentes mais prximos juntos, fundamentalmente porque um dos seus melhores clientes era a Kruger-Brent, Ltd. e as suas dezenas de subsidirias 
dispersas pelo mundo. Por conseguinte, quando Kate Blackwell telefonou a Aaron Berkley, a fim de lhe solicitar um lugar para Alexandra, o pedido foi satisfeito com 
prontido. Na realidade, se ela desejasse, talvez nomeassem a rapariga presidente da agncia.
        - Creio que minha neta est interessada em ser autora de textos - informou Kate.
        Berkley assegurou-lhe que havia precisamente uma vaga nesse departamento e Alexandra podia principiar quando quisesse.
        Assim, ela apresentou-se ao trabalho na segunda-feira imediata.
        A agncia situava-se em oito pisos do moderno edifcio que possua na Avenida Madison e tinha os restantes alugados a diversas firmas. No intuito de economizar 
um salrio, Aaron Berkley e o scio, Norman Mathews, decidiram que Alexandra Blackwell ocuparia o lugar de um jovem empregado admitido seis meses antes. O fato tornou-se 
conhecido rapidamente, e quando o pessoal se inteirou de que o rapaz despedido seria substitudo pela neta da maior cliente da casa, gerou-se uma indignao geral. 
Mesmo sem a conhecerem, o consenso geral era de que se tratava de uma cadela mimada, provavelmente enviada para espiar os funcionrios.
Na manh em que a rapariga se apresentou, foi escoltada ao vasto gabinete de Berkley, onde este e Mathews a aguardavam para lhe dar as boas-vindas. Os dois scios 
eram aquilo que se podia considerar patres tiranos, e o nico motivo porque os empregados os suportavam cifrava-se em que quem tinha trabalhado naquela firma estava 
em perfeitas condies para ingressar em qualquer agncia publicitria do mundo. Constitua uma espcie de campo de treino.
        Tambm se achava presente no gabinete Lucas Pinkerton, vice-presidente da firma, um homem sorridente de modos untuosos e olhos frios, o qual to-pouco se 
podia considerar um patro-modelo.
        - Que deseja tomar, Miss Blackwell? - perguntou Berkley, indicando a Alexandra uma poltrona confortvel. - Caf, ch?
        - Nada, obrigada.
        - Com que ento, vai trabalhar conosco como autora de textos!
        - Agradeo a oportunidade que me proporcionaram. Sei que tenho muito que aprender, mas prometo trabalhar com afinco.
        - No necessita de se esforar - interps Mathews. No entanto, apercebeu-se do deslize com prontido e acrescentou: - Quero dizer que no convm que se precipite. 
So coisas que se aprendem com lentido.
        - Estou certo de que se sentir bem entre ns - volveu Berkley. - Vai trabalhar com as maiores autoridades no campo da publicidade.
        Uma hora mais tarde, Alexandra ponderava: "Talvez sejam os melhores do mundo, mas no os mais cordiais." Lucas pinkerton conduzira-a aos diversos apartamentos, 
para que conhecesse os novos colegas, e a recepo fora glacial em toda a parte. Ela pressentiu a animosidade e ficou intrigada, sobretudo porque no compreendia 
o motivo. Por fim, entraram numa sala de conferncias saturada de fumo de tabaco, em torno de cuja mesa se viam uma mulher e dois homens, que fumavam em cadeia. 
Ela era baixa e forte, com cabelos cor de ferrugem, e os companheiros, que aparentavam trinta e cinco anos, plidos e compenetrados.
        - Esta  a equipe criadora com a qual vai trabalhar - informou Pinkerton. - Alice Koppel, Vince Barnes e Marty Bergheimer, apresento-lhes Miss Blackwell 
- fez uma pausa, enquanto o trio a olhava com semblantes inexpressivos.
        - Bem, vou deix-la, para que se familiarize com o ambiente - e voltando-se para Barnes: - Quero o texto referente ao novo perfume em cima da minha secretria, 
amanh, ao abrir da porta. Providencie para que Miss Blackwell receba tudo o necessrio - e retirou-se.
        - De que precisa? - inquiriu Barnes.
        - Eu... - a pergunta colheu Alexandra desprevenida. - Preciso de aprender tudo.
        - Veio ao lugar apropriado - observou Alice Koppel, em tom melfluo. - Adoramos fazer de professores.
        - No comece - advertiu Bergheimer.
        - Fiz alguma coisa que os ofendesse? - balbuciou a rapariga, intrigada.
        - No, Miss Blackwell - assegurou Bergheimer. - Simplesmente, atravessamos uma fase de grande presso. Trabalhamos no lanamento de um perfume e, at agora, 
os chefes no se mostraram impressionados com o material fornecido.
        - Procurarei no os estorvar.
        - Isso era timo - no pde deixar de tornar a comentar Alice Koppel.
        O resto do dia escoou-se no mesmo clima. No havia um nico sorriso visvel. Um colega fora despedido sumariamente por causa daquela cadela rica, e estavam 
dispostos a fazer-lhe espiar o arrojo.
        Pouco antes da hora da sada, Berkley e Mathews entraram no pequeno gabinete atribudo a Alexandra, para se certificarem de que no lhe faltava nada, gesto 
que no passou despercebido ao resto do pessoal.
        Todos os funcionrios da agncia se tratavam por tu, mas Alexandra era uma exceo  regra, sendo "Miss Blackwell" para todos.
        - Chamo-me Alexandra - lembrava ela.
        - Tem razo.
        E na prxima vez que se lhe dirigiam, era de novo por "Miss Blackwell".
        Alexandra ansiava por aprender e participar na produo da firma. Para tal, assistia s reunies em que os autores de textos apresentavam idias, observava 
o pessoal artstico que construa maquetes e via Lucas Pinkerton rasgar o material que lhe expunham para aprovao. Entretanto, guardava um silncio respeitoso e 
esforava-se por assimilar tudo o que se lhe deparava. No termo da primeira semana, afigurava-se-lhe que pertencia  casa h mais de um ms.
        Quando Kate lhe perguntava como se adaptava ao trabalho, respondia:
        - O melhor possvel, av.  muito interessante.
        - Tenho a certeza de que no tardars a produzir tanto e to bem como os melhores funcionrios da firma. Se surgir algum problema, procura Berkley ou Mathews.
        Era exatamente isso que Alexandra desejava evitar.
        Na segunda-feira seguinte, apresentou-se ao trabalho disposta a resolver o seu problema. Havia pausas de manh e  tarde para tomar caf, ocasies em que 
se trocavam impresses com cordialidade.
        - Sabes o que aconteceu na National Media? Um gnio qualquer pretendeu chamar a ateno para o ano excepcional que tiveram e mandou publicar o seu relatrio 
financeiro no New York Times, a vermelho!
        Naquele momento, Alexandra fez a sua apario e as conversas interromperam-se de modo abrupto.
        - Deseja um caf, Miss Blackwell?
        - Obrigada. Eu vou busc-lo.
        Estabeleceu-se silncio enquanto ela introduzia uma moeda na mquina e pegava no copo fumegante. Assim que saiu, as conversas foram reatadas.
        - Ouviram a ltima acerca do Sabo Puro? O modelo de expresso angelical dos anncios era uma intrprete de filmes pornogrficos!
        Ao meio-dia, Alexandra sugeriu a Alice Koppel:
        - Lembrei-me que podamos almoar...
        - Lamento, mas tenho um compromisso.
        Virou-se para Vince Barnes, que se apressou a declarar:
        - Eu tambm.
        - E eu - acudiu Marty Bergheimer, por sua vez. Alexandra sentia-se demasiado apreensiva para comer. Os colegas procediam como se ela fosse uma pria, fato 
que comeava a irrit-la. No entanto, no tencionava permitir que a situao se mantivesse. Descobriria uma maneira de estabelecer comunicao, de lhes fazer compreender 
que, por debaixo do nome Blackwell, era uma deles. Continuava a assistir a reunies e ouvia Aaron Berkley, Norman Mathews e Lucas Pinkerton invectivarem os criadores, 
que se limitavam a executar o seu trabalho o melhor que podiam. Alexandra condoa-se deles, que todavia no queriam a sua compaixo. Nem a sua companhia.
        Deixou transcorrer trs dias antes de efetuar nova tentativa junto de Alice Koppel.
        - Falaram-me de um estupendo restaurante italiano perto daqui...
        - No gosto de comida italiana. Voltou-se para Vince Barnes, que esclareceu:
        - Estou a dieta.
        - Prefiro a chinesa - anunciou Marty Bergheimer, quando foi interpelado.
        Alexandra sentia as faces em brasa. No queriam ser vistos com ela. "Ento, que vo para o inferno"! Estava farta. Desenvolvera todos os esforos para estabelecer 
relaes cordiais e tinham-lhe dado sempre com os ps. Cometera um erro ao pretender trabalhar ali. Procuraria emprego numa firma sem a mnima ligao com a av. 
No final da semana corrente, despedir-se-ia. "Mas ho-de lembrar-se todos de que passei por c", decidiu com amargura.
        s 13.00 horas de quinta-feira, tinham ido todos almoar, exceto a operadora do PBX, e Alexandra deixara-se ficar. Observara que nos gabinetes do pessoal 
superior havia inter-comunicadores para os vrios departamentos, pelo que, se um chefe pretendia contatar com um subordinado, necessitava apenas de premir o boto 
do aparelho em que o nome deste ltimo se achava escrito num carto. Ela introduziu-se nos domnios desertos de Berkley, Mathews e Pinkerton e consagrou os sessenta 
minutos imediatos  troca de todos os cartes. Assim, ao princpio da tarde, Pinkerton carregou num boto que julgava p-lo em contato com um autor de textos e ordenou:
        - Trote para aqui. J!
        Seguiu-se um momento de silncio, e a voz indignada de Mathews rugiu:
        - Que disse?
        -  Mister Mathews? - balbuciou o outro, cravando o olhar estupefato no aparelho.
        - Com certeza que sou! Trote voc para aqui! J! Momentos depois, um autor de textos premiu um boto e informou:
        - Tenho aqui material para voc levar l abaixo.
        - Tem o qu? - vociferou Berkley.
        Era o incio do pandemnio. Foram necessrias quatro horas para retificar a confuso que Alexandra criara, e os funcionrios da agncia nunca tinham passado 
um perodo to divertido no local de trabalho. Cada vez que se registrava um novo incidente, soltavam exclamaes de gudio. Os chefes recebiam ordens para ir comprar 
tabaco ou mandar desentupir uma sanita. Berkley, Mathews e Pinkerton resolveram tudo para tentarem descobrir o culpado, mas ningum sabia explicar o que se passara.
        A nica pessoa que vira Alexandra entrar nos diversos gabinetes fora Fran, a recepcionista, mas detestava mais os chefes do que a rapariga, pelo que se limitou 
a declarar:
        - No dei por nada.
        Naquela noite, quando se encontrava na cama com Vince Barnes, revelou-lhe o que acontecera e ele soergueu-se de um salto.
        - A neta da velha Blackwell? Quem diria!
        Na manh seguinte, quando entrou no seu gabinete,
        Alexandra verificou que Vince Barnes, Alice Koppel e Marty gergheimer a aguardavam. Vendo que a observavam em silncio, perguntou:
        - H alguma novidade?
        - No - replicou Alice Koppel, com um sorriso. - Queramos convid-la para almoar conosco. Falaram-nos num restaurante italiano estupendo, perto daqui...
































        Captulo XXVIII



        Desde criana que Eva Blackwell se apercebera da sua habilidade para manipular pessoas. No passado, tratava-se de um mero jogo, mas agora o assunto revestia-se 
de gravidade. Fora tratada abominavelmente, despojada de uma vasta fortuna, que lhe pertencia por direito, por uma irm maldosa e uma av vingativa. Haviam de lhe 
pagar inteiramente o mal ocasionado, e a perspectiva provocava-lhe um prazer to intenso que quase a conduzia ao orgasmo. A vida delas encontrava-se agora nas suas 
mos.
        Eva elaborou o plano cuidadosa e meticulosamente, orquestrando cada movimento. Ao princpio, George Mellis revelara-se um conspirador relutante, alegando:
        -  muito perigoso. No preciso de me envolver em complicaes dessas. Posso obter todo o dinheiro que quiser.
        - Como? - retorquiu ela, em tom de desdm. - Levando para a cama uma infinidade de mulheres nutridas de cabelos azuis?  assim que queres passar o resto 
da vida? Que acontecer quando comeares a criar estmago e te surgirem rugas em volta dos olhos? Cr que nunca tornars a ter uma oportunidade como esta. Se me 
escutares, poderemos possuir um dos maiores imprios financeiros do mundo. Possuir, ouviste?
        - Como sabes que o plano funcionar?
        - Sou a maior perita viva acerca de minha av e Alexandra. No tenhas a mnima dvida a esse respeito.
        Embora se exprimisse com confiana, assolavam-na algumas reservas, sobretudo quanto ao cmplice. Eva estava convencida de que executaria a sua parte do plano, 
mas no tinha a certeza de como ele agiria. Era um indivduo instvel e no havia o menor espao para erros. Bastaria um para que tudo se desmoronasse.
        - Decide-te de uma vez - indicou. - Entras ou no? Mellis olhou-a por um longo momento, sem proferir palavra, e acabou por inclinar a cabea.
        - Entro - aproximou-se dela e pousou-lhe as mos nos ombros. - Mas quero entrar todo.
        - Desta vez, vai ser  minha maneira - advertiu Eva, em voz rouca.
        Encontravam-se deitados. Despido, ele era o animal mais extraordinrio que ela jamais vira. E o mais perigoso, mas isso s servia para acentuar a excitao. 
Agora, dispunha da arma para o dominar.
        - Monta-me, George - pediu, com voracidade.
        - Vira-te para l.
        - No.  minha maneira.
        - Assim, no me d prazer.
        - Eu sei. Preferias faz-lo com um rapaz de cu apertado, hem? Infelizmente, para ti, ests com uma mulher. Portanto, trepa para cima de mim.
        - Est bem - capitulou ele, obedecendo. - Mas olha que no fico satisfeito.
        - -me indiferente - redarguiu Eva, com uma risada. - Fico eu.
        No final da operao, Mellis f-la deslizar para o seu lado e estendeu as mos para os seios.
        - Agora,  a minha vez.
        - Veste-te - ordenou ela, abruptamente.
        Ele levantou-se da cama, tremendo de frustrao e clera, enquanto ela o contemplava com um sorriso divertido.
        - Portaste-te muito bem, George. Mereces a recompensa. Vou entregar-te Alexandra.
        De um dia para o outro, tudo se alterara para Alexandra. Transformara-se de pria em herona, e a partida que pregara aos chefes tornou-se conhecida em toda 
a Avenida Madison.
        -  uma lenda em vida - afirmou Vince Barnes. Agora, convertera-se numa deles.
        Ao mesmo tempo, gostava do trabalho que executava, em particular as sesses criativas que se desenrolavam todas as manhs. Embora reconhecesse que no correspondiam 
ao que desejava para o resto da vida, no estava bem certa do que pretendia. Recebera pelo menos uma dzia de propostas de casamento e sentira-se tentada por uma 
ou duas, mas faltava qualquer coisa. Ainda no surgira o homem ideal.
        Sexta-feira de manh, Eva telefonou, a fim de a convidar para almoar.
        - Conheo um restaurante francs inaugurado recentemente, cuja comida  excelente.
        Ficou contente com o telefonema, pois agradava-lhe sempre contatar com a irm, e apressou-se a aceitar.
        O restaurante era requintado e dispendioso e o bar achava-se cheio de clientes  espera de mesas livres, pelo que Eva necessitara de recorrer ao nome da 
av para que lhe reservassem uma.
        Saudaram-se com um beijo na face e ela declarou:
        - Ests maravilhosa, Alex. Segundo parece, o trabalho faz-te bem - interrompeu-se para escolher a ementa, aps o que prosseguiu: - Conta l em que consiste 
a tua misso na firma.
        Alexandra descreveu tudo minuciosamente e em seguida a irm procedeu a uma descrio cautelosa das suas atividades. De sbito, Eva ergueu os olhos e fez 
uma pausa. George Mellis contemplava-as diante da mesa, momentaneamente confuso. "Valha-me Deus! No sabe qual das duas sou." Por conseguinte, tratou de proferir:
        - George!
        - Eva! - ele dissimulou a sensao de alvio. - Que agradvel surpresa.
        - De fato... Creio que no conheces minha irm. Alex, apresento-te George Mellis.
        - Encantado - murmurou ele, apertando a mo da rapariga, ao mesmo tempo que refletia que Eva lhe falara na irm gmea, mas nunca supusera que fossem idnticas.
        - Almoas conosco? - perguntou ela.
        - Infelizmente, j estou atrasado para uma entrevista. Fica para outra ocasio - Mellis voltou-se para Alexandra. - Em breve, espero.
        - Com a breca! - exclamou Alexandra, quando se encontraram de novo ss. - Quem ?
        - Um amigo de Nita Ludwig. Conheci-o numa reunio em casa dela.
        - Sofro da vista ou  to atraente como me pareceu?
        - Embora no seja o meu tipo, as mulheres acham-no irresistvel.
        - No me admira nada.  casado?
        - Penso que no, mas no deve ser por falta de interessadas. Alm disso, tem dinheiro s montanhas. Pode mesmo dizer-se que no lhe falta nada, atrativos 
fsicos, fortuna e posio social.
        No final da refeio, quando Eva pediu a conta, o empregado informou que fora paga por Mr. Mellis.
        Alexandra no conseguia parar de pensar em George Mellis.
        Segunda-feira  tarde, Eva telefonou-lhe para anunciar:
        - Parece que obtiveste xito. George Mellis ligou para c, a fim de me pedir o teu nmero. Posso dar-lho?
        - Se tens a certeza de que no te interessa... - articulou Alexandra, surpreendida ao verificar que sorria de satisfao.
        - J te disse que no  o meu tipo.
        - Ento, podes dar-lhe o nmero do meu telefone.
        Trocaram impresses por mais uns minutos e quando pousou o auscultador, Eva voltou-se para Mellis, deitado na cama a seu lado.
        - A senhora disse que sim.
        - Quando telefono?
        - Quando eu te indicar.
        Alexandra esforava-se por esquecer que George Mellis lhe telefonaria, mas obtinha um resultado contraproducente, pois ainda pensava mais nisso. Nunca se 
sentira particularmente atrada por jovens bem-parecidos, porque descobrira que, na sua maioria, no passavam de presunosos. No entanto, este parecia diferente. 
Irradiava uma qualidade dominadora. O mero contato da mo bastara para a excitar. "s parva. S viste o homem durante dois minutos!"
        Mellis no telefonou naquela semana, e as emoes dela passaram da impacincia  frustrao e depois  clera. "Que v para o diabo! Deve ter encontrado 
outra. Melhor!"
        Quando o telefone tocou finalmente, na semana seguinte, e escutou a voz grave e rouca, a irritao dissipou-se como que por artes mgicas.
        - Fala George Mellis. Vimo-nos o outro dia em que voc almoava com sua irm. Ela disse que no se importava que eu lhe telefonasse.
        - De fato, referiu-se a essa possibilidade - admitiu Alexandra, com simulada naturalidade. - Antes que me esquea: obrigada pelo almoo.
        - Voc merece um autntico festim. Merece mesmo um monumento. Aceitava, se a convidasse para jantar, uma noite destas?
        - Bem... acho que sim. Com todo o gosto.
        - timo. Se recusasse, matava-me.
        - No faa isso, por favor. Detesto comer s.
        - Eu tambm. Conheo um restaurante discreto na Mul-berry Street chamado Matoon's.
        -  o meu favorito!
        Mellis lanou um olhadela a Eva e sorriu, admirando a sua percia na preparao do cenrio. Com efeito, revelara-lhe todas as predilees e antipatias da 
irm.
        Quando ele pousou o auscultador, pensou: "Comeou!"
        Foi o sero mais encantador na vida de Alexandra. Uma hora antes de Mellis se apresentar, recebeu uma dzia de pequenos bales cor-de-rosa presos a uma orqudea. 
Ela receava que a imaginao a levasse a esperar demasiado, mas quando o voltou a ver sentiu todas as dvidas esfumarem-se. O poderoso magnetismo tornou a domin-la.
        Uma vez no restaurante, ele perguntou:
        - Quer consultar a ementa, ou no se importa que eu escolha?
        - Confio no seu gosto.
        Mandou servir uma das iguarias preferidas dela, que ficou com a estranha sensao de que lhe lia o pensamento. Quando apareceu a salada e o viu proceder 
 mistura com notvel percia, inquiriu:
        - Voc cozinha?
        -  uma das grandes paixes da minha vida. Ensinou-me minha me, uma cozinheira excepcional.
        - Mantm relaes estreitas com a famlia?
        Ele esboou um sorriso, e Alexandra refletiu que era o mais deslumbrante que jamais observara nos lbios de um homem.
        - Sou grego - declarou Mellis, com simplicidade. - Tenho trs irmos e duas irms mais novos e constitumos um bloco muito unido - o olhar enevoou-se com 
uma expresso de nostalgia. - Quando me separei deles, senti uma das maiores tristezas de sempre. Pediram-me que ficasse, para continuar  testa do negcio, mas 
teve de ser.
        - Porqu?
        - Talvez lhe parea parvoce de minha parte, mas prefiro singrar pelos meus prprios meios. Sempre experimentei dificuldade em aceitar ddivas, e o negcio 
constitui uma ddiva legada por meu av a meu pai. Cedi a minha parte  famlia. De resto - acrescentou baixando a voz -, se continuasse na Grcia, no nos tnhamos 
conhecido.
        - Nunca foi casado? - quis saber Alexandra, sentindo-se corar.
        - No. Costumava ficar noivo uma vez por dia, mas mudava sempre de idias. Chame-me bota-de-elstico, se quiser, mas quando me unir a uma mulher ser para 
sempre. Uma basta para mim, desde que seja a que me convm.
        -  uma maneira admirvel de pensar.
        - E voc, alguma vez esteve apaixonada?
        - No.
        - Que infelicidade para algum! Mas que sorte para...
        Naquele momento, o empregado apareceu com a sobremesa. Alexandra ansiava por que Mellis completasse a frase, mas receou insistir.
        Nunca se sentira to  vontade com um homem. George Mellis parecia to profundamente interessado nela que a levou a falar-lhe da infncia e da vida em geral, 
com as preferncias e averses.
        Entretanto, ele orgulhava-se da forma experiente como enfrentava as mulheres. Sabia que as atraentes eram as mais inseguras, pois os homens concentravam-se 
na sua beleza e faziam com que se sentissem mais objetos do que seres humanos. Quando se encontrava com uma delas, nunca aludia aos seus atrativos fsicos. Assim, 
fazia com que se julgasse admirada pelo seu esprito e diante de algum que compartilhava dos seus sonhos. Tudo isto constitua uma experincia extraordinria para 
Alexandra, que se referiu a Kate e a Eva.
        - Sua irm no vive convosco?
        - No. Quis instalar-se num apartamento independente.
        E ela perguntava a si prpria por que razo Mellis no sentira atrao por Eva. No entanto, qualquer que fosse a causa, congratulava-se com a reao dele. 
Enquanto jantavam, apercebeu-se de que todas as mulheres presentes lanavam olhares furtivos ao seu companheiro, sem que este parecesse preocupar-se com o fato.
        Quando tomavam caf ele sugeriu:
        - H um clube noturno em St. Marks Place, chamado Five Spot, e se gosta de jazz...
        -  onde toca Cecil Taylor!
        - J esteve l? - exclamou, fingindo-se surpreendido.
        - Diversas vezes - Alexandra sorriu, divertida. - Adoro ouvi-lo.  incrvel como partilhamos os mesmos gostos!
        - Parece milagre...
        Depois de escutarem vrias interpretaes ao piano de Cecil Taylor, seguiram para um bar na Bleecker Street, onde os clientes bebiam, comiam pipocas, lanavam 
dardos e ouviam boa msica interpretada por um pianista annimo. Mellis aceitou o desafio de um desconhecido para uma partida de dados e suplantou-o sem dificuldade. 
" um homem que nasceu para vencer...", pensou Alexandra.
        Passava das duas da madrugada quando abandonaram o bar, e ela reconheceu com pesar que o sero se aproximava do fim.
        No Rolls Royce com motorista que alugara, Mellis conservava-se silencioso, limitando-se a contemplar a companheira. A semelhana entre as duas irms era 
invulgar. "Gostava de saber se os corpos tambm se parecem tanto." E imaginava Alexandra na cama com ele, contorcendo-se e uivando de dor.
        - Em que pensa? - acabou ela por perguntar.
        - Se lhe disser, ri-se - murmurou Mellis, desviando os olhos.
        - Prometo que no.
        - No fundo, no a censurava. Devo ser considerado uma espcie de playboy. Conhece o gnero: sempre metido em festas, passeios de iate, etc. - voltou a fit-la. 
-  a nica mulher que podia modificar tudo isso. Para sempre.
        - No... no sei o que dizer - sussurrou Alexandra, sentindo as pulsaes acelerarem-se.
        - No diga nada, por favor.
        Os seus lbios achavam-se muito prximos e ela estava preparada para o que se pudesse seguir. Todavia, ele no deixou transparecer a mnima inteno de passar 
 ofensiva, pois Eva advertira-o com veemncia. "No te aventures de mais, na primeira noite. Se o fizeres, convertes-te em mais um dos numerosos Romeus ansiosos 
por se apoderar de Alexandra e da fortuna. A iniciativa tem de partir dela."
Por conseguinte, limitou-se a pegar-lhe na mo at que o carro se imobilizou com suavidade diante da manso Blackwell.
        Apearam-se e, antes de se despedirem  entrada, Alexandra declarou:
        - No tenho palavras para exprimir o prazer que estas poucas horas juntos me proporcionaram.
        - Para mim, foram mgicas.
        - Boa noite, George.
        E ela desapareceu no interior da vasta residncia, com um sorriso radioso capaz de iluminar toda a rua.
        Quinze minutos mais tarde, o telefone  cabeceira de Alexandra tocou.
        - Sabe o que acabo de fazer? Telefonei  famlia para lhe comunicar que passei o sero com uma mulher deslumbrante. Sonhos felizes, minha bela Alexandra.
        Quando pousou o auscultador, George Mellis refletiu: "Depois de casarmos  que telefonarei  famlia. Dir-lhe-ei ento que se pode lixar com o seu dinheiro!"
        Captulo XXIX



        Alexandra no voltou a ter notcias dele em toda a semana. Cada vez que o telefone tocava, apressava-se a atender, para ficar invariavelmente decepcionada. 
No conseguia imaginar o que sucedera, e revia o memorvel sero com um prazer ofuscado pela nostalgia e a frustrao. " a nica mulher que podia modificar tudo 
isso. Para sempre. Telefonei  famlia para lhe comunicar que passei o sero com uma mulher deslumbrante.."
        E concebia uma srie de explicaes para o silncio.
        Ofendera-o involuntria e inconscientemente.
        Ele gostava demasiado dela, receava apaixonar-se e decidira no a tornar ver.
        Chegara  concluso de que no era o seu tipo.
        Sofrera um acidente horrvel e jazia em coma num hospital.
        Morrera.
        Por fim, incapaz de conter a impacincia, telefonou a Eva e comeou por abordar temas banais, antes de perguntar com ansiedade mal dissimulada:
        - Soubeste alguma coisa de George Mellis, ultimamente?
        - No. Julgava que te ia telefonar para jantarem juntos.
        - Sim, fomos jantar... a semana passada.
        - E no voltaste a saber dele?
        - No.
        - Deve estar muito ocupado.
        -  provvel - admitiu Alexandra, ao mesmo tempo que pensava: "Ningum est ocupado a esse ponto."
        - No lhe ligues - volveu Eva. - Gostava que conhecesses um canadiano muito atraente que me apresentaram h dias.  dono de uma companhia de aviao e...
        Quando finalmente cortou a ligao, reclinou-se na poltrona com um sorriso de satisfao. Lamentava que a av no pudesse ver como planejara tudo de forma 
impecvel.
        - Que mosca lhe mordeu? - perguntou Alice Koppel.
        - Desculpe - replicou Alexandra.
        De fato dirigia-se a todos com brusquido, naquela manh. Haviam-se escoado duas semanas desde que jantara com George Mellis e sentia-se furiosa. No com 
ele, mas consigo prpria, por no conseguir esquec-lo. No fundo, o rapaz no lhe devia nada. Eram praticamente dois estranhos que haviam passado um sero juntos, 
e ela comportava-se como se contasse com o casamento como corolrio lgico. George Mellis podia obter qualquer mulher que quisesse. Porque se preocuparia com ela?
        A prpria av notou a fase de irritabilidade que atravessava e terminou por perguntar:
        - Que tens, minha filha? Obrigam-te a trabalhar de mais na agncia?
        - No, av.  que... no tenho dormido bem ultimamente.
        E quando dormia acudiam-lhe sonhos erticos com ele. "Demnios o levem!" Lamentava que Eva os tivesse apresentado.
        O telefonema foi recebido no escritrio na tarde seguinte:
        - Alex? Fala George Mellis - informou ele desnecessariamente, pois a voz grave e rouca era inconfundvel aos ouvidos de Alexandra. - Desculpe no ter falado 
antes, mas acabo de regressar de Atenas.
        - Esteve em Atenas? - articulou ela, sentindo as esperanas reacenderem-se.
        - Recorda-se da noite em que jantamos juntos? Na manh seguinte, Steve, um dos meus irmos, telefonou-me para comunicar uma notcia desagradvel. Meu pai 
sofrera um ataque cardaco.
        - Meu Deus! - acudia-lhe um remorso quase insustentvel, por haver duvidado dele. - Como se encontra?
        - Vai recompor-se, felizmente. Pediu-me que regressasse  Grcia, para dirigir o negcio da famlia.
        - Tenciona faz-lo? - perguntou, contendo o alento.
        - No. Compreendi que o meu lugar  aqui. No passa um dia ou uma hora sem que pense em si. Quando a posso ver?
        - No tenho qualquer compromisso para esta noite. Mellis sentiu-se quase tentado a indicar outro dos restaurantes preferidos de Alexandra, mas conteve-se 
a tempo e proferiu:
        - timo. Onde quer ir jantar?
        - -me indiferente. E se for em minha casa?
        - Isso, no - ele ainda no se considerava preparado para enfrentar Kate. "Evita encontrar-te com minha av, por enquanto.  o teu maior obstculo." - Irei 
busc-la s oito.
        Ela pousou o auscultador, beijou Alice Koppel, Vince Bar-nes e Marty Bergheimer e anunciou:
        - Vou ao cabeleireiro. At amanh. Acompanharam-na com a vista, perplexos, e Alice Koppel afirmou:
        -  um homem.
        Jantaram no MaxwelTs Plum, onde um empregado de ar solene os conduziu  sala no primeiro piso, depois de atravessarem o concorrido bar em forma de ferradura.
        - Pensou em mim na minha ausncia? - perguntou Mellis, depois de escolherem a ementa.
        - Sim - Alexandra decidira que tinha de usar da mxima sinceridade com aquele homem to aberto e vulnervel. - Cheguei a recear que lhe tivesse acontecido 
alguma coisa. Se no telefonasse, duvido que resistisse mais um dia  incerteza.
        "Eva acertou em cheio. Recomendou-me calma e para no telefonar at que ela dissesse." Invadia-o pela primeira vez a convico de que o plano resultaria. 
At ento, deixara-o pairar na periferia do esprito, acarinhando a idia de vir a controlar a incrvel fortuna Blackwell, sem se atrever a aceit-la como um fato 
inevitvel. Agora, porm, contemplando Alexandra sentada na sua frente, os olhos inundados de adorao, reconhecia que tudo se desenrolava no sentido do xito final. 
A rapariga achava-se praticamente em seu poder, o que completava a primeira etapa do plano. Os que se seguiam podiam revestir-se de perigo, mas, com a ajuda de Eva, 
havia de os superar.
        "Estamos metidos nisto juntos, at ao fim, George, e partilharemos tudo em partes iguais."
        No entanto, Mellis no acreditava em sociedades. Quando obtivesse o que lhe interessava e eliminasse Alexandra, ocupar-se-ia de Eva, perspectiva que lhe 
infundia um prazer especial.
        - De que sorri? - quis saber ela.
        - Pensava em como  agradvel estarmos aqui juntos - murmurou ele, acariciando-lhe a mo sobre a mesa. Em seguida, procurou na algibeira e extraiu uma pequena 
caixa oblonga. - Trouxe-lhe uma recordao da Grcia.
        - Oh, George...
        - Veja o que ...
        - Que maravilha! - murmurou Alexandra, contemplando o colar de brilhantes que ele roubara a Eva.
        " um objeto que no oferece perigo", afirmara esta ltima. "Ela nunca o viu."
        Mellis interpretou corretamente a expresso que lhe observou no olhar. Com efeito, vira-a nos de muitas mulheres: bonitas e feias, ricas e pobres. Utilizara-as 
para os seus fins, e de uma maneira ou de outra, haviam-lhe dado alguma coisa. Todavia Alexandra proporcionar-lhe-ia muito mais do que todas as outras juntas.
        - Que quer fazer, aps o jantar? - perguntou, numa inflexo que constitua uma sugesto inequvoca.
        - Estar consigo - foi a resposta sem a mnima hesitao. George Mellis tinha todos os motivos para se orgulhar do seu apartamento, decorado luxuosamente 
por amantes gratos - homens e mulheres -, que haviam tentado comprar-lhe o afeto com ofertas dispendiosas, e conseguido, sempre temporariamente.
        -  encantador - admitiu Alexandra, olhando em volta.
        Ele beijou-a com suavidade e depois com maior sofreguido, enquanto ela quase no se dava conta de que a conduzia para o quarto, no centro do qual se erguia 
uma ampla cama de casal.
        - No estejas nervosa - sussurrou, principiando a despi-la.
        Entretanto, conservava bem presentes as advertncias de Eva. "Domina-te. Se a magoares e ela descobre o porco que s, no a voltas a ver. Reserva os punhos 
para as tuas prostitutas e rapazinhos bonitos."
        Nessa conformidade, terminou de a despir, desembaraou-se por seu turno da roupa apressadamente e deitaram-se.
        Os minutos que se seguiram foram verdadeiramente celestiais para Alexandra e um fardo quase insustentvel para Mellis, o qual continha a custo o desejo de 
a obrigar a voltar-se para lhe introduzir o pnis no nus.
        Em todas as ligaes amorosas h mal-entendidos, cenas de cime e pequenas desavenas, mas no no romance entre eles. Graas aos conselhos meticulosos de 
Eva, Mellis conseguia explorar todas as emoes de Alexandra da melhor maneira.
Havia determinadas reas do corpo dela que lhe interessavam mais, mas necessitava de usar das maiores precaues. A altas horas da noite, visitava bares suspeitos 
e discotecas, onde se lhe deparavam vivas famintas de amor, prostitutas vidas de dinheiro e rapazes condescendentes, que conduzia a hotis sombrios. Nunca praticava 
os seus atos srdidos duas vezes no mesmo lugar, nem seria acolhido com satisfao, pois os seus parceiros sexuais costumavam aparecer inconscientes, com os corpos 
maltratados e por vezes cobertos de queimaduras de cigarro.
        Mellis evitava os masoquistas. Esses gozavam com a dor, o que o privava de sentir prazer. Ao invs, gostava de os ouvir gritar e implorar misericrdia, como 
fora obrigado a fazer pelo pai, em criana. O castigo pelas infraes mais insignificantes consistia em espancamentos que lhe provocavam a inconscincia. Aos oito 
anos, o progenitor surpreendera-o com um garoto da vizinhana, ambos desnudos, e, depois de lhe bater at que o sangue lhe brotara do nariz e dos ouvidos, aproximara-lhe 
a ponta de um cigarro aceso do pnis. A queimadura sarara com o tempo, mas a cicatriz ntima perdurara.
        George Mellis possua a natureza selvagem e arrebatada dos seus antepassados helnicos. No suportava a idia de ser dominado por algum, e sujeitava-se 
 pungente humilhao que Eva Blackwell lhe infligia apenas porque necessitava dela. Quando tivesse a fortuna em seu poder, tencionava castig-la at que suplicasse 
que a matasse. Conhec-la fora a ocorrncia mais afortunada que se lhe poderia deparar. "Afortunada para mim", cismava ele. "Para ela, foi infortunada."
        Alexandra nunca parava de se surpreender com a facilidade com que Mellis lhe adivinhava as preferncias em matrias to diferentes como flores, discos e 
livros. Quando visitavam um museu, ele entusiasmava-se com as mesmas telas de que ela gostava. Por mais que se esforasse em procurar-lhe um ponto fraco, um defeito, 
no conseguia. Era perfeito. O fato obrigava-a a ansiar cada vez mais pelo momento em que o apresentaria  av. No obstante, Mellis encontrava sempre um pretexto 
para se esquivar  confrontao.
        - Mas estou certa de que gostars dela, querido! - insistia. - Quero que conhea o homem que amo.
        - No duvido de que se trata de uma excelente senhora - argumentava ele -, mas receio que pense que no sirvo para ti.
        - Que patetice! - a modstia do amante enternecia-a. - A av vai adorar-te!
        - Em breve. Quando eu reunir a coragem suficiente.
        Mellis discutiu o assunto com Eva, que refletiu por uns momentos e decidiu:
        - Est bem. De qualquer modo, o momento crucial  inevitvel, mais cedo ou mais tarde. Mas presta a maior ateno s tuas palavras e gestos. Ela  uma cadela 
muito esperta. No lhe subestimes as faculdades por um segundo que seja. Se desconfia de que te animam intenes materiais, retalha-te o corao e d-o de comer 
aos ces.
        - Porque precisamos dela?
        - Porque, se fizeres alguma coisa que provoque o antagonismo entre as duas, estamos arrumados.
        Alexandra nunca o vira to nervoso como na noite em que se preparavam para jantar com Kate. Entretanto, rezava intimamente para que nada corresse mal, pois 
desejava, mais que qualquer outra coisa no mundo, que a av e Mellis simpatizassem mutuamente.
        Por seu turno, Kate nunca vira a neta to feliz. Alexandra conhecera os jovens mais atraentes e abastados e jamais manifestara interesse por eles. Por conseguinte, 
impunha-se que observasse com ateno o homem que conseguira conquistar o corao da rapariga. Kate dispunha de um faro.especial para detectar caadores de fortunas 
e estava firmemente decidida a evitar que a neta fosse apanhada pela rede de algum.
        Ansiava conhecer George Mellis, porque tinha a vaga impresso de que ele sentia relutncia em a enfrentar e gostava de descobrir o motivo.
        Ouviu a campainha da porta e, no minuto seguinte, Alexandra entrou na sala, dando a mo a um desconhecido classicamente bem-parecido.
        - Av, apresento-te George Mellis.
        - At que enfim - disse Kate. - Comeava a pensar que me evitava, Mister Mellis.
        - Pelo contrrio, Mistress Blackwell; nem imagina como aguardava este momento.
        Ele preparava-se para acrescentar: "Ainda  mais bonita do que Alex dizia", mas conteve-se. "Tem cautela. Nada de adulaes, que so como uma bandeira vermelha 
para a velhota."
        Nesse momento, surgiu um empregado, que preparou bebidas e se retirou discretamente.
        - Sente-se, Mister Mellis.
        - Obrigado.
        Alexandra instalou-se ao lado dele no sof, diante da av, enquanto esta prosseguia:
        - Sei que vocs se encontram com frequncia. 
        - Para profundo prazer meu.
        - Minha neta diz que trabalha numa firma de corretagem - volveu, sem o perder de vista por um instante.
        -  exato.
        - Para ser franca, parece-me estranho que esteja empregado, quando podia dirigir uma empresa lucrativa.
        - J te expliquei, av...
        - Quero ouvi-lo dos lbios de Mister Mellis.
        "Acima de tudo, s delicado. No a antagonizes. Se deixares transparecer o menor sinal de fraqueza, ela reduz-te a farripas."
        - No tenho o hbito de discutir a minha vida particular... - e ele hesitou, como se procurasse tomar uma deciso. - No entanto, dadas as circunstncias... 
- encarou Kate com firmeza e continuou: - Sou um homem muito independente. Nunca aceito caridade. Se tivesse fundado a Mellis and Company, dirigia-a com a maior 
satisfao. Mas o fundador foi o meu av, que a converteu num negcio muito lucrativo para meu pai. A minha colaborao no  necessria. Meus trs irmos possuem 
competncia suficiente para orientar as operaes. Prefiro trabalhar por conta de outrem, at encontrar algo que possa construir e proporcionar-me orgulho.
Kate inclinou a cabea com lentido. O homem no correspondia de modo algum s suas previses mais tenebrosas. Esperara que se lhe deparasse um playboy, um caador 
de fortunas daqueles que lhe perseguiam as netas desde a adolescncia. O que se encontrava na sua frente parecia diferente. No obstante, existia nele qualquer coisa 
de inquietante que no conseguia definir. Na realidade, era quase demasiado perfeito.
        - Sei que a sua famlia  abastada - observou, aps uma pausa.
        "Basta que acredite que s podre de rico e amas Alex com loucura. S simptico. Domina o temperamento turbulento, e podemos cantar vitria."
        - O dinheiro representa uma necessidade, sem dvida. Em todo o caso, h centenas de outras coisas que me interessam mais.
        Kate informara-se acerca da situao da Mellis and Company e, segundo o relatrio da Dun & Bradstreet, o seu ativo excedia os trinta milhes de dlares.
        - Mantm relaes estreitas com a famlia, Mister Mellis?
        - Talvez de mais - e o semblante dele iluminou-se. - Segundo um velho adgio, quando um de ns se corta num dedo, todos sangramos. Mantemo-nos em contato 
permanentemente.
        Na verdade, havia mais de trs anos que no trocava uma palavra com qualquer familiar.
        - Sou partidria das famlias unidas - disse Kate, com um movimento de cabea de aprovao.
        Desviou os olhos para a neta e descortinou-lhe uma expresso de venerao no olhar. Por um instante fugaz, pensou nela prpria e em David nos tempos remotos 
em que se amavam profundamente.
        Interrompeu-lhe as reflexes momentneas a entrada do mordomo, que anunciou:
        - O jantar est pronto, Mistress Blackwell.
        A conversa  mesa pareceu mais informal, mas as perguntas de Kate eram incisivas, e Mellis achava-se preparado para a mais importante, quando surgiu.
        - Gosta de crianas?
        "Ela est desesperada por um neto... Deseja-o mais do que tudo o resto no mundo"
        - Se gosto de crianas? - e o interpelado exibiu um ar surpreendido. - Que  um homem sem filhos ou filhas? Quando casar, manterei a minha pobre esposa muito 
ocupada. Na Grcia, o valor de um indivduo mede-se pelo nmero de descendentes.
        "Parece sincero", pensou Kate. "Mas todo o cuidado  pouco. Amanh, incumbirei Brad Rogers de lhe investigar as finanas pessoais."
        Antes de se deitar, Alexandra telefonou  irm, a quem prevenira da visita de George Mellis.
        - Fico ansiosa por saber o que se passou - declarara Eva. - Liga para c assim que ele sair. Quero um relatrio minucioso.
        E agora Alexandra informava!
        - Penso que a av gostou muito dele.
        - Que disse? - insistiu a outra, experimentando um frisson de triunfo.
        - Fez-lhe uma infinidade de perguntas, mas George portou-se admiravelmente.
        "Ento, sempre prestara ateno s recomendaes dela."
        - Vo casar?
        - Bem, ele ainda no falou nisso, mas creio que o far.
        - Achas que a av no se opor?
        - Estou quase certa disso. Vai investigar as finanas pessoais dele, mas por a no haver problema.
        Eva sentiu um abalo inesperado, enquanto a irm acrescentava:
        - Sabes como ela gosta de tomar todas as precaues.
        -  verdade - assentiu distraidamente. Estavam perdidos, a menos que lhe ocorresse uma soluo sem demora. - Vai-me informando do que houver.
        - Est descansada. Boa noite.
        Pousou o auscultador e voltou a levant-lo com prontido, a fim de marcar o nmero de George Mellis, mas ainda no chegara a casa. Efetuou tentativas cada 
dez minutos, at que ele atendeu finalmente.
        - Podes arranjar um milho de dlares rapidamente? - perguntou ela.
        - De que ests para a a falar?
        - Kate vai investigar as tuas finanas.
        - Sabe o que a minha famlia possui.
        - Refiro-me  tua pessoa e no  famlia.
        Seguiu-se um silncio momentneo, at que Mellis articulou:
        - Onde queres que v buscar uma quantia dessas?
        - Tenho uma idia - murmurou Eva.
        Quando entrou no seu gabinete, na manh seguinte, Kate indicou  recepcionista:
        - Diga a Brad Rogers que investigue as finanas pessoais de George Mellis, empregado na Hanson and Hanson.
        - Mister Rogers teve de se ausentar da cidade e s regressa amanh, Mistress Blackwell. Pode aguardar ou?...
        - No  sangria desatada. Fica para amanh.
        George Mellis encontrava-se sentado  sua secretria, nos escritrios da firma de corretagem Hanson and Hanson. A Bolsa achava-se em plena atividade e a 
vasta sala era um pandemnio de vozes. A sede contava com duzentos e vinte e cinco funcionrios: corretores, analistas, contabilistas e representantes de clientes, 
os quais trabalhavam a uma velocidade febril. Exceto Mellis, petrificado na secretria, dominado pelo pnico. O que se preparava para fazer valer-lhe-ia longa permanncia 
na priso, se falhasse.
        - No atende o telefone?
        Um dos scios da firma surgira na sua frente e ele apercebeu-se de que a campainha tocava com insistncia. Impunha-se que agisse com naturalidade e no fizesse 
coisa alguma suscetvel de despertar suspeitas.
        - George Mellis - proferiu para o bocal, ao mesmo tempo que dirigia um sorriso tranquilizador ao homem.
        Passou o resto da manh recebendo indicaes para comprar e vender aes, mas o seu esprito concentrava-se no plano de Eva para roubar um milho de dlares. 
" muito simples, George. Basta apoderares-te de alguns certificados de ttulos por uma noite. Poders restitu-los de manh, sem que algum se aperceba".
Todas as firmas de corretagem possuem aes e ttulos no valor de milhes de dlares guardados em cofres-fortes, como uma medida de convenincia para os clientes. 
Alguns dos certificados de aes ostentam o nome do detentor, mas a esmagadora maioria contm um nmero em cdigo da CMISU - Comisso dos Mtodos de Identificao 
de Segurana Uniforme -, que identifica o proprietrio. Esses certificados no so negociveis, mas George Mellis no pretendia troc-los pelo seu valor. Na Hanson 
and Hanson, as aes eram guardadas num cofre-forte situado no stimo piso, numa rea de segurana vigiada por um polcia armado diante de uma porta que s se podia 
abrir por meio de um retngulo de acesso de plstico codificado. Ora, embora Mellis no possusse um desses retngulos, conhecia algum que lhe poderia "emprestar".
        Helen Thatcher era uma viva solitria que j singrava na casa dos quarenta. No entanto, tinha feies atraentes e corpo razoavelmente torneado, alm do 
que se podia considerar uma cozinheira excelente. Estivera casada vinte e trs anos e a morte do marido deixara um vazio na sua vida. Por outras palavras, necessitava 
de um homem que lhe prestasse assistncia. Todavia, o seu problema consistia em que a maioria dos que trabalhavam na Hanson and Hanson eram mais novos, pelo que 
ningum a convidava para sair.
        () seu local de trabalho situava-se no departamento de contabilidade, no piso superior ao de George Mellis, que ela classificara como o melhor substituto 
para o extinto companheiro, desde a primeira vez que o vira. Convidara-o algumas vezes para um jantar caseiro e deixara transparecer que as suas atenes no se 
cingiriam ao campo da culinria, se ele estivesse interessado. Contudo, at agora, Mellis arranjara sempre uma desculpa para se esquivar s atividades de alcova 
com a colega.
        Naquela manh, quando o telefone tocou e Helen levantou o auscultador, escutou a voz que lhe provocava vibraes especiais.
        - Fala George.
        - Ol, George! Em que lhe posso ser ltil?
        - Tenho uma pequena surpresa para si. Pode chegar c abaixo?
        - Agora?
        - Sim.
        -  que estou a meio de...
        - Se tem muito que fazer, fica para outra ocasio.
        - No, no. Deso j.
        Ignorando o telefone, que voltou a tocar mal cortou a ligao, ele pegou num mao de papis e encaminhou-se para o setor dos elevadores. Uma vez a, olhou 
em volta, para se certificar de que ningum o observava, e enveredou pela escada. Quando alcanou o piso de cima, espreitou para verificar se Helen j sara e entrou 
na sala, como se tivesse assuntos a tratar l. Se o interceptassem... Mas no podia perder tempo a pensar nisso e apressou-se a abrir a gaveta do meio da secretria, 
onde sabia que ela guardava o ambicioso retngulo de plstico. F-lo desaparecer na algibeira com prontido e regressou apressadamente ao ponto de partida.
        - Desculpe - proferiu, ao ver que Helen o esperava, como previra. - O chefe chamou-me para um assunto urgente.
        - No tem importncia. Qual  a surpresa?
        - Um passarinho segredou-me que faz anos hoje, e queria lev-la a almoar.
        -  muito gentil - e Mellis viu que ela travava breve luta ntima para decidir se devia ou no esclarecer que no era o dia do seu aniversrio. - Aceito 
com o maior prazer.
        - Nesse caso, encontramo-nos no Tony's,  uma.
        O convite podia perfeitamente ter sido formulado pelo telefone, mas Helen Thatcher estava demasiado excitada para se preocupar com semelhante pormenor.
        Mellis entrou em ao no momento em que ela se afastou, pois tinha muito que fazer antes de repor o retngulo de plstico no lugar donde o tirara. Meteu-se 
no elevador, at ao stimo piso, e dirigiu-se  rea de segurana, onde se encontrava o guarda diante da porta gradeada. Com a maior naturalidade, introduziu o retngulo 
na ranhura e abriu. No instante em que entrava, o polcia observou:
        - No me recordo de o ver antes.
        -  natural - e o corao de Mellis comeou a palpitar mais depressa. - No costumo frequentar estas paragens. Um dos meus clientes decidiu de repente que 
queria ver os seus certificados de aes e obrigou-me a vir busc-los. Oxal a operao no me tome toda a tarde.
        - Felicidades - replicou o outro, com um sorriso.
        O interior do cofre-forte era de beto armado e media dez metros por cinco. Sem hesitar, Mellis aproximou-se das gavetas  prova de fogo que continham as 
aes e abriu uma. O nmero de ttulos que cada certificado representava achava-se inscrito na parte anterior e variava de um a cem mil. Ele esquadrinhou-as com 
rapidez e eficincia, escolhendo vrias, de diferentes companhias, at perfazer o valor de um milho de dlares. Em seguida, guardou-as na algibeira interior do 
casaco e moveu-se para a sada.
        - Afinal, foi rpido - comentou o guarda.
        - Os computadores forneceram-me nmeros errados. Vou ter de desfazer a confuso amanh.
        - Desconfio que os computadores atrapalham mais do que ajudam.
        Quando regressou  sua secretria, Mellis descobriu que transpirava abundantemente. "At aqui, tudo bem", pensou, pegando no telefone, a fim de contatar 
Alexandra.
        - Precisava de falar contigo e tua av, esta noite, querida.
        - Julgava que tinhas uma reunio de trabalho.
        - Pois tinha, mas cancelei-a. O que pretendo comunicar-lhes reveste-se da maior importncia.
        s treze horas em ponto, ele voltava a colocar o retngulo de plstico na gaveta da secretria de Helen Thatcher, enquanto esta aguardava no restaurante. 
Por sua vontade, t-lo-ia conservado em seu poder, mas sabia que todos os que no fossem entregues no final de cada dia de trabalho perderiam a validade na manh 
seguinte e o computador no os aceitaria. s 13.10 horas, sentava-se  mesa do restaurante. A meio da refeio pegou na mo de Helen e murmurou:
        - Havemos de fazer isto mais vezes. Est livre amanh? 
        - Sem dvida, George!
        Quando abandonou o escritrio, naquela tarde, George Mellis levava consigo certificados de aes no valor de um milho de dlares.
        Apresentou-se na manso Blackwell s sete exatas e o mordomo conduziu-o  sala, onde Kate e Alexandra o aguardavam.
        - Boa noite - principiou. - Espero no vir incomodar, mas precisava de falar com ambas. - e voltando-se para Kate. - O meu gesto poder parecer fora de moda, 
Mistress Blackwell, mas peo-lhe autorizao para desposar sua neta. Amo Alexandra e creio que ela tambm me tem afeto. Apesar disso, gostaramos de contar com a 
sua aprovao - levou a mo  algibeira do casaco, extraiu os certificados de aes e colocou-os em cima da mesa diante dela. - Ofereo-lhe um milho de dlares 
como prenda de casamento. Assim, no necessitaremos do seu dinheiro. Apenas carecemos da sua bno.
        Kate baixou os olhos para os certificados e reconheceu os nomes de todas as companhias neles mencionados. Entretanto, Alexandra acercou-se de Mellis, devorando-o 
com os olhos brilhantes de alegria.
        - Que dizes, av?
        Esta contemplou-os em silncio por um momento e reconheceu que no se devia opor aos seus desgnios.
        - Tm a minha bno - declarou por fim, refletindo que no podia deixar de os invejar.
        Ele exibiu um sorriso cativante e aproximou-se dela.
        - Permite-me? - perguntou, e beijou-a na face.
        Durante as duas horas imediatas, trocaram impresses sobre o casamento, e Alexandra advertiu:
        - No quero uma cerimnia pomposa, av. No concordas, George? 
        - Sem dvida. O amor  um assunto privado. 
         Por ltimo, decidiram que a unio se realizaria na maior intimidade, presidida por um magistrado.
        - Seu pai vir? - quis saber Kate.
        - Ningum o conseguiria impedir - afirmou Mellis. - Ele e os meus cinco irmos e irms.
        - Estou ansiosa por conhec-los.
        - Creio que gostars deles.
        Ela sentia-se impressionada com a situao e congratulava-se sobretudo pela visvel felicidade da neta, que encontrara um homem profundamente apaixonado. 
"Tenho de me lembrar de recomendar a Brad que j no precisa investigar as finanas do rapaz."
        Quando se preparava para sair, e numa altura em que Kate j recolhera ao quarto, Mellis observou com aparente naturalidade:
        - No me parece conveniente deixar aqui aes no valor de um milho de dlares. Vou lev-las para o meu cofre, at ver.
        - Boa idia - aprovou Alexandra.
        Assim, ele voltou a guard-las na algibeira e retirou-se.
        Na manh seguinte, repetiu o processo com Helen Thatcher. Enquanto ela descia ao seu encontro ("Tenho uma coisa para si"), ele tornava a apoderar-se do retngulo 
de plstico. Depois, ofereceu-lhe um cachecol de seda ("uma prenda de anos atrasada"), e confirmou o encontro para almoar. Desta vez, o ingresso no cofre-forte 
pareceu mais fcil. Restituiu os certificados ao lugar primitivo, voltou a colocar o retngulo de plstico na gaveta da secretria e reuniu-se a Helen num restaurante 
das proximidades.
        - Porque no jantamos em minha casa, esta noite? - sugeriu ela, antes de se separarem.
        - Receio que seja impossvel. Vou casar.
        Trs dias antes do casamento, Mellis apresentou-se na manso Blackwell, o rosto alterado por uma expresso de pesar.
        - Acabo de receber uma notcia terrvel. Meu pai sofreu novo ataque cardaco.
        - Lastimo muito! - exclamou Kate. - Vai-se recompor?
        Contatei a famlia pelo telefone, vrias vezes, durante a noite. A concluso a que se chegou  que se h-de restabelecer, mas no poder assistir, ao casamento.
        - Podamos ir a Atenas na lua-de-mel e visit-lo - aventurou Alexandra.
        - Tenho outros planos, matia mou - murmurou Mellis, acariciando-lhe a cabea. - A famlia no intervm neles.
        A cerimnia nupcial foi celebrada na ampla sala da manso Blackwell, com a presena de cerca de uma dezena de convidados, entre os quais Vince Barnes, Alice 
Koppel e Marty Bergheimer. Alexandra suplicara  av que permitisse a comparncia de Eva, mas Kate mostrara-se intransigente.
        - Tua irm jamais ser bem-vinda a esta casa.
        - s cruel, av - volveu a rapariga, de olhos midos. - Estimo as duas. No lhe podes perdoar?
        Por um instante, Kate sentiu-se tentada a esquecer a deslealdade da neta, mas conteve-se a tempo.
        - Procedo como me parece melhor para todos.
        Um fotgrafo registrou o acontecimento para a posteridade, e ela ouviu Mellis recomendar ao homem que tirasse mais algumas cpias para enviar  famlia. 
"V-se que sente profundo afeto pelos pais e pelos irmos", pensou com satisfao.
        Aps o tradicional corte do bolo, Mellis murmurou ao ouvido de Alexandra:
        - Vou ter de me ausentar por um par de horas.
        - Aconteceu alguma coisa?
        - Que idia! Simplesmente, a nica maneira de convencer os meus chefes a dispensarem-me para casar foi com a promessa de terminar um trabalho que deixei 
em suspenso. Regressarei muito a tempo de seguirmos no avio. S parte s cinco, como sabes.
        - Est bem, mas despacha-te, por favor - e ela esboou um plido sorriso. - No quero ter uma lua-de-mel sem ti.
        Quando ele entrou no apartamento de Eva, viu-a envolta num neglige translcido.
        - Divertiste-te muito no teu casamento, querido?
        - Sim, obrigado. Foi uma cerimnia ntima, mas elegante. Decorreu tudo na perfeio.
        - Sabes porqu? Por minha causa. Nunca te esqueas disto. Mellis olhou-a pensativamente por um momento e assentiu
        - No te preocupes.
        - Somos cmplices at ao fim.
        - Com certeza.
        - Com que ento ests casado com a minha irmzinha!
        - Pois estou, e tenho de regressar -: anunciou, consultando o relgio.
        - Ainda no.
        - Porqu?
        - Porque primeiro vais fazer amor comigo. Quero fornicar com o meu cunhado.



























        Captulo XXX



        Eva planejara a lua-de-mel minuciosamente e comentara:
        -  dispendiosa, mas deves armar em mos largas.
        Para o efeito, vendeu trs jias oferecidas por um admirador ardente e entregou o dinheiro a Mellis, que se mostrou reconhecido.
        - Agradeo-te a ateno.
        - Hei-de recuperar tudo isso com largos juros.
        A lua-de-mel atingiu quase a perfeio. Instalaram-se num hotel sobranceiro  baa Montego, na parte norte da Jamaica, de onde partiam para numerosas excurses. 
Alexandra fazia tudo o que lhe ocorria para agradar ao marido e congratulava-se profundamente quando o ouvia soltar gemidos de prazer no clmax das suas relaes 
entre os lenis.
        No quinto dia, Mellis informou:
        - Tenho de me deslocar a Kingston, para tratar de um assunto de servio. A firma possui l uma delegao, e pediram-me que fosse recolher uns documentos.
        - Muito bem. Vou contigo.
        - Era timo, querida, mas espero uma chamada da sede. Tens de ficar para tomar nota da mensagem.
        - A telefonista no se pode encarregar disso? - argumentou ela, desapontada.
        -  um assunto importante e podia cometer algum erro.
        - Nesse caso, que remdio - capitulou, com um suspiro. .- Fico.
        Mellis alugou um carro e seguiu para Kingston, onde chegou ao fim da tarde. Assolava-o um desejo excruciante, acumulado ao longo de semanas, que necessitava 
de satisfazer com urgncia. Assim, entrou no primeiro bar que avistou e trocou algumas palavras com o empregado atrs do balco. Transcorridos cinco minutos, acompanhava 
uma prostituta negra de quinze anos a um hotel de m nota. Duas horas mais tarde, retirou-se s, subiu para o carro, e regressou  baa Montego, onde Alexandra lhe 
comunicou que ningum telefonara.
        Na manh seguinte, os jornais de Kingston informavam que um turista espancara e mutilara uma prostituta, a qual se encontrava entre a vida e a morte.
        Na Hanson and Hanson, os membros da direo trocavam impresses sobre George Mellis, pois haviam-se registrado queixas de vrios clientes relacionadas com 
o modo como se ocupava dos seus ttulos confiados  firma. Fora decidido despedi-lo, mas algum levantou uma objeo importante:
        -  casado com uma das netas de Kate Blackwell.
        - Isso confere um aspecto novo  situao. Se consegussemos que ela nos confiasse parte das suas aes...
        A avidez que pairava na atmosfera podia considerar-se quase palpvel e acabou por ficar assente que George Mellis merecia que lhe concedessem uma segunda 
oportunidade.
        Quando Alexandra e Mellis regressaram da lua-de-mel, Kate declarou:
        - Gostava que passassem a viver comigo. A casa  enorme e no tropearamos uns nos outros.
        -  uma grande gentileza de sua parte, Mistress Blackwell - redarguiu ele -, mas julgo prefervel que nos instalemos num apartamento s nosso.
        Ao mesmo tempo, refletia que no fazia a mnima teno de permanecer sob o mesmo teto que a velha, a qual, decerto, no perderia o ensejo de lhes vigiar 
todos os movimentos.
        - Compreendo - aquiesceu Kate. - Nesse caso, deixem-me comprar-lhes uma casa. Ser a minha prenda de casamento.
        - A sua generosidade no tem limites - asseverou Mellis, abraando-a. - Aceitamos com gratido.
        - Obrigada, av - interps Alexandra. - Procuraremos uma perto daqui.
        - Exato - volveu ele. - Queremos estar nas proximidades, para no a perder de vista.  uma mulher muito atraente, sabe!
        Dias depois, descobriram uma casa de trs pisos a meia dzia de quarteires da manso Blackwell, e Mellis preveniu Alexandra:
        - A decorao fica a teu cargo, porque estarei muito ocupado com clientes.
        A verdade era que raramente comparecia no escritrio e consagrava pouco tempo  clientela, pois preenchia os dias com assuntos mais interessantes. A Polcia 
recebia uma srie de relatrios de assaltos a prostitutas, homossexuais e mulheres solitrias que frequentavam bares. As vtimas descreviam o misterioso indivduo 
como sendo atraente e culto, de origem estrangeira, possivelmente latina. No entanto, aquelas que se achavam em condies de consultar as fotografias de cadastrados 
em poder das autoridades no conseguiam proporcionar uma identificao.
        Eva e Mellis almoavam num pequeno restaurante do centro da cidade, onde no corriam o risco de ser reconhecidos.
        - Tens de convencer Alex a redigir um novo testamento, sem o conhecimento de Kate - indicou ela.
        - Como diabo queres que consiga isso?
        - Vou-te explicar, querido...
        Na noite imediata, ele encontrou-se com Alexandra em L Plaisir, um dos locais mais requintados de Nova Iorque, onde apareceu com meia hora de atraso.
        - Desculpa, anjo. Estive no escritrio do meu advogado, e sabes como eles complicam as coisas mais simples.
        - Que foste l fazer?
        - Decidi alterar o testamento. Se me acontecer alguma fatalidade, tudo o que possuo ser teu.
        - No quero que...
        -  pouco, comparado com a fortuna Blackwell, mas chega para que vivas confortavelmente.
        - No fales nisso, por favor.
        - s vezes, o Destino prega-nos partidas inesperadas. Embora no seja agradvel admiti-lo, convm estarmos preparados para semelhantes emergncias.
        Ela conservou-se silenciosa por um momento, imersa em reflexes, e perguntou:
        - No te parece que tambm devia alterar o meu?
        - Para qu? - redarguiu Mellis, mostrando-se surpreendido.
        - s o meu marido. Tudo o que tenho pertence-te.
        - O teu dinheiro no me interessa, Alex.
        - Acredito, querido, mas tens razo. Convm estarmos preparados - e os olhos de Alexandra marejaram-se. - Sinto-me to feliz que no suporto a possibilidade 
de acontecer alguma coisa a qualquer de ns. Amanh mesmo falarei com Brad Rogers.
        - Se preferes assim - e ele encolheu os ombros num gesto de aparente indiferena. - No entanto, julgo conveniente que seja o meu advogado a tratar disso. 
Est familiarizado com a natureza dos meus bens e pode coordenar tudo.
        - Pois sim. A av pensa...
        - No a envolvamos nisto - props com ternura. - Adoro-a, mas penso que devemos manter os nossos assuntos pessoais s para ns.
        - Tens razo, como sempre. No lhe direi nada. Entendes-te com o advogado, para que me receba amanh?
        - Lembra-me para lhe telefonar. E, agora, vamos comer. Que dizes a uns mariscos, como comeo?...
        Uma semana mais tarde, Mellis procurou Eva no seu apartamento.
        - Alex j assinou o novo testamento? - perguntou ela, com ansiedade.
        - Esta manh. Herda a sua parte da companhia dentro de oito dias, no aniversrio.
        Transcorrida mais uma semana, quarenta e nove por cento das aes da Kruger-Brent, Ltd., eram transferidos para Alexandra. Mellis telefonou a Eva para lhe 
comunicar a excelente notcia e ela exclamou:
        - Estupendo! Passa por c logo, para celebrarmos.
        - No posso. Kate promove uma festa em honra de Alex. Seguiram-se uns segundos de silncio, antes da pergunta de Eva:
        - Que servem?
        - Como diabo queres que saiba?
        - Trata de averiguar - e cortou a ligao.
        Quarenta e cinco minutos depois, Mellis voltou a contat-la pelo telefone.
        - No percebo porque te interessa a ementa, uma vez que no foste convidada, mas compe-se de Coquille Saint-Jacques, Chateaubriand, saladas de alface e 
mista, Brie, cappuccino e um bolo de aniversrio, com o gelado favorito de Alex. Ficaste satisfeita?
        - Muito. At logo  noite.
        - Nem pensar. No posso ausentar-me a meio da...
        - H-de ocorrer-te um pretexto - foi a advertncia ameaadora.
        "Raios partam a cadela!" Ele pousou o auscultador e consultou o relgio. Tinha uma entrevista com um cliente importante, ao qual no comparecera por duas 
vezes num lapso de poucos dias, e atrasara-se de novo. Sabia que a direo da Hanson and Hanson no o despedia unicamente em virtude do seu ingresso na famlia Blackwell, 
mas impunha-se que no agravasse demasiado a sua posio. Criara uma imagem para impressionar Alexandra e Kate e impunha-se que nada a destrusse. Alis, em breve 
deixaria de necessitar delas.
        Enviara um convite ao pai, mas o velho nem se dera ao incmodo de responder ou enviar uma palavra de felicitaes. "No quero tornar a ver-te!", afirmara 
no seu ltimo encontro. "Para mim, morreste, ouviste? Morreste!" Pois, aguardava-o uma surpresa. O filho prdigo voltaria a dar sinais de vida.
        A festa do vigsimo segundo aniversrio de Alexandra constituiu um xito extraordinrio. Havia quarenta convidados, e enfrentara uma negativa quando sugerira 
ao marido que chamasse alguns dos seus amigos.
        - A homenageada s tu, querida. Portanto, devem comparecer apenas as pessoas das tuas relaes.
        A realidade era que ele no tinha amigos, na sua qualidade de solitrio, como gostava de se intitular. Aqueles que dependiam de outros no passavam de fracos. 
Quando viu Alexandra apagar as velas do bolo, compreendeu que formulava um desejo ntimo que o envolvia, e refletiu: "Devias desejar antes uma vida mais longa, minha 
menina." No fundo, era forado a admitir que ela apresentava um aspecto deslumbrante. Usava um vestido de chiffon comprido, com sandlias prateadas e um colar de 
brilhantes, oferta da av. As pedras longas, em forma de pra, achavam-se unidas por meio de um cordo de platina e refulgiam  luz das velas.
        Kate contemplava-as e cismava: "Recordo-me do nosso primeiro aniversrio, quando David me colocou ao pescoo e murmurou como me amava."
        Mellis, por seu turno, pensava: "Aquele colar no deve valer menos de cento e cinquenta mil dlares!"
        Entretanto, apercebia-se de que muitas das convidadas lhe sorriam convidativamente e, noutras circunstncias, no hesitaria em tirar partido do fato. Tratava-se, 
contudo, de amigas de Alexandra, que, conquanto talvez no se lhe fossem queixar, decerto recorreriam  Polcia. No, as coisas desenrolavam-se com demasiada suavidade 
para que se expusesse a riscos desnecessrios.
        Quando faltava um minuto para a uma da madrugada, postou-se nas proximidades do telefone e, no momento que tocou, apressou-se a levantar o auscultador.
        - Estou...
        - Mister Mellis?
        - O prprio.
        - Fala do seu servio informativo. Pediu que lhe telefonasse  uma.
        Como Alexandra se achava perto, ele olhou-a, enrugando a fronte numa atitude de apreenso.
        - A que horas ligou ele?
        -  Mister Mellis?
        - Sim.
        - Pediu que...
        - Est bem - assentiu, com resignao. - Diga-lhe que sigo j para o clube Pan Am Clipper - e cortou a ligao com um gesto de enfado.
        - Que se passa, querido? - perguntou Alexandra.
        - Um dos scios da firma segue para Singapura e esqueceu-se de uns documentos importantes em cima da secretria. Tenho de os ir buscar e entregar-lhos, antes 
da partida do avio.
        - Agora? No podem mandar outro?
        - Sou o nico em quem confiam plenamente - e ele suspirou. - At parece que todos os meus colegas so uma corja de incompetentes - e pousando-lhe as mos 
nos ombros: - Lamento imenso, querida. No estragues a festa por minha causa. Prometo voltar o mais depressa possvel.
        Eva abriu a porta a Mellis e proferiu em tom de aprovao:
        - Sempre conseguiste. Arranjas soluo para tudo.
        - No me posso demorar. Alex...
        - Tenho uma surpresa para ti.
        Conduziu-o  pequena sala de jantar, cuja mesa se achava posta para dois, com velas no centro.
        - A que propsito vem isto?
        -  o meu aniversrio.
        - Claro - ele sentiu-se embaraado. - No me lembrei de te trazer uma prenda.
        - Mas trouxeste, querido. Vais entregar-me, mais tarde. Senta-te.
        - Obrigado, mas no sou capaz de comer nada. Acabo de encher o estmago l em casa.
        - Senta-te - insistiu Eva, em inflexo tona.
        Mellis olhou-a em silncio, por um momento, e obedeceu. A refeio consistia exatamente nas mesmas iguarias das do aniversrio de Alexandra, e ela sentou-se 
diante do cmplice, observando-o enquanto impelia a comida, estoicamente, para a garganta.
        - Partilhamos sempre tudo - explicou Eva. - Esta noite, celebramos a mesma data, mas para o ano s uma de ns o far. Chegou a altura de minha irm sofrer 
um acidente. Depois, a avozinha morrer de desgosto. Ser tudo nosso, George. E, agora, se saciaste o apetite, passemos ao quarto, para me dares a prenda de aniversrio.
        Ele receara aquele momento. Apesar de forte e vigoroso, ela dominava-o e fazia-o sentir-se impotente. Obrigou-o a despi-la com lentido e depois retribuiu-lhe 
a gentileza, antes de o excitar com percia, at provocar a ereo.
        - Pronto - e encavalitando-se-lhe em cima, comeou a mover os quadris com lentido. - Que bom... No podes ter um orgasmo, hem? Sabes porqu? Porque s um 
anormal. No gostas de mulheres. S te apetece tortur-las. Adoravas maltratar-me, aposto. Diz que adoravas maltratar-me. 
        - Adorava matar-te.
        - Mas no podes, porque te interessa ficar com a Kruger-Brent tanto como a mim. Nunca me fars mal, porque, se me acontecer alguma coisa, uma pessoa amiga 
entregar  Polcia uma carta que lhe confiei.
        - Isso  bluff.
        - H uma maneira de te certificares.
        De sbito, Mellis compreendeu que ela falava verdade. Nunca conseguiria faz-la desaparecer da sua existncia! Estaria sempre presente para o atormentar, 
escravizar. No podia suportar a idia de permanecer  merc daquela cadela at ao fim dos seus dias. Inesperadamente, algo explodiu no seu ntimo. Uma pelcula 
vermelha ofuscou-lhe a viso e a partir desse momento deixou de ter conscincia do que fazia. Tudo se desenrolou como que ao retardador. Mais tarde, recordou-se 
apenas de afastar Eva de cima dele, abrir-lhe as pernas e obrig-la a soltar gritos de dor. Por fim, a pelcula atenuou-se gradualmente e verificou que ela jazia 
na cama, coberta de sangue. Tinha o nariz esmagado, o corpo sulcado de escoriaes e queimaduras de cigarro e as plpebras inchadas.
        Mellis sacudiu a cabea para desanuviar o esprito e, no momento em que a realidade da situao se lhe apresentou com clareza, foi assolado por pnico intenso. 
No existia explicao possvel para o que acabava de fazer. Comprometera tudo. Tudo!
        - Eva? - proferiu receosamente, inclinando-se para ela.
        - Mdico... - balbuciou a rapariga, entreabrindo uma das plpebras com dificuldade. - Chama... um... mdico - cada palavra constitua uma gota de dor adicional. 
- John... Harley...
        George Mellis limitou-se a pronunciar para o bocal:
        - Pode vir imediatamente? Eva Blackwell sofreu um acidente.
        Quando entrou no quarto, o dr. Harley lanou uma olhadela a Eva,  cama e s paredes manchadas de sangue e balbuciou:
        - Meu Deus! - tomou-lhe o pulso e virou-se para Mellis. - Telefone  Polcia. Diga que precisamos de uma ambulncia.
        - Doutor... - sussurrou ela, por entre a nvoa de dor.
        - Vai ficar boa, no se preocupe - asseverou o mdico, debruando-se sobre a cama. - Assim que der entrada no hospital...
        - Polcia... no...
        - Tenho de comunicar a ocorrncia s autoridades.
        - Polcia... no... - repetiu Eva, pegando-lhe na mo e segurando-a com firmeza.
        - No tente falar - recomendou ele, examinando o malar e o queixo fraturados e as queimaduras de cigarro dispersas pelo corpo.
        No entanto, mau grado as dores excruciantes, ela lutava pela vida.
        - Por favor... Av nunca... perdoaria... Polcia, no... Acidente... Atropelamento e fuga... condutor...
        No havia tempo para discutir, pelo que o dr. Harley se dirigiu ao telefone e discou um nmero. Quando atenderam, identificou-se, comunicou o endereo de 
Eva e acrescentou:
        - Preciso de uma ambulncia imediatamente. Localizem o doutor Keith Webster e peam-lhe que me espere no hospital. Trata-se de uma emergncia. Preparem a 
sala de operaes para utilizao imediata - escutou por uns instantes e concluiu: - Atropelamento, com fuga do condutor - e pousou o auscultador.
        - Obrigado, doutor - articulou Mellis.
        Harley encarou-o com uma expresso de desdm. Apesar de se ter vestido apressadamente, o marido de Alexandra apresentava os ns dos dedos esfolados e as 
mos e rosto com manchas de sangue.
        - No me agradea. Fao-o pelos Blackwell. Mas com uma condio. Que voc prometa consultar um psiquiatra.
        - No necessito de...
        - Nesse caso, vou telefonar  Polcia - e o mdico estendeu a mo para o aparelho. - No pode andar  solta.
        - Um momento! - Mellis hesitou, imerso em reflexes. Deitara tudo a perder, mas agora, miraculosamente, proporcionavam-lhe uma sada possvel. - Est bem. 
Procurarei um psiquiatra.
        O som de uma sirene de ambulncia comeou a ouvir-se ao longe.
        Impeliam-na ao longo de um tnel e luzes coloridas brilhavam com intermitncias. Sentia o corpo leve e pensava: "Posso voar, se quiser." Tentou mover os 
braos, mas uma fora invisvel opunha-se. Abriu os olhos e verificou que se encontrava numa maca, transportada por dois homens ao longo de um corredor branco. "Fao 
parte de uma pea da televiso, mas no me recordo do texto. Onde est o guio?" Quando tornou a descerrar as plpebras, achava-se numa sala espaosa, rodeada por 
vultos de bata branca e mscara.
        - Chamo-me Keith Webster - informou um deles, inclinando-se para ela. - Vou oper-la.
        - No quero ficar feia - murmurou Eva, em tom quase inaudvel. - No me deixe ficar... feia.
        - Nem por sombras - prometeu o cirurgio. - Agora, prepare-se para dormir. Descontraia-se.
        E fez sinal ao anestesista.
        Mellis conseguiu lavar o sangue que o cobria, na casa de banho de Eva, mas soltou uma imprecao quando consultou o relgio e viu que eram trs da madrugada. 
Acalentava a esperana de que Alexandra estivesse a dormir, mas descobriu que o aguardava na sala.
        - Estava to preocupada, querido! Houve algum contratempo?
        - No.
        - Um pouco mais e telefonava  Polcia - e ela abraou-o com ternura. - Receava que te tivesse acontecido alguma coisa horrvel.
        "E no te enganaste", pensou ele.
        - Levaste-lhe os documentos?
        - Documentos? - perguntou, mas, de sbito, compreendeu ao que Alexandra se referia. - Levei, mas foi por um triz.
        - Porque tardaste tanto?
        - A partida do avio foi atrasada e ele reteve-me para trocarmos impresses. Lastimo profundamente, querida.
        - O essencial  no te ter acontecido nada.
        Pensou em Eva, conduzida ao hospital, com vrias fraturas, e ponderou no que sucederia se ela morresse. Prendiam-no por homicdio, sem dvida. Por outro 
lado, todavia, se vivesse, tudo regressaria  situao anterior, e perdoar-lhe-ia, porque necessitava dele.
        Conservou-se acordado o resto da noite, evocando os gritos de Eva, quando lhe suplicara misericrdia. Voltou a sentir-lhe os ossos esmagando-se sob os seus 
punhos e a notar o odor de carne queimada, e nesse momento quase a amou.
        Constituiu um fato afortunado o dr. Harley ter conseguido obter os servios de Keith Webster, pois tratava-se de um dos maiores cirurgies plsticos do mundo. 
As pessoas que acudiam  sua clnica, em Manhattan, pagavam apenas aquilo de que podiam dispor, conscientes de que recebiam uma assistncia igual  de qualquer milionrio. 
Apesar de habituado a enfrentar vtimas de acidentes, ao observar o rosto desfigurado de Eva Blackwell no pde evitar um estremecimento de horror.
        - Quem  o responsvel disto, John?
        - Foi um caso de atropelamento, com fuga do condutor.
        - E, antes de fugir, o homem deteve-se a decorar-lhe o corpo com queimaduras de cigarro? - redarguiu Webster com uma expresso de incredulidade.
        - Preferia no discutir os pormenores. Pode restituir-lhe a forma primitiva?
        -  essa a minha misso. Restituir a forma primitiva.
        Era quase meio-dia quando o cirurgio anunciou finalmente aos seus assistentes:
        - Chegamos ao fim. Levem-na para os cuidados intensivos.  mnima anormalidade, chamem-me.
        A operao prolongara-se por nove horas.
        Eva foi retirada dos cuidados intensivos quarenta e oito horas depois. Mellis no tardou a comparecer no hospital. Precisava de a ver, conversar com ela, 
para se certificar de que no planejava qualquer vingana terrvel contra ele.
        - Sou o advogado de Miss Blackwell - explicou  enfermeira de servio. - Ela pediu-me que viesse.  s um momento.
        - No est autorizada a receber visitas - declarou a mulher.
        Mas observou aquele rapaz to atraente e acrescentou: - Em todo o caso, no vejo inconveniente, desde que seja rpido.
        Eva encontrava-se deitada de costas, envolta em ligaduras, com tubos presos ao corpo como excrescncias obscenas. As nicas reas visveis eram os olhos 
e lbios.
        - Ol, Eva...
        - George... - a sua voz no passava de um vago murmrio, obrigando-o a aproximar-se para ouvir. - Disseste... alguma coisa... a Alex?
        - Claro que no - e Mellis sentou-se na borda da cama. - Vim porque...
        - Eu sei... Continua tudo... como antes.
        - Lamento o que aconteceu - e experimentou um alvio indescritvel. - Palavra de honra que...
        - Manda algum telefonar a Alex... Que lhe diga que me... ausentei por umas semanas.
        - Est bem.
        - Faz-me um favor... - volveu ela, olhando-o fixamente.
        - Os que quiseres.
        - Morre dolorosamente.
        Pouco depois adormeceu. Quando acordou, o dr. Keith Webster encontrava-se  cabeceira da cama.
        - Como se sente? - perguntou com brandura.
        - Muito cansada... Que me encontraram?
        Hesitou antes de responder. As radiografias haviam revelado numerosas fraturas, no s do rosto como por todo o corpo. Por fim, enumerou com simulado desprendimento:
        - Fratura de um malar e do nariz e queixo deslocado, alm de queimaduras de cigarro. Mas no se preocupe, porque compusemos tudo.
        - Queria um espelho.
        - Lamento, mas no h nenhum disponvel.
        Eva s formulou a interrogao seguinte graas a um prodigioso esforo de vontade.
        - Que aspecto terei, quando me tirarem as ligaduras?
        - O mesmo de antes do acidente.
        - No acredito.
        - Ver. Agora, gostava que me descrevesse o que aconteceu. Tenho de enviar um relatrio  Polcia.
        - Fui atropelada por um caminho - declarou, aps um silncio prolongado.
        O dr. Webster perguntava a si prprio como pudera algum tentar destruir aquela frgil beldade, mas h muito que renunciara a ponderar as aberraes da raa 
humana e a sua capacidade para a crueldade.
        - Preciso de um nome - esclareceu. - Quem foi o autor?
        - Mack.
        - E o apelido.
        - Truck.
        Ao mesmo tempo, sentia-se perplexo com a conspirao de silncio. Primeiro John Harley, agora Eva Blackwell.
        - Nos casos de assalto criminoso, a lei obriga-me a apresentar um relatrio s autoridades.
        Ela pegou-lhe na mo e apertou-a, antes de replicar:
        - Se minha av ou a minha irm soubessem, morriam de desgosto. Se informar a polcia, os jornais publicaro a notcia.
        - No posso declarar que se trata de um caso de atropelamento, com fuga do condutor. As senhoras no costumam percorrer as ruas sem a mnima pea de vesturio.
        - Por favor!
        - Bem... - o cirurgio contemplou-a, tomado de profunda compaixo. - Pode ter escorregado e cado na escada de sua casa.
        - Foi exatamente o que aconteceu - murmurou ela, com um plido sorriso.
        - Bem me parecia... - suspirou ele, encolhendo os ombros, resignado.
        O dr. Webster passou a visit-la diariamente, levando-lhe flores e pequenos presentes da loja existente no hospital, e Eva protestava com insistncia:
        - Passo os dias aqui deitada, sem me mexer. Como se explica que ningum faa nada por mim?
        - Tenho a minha colega a trabalhar em si.
        - Qual colega?
        - A Natureza. Debaixo dessas ligaduras assustadoras, est a recuperar admiravelmente.
        O mdico era a sua nica companhia e ela passou a ansiar pelas suas visitas. Apercebia-se do acanhamento que o invadia na sua presena, o que a divertia.
        - Nunca casou? - perguntou, um dia.
        - No.
        - Porqu?
        - No sei. Talvez porque no daria um marido famoso. Chamam-me para emergncias com regularidade.
        - Mas deve ter uma amiguinha...
        - Bem, a verdade... - desta vez, o doutor Webster deixou transparecer embarao.
        - Conte l - insistiu ela, com uma ponta de malcia.
        - No, no tenho.
        - Aposto que as enfermeiras esto loucas por si.
        - Engana-se. Alis, no sou uma pessoa muito romntica.
        "Isso  modstia", pensou. No obstante, sempre que aludia ao cirurgio diante das enfermeiras e internos, referiam-se-lhe como se fosse pouco menos que 
um deus.
        -  um obreiro de milagres - afirmou um deles. - No h nada que no consiga fazer num rosto humano.
        Mencionou a sua obra junto das crianas e de criminosos deformados, mas quando Eva solicitou informaes mais pormenorizadas a Webster, este limitou-se a 
observar:
        - Infelizmente, o mundo avalia as pessoas pelo seu aspecto. Tento valer quelas que nasceram com deficincias fsicas. Isso pode provocar alteraes radicais 
nas suas vidas.
        Ela sentia-se profundamente intrigada. Era bvio que ele no agia assim com os olhos postos no dinheiro ou glria. Podia considerar-se um altrusta absoluto. 
Nunca conhecera um homem assim, e perguntava a si prpria o que o motivaria. Todavia, tratava-se de uma curiosidade ociosa, pois no acalentava o menor interesse 
por Keith Webster, alm daquilo que podia fazer por ela.
        Quinze dias depois de dar entrada no hospital, Eva foi transferida para uma clnica particular nos arredores de Nova Iorque.
        - Estar mais confortvel - assegurou-lhe o cirurgio.
        Ela sabia que o local ficava muito afastado do percurso habitual dele, apesar do que a visitava todos os dias.
        - No tem outros pacientes? acabou por perguntar.
        - Como voc, no.
        Cinco semanas aps o ingresso na clnica, o dr. Webster retirou as ligaduras e, depois de mover a cabea de Eva para ambos os lados, inquiriu:
        - Sente alguma dor?
        - No.
        - E tenso?
        - To-pouco.
        - Traga um espelho - indicou  enfermeira.
        Eva foi assolada por um pavor irresistvel. Ao longo de semanas aparentemente interminveis, desejara ver-se ao espelho e agora, que chegara o momento, hesitava.
        - Tenho medo - confessou, quando o cirurgio lhe estendeu.
        - Encha-se de coragem - foi a recomendao ambgua. Ela respirou fundo e ergueu o espelho  altura do rosto.
        Dera-se um milagre! O semblante no sofrera a mnima alterao. Era exatamente o mesmo. Procurou, em vo, sinais de cicatrizes. Por fim, sentiu os olhos 
umedecerem-se-lhe.
        - Obrigada - sussurrou.
        Inclinou a cabea para dar um beijo no dr. Webster, mas notou os lbios famintos pousados nos seus.
        No entanto, ele endireitou-se com prontido, mais embaraado do que nunca.
        - Alegra-me que esteja satisfeita.
        - Satisfeita! O seu pessoal tem razo.  um obreiro de milagres.
        - No esquea que o material era excelente.





































        Captulo XXXI

     

        George Mellis ficara profundamente abalado com o sucedido. Na verdade, estivera prestes a destruir tudo o que ambicionava. At ento no se apercebera do 
que significava para ele assumir o comando da Kruger-Brent, Ltd. Contentara-se em viver de ofertas de damas solitrias, mas agora casara com uma Blackwell e achava-se 
na iminncia de possuir uma empresa muito mais importante e poderosa do que o pai jamais concebera. Tudo se convertera subitamente numa aspirao irreversvel, pela 
qual no hesitaria em matar.
        Entretanto, empenhava-se em criar a imagem do marido perfeito, passando todo o tempo possvel ao lado de Alexandra. Tomavam o pequeno-almoo juntos, levava-a 
a almoar fora e esforava-se por chegar cedo a casa, todas as noites. Nos fins-de-semana, dirigiam-se  casa de praia que Kate Blackwell possua em Long Island 
ou seguiam para Dark Harbor no Cessna 620 da companhia. Na realidade, Cedar Hill era o lugar favorito dele e, enquanto percorria as amplas salas e admirava as antiguidades 
e as telas valiosas, refletia que em breve tudo aquilo lhe pertenceria.
        Tambm se revelava respeitador e admirador da av de Alexandra, que completara oitenta e um anos, era presidente da administrao de Kruger-Brent, Ltd., 
e continuava possuidora de notvel vitalidade. Mellis providenciava para que ambas almoassem com ele uma vez por semana, e telefonava  anci com frequncia, para 
trocarem impresses sobre temas banais. Criava assim uma imagem que esperava vir-lhe a ser extremamente til.
        Ningum suspeitaria de que tencionava assassinar duas pessoas que lhe eram to queridas.
        A satisfao que o assolava nas ltimas semanas foi abalada abruptamente por um telefonema do dr. John Harley:
        - Est tudo preparado para a sua visita ao psiquiatra, o doutor Peter Templeton.
        - J no  necessrio, doutor - Mellis procurou incutir  voz um tom amvel e insinuante. - Penso...
        - Estou-me nas tintas para o que voc pensa. Estabelecemos um acordo: no o denuncio  Polcia, se consultar um psiquiatra. Se pretende faltar ao prometido...
        - De modo algum - apressou-se a afirmar. - Se insiste, no me oponho.
        - O nmero do telefone do doutor Templeton  cinco-cinco-cinco-trs-um-seis-um. Ele espera a sua chamada. Hoje - e o dr. Harley cortou a ligao bruscamente.
        "O maldito intrometido", refletiu Mellis, enfurecido. A ltima coisa que lhe interessava e convinha no mundo era perder tempo com um psiquiatra, mas no 
se podia arriscar a que Harley falasse. Telefonaria a Templeton, procur-lo-ia uma ou duas vezes e no voltaria a aparecer-lhe.
        Eva telefonou a Mellis para o escritrio.
        - Estou em casa.
        - Ficaste... bem? - perguntou ele, receosamente.
        - Vem ver. Esta noite.
        - Vai ser difcil ausentar-me. Eu e Alex...
        - s oito.
        Mellis encontrava dificuldade em acreditar no que se lhe deparava. Eva achava-se na sua frente, to bonita e atraente como sempre. Por mais que lhe examinasse 
o rosto, no descobria o mnimo vestgio dos maus tratos que lhe infligira.
        -  incrvel! - acabou por exclamar. - Ests exatamente na mesma.
        - Sim, continuo bela, hem?
        Ela exibia um sorriso malicioso, provocado pela evocao do que lhe preparava. Era um animal doente, que no merecia viver. Pagaria com juros o que lhe fizera, 
mas no por enquanto. Ainda necessitava dele.
        - No tenho palavras para exprimir o pesar...
        - Deixemos isso. So coisas do passado. Nada se modificou.
        Nesse momento, Mellis recordou-se de que algo se modificara e anunciou:
        - Recebi um telefonema de Harley. Tomou providncias para que eu procurasse um psiquiatra qualquer.
        - Diz que no tens tempo.
        - Foi o que fiz, mas ameaou-me com a Polcia.
        - Gaita! - Eva fez uma pausa, imersa em reflexes. - Quem  ele?
        - O psiquiatra? Chama-se Peter Templeton, salvo erro.
        - Conheo-o de nome. Goza de boa reputao.
        - No te preocupes. Posso deitar-me no sof durante quinze minutos sem revelar coisa alguma.
        Todavia, ela no o escutava, pois acabava de lhe acudir uma idia.
        - Talvez seja o melhor que nos podia acontecer - articulou pausadamente.
        Peter Templeton, de trinta e cinco anos, media mais de um metro e oitenta de altura, com ombros largos, fisionomia grantica e olhos azuis perscrutadores 
que o faziam parecer mais um avanado-centro do tipo arete do que um mdico. Naquele momento, enrugava a fronte para a anotao na agenda: "George Mellis. Marido 
da neta de Kate Blackwell."
        Os problemas dos ricos no lhe suscitavam o menor interesse, embora a maioria dos seus colegas ficassem encantados com os pacientes socialmente proeminentes. 
Quando iniciara a carreira, Templeton enfrentara uma percentagem aprecivel daquela fauna, mas em breve descobrira que no conseguia simpatizar com os temas que 
lhe apresentavam. Tivera no seu consultrio vivas abastadas desvairadas porque no as haviam convidado para determinado evento social, financeiros empenhados em 
pr termo  vida porque tinham perdido dinheiro da Bolsa, etc. O mundo estava cheio de problemas, e ele decidira h muito que no eram esses que lhe interessavam.
        George Mellis. Templeton acedera em o receber apenas em virtude do respeito que o dr. John Harley lhe merecia.
        - Preferia que o mandasse a outro, John - objetara. - Tenho uma agenda sobrecarregada.
        -  um favor que me faz, Peter.
        - Qual  o problema?
        - Espero que voc o determine. No passo de um mdico de aldeia.
        - Est bem. Vejamos quando h-de ser...
        E agora encontrava-se na sala de espera. Com um suspiro de resignao, premiu o boto do intercomunicador e indicou:
        - Diga a Mister Mellis que entre.
        O psiquiatra vira fotografias do paciente em jornais e revistas, mas apesar disso no se achava preparado para a vitalidade esmagadora que irradiava e conferia 
um aspecto novo ao termo "carisma".
        - Queira sentar-se, Mister Mellis - convidou, depois de apertarem a mo.
        - Ali? - perguntou o recm-chegado, apontando para o sof.
        - Onde se sentir mais confortvel.
        Mellis optou pela cadeira diante da secretria e exibiu um sorriso. Pensava que ficaria perturbado com a situao, mas Eva preparara-o devidamente. Na realidade, 
o dr. Templeton seria o seu aliado, a sua testemunha.
        Entretanto, este ltimo observava-o com curiosidade. Os pacientes que o procuravam pela primeira vez costumavam deixar transparecer nervosismo, que uns tentavam 
encobrir com bravatas e outros com uma atitude defensiva ou um mutismo persistente. Ora, no detectava qualquer indcio de semelhante natureza no homem sentado na 
sua frente. Ao invs, parecia satisfeito consigo prprio.
        - O doutor Harley falou-me num problema.
        - Receio que sejam dois - articulou Mellis, com um suspiro.
        - Importa-se de ms descrever?
        - Confesso que me sinto embaraado. Foi por isso que insisti em consult-lo - inclinou-se para a frente e acrescentou com uma expresso grave: - Fiz uma 
coisa que nunca tinha feito na minha vida. Bati numa mulher - e calou-se por um momento, mas o psiquiatra conservou-se silencioso, na expectativa. - No meio de uma 
discusso, foi como se mergulhasse num poo escuro. Quando voltei  realidade, descobri que a tinha agredido - meneou a cabea, acabrunhado: - Bati numa mulher!
        Templeton julgou ter descoberto em que consistia o problema de George Mellis. Sentia prazer em espancar mulheres.
        - Foi em sua esposa que bateu?
        - No, na minha cunhada.
        Recordava-se de ler aluses s gmeas Blackwell nos ecos da sociedade dos jornais, por vezes acompanhadas de fotografias. Na verdade, eram idnticas e particularmente 
atraentes. Com que ento, aquele homem agredira a cunhada! O fato afigurava-se-lhe razoavelmente interessante. Tambm considerava digna de interesse a circunstncia 
de ele falar como se se tivesse limitado a aplicar-lhe um ou dois tabefes. Se fosse esse o caso, John Harley no insistiria em que o recebesse.
        - Magoou-a?
        - Sim, muito. Como referi, doutor, pareceu-me que mergulhava num poo escuro. Quando voltei a mim, no acreditei no que via.
        "Quando voltei a mim. A defesa clssica. Foi o meu subconsciente o responsvel e no eu."
        - Faz alguma idia do que provocou essa reao?
        - Ultimamente, tenho estado sob uma tenso horrvel. Meu pai sofreu vrios ataques cardacos consecutivos, que me abalaram. Somos uma famlia muito unida.
        - Seu pai encontra-se nos Estados Unidos?
        - No, na Grcia.
        "Ah,  esse Mellis!"
        - Falou em dois problemas.
        - Pois. O outro  Alexandra, minha mulher...
        - Tm dificuldades maritais?
        - No no sentido que pensa. Amamo-nos profundamente, mas... - Mellis hesitou. - Ela no tem passado bem nos ltimos tempos.
        - Fisicamente?
        - Emocionalmente. Est deprimida quase sempre e fala em se suicidar.
        - Consultou um psiquiatra?
        - No quer - murmurou, com um sorriso amargurado. " pena", pensou Templeton. "Impede um mdico de clientes ricos de ganhar uma fortuna."
        - Discutiu o assunto com o doutor Harley?
        - No.
        - Como  o mdico assistente da famlia, sugiro que o faa. Se lhe parecer necessrio, ele recomendar um psiquiatra.
        - No quero que Alexandra fique com a impresso de que falo dela nas suas costas.
        - Isso  o menos. Eu prprio telefonarei ao meu colega.
        - Estamos tramados, Eva! - bradou Mellis.
        - Que aconteceu?
        - Fiz exatamente o que me indicaste. Disse que me preocupava com a possibilidade de Alexandra manifestar propenso para o suicdio.
        - E ento?
        - O filho da me vai contatar com Harley, para discutirem o assunto!
        - Diabo! No podemos permitir que isso acontea - ela comeou a mover-se em excitado vaivm, at que se imobilizou repentinamente. - Harley fica por minha 
conta. Tens de voltar ao consultrio de Templeton?
        - Sim.
        - Nesse caso, no faltes.
        Na manh seguinte, Eva procurou o dr. Harley. Este manifestava simpatia especial pela famlia Blackwell. Assistira ao crescimento das crianas,  tragdia 
da morte de Marianne,  tentativa de homicdio perpetrada sobre Kate e ao internamento; de Tony numa clnica de alienados. Na realidade, Kate atravessara numerosas 
atribulaes, a menor das quais decerto no fora a que culminara com a expulso de Eva. No fazia a mnima idia do que a motivara, mas no era de sua conta. A sua 
misso consistia em manter a famlia fisicamente saudvel.
        Quando a rapariga entrou no consultrio, Harley contemplou-a com admirao e declarou:
        - Keith Webster executou um trabalho fantstico.
        Com efeito, o nico vestgio limitava-se a uma minscula cicatriz na fronte, quase invisvel.
        - Ele prometeu fazer desaparecer esta marca dentro de cerca de um ms - explicou ela.
        - Serve para a tornar mais bonita - o mdico indicou uma cadeira. - Em que lhe posso ser til?
        - No venho por minha causa. Trata-se de Alex.
        - Tem algum problema? - estranhou, arqueando as sobrancelhas. - Relaciona-se com o marido?
        - De modo algum! - apressou-se Eva a replicar. - Ele comporta-se sem margem para reparos. Na realidade,  o contrrio. George preocupa-se com ela. Minha 
irm procede de forma estranha, ultimamente. Est muito deprimida. At revela tendncias suicidas.
        - Custa-me a crer. Isso no parece prprio de Alexandra.
        - Pois no. Tambm no acreditei e fui v-la. Confesso que fiquei chocada com o que se me deparou. Encontra-se de fato num estado de profunda depresso. 
Estou preocupadssima, doutor. Como no posso avistar-me com a av, pelas razes que conhece, vim ter consigo. Precisa de fazer alguma coisa - e os olhos enevoaram-se-lhe. 
- Perdi minha av e no queria ficar tambm sem minha irm.
        - H quanto tempo dura isso?
        - No sei ao certo. Comeou por recusar, quando sugeri que o procurasse, mas finalmente convenci-a. Tem de a ajudar, doutor.
        - Sem dvida. Diga-lhe que venha amanh. E no se apoquente, Eva. H medicamentos novos que produzem milagres.
        Harley acompanhou a rapariga  porta, refletindo que Kate no perderia nada em se mostrar um pouco menos irredutvel, pois Eva necessitava de carinho.
        Quando regressou ao apartamento, Eva dissimulou meticulosamente a cicatriz na fronte com um creme especial.
        s dez horas da manh seguinte, a recepcionista do dr. Harley anunciou:
        - Est aqui Mistress Mellis, doutor.
        - Mande-a entrar.
        Ela surgiu em passos lentos e incertos, como se no estivesse totalmente decidida a sujeitar-se ao que se seguiria. Alm disso, apresentava palidez intensa 
e crculos violceos em torno dos olhos.
        - Tenho muito gosto em v-la, Alexandra - e o mdico estendeu-lhe a mo. - Que histria  essa de problemas que a afligem?
        - Sinto-me embaraada por o incomodar, doutor - a voz dela era quase inaudvel. - Estou certa de que no tenho nada, e se Eva no insistisse, no vinha. 
Estou tima, do ponto de vista fsico.
        - E emocionalmente?
        - Bem... - hesitou. - No durmo muito bem.
        - Que mais?
        - Vai julgar-me hipocondraca...
        - Conheo-a o suficiente para no pensar isso.
        - Sinto-me constantemente deprimida. Uma espcie de ansiedade e... cansao. George excede-se nos seus esforos para me fazer feliz, mas no me apetece nada 
do que sugere. Parece-me tudo to... desesperado.
        - Mais alguma coisa? - perguntou ele, que a escutava com a mxima ateno e observava pensativamente.
        - Chego a admitir a hiptese de... pr termo  vida. Estarei a enlouquecer?
        - No. Alguma vez ouviu falar em anedonia? - fez uma pausa, enquanto ela abanava a cabea. -  uma perturbao biolgica que apresenta os sintomas que acaba 
de descrever. Declara-se com frequncia, mas existem drogas novas que facilitam o tratamento. No tm efeitos secundrios e so eficientes. Vou examin-la, para 
descargo de conscincia, pois estou certo de que no lhe encontrarei nada de anormal.
        No final do exame, declarou:
        - Vou receitar-lhe Wellburin. Pertence  nova gerao de antidepressivos, uma das novas drogas miraculosas que mencionei - tornou a sentar-se  secretria 
e comeou a escrever, enquanto ela se vestia. - Volte c dentro de uma semana. Entretanto, se surgir algum problema, telefone-me, dia ou noite - advertiu, entregando-lhe 
a receita.
        - Obrigada, doutor. Oxal que isto produza efeito para terminar com o sonho.
        - Qual sonho?
        - Ah,  verdade, no cheguei a dizer-lhe. Sonho a mesma coisa, todas as noites. Estou num navio, faz muito vento e oio o mar chamar-me. Aproximo-me da amurada, 
olho para baixo e vejo-me na gua, a afogar... .
        Ela abandonou o consultrio e, uma vez na rua, encostou-se  parede, aliviada, respirando fundo. "Consegui", refletiu, exultante. "Safei-me, como esperava. 
Tomou-me por Alexandra." E rasgou a receita.
































        Captulo XXXII



        Kate Blackwell sentia-se cansada. A reunio prolongara-se demasiado. Com um suspiro, volveu o olhar para os trs homens e as trs mulheres em torno da mesa 
de conferncias da sala da administrao, os quais pareciam descontrados. "No foi a reunio que se prolongou demasiado. Eu  que duro demasiado. Vou fazer oitenta 
e dois anos. Estou a ficar velha." A idia deprimia-a, no porque receasse a morte, mas em virtude de considerar que ainda no chegara o momento conveniente. Recusava-se 
a morrer at que a Kruger-Brent tivesse um membro da famlia Blackwell  testa dos seus destinos. Aps o desapontamento amargo com Eva, esforara-se por construir 
os projetos para o futuro em volta de Alexandra.
        "- Sabes que faria tudo por ti, av, mas no estou interessada em me envolver na companhia. George ser um timo dirigente..."
        - Concorda, Kate? - perguntou Brad Rogers.
        - O qu? - ela emergiu dos devaneios. - Desculpe. Importa-se de repetir?
        - Discutamos a fuso com a Deleco - explicou ele, pacientemente.
        Na realidade, sentia-se preocupado com Kate Blackwell, que, nos ltimos meses, se alheava do que a rodeava nas reunies da administrao. No entanto, quando 
Brad principiava a admitir que se tratava de sintomas de senilidade, ela surgia repentinamente com uma sugesto que deixava todos boquiabertos por no lhes haver 
ocorrido. Sim, era uma mulher surpreendente. Ele evocou por momentos a breve ligao do passado e perguntou a si prprio porque teria terminado to abruptamente.
        Na segunda visita de George Mellis a Peter Templeton, este inquiriu:
        - Houve muita violncia no seu passado?
        - No - e o interpelado sacudiu a cabea com veemncia. - Detesto-a.
        "Toma nota disto, filho da me, pois o mdico legista h-de interrogar-te nesse sentido."
        - Disse que seus pais nunca o castigavam fisicamente.
        -  exato.
        - Pensa que foi um filho obediente? "Cuidado. A pergunta encerra ratoeira."
        - Como a mdia, suponho.
        - A criana mdia costuma ser castigada, numa ou noutra ocasio, por infringir regras do mundo dos adultos.
        - Creio que no infringi nenhuma - articulou Mellis, com um sorriso.
        "Mente", ponderou o psiquiatra. "Resta saber porqu. Que encobrir?" Ao mesmo tempo, recordava-se da conversa que tivera com o dr. Harley, aps a primeira 
sesso com Mellis.
        "- Confessou que tinha batido na cunhada e...
        "- Batido! - a voz de Harley achava-se dominada pela indignao. - Foi uma autntica carnificina. Esmagou-lhe um dos malares, fraturou-lhe o nariz e trs 
costelas e sulcou o corpo de queimaduras de cigarro.
        "- No me referiu isso - murmurou Templeton, assolado por uma onda de repugnncia.
        "- Acredito. Adverti-o de que, se no o procurasse, o denunciava  Polcia."
Recordou as palavras de Mellis: "Confesso que me sinto embaraado. Foi por isso que insisti em consult-lo."
        "- Disse que a mulher sofre de depresso e fala em se suicidar.
        "- Sim, posso confirm-lo. Alexandra apareceu no consultrio, h dias, e receitei-lhe Wellbutrin. Fiquei muito preocupado com ela. Qual  a sua impresso 
acerca de George Mellis?
        "- Ainda no sei ao certo, mas pressinto que  perigoso."
        O dr. Keith Webster no conseguia afastar Eva Blackwell do pensamento. Era como uma deusa de beleza deslumbrante, irreal e intangvel. Ele no casara porque 
nunca encontrara uma mulher que lhe parecesse suficientemente desinteressante para unir o destino a um sensaboro. Criara-se sob a influncia de uma me dominadora 
e de um pai sem personalidade. Os seus impulsos sexuais podiam considerar-se modestos e os que existiam eram sublimados pelo seu trabalho. Agora, porm, comeava 
a sonhar com Eva Blackwell, e quando, de manh, recordava as fantasias que o haviam invadido durante o sono, sentia-se embaraado. Embora ela estivesse completamente 
curada e no se justificasse que a visse, necessitava de a procurar.
        Por fim, vencendo longas hesitaes, ligou para o apartamento dela.
        - Eva? Fala Keith Webster. Desculpe incomod-la, mas o outro dia lembrei-me de si e resolvi indagar como se encontrava.
        - Bem, obrigada. E voc? - havia uma ponta de provocao na pergunta.
        - Bem, bem - seguiu-se um silncio, durante o qual ele tentou reunir coragem. - Provavelmente est muito ocupada para almoar comigo.
        Eva esboou um sorriso malicioso e refletiu que resultaria divertido encontrar-se com um homem to tmido.
        - De modo algum. Quando?
        - Pode ser amanh?
        - Combinado.
        Eva apreciou devidamente o almoo. O dr. Keith Webster comportava-se como um colegial apaixonado. Deixou cair o guardanapo, verteu o vinho do copo e derrubou 
as flores no centro da mesa. Ao observ-lo, cogitava: "Ningum diria que se trata de um brilhante cirurgio."
        Quando acabaram de comer, ele aventurou receosamente:
        - Podemos repetir isto, um dia?
        -  melhor no - replicou Eva, com uma expresso grave. - Receio vir a apaixonar-me por si - e vendo-o corar, sem saber o que dizer, acrescentou: - Nunca 
o esquecerei.
        Webster voltou a derrubar as flores.
        John Harley almoava no refeitrio do hospital, quando Keith Webster se lhe reuniu.
        - Prometi guardar segredo, mas dormia mais descansado se me explicasse o que aconteceu a Eva Blackwell.
        Harley hesitou por um momento e acabou por encolher os ombros.
        - Muito bem. Foi o cunhado, George Mellis.
        E o cirurgio sentiu que passava a compartilhar de uma faceta do mundo secreto da rapariga.
        George Mellis principiava a impacientar-se.
        - O testamento foi alterado. De que diabo estamos  espera? Eva sentava-se no sof, as longas pernas dobradas sob o corpo, enquanto ele passeava pela sala.
        "Comea a perder a coragem..." Lembrava-lhe uma serpente venenosa, prestes a lanar-se sobre a vtima de entre o matagal. Ela cometera uma imprudncia com 
ele, uma vez, ao provoc-lo demasiado, o que estivera prestes a custar-lhe a vida. O erro no se repetiria.
        - Concordo - declarou finalmente. - Penso que chegou o momento.
        - Quando? - inquiriu Mellis, estacando.
        - Na prxima semana.
        A sesso achava-se quase no termo e George Mellis no mencionara a esposa uma nica vez. De sbito, porm, disse:
        - Estou preocupado com Alexandra, doutor Templeton. As depresses parecem agravar-se. A noite passada, falou em afogamento. Confesso que no sei o que fazer.
        - Falei com o doutor Harley. Receitou-lhe determinado medicamento que a deve aliviar.
        - Oxal que sim - e Mellis exalou um suspiro. - Se lhe acontecesse alguma coisa, no resistia. 
        E o psiquiatra, o ouvido sintonizado para as palavras no proferidas, teve a estranha sensao de que presenciava uma charada. Havia uma violncia mortal 
naquele homem.
        - Como descreveria as suas relaes com as mulheres?
        - Normais.
        - Nunca se irritou com nenhuma?
        - No - asseverou Mellis, consciente do rumo visado. "No me levas com essa, rapaz". - Como lhe referi, detesto a violncia.
        "Foi uma autntica carnificina. Esmagou-lhe um dos malares, fraturou-lhe o nariz e trs costelas e sulcou o corpo de queimaduras de cigarro."
        - s vezes, para certas pessoas, a violncia proporciona uma vlvula de escape necessria - observou Templeton. - Uma evaso emocional.
        - Compreendo ao que se refere. Tenho um amigo que gosta de espancar prostitutas.
        "Tenho um amigo". Um sinal alarmante.
        - Fale-me dele.
        - Odeia-as. Por conseguinte, aps o... servio, aplica-lhes uns tabefes, s para lhes dar uma lio - no detectando qualquer sinal de reprovao no semblante 
do psiquiatra, Mellis prosseguiu: - Recordo-me de uma ocasio em que visitamos a Jamaica juntos. Uma prostituta levou-o a um hotel e, depois de se despir, disse 
que queria mais dinheiro - exibiu um sorriso divertido. - O meu amigo arreou-lhe a valer. Aposto que ela no se mete noutra to cedo.
        " psicopata!", decidiu Templeton. No existia amigo algum, evidentemente. Vangloriava-se de atos praticados por ele prprio e ocultava-se atrs de um alter 
ego. Tratava-se, sem margem para dvidas, de um megalomanaco, e dos perigosos.
Por fim, decidiu que se impunha nova conversa com John Harley, o mais depressa possvel.
        Os dois mdicos encontraram-se para almoar no Clube Harvard. Peter Templeton achava-se numa situao difcil. Precisava de obter toda a informao que pudesse 
sobre George Mellis, sem infringir o cdigo de sigilo mdico-paciente.
        - Que me pode dizer da mulher de Mellis? - principiou.
        - Alexandra?  encantadora. Cuido dela e da irm, Eva, desde garotas - e soltou uma risada seca. - So as minhas nicas clientes gmeas.
        - Idnticas?
        - Ningum consegue distingui-las. Quando midas, divertiam-se a pregar toda a espcie de partidas. Lembro-me de que, numa ocasio em que Eva precisava de 
uma injeo, quem a levou foi Alexandra. Agora que cresceram, continuo a no as diferenciar.
        O psiquiatra refletiu por uns instante e observou:
        - Disse que Alexandra o procurou, porque notava tendncias suicidas.
        - Exato.
        - Como sabe que era ela?
        - Eva conserva uma pequena cicatriz na fronte, recordao da tareia que o cunhado lhe aplicou - Harley fez uma pausa. - Como vo as sesses com ele?
        - Ainda no estabeleci contato com o seu ntimo. Oculta-se por detrs de uma fachada que tento derrubar.
        - Tenha cautela, Peter - evocou a cena que se lhe deparara: Eva imersa num charco de sangue. - O homem  perigoso.
        - As duas irms so herdeiras de uma fortuna avultada, salvo erro.
        Hesitou por um momento, antes de declarar:
        - Trata-se de um assunto de famlia, mas no  como pensa. A av deserdou Eva. Alexandra receber tudo.
        "Estou preocupado com Alexandra, doutor Templeton. As depresses parecem agravar-se. A noite passada falou em afogamento... Se lhe acontecesse alguma coisa, 
no resistia."
        Tudo aquilo soara ao psiquiatra como os preparativos clssicos de um homicdio... com a diferena de que George Mellis era herdeiro de uma fortuna aprecivel 
da sua prpria famlia. Por conseguinte, no o podiam animar motivos para matar algum por dinheiro. "Ests a deixar-te arrastar pela imaginao", terminou por decidir.
        Uma mulher afogava-se no mar glacial e ele tentava aproximar-se, mas as vagas eram demasiado alterosas. Procurou nadar mais depressa, mas os braos e as 
pernas pareciam de chumbo. Quando chegou ao local em que a vira debater-se, avistou um tubaro enorme que se preparava para o atacar. Nesse momento, Peter Templeton 
acordou, acendeu a luz e sentou-se na cama, para analisar o pesadelo. 
        De manh, telefonou ao tenente-detetive Nick Pappas.
        Nick Pappas era um homem quase gigantesco, que no pesava menos de cento e vinte quilos, mas, como numerosos criminosos podiam testemunhar, no havia um 
grama de gordura suprflua no seu corpo. Pertencia  brigada de choque do Departamento de Homicdios do bairro das "meias de seda" de Manhattan. Templeton conhecera-o, 
vrios anos antes, quando tivera de colaborar nas investigaes relacionadas com um assassino psicopata, e os dois homens haviam ficado amigos. A paixo de Pappas 
era o xadrez e encontravam-se uma vez por ms para disputarem uma partida.
        - Homicdio. Tenente Pappas - anunciou este pelo telefone.
        -  Peter, Nick.
        - Viva! Como vo os mistrios da mente?
        - Continuo empenhado em deslind-los. Tina est bem?
        - Fantstica. Em que o posso servir?
        - Precisava de informaes. Ainda mantm ligaes com a Grcia?
        - E de que maneira! Tenho l uma centena de parentes, todos necessitados de dinheiro. Para vergonha da minha inteligncia, costumo satisfazer-lhes os pedidos 
regulares. Talvez precise de uma sesso no sof do seu consultrio.
        - J no adiantava nada - afirmou Templeton. - O seu caso  incurvel.
        - Tina afirma a mesma coisa, por outras palavras. Que pretende saber?
        - Ouviu falar de George Mellis?
        - Da famlia dos produtos alimentares?
        - Esse mesmo.
        - No frequentamos os mesmos crculos, mas sei de quem se trata. Porqu?
        - Interessa-me conhecer a sua situao financeira.
        - Deixe-se de brincadeiras, a famlia ...
        - Refiro-me a fortuna prpria.
        - Posso indagar, mas receio que seja pura perda de tempo. Os Mellis so ultra-ricos.
        - Se mandar algum contatar com o pai dele, recomende-lhe cuidados especiais, pois sofreu vrios ataques cardacos.
        - Entendido. Mencionarei o fato no telegrama.
        De sbito, Templeton recordou-se do sonho e solicitou:
        - No podia antes telefonar? Hoje mesmo.
        - H alguma coisa que no me revelasse, Peter? - a voz de Pappas mudou repentinamente de tom.
        - No, nada. Quero apenas satisfazer a curiosidade. Debite-me o telefonema.
        - Disso, pode estar certo. Prepare-se tambm para pagar a conta do jantar, quando nos reunirmos para me explicar de que se trata.
        - Combinado.
        O psiquiatra pousou o auscultador, um pouco mais aliviado.
        Kate Blackwell no se sentia bem. Encontrava-se ao telefone, sentada  secretria, quando se apercebeu do ataque sbito. Os mveis comearam a oscilar  
sua volta e ela pousou as mos no tampo com firmeza, at que tudo regressou  normalidade.
        Brad Rogers entrou no gabinete pouco depois e enrugou a fronte ao ver-lhe as faces lvidas.
        - No se sente bem?
        - Foi apenas uma tontura. Nada de especial.
        - Quando fez o ltimo checkup?
        - No tenho tempo para esses disparates.
        - Arranje-o. Vou dizer a Annette que lhe marque consulta com John Harley.
        - Nem pensar nisso! Deixe-se de pieguices, sim?
        - Vai  consulta?
        - S irei para que voc no me seringue a pacincia.
        Na manh seguinte, a recepcionista de Peter Templeton informou:
        - Est o detetive Pappas na linha um.
        O psiquiatra apressou-se a levantar o auscultador.
        - Ol, Nick.
        - Acho conveniente termos uma conversa.
        - Contatou algum acerca de Mellis? - perguntou, dominado por repentina ansiedade.
        - Com o pai. Para j, nunca teve ataques cardacos e declarou que, para ele, o filho morreu. Deserdou-o h anos. Quando pretendi averiguar o motivo, desligou-me 
o telefone na cara. A seguir, conversei com um dos meus colegas de Atenas e apurei que o seu George Mellis  uma delcia de rapaz. A Polcia conhece-o bem. Manifesta 
um prazer especial em espancar jovens de ambos os sexos. A sua ltima vtima, antes de abandonar a Grcia, foi um prostituto de quinze anos. Encontraram o seu corpo 
num hotel de m nota e houve quem os tivesse visto juntos antes. O velho untou as mos das autoridades e o filho foi expulso do pas. Para sempre. Estes elementos 
satisfazem-no?
        Refletiu que no s o satisfaziam como o aterrorizavam.
        - Obrigado, Nick. Fico em dvida para consigo.
        - Se o nosso homem volta a fazer das suas, deve informar-me.
        - Sem dvida, assim que tiver a certeza.
        Cortou a ligao e embrenhou-se em reflexes. Necessitava tomar uma resoluo sem demora, pois George Mellis tinha consulta marcada para o meio-dia.
        O dr. John Harley examinava umas radiografias, quando a recepcionista anunciou:
        - Mistress Mellis pede para lhe falar, doutor. No marcou consulta e expliquei-lhe que estava muito atarefado..
        - Mande-a entrar para a sala ao lado.
        Quando se lhe reuniu, o mdico verificou que apresentava maior palidez que na visita anterior e os crculos violceos em torno dos olhos mais carregados.
        - Desculpe aparecer sem prevenir...
        - No tem importncia, Alexandra. De que se trata?
        - Sinto-me... horrivelmente.
        - Tem tomado o Wellbutrin com regularidade?
        - Sim.
        - E continua deprimida?
        -  pior do que depresso - ela torcia as mos com nervosismo. - Sinto-me desesperada. Tenho a impresso de que perdi o domnio dos meus atos. Receio cometer 
uma loucura.
        - Fisicamente, no tem nada - asseverou ele, em tom tranquilizador. -  tudo emocional. Vou receitar-lhe outro medicamento, em vez desse, Nomifensina, muito 
mais eficiente. Deve notar melhoras dentro de poucos dias - preencheu uma receita e estendeu-lha. - Se tal no acontecer at sexta-feira, telefone-me. Talvez haja 
convenincia em consultar um psiquiatra.
        Meia hora mais tarde, de regresso ao apartamento, Eva removeu a camada de creme que lhe empalidecia as faces e fez desaparecer os crculos violceos de junto 
dos olhos.
        O ritmo da operao comeava a acelerar-se.
        George Mellis sentava-se diante de Peter Templeton, sorridente e confiante.
        - Como se sente hoje?
        - Muito melhor, doutor. As sesses que tivemos, embora poucas, beneficiaram-me mais do que possa imaginar.
        - Sim? Em que sentido?
        - S pela possibilidade de conversar com algum.  o princpio em que se fundamenta a Igreja Catlica: a confisso.
        - Congratulo-me com isso. E sua mulher?
        - Receio que no apresente melhoras - admitiu Mellis, enrugando a fronte. - Tornou a visitar o doutor Harley, mas cada vez fala mais no suicdio. Talvez 
a leve para fora da cidade ou mesmo do pas. Precisa de uma mudana de ambiente.
        O psiquiatra julgou detectar um pressgio ominoso nestas palavras e desejou ardentemente que no passasse de um produto da sua imaginao.
        - A Grcia  um pas tranquilo - observou com naturalidade. - Levou-a l para conhecer a sua famlia?
        - Ainda no, embora todos anseiem por esse momento - Mellis voltou a sorrir. - O nico problema consiste em que, sempre que eu e meu pai nos encontramos, 
ele insiste em me convencer a assumir a direo dos negcios.
        Nesse instante, Templeton ficou sem a mnima dvida de que Alexandra corria perigo de vida.
        Longos minutos depois de Mellis se retirar, o psiquiatra continuava sentado  secretria, debruado sobre os seus apontamentos. Por ltimo, levantou o auscultador 
e marcou um nmero. 
        - Queria que me fizesse um favor, John. Pode averiguar onde George Mellis levou a mulher na lua-de-mel?
        - Posso dizer-lhe j. Tive de os vacinar antes da partida. Estiveram na Jamaica.
        "Tenho um amigo que gosta de espancar prostitutas... Recordo-me de uma ocasio em que visitamos a Jamaica juntos. Uma prostituta levou-o a um hotel de m 
nota e, depois de se despir, disse que queria mais dinheiro... O meu amigo arreou-lhe a valer. Aposto que ela no se mete noutra to cedo..."
        No entanto, continuava a no haver provas de que George Mellis planejava matar a esposa. Por outro lado, John Harley confirmara que Alexandra revelava inclinaes 
suicidas. "O problema no me diz respeito", tentou Templeton convencer-se. No obstante, no fundo, sabia que tinha de o aprofundar.
        Peter Templeton tivera de trabalhar para custear os estudos. O pai fora vigilante de uma escola de uma pequena povoao no Nebrasca e, mesmo com uma bolsa, 
ele no pudera frequentar um dos estabelecimentos de primeiro plano. Assim, formara-se na Universidade de Nebrasca com classificao elevada e especializara-se depois 
em psiquiatria, carreira em que triunfara desde o incio. O seu segredo consistia em que gostava sinceramente dos seres humanos e sentia preocupao pelo que lhes 
acontecia. Alexandra Mellis, apesar de no figurar entre os seus pacientes, inspirava-lhe interesse. Constitua a pea do puzzle que faltava e uns minutos frente 
a frente poderiam contribuir para que o completasse. Pegou na ficha de George Mellis, procurou o nmero do telefone de casa e marcou-o. Quando se achou em contato 
com Alexandra, explicou:
        - Chamo-me Peter Templeton e sou..
        - Sei perfeitamente quem , doutor. George falou-me de si.
        Ficou surpreendido, pois supunha que Mellis no mencionara o assunto  mulher.
        - Gostava de trocar impresses consigo, Mistress Mellis. Durante o almoo, se no vir inconveniente.
        - Acerca de meu marido? H alguma novidade?
        - No. Pensei simplesmente que convinha que conversssemos um pouco a esse respeito.
        - De acordo, doutor Templeton.
        E combinaram encontrar-se no dia seguinte.
        Ocuparam uma mesa a um canto discreto de La Grenouille. Templeton no conseguia desviar os olhos de Alexandra desde o momento em que esta entrara. Procurou 
atentamente vestgios da fadiga e da depresso a que o dr. Harley se referira, mas no os encontrou.
        - Suponho que no h nada de especial sobre o estado de meu marido? - principiou ela.
        - Decerto que no.
        A entrevista desenrolar-se-ia com maior dificuldade do que ele previra. Ao mesmo tempo, reconhecia que pisava terreno escorregadio. No lhe assistia o mnimo 
direito de violar o sigilo da relao mdico-paciente, mas, por outro lado, pensava que Alexandra devia ser advertida.
        Depois de escolherem o que queriam comer, perguntou:
        - Ele explicou-lhe porque me procurou?
        - Sem dvida. Atravessa um perodo de tenso invulgar. Os chefes da firma de corretagem onde trabalha colocam a maior responsabilidade sobre os seus ombros. 
 uma pessoa muito consciente dos seus deveres, como deve ter notado.
        Era incrvel. Desconhecia por completo o ataque de que a irm fora vtima. "Porque no a tero informado?"
        - George mostra-se muito mais aliviado por poder discutir os seus problemas com algum - prosseguiu ela, com um sorriso de gratido. - Alegra-me que lhe 
preste assistncia, doutor.
        "Que inocente!" Era bvio que idolatrava o marido, e o que Templeton tinha para lhe dizer poderia destru-la. Como lhe revelaria que casara com um psicopata 
que assassinara um jovem prostituto, fora banido da famlia e espancara brutalmente Eva? No obstante, deveria assumir a responsabilidade de guardar silncio?
        - A profisso de psiquiatra deve ser compensadora - volveu Alexandra. - Tem oportunidade de ajudar muita gente.
        - Bem, h ocasies em que o fazemos - admitiu ele. - Noutras,  impossvel.
        O almoo comeou a ser servido e abordaram assuntos banais enquanto comiam. Templeton descobriu-se encantado com a companhia e assolou-o certo desconforto 
quando chegou  concluso de que invejava George Mellis.
        - Tenho muito prazer em almoar consigo - acabou Alexandra por dizer -, mas creio que me convidou por algum motivo.
        - Na realidade... - ele hesitou, reconhecendo que chegara o momento da verdade.
        As palavras que proferiria a seguir poderiam desmoronar toda a existncia dela. Convidara-a para almoar, disposto a revelar as suas suspeitas e a sugerir 
que o marido fosse internado numa clnica de enfermos mentais. Todavia, agora que a conhecia, a misso afigurava-se-lhe difcil. Evocou de novo palavras de George 
Mellis: "Estou preocupado com Alexandra, doutor. A noite passada falou em afogamento". Ora, a mulher que se achava na sua frente parecia disposta a tudo menos a 
pr termo  vida. Resultaria do medicamento que tomava? Podia, pelo menos, interrog-la a esse respeito.
        - John Harley diz que est a tomar...
        Foi interrompido pela voz grave de George Mellis:
        - Ah, ests aqui, querida! Liguei para casa e comunicaram-me que vinhas a este restaurante - virou-se para o psiquiatra. - Tenho muito prazer em v-lo, doutor 
Templeton. Posso fazer-lhes companhia?
        E a oportunidade perdeu-se.
        - Porque queria ele falar com Alex? - murmurou Eva, com uma expresso pensativa.
        - No fao a mnima idia - replicou Mellis. - Por sorte, ela deixou dito onde estava, para o caso de eu telefonar. Segui para l como se tivesse asas nos 
ps!
        - Confesso que me cheira a esturro.
        - No houve novidade. Ela garantiu-me que no tinham discutido nada em particular.
        - Temos de acelerar as coisas.
        - Para quando? - e ele sentiu uma excitao quase sexual ao formular a pergunta, pois aguardava o momento com impacincia cada vez mais difcil de conter.
        - Imediatamente.























        Captulo XXXIII



        As tonturas agravavam-se e os assuntos comeavam a enevoar-se na mente de Kate. Por vezes, ponderava as convenincias e as desvantagens de concretizar determinada 
fuso e, de sbito, descobria que se efetuara vrios anos antes. Comeava a sentir-se preocupada e, por ltimo, resolveu aceitar o conselho de Brad Rogers e visitou 
John Harley.
        Havia muito tempo que o mdico no lograva persuadi-la a sujeitar-se a um checkup, pelo que decidiu tirar o mximo partido da sua presena no consultrio. 
Examinou-a minuciosamente e, no final, pediu-lhe que aguardasse uns momentos. Na realidade, sentia-se apreensivo. Kate Blackwell mostrava-se invulgarmente lcida 
para a idade, mas havia alguns indcios menos tranquilizantes. Registrava-se um endurecimento ntido das artrias, o que poderia explicar as tonturas ocasionais 
e o enfraquecimento da memria. Conquanto devesse ter abandonado os negcios h anos, persistia empenhada em no ceder as rdeas a ningum. "Quem sou eu para a criticar? 
J ultrapassei a idade da aposentao."
        Mais tarde, com os resultados dos testes na sua frente, Harley admitiu:
        - Quem me dera ter a sua condio, Kate.
        - Dispenso a graxa! Limite-se a explicar em que consiste o meu problema.
        - Na idade, quase totalmente. H um pequeno endurecimento das artrias e...
        - Arteriosclerose?
        -  assim que os mdicos lhe chamam? - ironizou. - Seja como for, padece disso.
        -  grave?
        - Para a sua idade, considero normal. Estas coisas so todas relativas.
        - Pode receitar-me uma mistela qualquer para acabar com o raio das tonturas? Desagradava-me desmaiar numa sala cheia de homens. Era deprimente para o meu 
sexo.
        - No creio que isso venha a acontecer. Quando tenciona abandonar a atividade? 
        - Quando tiver um bisneto que ocupe o meu lugar.
        Os dois velhos amigos, que se conheciam de longa data, olharam-se em silncio por cima da secretria. Embora nem sempre concordasse com ela, Harley admirava-lhe 
a coragem.
        Como se lhe adivinhasse o pensamento, Kate suspirou e acrescentou:
        - Sabe qual foi uma das maiores desiluses da minha vida? Eva. Gostava dela a valer. Quis entregar-lhe o mundo mas nunca se preocupou com nada, alm dela 
prpria.
        - Engana-se. Tem profundo afeto por si.
        - Deixe-se de lrias!
        - Estou em condies de o poder afirmar - o mdico fez uma pausa para escolher as palavras cautelosamente - H pouco, sofreu um acidente horrvel que quase 
lhe provocou a morte.
        -Porque?... - balbuciou ela, sentindo as palpitaes do corao acelerarem-se. - Porque no me informou?
        - Ela no consentiu. Apoquentava-se tanto com a possibilidade de vir a saber, que me obrigou a prometer que guardaria silncio.
        - Valha-me Deus! Como est agora?
        - Recomps-se por completo.
        - Obrigado por me ter dito, John - murmurou, com o olhar perdido no espao. - Obrigado.
        - Vou receitar-lhe uns comprimidos.
        Quando ergueu os olhos do papel, Harley descobriu que ela desaparecera.
        Eva abriu a porta e arregalou os olhos de incredulidade. A av encontrava-se na sua frente, empertigada e altiva como sempre, sem deixar transparecer o mnimo 
indcio de fragilidade.
        - Posso entrar?
        - Com certeza - e a rapariga desviou-se, incapaz de compreender o que sucedia.
        Kate deu alguns passos, olhou em volta sem proferir qualquer comentrio, e perguntou:
        - Posso sentar-me?
        - Desculpa. Sem dvida. Estou to... Tomas alguma coisa? Ch, caf?
        - No, obrigada. Ests bem?
        - Sim, obrigada. Sinto-me tima.
        - Venho do consultrio do doutor Harley. Disse-me que sofreste um acidente grave.
        -  verdade - Eva observava a av com desconfiana, sem saber com exatido o que se seguiria.
        - Parece que estiveste... s portas da morte. E no consentiste que me informasse, para no me preocupar.
        "Ento, era isso". Assim, sentia-se em terreno mais seguro.
        - De fato...
        - Isso indica que continuas a apoquentar-te comigo.
        - Nunca deixei de te estimar, av - afirmou, com lgrimas de alvio, que, no entanto, Kate interpretou como de emoo.
        No instante imediato, Kate admitiu, ao mesmo tempo que acariciava a cabea loura da neta:
        - Fui uma velha tonta. Perdoa-me - puxou de um leno de linho e assoou-se ruidosamente. - No te devia tratar com tanta severidade.
        - No falemos mais nisso - sussurrou Eva, em voz devidamente embargada. - Agora, ficou tudo esclarecido.
        - Mostrei-me casmurra e inflexvel, como meu pai, mas quero compensar-te do mal que sofreste. Para j, vou reintegrar-te no testamento.
        - O dinheiro no me interessa - afirmou, ao mesmo tempo que cogitava: " demasiado agradvel para corresponder  verdade!" - S me preocupo contigo, av.
        - s minha herdeira... tu e Alexandra. So a nica famlia que me resta.
        - Tenho-me governado satisfatoriamente, mas se isso te d prazer...
        - D-me, e muito. Quando podes mudar-te l para casa?
        Eva hesitou apenas por uns segundos.
        - Julgo prefervel continuar aqui, mas irei visitar-te as vezes que desejares - meneou a cabea com lentido e conteve um soluo. - Nem fazes uma idia de 
como me tenho sentido s!
        - Perdoas-me? - perguntou Kate, pegando-lhe na mo.
        - Com certeza - foi a resposta, com uma expresso solene.
        Assim que a av saiu, Eva preparou um scotch duplo e afundou-se no sof para recapitular a cena incrvel em que acabava de participar. Apetecia-lhe soltar 
gritos de alegria. Ela e Alexandra eram agora as herdeiras nicas da fortuna Blackwell. No se lhe deparariam dificuldades para fazer desaparecer a irm. Era George 
Mellis que a preocupava, pois tornara-se subitamente um empecilho.
        - Houve alterao de planos - anunciou Eva a Mellis. - Kate reintegrou-me no seu testamento.
        - No me digas! - ele imobilizou a mo com que se preparava para acender um cigarro. - Parabns!
        - Se acontecesse alguma coisa agora a Alexandra, pareceria suspeito. Portanto, havemos de nos ocupar dela mais tarde, quando...
        - No concordo.
        - Que queres dizer?
        - No sou estpido, querida. Se lhe acontecesse alguma coisa, a parte dela vinha-me parar s mos. Queres fazer-me desaparecer do meio, hem?
        - Digamos que s uma complicao desnecessria - concedeu ela, com um encolher de ombros. - Estou disposta a estabelecer um acordo contigo. Divorcia-te e, 
quando eu herdar o dinheiro, dou-te...
        - No me faas rir. No mudou nada. Eu e Alex encontramo-nos em Dark Harbor, sexta-feira  noite, como estava previsto.
        Alexandra ficou extasiada, quando se inteirou da reconciliao da av com Eva e afirmou:
        - Voltamos a ser uma famlia unida.
        O telefone tocou e Eva levantou o auscultador.
        - Desculpe incomod-la. Fala Keith Webster.
        O cirurgio adquirira o hbito de telefonar duas ou trs vezes por semana. Ao princpio, o seu ardor incoerente divertira-a, mas acabara por se enfastiar.
        - Agora no tenho tempo. Preparava-me para sair.
        - Nesse caso, no a retenho - articulou ele, em tom de desculpa. - Queria apenas dizer que arranjei duas entradas para a corrida de cavalos da prxima semana. 
Como sei que  apreciadora, pensei...
        - Lamento, mas talvez tenha de me ausentar da cidade nessa altura.
        - Bem - o desapontamento era bem ntido na inflexo da voz. - Ento, samos para a outra semana. Comprarei bilhetes para o teatro. O que lhe apetece ver?
        - J vi tudo o que est em exibio. Desculpe, mas no posso demorar-me.
        Eva cortou a ligao com um gesto de enfado. Necessitava vestir-se rapidamente, pois combinara encontrar-se com Rory Mckenna, um jovem ator da Broadway que 
conhecera recentemente, cinco anos mais novo do que ela e mais insacivel que um garanho selvagem.
        Quando regressava a casa, George Mellis efetuou uma paragem, a fim de comprar flores para Alexandra. Experimentava uma euforia invulgar. Afigurava-se-lhe 
uma deliciosa ironia o fato de Kate haver reintegrado Eva no testamento, mas no alterava coisa alguma. Consumado o "acidente" de Alexandra, ocupar-se-ia da cmplice. 
Os preparativos achavam-se concludos. Sexta-feira, a esposa aguard-lo-ia em Dark Harbor.
        - S ns dois - recomendara-lhe, beijando-a. - Dispensa todo o pessoal.
        Peter Templeton no conseguia afastar Alexandra Mellis do pensamento e no parava de ouvir as palavras do marido, como um eco persistente: "Talvez a leve 
para fora da cidade ou mesmo do pas. Precisa de uma mudana de ambiente." O instinto assegurava-lhe que ela corria perigo, mas encontrava-se impossibilitado de 
intervir. No podia procurar Nick Pappas baseado em meras suspeitas. Necessitava de provas.
        Do outro lado da cidade, no seu gabinete da Kruger-Brent, Ltd., Kate Blackwell assinava um novo testamento, em que legava tudo o que possua s duas netas.
        Algures no distrito de Nova Iorque, Tony Blackwell encontrava-se diante do seu cavalete, no jardim da clnica. A tela; constitua uma confuso de cores, 
semelhante  produzida por uma criana destituda de talento. No obstante, ele contemplava-a com uma expresso de prazer.

        Sexta-feira, 10.57 horas.

        No aeroporto La Guardi, um txi imobilizou-se  entrada do terminal das carreiras internas e Eva Blackwell estendeu uma nota de cem dlares ao motorista, 
que exibiu uma expresso de contrariedade.
        - No tem mais pequeno?
        - No.
        - Nesse caso, vai ter de trocar l dentro.
        - Estou com pressa. Preciso de apanhar o prximo avio para Washington - ela consultou o relgio de pulso e tomou uma deciso. - Fique com os cem dlares.
        Entrou no edifcio, correu para o guich dos vos domsticos e pediu:
        - Uma passagem de ida para Washington.
        - Perdeu este vo por dois minutos - informou o empregado. - Est a decolar.
        - Mas tenho de seguir nele! Vou encontrar-me... - Eva parecia na iminncia de se deixar dominar pelo pnico. - No pode fazer nada?
        - Acalme-se. Dentro de uma hora h outro.
        - J no... Abbora! - tentou dominar-se. - Bem, que remdio seno esperar. Entretanto, vou tomar um caf.
        O homem acompanhou-a com a vista enquanto se afastava, ao mesmo tempo que refletia: "Que beldade! Invejo o tipo com quem vai encontrar-se com tanta pressa."

        Sexta-feira, 14.00 horas.

        "Vai ser uma segunda lua-de-mel", pensava Alexandra. A idia excitava-a. "Dispensa o pessoal, para ficarmos ss, querida. Passaremos um fim-de-semana estupendo." 
E agora ela abandonava a confortvel residncia a caminho de Dark Harbor, a fim de se encontrar com George. Estava um pouco atrasada, porque almoara com uma amiga 
e separara-se dela mais tarde do que previra. Por fim, comunicou  empregada:
        - Estou de volta segunda de manh.
        O telefone tocou quando transpunha a porta, mas resolveu ignor-lo, para no perder mais tempo.

        Sexta-feira, 19.00 horas.

        George Mellis estudara o plano de Eva meticulosamente e reconhecera que no apresentava o mnimo ponto vulnervel. "Haver uma lancha a motor  tua espera 
em Philbrook Cove. Segue nela para Dark Harbor, tomando a precauo de que no te vejam. Amarra-a  popa do Corsair. Depois, levas Alexandra a dar um passeio no 
iate, ao luar. Uma vez ao largo, podes fazer aquilo que tanto te agrada, mas no deixes vestgios de sangue. Lanas o corpo ao mar, metes-te na lancha, deixas o 
Corsair  deriva e regressas a Philbrook Cove, onde apanhas o ferryboat de Lincolnville para Dark Harbor. Mete-te num txi para alcanar a manso. Arranja um pretexto 
qualquer para que o motorista entre e note que o Corsair no se encontra no molhe. Depois de verificares que Alexandra no est, telefonas  Polcia. O corpo no 
ser encontrado, porque a corrente o arrastar para o lago.         Dois mdicos eminentes confirmaro que se deve tratar de suicdio..."
        A lancha encontrava-se em Philbrook, conforme o plano exigia. Mellis cruzou a baa sem acender qualquer luz, orientando-se apenas com o auxlio do luar, 
passou nas proximidades de vrias embarcaes ancoradas sem ser detectado e atingiu a doca da propriedade Blackwell, onde desligou o motor e prendeu a amarra  popa 
do Corsair.
        Ela falava ao telefone na sala, quando ele entrou. Ao v-lo, acenou-lhe, cobriu o bocal com a mo e articulou a meia voz que era a irm. Escutou por um momento 
e replicou:
        - Tenho de desligar, Eva. Almoamos juntas para a semana.
        Pousou o auscultador e estendeu os braos para o recm-chegado.
        - Vieste cedo. Ainda bem.
        - Tinha tantas saudades tuas que larguei tudo o que estava a fazer.
        - Amo-te - murmurou e beijou-a.
        - E eu adoro-te, matia mou. Livraste-te do pessoal?
        - Estamos s ns. Sabes uma coisa? Fiz moussaka para ti.
        - Tive uma idia pelo caminho. Porque no vamos dar uma volta no iate?
        - Pois sim, mas a moussaka...
        - O jantar pode esperar - proferiu Mellis, pousando-lhe a mo num dos seios. - Eu no.
        - Muito bem - e ela soltou uma risada. - Vou mudar de roupa. No demoro nada.
        - Vejamos quem o faz primeiro.
        Ele subiu ao primeiro piso e enfiou rapidamente uma camisola de l, cala de ganga e botas de borracha. Agora que o momento se acercava, dominava-o uma excitao 
prestes a explodir.
        - Ganhei!
        Voltou-se e viu-a  entrada do quarto, envergando uma camisola de gola alta, cala de belbutina e sapatos de lona, os longos cabelos louros presos sobre 
a nuca por uma fita azul. "Como  bonita! Quase faz pena desperdiar tanta beleza!"
        - Tambm estou pronto - declarou, dando-lhe a mo e puxando-a para o corredor.
        - Para que  aquilo, querido? - quis saber ela, quando viu a lancha presa  popa do iate.
        - H uma ilhota na extremidade da baa que sempre desejei explorar. Com uma embarcao mais pequena, no temos de nos preocupar com possveis rochas  flor 
da gua.
        Iou a vela, e o vento no tardou a impelir o Corsair suavemente em direo ao lago. Quando ultrapassaram a rebentao, a velocidade aumentou, assim como 
as oscilaes do iate.
        -  estupendo! - exclamou ela. - Sinto-me muito feliz, querido.
        - Eu tambm.
        Por razes que no conseguia definir com clareza, Mellis experimentava prazer com a felicidade de Alexandra, com a circunstncia de morrer feliz. Esquadrinhou 
o horizonte para se certificar de que no havia embarcaes nas proximidades e verificou a existncia de pontos luminosos a uma distncia confortvel. Chegara o 
momento.
        Fixou o leme para evitar que uma sbita rajada de vento voltasse o Corsair e aproximou-se da amurada.
        - Anda c ver uma coisa, Alex.
        Ela obedeceu e abraou-a por um momento, antes de a beijar com intensidade.
        - Ah, era isso que querias! - articulou Alexandra, quando finalmente descolaram os lbios.
        Todavia ele continuou a segur-la e principiou a erguer-lhe o corpo para a amurada, enquanto ela, passados os instantes iniciais de estupefao, se debatia 
desesperadamente.
        De repente, Mellis sentiu uma dor excruciante no peito e pensou: " um ataque cardaco!" Abriu a boca para dizer algo, mas uma golfada de sangue abafou-lhe 
a voz. Soltou a presa e baixou os olhos para o peito, com uma expresso de incredulidade. Tinha um largo rasgo que sangrava abundantemente. Ergueu o olhar e viu 
que ela empunhava uma faca, com um sorriso de triunfo.
        O seu derradeiro pensamento antes de expirar foi: "Eva..."















        Captulo XXXIV



        Eram dez horas da noite, quando Alexandra chegou  manso de Dark Harbor. Tentara telefonar ao marido por diversas vezes, mas no obtivera resposta. Agora, 
acalentava a esperana de que no estivesse zangado com a sua demora. Na realidade, houvera uma confuso estpida. Ao princpio da tarde, quando se preparava para 
sair de casa, o telefone tocara e ela no fizera caso, a fim de no perder mais tempo. No entanto, a empregada fora cham-la ao carro, que se preparava para pr 
em movimento.
        -  sua irm, Mistress Mellis. Diz que precisa de lhe falar com urgncia.
        Quando Alexandra pegou no auscultador, Eva explicou:
        - Estou em Washington a contas com um problema horrvel. Temos de nos encontrar.
        - Muito bem. Agora, sigo para Dark Harbor, onde George me espera, mas regressamos segunda-feira e...
        - Isto no pode esperar - Eva parecia desesperada. - Queres ir esperar-me ao Aeroporto La Guardi? Chego no avio das cinco.
        - Mas prometi a George...
        - Trata-se de uma emergncia, Alex. No entanto, se no pode ser...
        - Espera! Est bem. Espero l por ti.
        - Obrigada, querida. Sabia que podia contar contigo. Alexandra reconheceu que a irm lhe pedia um favor to raramente que no reuniu coragem para recusar. 
Seguiria noutro avio para a ilha. Tentou contatar o marido, mas do escritrio informaram que j sara, pelo que deixou um recado  secretria dele. Uma hora mais 
tarde, apeava-se de um txi no Aeroporto La Guardi, onde verificou que Eva no viajara no avio das cinco. Aguardou mais duas horas, e como a irm continuasse a 
no aparecer, seguiu finalmente para a ilha. Agora, ao aproximar-se de Cedar Hill, observou que no havia uma nica luz acesa. Todavia, o marido j devia ter chegado. 
Percorreu todos os aposentos, ao mesmo tempo que o chamava, sem resultado. Por ltimo, ligou para a residncia em Manhattan, e perguntou  empregada:
        - Mister Mellis est a?
        - No, Mistress Mellis. Disse que se ausentavam ambos durante o fim-de-semana.
        - Obrigada, Marie. Deve ter ficado retido algures.
        Tinha de haver uma razo lgica para a sua ausncia. Decerto surgira alguma coisa inesperada relacionada com o trabalho e, como sempre, os chefes tinham-no 
encarregado de lhe dar andamento. De qualquer modo, apareceria a todo o momento. Em seguida, Alexandra marcou o nmero da irm, que atendeu com prontido.
        - Eva! Que te aconteceu?
        - Isso pergunto eu! Fartei-me de esperar no Aeroporto Kennedy e acabei...
        - Kennedy? Disseste que era no La Guardi.
        - No, querida. Kennedy.
        - Mas... - Alexandra interrompeu-se, reconhecendo que o pormenor deixara de se revestir de importncia. - Devo ter sido eu que fiz confuso. Ests bem?
        - Agora, estou, mas passei um mau bocado. Envolvi-me com um fulano, uma figura grada da polcia em Washington, e... - Eva soltou uma risada seca. - Prefiro 
no falar no assunto pelo telefone. Segunda-feira explico-te tudo.
        - Pois sim - assentiu Alexandra, profundamente aliviada.
        - Bom fim-de-semana. Como est George?
        - Ainda no chegou - esforou-se por dominar a preocupao que comeava a assol-la. - Suponho que surgiu algum assunto de ltima hora no emprego e no teve 
oportunidade de me prevenir.
        Enquanto pousava o auscultador, pensava: "Era timo que ela encontrasse algum realmente maravilhoso. Um homem como George, por exemplo." Consultou o relgio, 
que indicava quase onze horas, e ponderou que ele j devia ter dito alguma coisa. Por fim, discou o nmero da Hanson and Hanson, mas no obteve resposta. A seguir, 
ligou para o clube que o marido costumava frequentar e obteve a informao de que ningum o vira l nesse dia.  meia-noite, achava-se alarmada e, transcorrida mais 
uma hora, o pnico dominava-a por completo. No sabia o que devia fazer. Subsistia a possibilidade de ele se ver obrigado a acompanhar um cliente algures. Se telefonasse 
 Polcia e George aparecesse, faria uma figura ridcula.
        No entanto, s duas horas da madrugada, no conseguiu conter-se mais e resolveu preveni-la. No havia um destacamento da Polcia na ilha, pelo que a unidade 
mais prxima se situava no condado Waldo.
        - Departamento do xerife do condado Waldo - anunciou uma voz sonolenta. - Sargento Lambert.
        - Fala Alexandra Mellis, de Cedar Hill.
        - Em que lhe posso ser til, Mistress Mellis? - a sonolncia extinguiu-se com prontido.
        - Para ser franca, no sei. Meu marido devia encontrar-se comigo aqui, ao princpio da noite, e ainda no apareceu.
        - Hum... - o som podia interpretar-se de vrias maneiras. O sargento conhecia pelos menos trs razes justificativas da ausncia do lar de um marido s duas 
horas da madrugada: louras, morenas e ruivas. - Talvez fosse retido por algum assunto relacionado com o trabalho - aventurou, com o maior tato possvel.
        - Quando isso acontece, costuma telefonar.
        - Sabe como essas coisas so, Mistress Mellis. s vezes torna-se impossvel interromper uma reunio para utilizar o telefone. Estou certo de que no tarda 
a ligar para a.
        Agora, Alexandra sentia mesmo que fazia figura ridcula. Evidentemente que a Polcia no lhe podia valer. Recordava-se de ler algures que uma pessoa devia 
ter desaparecido mais de vinte e quatro horas para que as autoridades pudessem iniciar pesquisas. E, de resto, George no se podia considerar desaparecido. Estava 
simplesmente atrasado.
        - Deve ter razo - acabou por admitir. - Desculpe o incmodo.
        - No tem importncia, Mistress Mellis. Aposto que chega a no primeiro ferryboat da manh, s sete.
        Todavia, ele no apareceu no ferryboat das sete nem no seguinte, pelo que Alexandra voltou a ligar para a residencial de Manhattan.
        Entretanto, comeava a invadi-la uma sensao de catstrofe. O marido sofrera um acidente, encontrava-se num hospital, enfermo ou morto. Se no tivesse havido 
aquela confuso com Eva... Existia a esperana de ele ter chegado a Cedar Hill  hora combinada e, no a vendo, voltado a sair. Contudo, ficavam vrios pormenores 
por explicar. Se tal acontecesse, deixaria um bilhete. Tambm podia ter surpreendido ladres e sido atacado ou raptado. Alexandra tornou a percorrer a casa, em busca 
de um indcio, ainda que insignificante. Em seguida, dirigiu-se ao molhe, onde viu o Corsair ancorado.
        Telefonou de novo  Polcia, e desta vez foi atendida pelo tenente Philip Ingram, que rendera o sargento no turno da manh. J se encontrava ao corrente 
de que George Mellis estivera ausente de casa toda a noite, pois o fato constitura o tema principal dos comentrios na esquadra, todos eles jocosos.
        - No h mesmo o mnimo sinal dele, Mistress Mellis? - perguntou para o bocal. - Est bem. Eu prprio irei a.
        Sabia que se limitaria a perder tempo, pois o marido decerto passara a noite entre os lenis de alguma loura capitosa, mas "quando os Blackwell chamam, 
toda a gente acode imediatamente".
        O tenente Ingram escutou atentamente as palavras de Alexandra, revistou a casa e o molhe e chegou  concluso de que ela tinha um problema entre as mos. 
George Mellis devia reunir-se  esposa em Dark Harbor, ao fim da tarde anterior, e no comparecera. Conquanto o problema no fosse seu. Ingram admitiu para consigo 
que no perderia nada em se mostrar solcito para com um membro da famlia Blackwell. Assim, telefonou ao aeroporto da ilha e ao terminal do ferryboat em Lincolnville, 
aps o que se achou em condies de afirmar  inquieta esposa que o marido no utilizara qualquer daqueles meios de transporte nas ltimas vinte e quatro horas. 
"E que diabo significa isto? Que razo o levaria a desaparecer da circulao?" Na sua opinio, homem algum em plena posse das faculdades mentais abandonaria voluntariamente 
a companhia de uma mulher como Alexandra.
        - Investigaremos nos hospitais e ne... - interrompeu-se antes de completar a palavra ominosa. - E outros locais.
        - Obrigada, tenente - articulou ela, desenvolvendo esforos desesperados para no se abandonar ao pnico. - No necessito dizer que aprecio devidamente o 
interesse que manifesta.
        -  o meu dever - declarou Ingram, com simplicidade.
        Quando regressou  esquadra, comeou a ligar para os hospitais e necrotrios, mas s obteve respostas negativas. No havia qualquer caso de acidente em que 
George Mellis figurasse. A diligncia imediata do tenente consistiu em telefonar a um amigo que exercia as funes de reprter no Maine Courier, aps o que emitiu 
um boletim de pessoa desaparecida destinado a todos os postos habituais.
        Naquela tarde, os jornais mencionavam o assunto na primeira pgina:
        MARIDO DE HERDEIRA BLACKWELL DESAPARECE
        Peter Templeton inteirou-se do caso por intermdio do detetive Nick Pappas:
        - Lembra-se de me pedir informaes acerca de George Mellis?
        - Perfeitamente.
        - Eclipsou-se.
        - O qu?
        - Desapareceu.
        - Levou alguma coisa? Dinheiro, roupa, passaporte?
        - No. Segundo o relatrio que recebi de Maine, dissipou-se na atmosfera. Na qualidade de seu psiquiatra, pensei que talvez fizesse uma idia de como ele 
conseguiu executar o truque.
        - Confesso que no - declarou Templeton, com sinceridade.
        - Se lhe ocorrer alguma coisa, apite, pois palpita-me que isto vai fazer correr muita tinta.
        - Sem dvida.
        Meia hora depois, Alexandra telefonava a Templeton, que detectou imediatamente a inflexo de pnico na voz.
        - George desapareceu! Ningum sabe o que lhe pode ter acontecido e lembrei-me de que talvez deixasse transparecer alguma coisa, nas vossas sesses.
        - Lamento, Mistress Mellis, mas no o fez - ele deplorava no dispor de qualquer informao para a tranquilizar. - Se me ocorrer algum elemento til, telefono-lhe. 
Para onde devo ligar?
        - Estou a falar de Dark Harbor, mas regresso a Nova Iorque  tarde. Encontrar-me- em casa de minha av.
        Ela no podia encarar a hiptese de se achar s e falara com Kate diversas vezes durante a manh.
        - Estou certa de que no h motivo para alarme - afirmara a av. - Provavelmente, teve de se ausentar em servio e esqueceu-se de te prevenir.
        No entanto, nenhuma das duas mulheres acreditava nesta possibilidade.
        Eva assistiu  reportagem sobre o desaparecimento de George Mellis na televiso, com fotografias do exterior de Cedar Hill e Alexandra e o marido aps a 
cerimnia nupcial. Havia igualmente uma dele, de olhar arregalado, expresso que lhe recordou a de surpresa que exibira segundos antes de morrer.
        Entretanto, o comentador informava:
        - No h indcios de violncia, nem surgiram pedidos de resgate. As autoridades admitem a possibilidade de George Mellis ter sido vtima de um acidente e 
sofrer de amnsia.
        Eva esboou um sorriso de satisfao. Nunca encontrariam o corpo, porque a corrente o arrastara para o lago. Pobre George... Seguira o seu plano com perfeio, 
mas ela alterara-o. Partira de avio para Maine, onde alugara uma lancha motorizada em Philbrook Cove, que seria reclamada por um "amigo". Depois, alugara outra 
numa doca prxima e utilizara-a para alcanar Dark Harbor, onde esperara pelo cmplice. Tomara a precauo de limpar a coberta antes de ancorar o iate na doca. Em 
seguida, rebocara a lancha dele at ao molhe, devolvera a sua a quem lhe alugara e tomara o avio de regresso a Nova Iorque, a fim de aguardar em casa o telefonema 
que Alexandra no deixaria de efetuar.
        Fora um crime perfeito, que a Polcia consideraria um desaparecimento misterioso.
        Por ltimo, desligou o televisor e foi-se vestir.
        No queria chegar atrasada ao encontro com Rory McKenna.
        s seis horas da manh seguinte, os tripulantes de um barco de pesca encontraram o corpo de George Mellis entre as pedras, na baa Penebscot. No noticirio 
imediato, afirmaram que se tratava de morte acidental por afogamento, mas,  medida que iam surgindo mais informaes, o teor das verses comeou a modificar-se. 
Finalmente, surgiu um comunicado oficial, segundo o qual aquilo que ao princpio fora encarado como mordeduras de tubares constituam ferimentos provocados por 
um instrumento cortante. As notcias da tarde j no deixavam margem para dvidas:
        SUSPEITA-SE DE HOMICDIO NA MORTE
        DE GEORGE MELLIS. MILIONRIO ASSASSINADO.
        O tenente Ingram estudou a tabela das mars e das correntes da vspera e, no final, reclinou-se na cadeira, o rosto alterado por uma expresso de perplexidade. 
O corpo de George Mellis teria sido arrastado para o lago, se no ficasse preso nas pedras. O que o intrigava era o fato de tudo indicar que provinha de Dark Harbor, 
local onde aparentemente no estivera.
        O detetive Nick Pappas seguiu de avio para Maine, com o intuito de trocar impresses com o tenente Ingram.
        - Penso que o meu departamento lhes pode ser til - afirmou, depois de se saudarem. - Disponho de algumas informaes interessantes acerca de George Mellis. 
Eu sei que o caso se desenrolou fora da nossa rea de jurisdio, mas se vocs solicitassem a nossa cooperao, no hesitaramos em a dar.
        Nos vinte anos de servio de Ingram na Polcia do condado de Waldo, o nico momento de excitao que conhecera fora no dia em que um turista embriagado alvejara 
a tiro a cabea de um veado, exposta na parede de uma loja de curiosidades. Ora, o assassnio de George Mellis figurava na primeira pgina de toda a Imprensa, e 
ele pressentia uma oportunidade de ganhar notoriedade. Com um pouco de sorte, talvez at o transferissem para o departamento de detetives de Nova Iorque. Por conseguinte, 
murmurou:
        - Bem, no sei...
        Como se lhe lesse o pensamento, Nick Pappas esclareceu:
        - No pretendemos cobrir-nos de glria com isto. Vai haver forte presso para deslindar o mistrio, e se vocs o conseguissem rapidamente, facilitavam-nos 
a vida. Eu podia comear, fornecendo os antecedentes da vtima.
        Por fim, o tenente Ingram decidiu que no tinha nada a perder.
        - De acordo. Ouamo-los.
        Alexandra encontrava-se deitada, sob o efeito de sedativos. O seu esprito recusava-se obstinadamente a aceitar o fato de que o marido fora assassinado. 
Ningum dispunha do mnimo motivo para o matar. A Polcia falava de ferimentos provocados por uma faca, mas equivocava-se, sem dvida. S podia ter sido um acidente. 
"Ningum lhe desejava a morte... Ningum lhe desejava a morte..." A droga que o dr. Harley lhe administrara acabou por fazer efeito, e ela adormeceu.
        Eva ficou abismada, quando se inteirou de que o corpo de Mellis fora encontrado. "Mas talvez sirva para reforar as suspeitas. Ela estava l, na ilha."
        Kate achava-se sentada a seu lado, no sof da sala, acabrunhada pelos acontecimentos das ltimas horas
        - Que motivo levaria algum a assassinar George? - murmurou.
        - No sei, av - articulou Eva. - Sinto o corao despedaar-se, ao pensar no desgosto de Alex.
        O tenente Ingram interrogava o empregado do terminal do ferryboat Lincoln ville-Islesboro.
        - Tem a certeza absoluta de que nenhum dos Mellis utilizou oferry, sexta-feira  tarde?
        - No o fizeram no meu turno e perguntei ao colega da manh, que afirmou a mesma coisa. S podiam vir de avio.
        - E quanto a estranhos?
        - Sabe perfeitamente que isso no acontece, nesta altura do ano. Aparecem alguns turistas no Vero, mas em Novembro nunca.
        A seguir, Ingram avistou-se com o responsvel do aeroporto de Islesboro, que declarou:
        - Posso assegurar-lhe que George Mellis no passou por aqui, nessa tarde. Se se dirigiu  ilha, recorreu a oferry.
        - Lew diz que no.
        - A nado  que no o fez!
        - E quanto a Mistress Mellis?
        - Essa, sim. Aterrou no seu Beechcraft por volta das dez da noite. Meu filho, Charley, conduziu-a a Cedar Hill.
        - Qual era o seu estado de esprito?
        -  curioso que me faa essa pergunta. Parecia nervosa como uma colegial a caminho da sua primeira entrevista romntica. Toda a gente reparou. Costuma mostrar-se 
calma e dirigir uma palavra atenciosa a quem encontra, mas dessa vez estava com uma pressa medonha.
        - S mais uma coisa. Apareceu algum estranho nessa tarde ou noite?
        - No. Apenas as pessoas habituais.
        Uma hora mais tarde, o tenente conversava com Nick Pappas pelo telefone.
        - O que obtive at agora s serve para aumentar a confuso. Mistress Mellis chegou ao aeroporto de Islesboro no seu avio particular, sexta-feira  noite, 
por volta das dez horas, mas o marido no a acompanhava, nem apareceu noutro aparelho ou no oferry. Na realidade, no existe elemento algum comprovativo de que ps 
os ps na ilha em toda a noite.
        - Exceto a corrente.
        - Exato.
        - Quem o matou deve t-lo lanado  gua de uma embarcao, convencido de que a corrente o arrastaria para o lago. Examinou o Corsair?
        - De ponta a ponta. No apresenta o mnimo sinal de violncia ou manchas de sangue.
        - Gostava de mandar a um perito. Importa-se?
        - No, desde que voc no se esquea do nosso acordo.
        - Tenho boa memria. At amanh.
        Nick Pappas e uma equipe de tcnicos apresentaram-se na manh seguinte e o tenente Ingram acompanhou-os  doca onde o Corsair se encontrava ancorado. Duas 
horas mais tarde, o chefe da equipe anunciava:
        - Parece que acertamos na mouche. H algumas manchas de sangue na parte inferior da amurada da popa.
        Naquela tarde, o laboratrio da Polcia confirmava que as manchas condiziam com o tipo de sangue de George Mellis.
        O departamento policial das "meias de seda" de Manhattan desenvolvia azfama invulgar. Uma srie de rusgas a locais suspeitos tivera como resultado a superlotao 
das celas, repletas de prostitutas, bbados e tarados sexuais. O rudo e o odor pungente atingiram os ouvidos e as narinas de Peter Templeton, quando entrou para 
falar com o tenente-detetive Pappas.
        - Ol, Peter. Agradeo a prontido com que compareceu. Pelo telefone, Pappas dissera: "- Oculta-me elementos importantes, amigo. Aparea no meu gabinete 
antes das seis, ou mando busc-lo pela Brigada de Choque."
        Quando a porta se fechou atrs dele, o psiquiatra inquiriu:
        - De que se trata?
        - Nada mais, nada menos do que de algum particularmente inteligente. Sabe o que temos nas mos? Um homem morto que desapareceu de uma ilha onde no ps 
os ps.
        - No faz sentido.
        - A quem o diz! O empregado do ferryboat e o tipo que explora o aeroporto juram que no viram George Mellis na noite em que desapareceu. A nica outra via 
de acesso a Dark Harbor  por barco. Interrogamos todas as pessoas que alugam embarcaes na rea, e nada.
        - Talvez ele no estivesse em Dark Harbor, nessa noite.
        - Os tcnicos do laboratrio afirmam o contrrio. Encontraram indcios de que foi l, onde vestiu a roupa com que o encontraram morto.
        - Mataram-no na casa?
        - No, no iate. Depois, lanaram o corpo pela borda fora. O assassino sups que a corrente o arrastaria para o lago. Agora,  a minha vez de fazer perguntas. 
Mellis era seu paciente. Portanto, deve ter-lhe falado na mulher.
        - Que tem ela a ver com o assunto?
        - Tem tudo.  a minha suspeita principal.
        - Endoideceu! Porque pensa que Alexandra Mellis assassinou o marido?
        - Encontrava-se l e dispunha de um motivo. Chegou  ilha j de noite, com a desculpa incrvel de que perdeu tempo no aeroporto errado  espera da irm.
        - Que diz a irm?
        - Que havia de dizer? So gmeas! Sabemos que George Mellis esteve na casa, naquela noite, mas a esposa jura que no o viu.  uma casa enorme, sem dvida, 
porm, no a esse ponto. Depois, ela dispensou o pessoal, e quando perguntei porqu, alegou que a idia foi do marido, impossibilitado de o confirmar ou negar.
        - Referiu-se a um motivo - lembrou Templeton, aps um momento de silncio.
        - Foi voc que me colocou no bom caminho. Mistress Mellis estava casada com um psicopata que obtinha excitao sexual atravs de maus tratos infligidos aos 
prostitutos de ambos os sexos. Provavelmente, esbofeteava-a com regularidade e ela acabou por querer pr termo ao tormento. Props o divrcio, ele recusou, o que 
no admira, dada a situao financeira da famlia Blackwell, e o homicdio apresentou-se como nica alternativa.
        - Que pretende de mim?
        - Informao. Sei que almoou com ela, h dez dias - Pappas premiu a tecla de um gravador em cima da secretria. - Quero que isto fique registrado, para 
efeitos legais. Como se comportou? Parecia tensa, irritada, histrica?
        - Nunca vi uma mulher mais descontrada e feliz com o casamento.
        - No tente ludibriar-me - advertiu, desligando o aparelho com um movimento brusco. - Procurei o doutor John Harley, esta manh. Confessou que prestava assistncia 
a Alexandra Mellis para evitar que se suicidasse!
        Harley ficara profundamente preocupado com a visita do tenente Pappas, que entrara diretamente no assunto:
        - Mistress Mellis consultou-o profissionalmente, nos ltimos tempos?
        - No posso discutir os meus pacientes - foi a resposta peremptria.
        - Compreendo. So amigos de longa data e pretende guardar segredo. Muito bem - Pappas levantou-se e encolheu os ombros. - investigo um homicdio. Por conseguinte, 
voltarei dentro de uma hora, munido de uma ordem judicial para examinar o seu ficheiro. Quando descobrir o que procuro, divulg-lo-ei aos jornais.
        Harley conservou-se silencioso por uns segundos e exalou um suspiro de resignao.
        - Sente-se. De fato, Alexandra Mellis tem enfrentado problemas emocionais, ultimamente.
        - De que gnero?
        - Uma forte depresso nervosa. Fala mesmo em pr termo  vida.
        - Mencionou a possibilidade de se servir de uma faca?
        - No. Parece que sonhava com o afogamento. Prescrevi-lhe Wellbutrin e, mais tarde, por no produzir efeito, optei pela Nimifensina. No sei se o resultado 
foi mais animador.
        - Que mais? - inquiriu Pappas, enquanto os elementos formavam um panorama coerente no seu esprito.
        - Revelei-lhe tudo o que sabia.
        No entanto, havia mais, e John Harley sentia a conscincia atorment-lo. Abstivera-se de mencionar o ataque brutal de George Mellis a Eva Blackwell. Em parte, 
porque reconhecia que devia ter informado as autoridades quando ocorrera, mas animava-o sobretudo o desejo de proteger a famlia Blackwell. Embora no pudesse determinar 
se existia alguma relao entre a agresso a Eva e a morte dele, o instinto segredava-lhe que convinha no ventilar o assunto. Na realidade, achava-se disposto a 
fazer tudo ao seu alcance para poupar a Kate Blackwell situaes desnecessariamente penosas.
        Cinco minutos depois de Harley tomar esta deciso, a recepcionista informou.- O doutor Keith Webster deseja falar-lhe. Est na linha dois. Dir-se-ia que 
a conscincia pretendia submet-lo a mais uma prova.
        - Gostava de passar por a esta tarde, John - declarou Webster. - Pode ser?
        - Sem dvida. A que horas?
         - s cinco, por exemplo.
        - Muito bem.
        Tudo indicava que o caso no tombava no esquecimento com facilidade. . .
        s 17.00 horas, a recepcionista introduziu o cirurgio no gabinete de Harley, que perguntou:
        - Toma alguma coisa?
        - No, obrigado. Desculpe incomod-lo, mas gostava de desfazer uma dvida.
        - No tem importncia. Do que se trata?
        - Da... - Webster hesitou e aclarou a Voz. - Do espancamento de Eva Blackwell por George Mellis.
        - Continue.
        - Sabia que ela esteve s portas da morte?
        - Sem dvida.
        - A Polcia no foi informada, como sabemos. No entanto, agora, em face do que sucedeu, pergunto a mim mesmo se no conviria faz-lo.
        - Acho que deve proceder como melhor lhe parecer, Keith.
        - Por outro lado, custa-me praticar um ato que possa afetar Eva Blackwell. Uma moa muito especial, diga-se de passagem.
        - Decerto - assentiu Harley, observando o interlocutor com curiosidade.
        - O pior  que, se me calo e a Polcia descobre tudo mais tarde, fico em maus lenis.
        "Ficamos!" refletiu. De sbito, afigura-se-lhe vislumbrar uma sada possvel e disse com desprendimento:
        - Parece-me pouco provvel que isso venha a acontecer. Ela nunca falaria nisso e, de resto, voc restituiu-lhe o aspecto primitivo. Se no fosse aquela pequena 
cicatriz, ningum suspeitaria de que esteve desfigurada.
        - Qual cicatriz? - perguntou o cirurgio, enrugando a fronte.
        - A da fronte. Segundo a prpria Eva me revelou, voc tenciona suprimi-la dentro de um ou dois meses.
        - No me recordo... Quando a viu pela ltima vez?
        - Procurou-me h uns dez dias, para trocarmos impresses sobre um problema da irm. Por acaso, a cicatriz foi o nico indcio que me permitiu verificar que 
era ela e no Alexandra. So gmeas idnticas, como sabe.
        - Sim - Webster inclinou a cabea com lentido. - Lembro-me de ver fotografias da irm nos jornais. Tm uma semelhana surpreendente. E diz que s soube 
de quem se tratava em virtude da cicatriz resultante da operao?
        - Exato.
        - Pensando bem, talvez no convenha ir  Polcia imediatamente. Quero ponderar o assunto mais uns tempos.
        - Aqui para ns, acho que tomou a deciso mais sensata. So ambas mulheres encantadoras e os jornais insinuam que as autoridades julgam Alexandra autora 
da morte do marido. Quanto a mim,  impossvel. Conheo-as desde a infncia...
        Todavia, o dr. Webster deixara de prestar ateno s palavras de Harley, imerso em profundas reflexes.
        O cirurgio abandonou o consultrio do colega, entregue a meditaes cada vez mais preocupantes. Tinha a certeza absoluta de que no deixara o mnimo vestgio 
de cicatriz naquele rosto admirvel. No obstante, John Harley afirmava t-la visto. A situao afigurava-se-lhe confusa e incompreensvel.
        Aps longa meditao, julgou vislumbrar a verdade e decidiu: "Se tenho razo, a minha vida vai sofrer uma transformao radical."
        Na manh seguinte, voltou a telefonar a Harley.
        - Desculpe tornar a incomod-lo, John, mas gostava que me esclarecesse um ponto. Disse que Eva Blackwell o procurou para trocarem impresses acerca de Alexandra?
        - Sim.
        - Alexandra esteve a, depois disso?
        - No dia seguinte. Porqu?
        - Mera curiosidade. Pode revelar-me o motivo da visita de Eva?
        - A irm atravessava um perodo de grande depresso e ela queria saber se lhe podia valer.
        Eva fora espancada e quase morta pelo marido de Alexandra. Agora, ele aparecera assassinado e esta figura como principal suspeita.
        Keith Webster nunca duvidara de que no era um homem brilhante. No liceu, tivera de se esforar at  exausto para obter nota suficiente para transitar 
de ano. Por outro lado, podia considerar-se uma nulidade no campo dos desportos, pois possua um fsico pouco apropriado para o efeito. Portanto, foi com surpresa 
geral dos colegas e amigos que conseguiu 'ingressar na Faculdade de Medicina. Uma vez tornado mdico, prosseguiu os estudos e acabou por se converter num dos melhores 
cirurgies plsticos do mundo. Dir-se-ia possuir um talento especial para modelar os tecidos humanos, como o escultor trabalha com o barro. Todavia, mau grado a 
fama que conquistou, jamais conseguiu superar o trauma da mocidade. No ntimo, continuava sendo o adolescente que aborrecia toda a gente e as raparigas desfrutavam.
        Quando finalmente marcou o nmero de Eva, Webster tinha as mos alagadas em transpirao. Ela atendeu ao primeiro toque e proferiu:
        - Rory?
        - No.  Keith Webster.
        - Ah, ol.
        - Como tem passado? - perguntou, apercebendo-se da mudana na voz dela.
        - Bem, obrigada.
        - Precisava falar-lhe.
        - No recebo ningum. Se l os jornais, sabe que meu cunhado foi assassinado. Estou de luto.
        -  precisamente acerca disso que lhe queria falar - ele limpou uma das mos s calas e utilizou-a para pegar no auscultador, a fim de proceder a idntica 
operao com a outra. - Sou possuidor de determinada informao do seu interesse.
        - De que se trata?
        - Prefiro no ventilar o assunto pelo telefone.
        - Est bem. Quando quer passar por c?
        - Imediatamente, se no v inconveniente.
        Quando o cirurgio se apresentou no apartamento de Eva, esta acolheu-o com a advertncia:
        - Disponho de pouco tempo. Que pretende dizer-me, afinal?
        - Isto.
        Webster abriu um sobrescrito que extraiu da algibeira e mostrou a fotografia que continha, com uma expresso de desafio.
        - Sou eu - admitiu ela, intrigada. - E depois?
        - Foi tirada logo a seguir  operao. Ou, melhor, aps a retirada das ligaduras.
        - No duvido, mas continuo sem compreender.
        - Nota alguma cicatriz na fronte?
        A metamorfose operada no seu semblante no passou despercebida ao cirurgio, que esboou um modesto sorriso de triunfo.
        - Sente-se, Keith.
        Ele instalou-se diante de Eva, na extremidade do sof, olhando-a como que fascinado. Vira muitas mulheres bonitas ao longo da sua carreira, mas aquela atraa-o 
de uma maneira diferente.
        - Sou toda ouvidos.
        Webster comeou pelo princpio. Referiu a sua visita ao dr. Harley e a cicatriz misteriosa, ao mesmo tempo que lhe observava os olhos, os quais se mantinham, 
todavia, inexpressivos. No final da descrio, Eva declarou:
        - No sei o que tem em mente, mas garanto-lhe que se limita a perder tempo. No que diz respeito  cicatriz, quis pregar uma pequena partida a minha irm. 
E agora, se acabou de desfiar o rosrio, no o retenho mais.
        - Lamento t-la incomodado - no obstante, ele permaneceu sentado. - Simplesmente, pensei que conviria falar consigo antes de me dirigir  Polcia.
        -  Polcia? - ecoou ela, agora visivelmente interessada. - Para qu?
        - Sou obrigado a comunicar o ataque de que foi vtima por parte de George Mellis. H, depois, o pormenor da cicatriz. No o entendo, mas estou certo de que 
voc explicar tudo de forma satisfatria para as autoridades.
        Eva experimentou a primeira sensao de medo. O imbecil e insignificante indivduo sentado na sua frente no fazia a mnima idia do que acontecera, mas 
achava-se na posse de material suficiente para obrigar a Polcia a formular-lhe perguntas embaraosas.
        George Mellis visitava-a com frequncia, circunstncia sem dvida observada pela vizinhana. Por outro lado, ela mentira acerca da ida a Washington, na noite 
da morte de Mellis, e no dispunha de um libi slido porque nunca supusera que o viria a necessitar. Se a Polcia se inteirasse de que o cunhado a espancara quase 
at  morte, deparar-se-lhe-ia um excelente mbil para o crime. A partir da, toda a maquinao se revelaria gradualmente. Portanto, impunha-se que garantisse o 
silncio daquele homem.
        - Que pretende? Dinheiro?
        - No! - replicou ele, indignado.
        - Ento?
        - Gosto muito de si - articulou, corando e fixando o olhar na carpeta. - Desgostava-me profundamente que lhe sucedesse algum dissabor.
        - No se preocupe com isso - Eva conseguiu esboar um sorriso. - Creia que nada disso tem a mnima relao com a morte de George Mellis - pegou-lhe na mo 
e acrescentou a meia voz: - Ficava-lhe imensamente grata se esquecesse o que acaba de mencionar. De acordo?
        - Bem queria, mas o mdico legista promove um inqurito preliminar, no sbado. Na minha qualidade de cirurgio, tenho de depor e revelar tudo o que sei.
        - No  obrigado a isso! - exclamou ela, alarmada.
        - Que remdio... O juramento profissional impe-me. H apenas uma coisa que me impediria de o fazer...
        - O qu?
        A voz de Webster denunciava a mxima brandura quando anunciou:
        - Homem algum pode ser forado a depor contra a esposa!




        Captulo XXXV



        O casamento realizou-se dois dias antes do inqurito do mdico legista, numa cerimnia discreta presidida por um magistrado no seu gabinete. A idia de se 
unir pelo matrimnio a um homem como Keith Webster fazia com que Eva sentisse arrepios de repulsa, mas reconhecia que no lhe restava qualquer alternativa. "O idiota 
pensa que vamos estar casados durante muito tempo." Assim que o inqurito fosse concludo, obteria a anulao, e no teria de o suportar mais.
        O tenente-detetive Nick Pappas achava-se a contas com um problema. Estava convencido de que conhecia a identidade de quem matara George Mellis, mas no o 
podia provar. Deparava-se-lhe uma conspirao de silncio em torno da famlia Blackwell que no podia desmantelar. Discutiu o assunto com o seu superior, capito 
Harold Cohn, um polcia, que iniciara a carreira como simples guarda das ruas, o qual o escutou em silncio e, no final, declarou:
        -  tudo fumo, Nick. No possui um fragmento de prova, No tribunal, rir-se-iam de ns!
        - Talvez, mas tenho razo - Pappas imergiu em reflexes por um momento. - Importa-se que converse com Kate Blackwell?
        - Com a breca! Para qu?
        - Chame-lhe uma diligncia motivada pelo desespero. Como chefe suprema da famlia, pode dispor de elementos que lhe paream destitudos de importncia.
        - Ter de usar muita cautela.
        - No se preocupe com isso.
        - E trate-a com amabilidade. Lembre-se de que tem uma idade avanada.
        -  precisamente com isso que conto.
        A entrevista realizou-se naquela tarde, no gabinete de Kate. Nick Pappas calculou que h muito ultrapassara os oitenta anos, embora mantivesse um porte aprumado 
e quase no deixasse transparecer a amargura que a situao decerto lhe provocava.
        - A minha secretria informou-me de que deseja falar-me de um assunto de certa urgncia, tenente.
        - Exatamente, Mistress Blackwell. Realiza-se amanh o inqurito relativo  morte de George Mellis e tenho motivos para supor que sua neta est envolvida 
no assunto.
        - No acredito - ela assumiu uma atitude repentinamente rgida.
        - Agradecia que ponderasse o meu ponto de vista. Toda a investigao policial principia com a questo do mbil. George Mellis era um caador de fortunas 
- Pappas notou a reao provocada por estas palavras, mas prosseguiu: - Casou com a sua neta e viu-se de repente habilitado a desfrutar de recursos materiais avultados. 
Quanto a mim, excedeu-se nos maus tratos a Alexandra, que resolveu propor o divrcio. Ora, ele recusou e a nica soluo consistiu em mat-lo. - Fez uma pausa, mas 
Kate permaneceu silenciosa, conquanto empalidecesse um pouco.
        - Comecei a procurar elementos confirmativos da minha teoria. Sabamos que George Mellis esteve em Cedar Hill antes de desaparecer. Existem apenas duas vias 
de acesso a Dark Harbor: avio ou ferryboat. Segundo as diligncias efetuadas no local, ele no os utilizou. No acredito em milagres, pelo que pus de parte a possibilidade 
de cobrir a distncia a p, na gua. A nica hiptese que restava era que recorreu a uma embarcao a partir de algures ao longo da costa. Nessa conformidade, pus-me 
a explorar os locais de aluguel e fui bem sucedido em Gilkey Harbor. s quatro da tarde do dia da morte de George Mellis, uma mulher alugou uma lancha motorizada, 
com a indicao de que um amigo a iria buscar. Pagou em dinheiro, mas teve de assinar o talo de aluguel. O nome de Solange Dunas reveste-se de algum significado 
para si, Mistress Blackwell?
        - Sem dvida. Era o da perceptora das minhas netas. Regressou a Frana, h vrios anos.
        Pappas inclinou a cabea, com uma expresso de satisfao no rosto.
        - Um pouco mais longe, na costa, a mesma mulher alugou uma segunda lancha, que restituiu trs horas depois, tornando a dar o nome de Solange Dunas. Mostrei 
em ambos os lugares uma fotografia de Alexandra e declararam-se convencidos de que correspondia  cliente em causa. Subsistia, no entanto, uma leve dvida, em virtude 
de ela ser morena.
        - Nesse caso, porque pensa?...
        - Usou peruca.
        - No acredito que Alexandra assassinasse o marido.
        - Nem eu, Mistress Blackwell. Foi a irm, Eva. Alexandra no tinha possibilidade de praticar o crime. Investiguei-lhe os movimentos nesse dia e verifiquei 
que passou a manh e o princpio da tarde em Nova Iorque consigo, aps o que voou diretamente para a ilha. No podia ter alugado as duas lanchas - Pappas inclinou-se 
para a frente. - Fiquei, portanto, com algum parecido com Alexandra que deu o nome de Solange Dunas. S podia ser Eva. Em face disso, comecei a procurar um motivo. 
Quando mostrei a fotografia de George Mellis aos inquilinos do prdio em que ela vive, apurei que a visitava com regularidade. Como se isto no bastasse, o porteiro 
revelou-me que, numa dessas visitas, a espancou quase at  morte. Sabia, Mistress Blackwell?
        - No - a voz de Kate convertera-se quase num murmrio.
        - Sim, foi Mellis que proporcionou o motivo a Eva: vingana. Atraiu-o s proximidades de Dark Harbor e matou-o. O libi invocado por ela consiste em que 
se encontrava nesse dia em Washington. Deu uma nota de cem dlares ao motorista do txi que a transportou ao aeroporto, para que se lembrasse dela, e armou espalhafato 
por ter perdido o avio com destino a Washington. Penso que usou uma peruca preta e seguiu num avio comercial para Maine, onde alugou as lanchas. Matou Mellis, 
lanou o corpo  gua, ancorou o iate e rebocou a segunda lancha at ao cais de aluguel, quela hora encerrado.
        - Todos os elementos de que dispe so aquilo a que chamam provas acessrias, salvo erro.
        - Exato - Pappas achava-se preparado para a ofensiva final. - Necessito de provas concretas para o inqurito do mdico legista. Conhece a sua neta melhor 
do que ningum no mundo, Mistress Blackwell. Tem de me revelar tudo o que puder que lhe parea til.

        Kate conservou-se calada por um longo momento, como se ponderasse a situao. Por fim, articulou pausadamente:
        - Creio que lhe posso fornecer informaes para esse inqurito.
        O corao do tenente principiou a palpitar com maior intensidade. Aventurara-se perigosamente, mas merecera a pena. A velhota escutara a voz da razo.
        - Sim, Mistress Blackwell? - murmurou, contendo a respirao inconscientemente.
        - No dia em que George Mellis foi assassinado, eu e minha neta Eva encontrvamo-nos em Washington, juntas.
        Observando a expresso de assombro do interlocutor, Kate refletiu: "Julgavas que te oferecia uma Blackwell para sacrifcio? Querias que a imprensa celebrasse 
um festim com o meu nome? No. Ocupar-me-ei de Eva  minha maneira!"
        O veredicto pronunciado pelo jri do inqurito consistiu em morte provocada por agressor ou agressores desconhecidos.
        Ante a surpresa e satisfao de Alexandra, Peter Templeton encontrava-se presente no tribunal em que se realizou a sesso do inqurito.
        - Vim apenas para fornecer apoio moral - explicou-lhe.
        Durante o intervalo, levou-a a um pequeno restaurante sobranceiro  baa, em Licolnville, e sugeriu:
        - Quando tudo isto terminar, fazia-lhe bem efetuar uma viagem, ausentar-se por uma temporada.
        - Sim, Eva pediu-me que a acompanhasse - os olhos dela marejaram-se de lgrimas: - Ainda me custa a crer que George tenha morrido...
        -  a maneira que a Natureza emprega para atenuar o choque, at que a dor seja suportvel.
        - No faz sentido, um homem como ele. Conheceu-o razoavelmente nas sesses que tiveram. No acha que era uma pessoa admirvel?
        - Sim - concedeu Templeton, em tom pausado. - Admirvel.
        - Quero a anulao do casamento - anunciou Eva.
        - Porqu? - inquiriu Keith Webster, pestanejando de admirao.
        - Deixa-te de histrias. Julgavas mesmo que ia ficar casada contigo?
        - Claro. s minha mulher.
        - Que procuras? O dinheiro dos Blackwell?
        - No preciso dele, querida. Ganho muito mais do que o suficiente para o nosso sustento. Posso proporcionar-te tudo o que quiseres.
        - J te disse que a nica coisa que quero de ti  a anulao!
        - Lamento, mas no te posso conceder.
        - Nesse caso, peo o divrcio.
        - No me parece aconselhvel. No fundo, nada mudou. Como a Polcia no descobriu o assassino do teu cunhado, as investigaes continuam abertas. Se nos divorcissemos, 
via-me obrigado... - o cirurgio interrompeu-se e ergueu as mos num gesto de impotncia.
        - Falas como se eu o tivesse assassinado.
        - Foi o que aconteceu.
        - Como diabo sabes tu isso? - perguntou ela, com uma expresso de desdm.
        - Era a nica razo que te obrigaria a casar comigo.
        - Bastardo! - olhou-o com animosidade. - Como  possvel que me faas isto?
        -  muito simples. Amo-te.
        - E eu odeio-te. Ouviste bem? Desprezo-te!
        - Amo-te tanto - limitou-se ele a articular, com uma expresso pesarosa.
        A viagem na companhia de Alexandra fora cancelada, pois Eva explicara  irm que visitaria as Carabas, na sua lua-de-mel, na realidade uma idia de Keith 
Webster.
        Agora, declarou com firmeza:
        - J no vou. A simples hiptese de uma lua-de-mel contigo revolta-me.
        - Se no formos, as pessoas estranham - observou ele, no habitual tom tmido. - E no convm nada que comecem a fazer perguntas embaraosas, no achas?
        Alexandra passou a almoar com Peter Templeton uma vez por semana. Ao princpio, fazia-o porque desejava trocar impresses acerca do marido e no havia outra 
pessoa que o tivesse conhecido em condies de a elucidar de pormenores que lhe eram menos familiares. No entanto, transcorridos alguns meses, admitiu para consigo 
que apreciava profundamente a companhia do psiquiatra. Com efeito, ele irradiava um ar de segurana que lhe incutia confiana. Mostrava-se sensvel s facetas do 
seu temperamento e invulgarmente inteligente para a distrair nos momentos mais delicados.
        - Quando era interno, atendi a primeira chamada do exterior nos pncaros do Inverno - explicou, um dia. - A paciente era uma mulher idosa e frgil, atacada 
de tosse persistente. Antes de lhe aplicar o estetoscpio, decidi aquec-lo um pouco, para evitar o contato desagradvel do metal frio com o peito. Assim, coloquei-o 
em cima do calorfero, enquanto lhe examinava a garganta e os olhos. A seguir, peguei no estetoscpio e pousei-lho no peito. Ele deu um salto da cama como se a casa 
estivesse a arder e quisesse alcanar a sada. A tosse desapareceu, mas foram necessrias duas semanas para que a queimadura soasse.
        Alexandra soltou uma gargalhada divertida. Era a primeira vez que o fazia desde longa data.
        A lua-de-mel de Eva resultou muito mais satisfatria do que previra. Em virtude da sua pele, sensvel aos raios solares, Keith Webster evitava expor-se, 
pelo que ela passava o dia inteiro na praia, sem a sua companhia. No entanto, nunca se achava s por muito tempo. Rodeavam-na jovens de todos os tipos, como uma 
mesa de banquete repleta de iguarias variadas, e Eva podia saborear um repasto substancial todos os dias. Alis, a idia de o marido a assediar com objetivos sexuais 
repugnava-lhe de tal modo que necessitava daquelas escapadas para manter o equilbrio mental.
        "Os anos comeam a exercer o seu peso" reconhecia Kate Blackwell. Eram muitos, todos excitantes e ricos de episdios espetaculares.
        A Kruger-Brent, Ltd. necessitava de uma mo poderosa ao leme. Algum com sangue dos Blackwell. "No h ningum para manter o facho aceso depois de mim. Tanto 
trabalho e sacrifcios pela companhia e, no fundo, para qu? Para que estranhos colham os frutos um dia. Raios para tudo isto! No posso permitir que tal acontea!"
        Uma semana aps o regresso da lua-de-mel, Webster anunciou em tom de desculpa:
        - Vou retomar o trabalho, querida. Tenho numerosas operaes atrasadas. Achas que passars bem o dia sem mim?
        - Farei o possvel... - redarguiu Eva, secamente.
        Ele saa de casa todas as manhs muito antes de ela acordar, mas deixava tudo preparado para o seu pequeno-almoo. Por outro lado, abriu uma conta bancria 
em nome da esposa e mantinha-a abastecida com regularidade, o que permitia que Eva gastasse dinheiro sem restries. Desde que a visse satisfeita, Webster considerava-se 
feliz. Eva aproveitava a oportunidade para comprar artigos dispendiosos para Rory, com o qual passava quase todas as tardes. Apetecia-lhe permanecer a seu lado o 
dia inteiro, mas tinha de pensar no marido. Assim, regressava a casa por volta das oito da tarde e j o encontrava na cozinha a contas com o jantar, sem que jamais 
lhe perguntasse donde vinha.
        Durante o ano seguinte, Alexandra e Peter Templeton continuaram a encontrar-se com frequncia crescente. Ele acompanhava-a, quando visitava o pai na clnica, 
e o fato contribua para que ela sentisse a mgoa menos intensa.
        Uma noite em que a foi buscar, Templeton verificou que Kate o esperava, e viu-se imediatamente confrontado com uma atitude perscrutadora.
        - Com que ento  mdico, hem? Enterrei uma dzia deles e ainda ando por c. Percebe alguma coisa de negcios?
        - Pouco, Mistress Blackwell.
        - Pertence a alguma corporao?
        - No.
        - Raios! - fungou num gesto de desdm. - No sabe nada. Precisa de um perito que o ensine a lidar com os impostos. Marcar-lhe-ei uma entrevista com o meu 
e...
        - Agradeo-lhe, Mistress Blackwell, mas sinto-me bem assim.
        - Meu marido tambm era casmurro - Kate voltou-se para Alexandra, que acabava de surgir. - Convida-o para jantar. Tenho de o trabalhar melhor, para que se 
convena.
        Quando saram, Templeton murmurou:
        - Tua av detesta-me!
        - Pelo contrrio, gosta de ti - afirmou Alexandra, rindo. - Havias de ouvir como fala s pessoas que lhe desagradam.
        - Nem me atrevo a pensar como reagiria se lhe dissesse que tenciono casar contigo!
        Olhou-o em silncio com uma expresso radiosa por um momento e replicou:
        - Ficvamos ambas encantadas.
        Kate assistira ao desenrolar do romance de Alexandra e Peter Templeton com particular interesse. Simpatizava com o jovem psiquiatra e acabou por decidir 
que seria um marido excelente para a neta. Todavia, no fundo, ela era uma calculista e agora, sentada diante de ambos junto da lareira, declarou:
        - Devo confessar que fiquei totalmente surpreendida. Na verdade, sempre esperei que Alexandra casasse com um empresrio capaz de assumir o comando da Kruger-Brent.
        - No se trata de uma proposta de negcios, Mistress Blackwell. Alexandra e eu queremos casar.
        - Por outro lado - prosseguiu Kate, como se no tivesse sido interrompida -,  um psiquiatra, pelo que conhece o modo como a mente e as emoes das pessoas 
funcionam. Talvez d um bom negociante. Gostava que se envolvesse na companhia. Podia...
        - No - atalhou ele, com firmeza. - Sou mdico. Os negcios no me interessam.
        - No se trata de um negcio qualquer, como se lhe propusesse o trespasse de uma mercearia. Voc vai entrar para a famlia e eu preciso de algum que dirija...
        - Lamento - o seu tom era terminante. - No quero ter nada de comum com a Kruger-Brent. Dever procurar outra pessoa para isso.
        - E tu, que tens a dizer? - Kate virou-se para a neta, com uma expresso de curiosidade.
        - Concordo com tudo o que Peter decidir.
        - O mundo est cheio de ingratos! No entanto,  possvel que ainda venham a mudar de opinio. Pensam ter filhos?
        - Isso  uma questo privada - esclareceu Templeton, rindo. - Palpita-me que gosta de manipular as pessoas e as situaes, Mistress Blackwell, mas ns pretendemos 
viver as nossas vidas sem interferncias, e os nossos filhos, se os houver, vivero a deles.
        - Nem me passou pela cabea que fosse de outro modo - afirmou Kate, esboando um sorriso angelical. - Sempre impus a mim prpria a regra de no interferir 
nas vidas dos outros.
        Dois meses depois, Alexandra e Templeton regressavam da lua-de-mel. Ela encontrava-se grvida e, quando se inteirou, Kate refletiu: "timo. H-de ser um 
rapaz!"
        Eva, deitada na cama, contemplava Rory, que acabava de sair da casa de banho, desnudo. Tinha um corpo admirvel. Ela nunca se cansava do seu contato. Suspeitava 
de que no era a nica a experimentar prazer sexual com ele, mas abstinha-se de o interrogar a esse respeito, com receio de que ele se afastasse. Rory acercou-se 
da cama, debruou-se e fez deslizar o dedo em torno dos seus olhos, ao mesmo tempo que observava:
        - Esto a aparecer-te algumas rugas, mas ficam-te muito bem.
        Cada uma destas palavras constituiu uma punhalada, uma lembrana da diferena de idades entre ambos.
        Eram quase nove horas quando Eva entrou em casa e descobriu que Webster assava carne no forno.
        - Ol, querida - saudou-a, ao mesmo tempo que lhe depositava um beijo na face. - Preparei um pitu especial. Adivinha o que...
        - Quero que me removas estas rugas, Keith.
        - Quais rugas? - inquiriu, pestanejando.
        - Estas - volveu ela, indicando a rea em redor dos olhos.
        - Mas so provocadas pelo riso, querida. Adoro-as.
        - E eu detesto-as! - bradou.
        - Podes crer que no...
        - Livra-me delas! No  esse o teu modo de vida?
        - Sim, mas... - Webster emitiu um suspiro de resignao. - Est bem.
        - Quando?
        - Dentro de umas seis semanas. De momento tenho...
        - No sou um dos teus malfadados pacientes. Como tua mulher, devo ter primazia. Amanh mesmo!
        - A clnica no abre aos sbados.
        - Manda-a abrir!
        - Acompanha-me  sala.
        F-la sentar diante de uma luz intensa e examinou-lhe o rosto minuciosamente. De um momento para o outro, transformara-se miraculosamente do marido tmido 
e subserviente num cirurgio brilhante. Talvez considerasse a operao desnecessria, mas Eva tinha uma opinio diferente. Parecia-lhe vital, pois no suportava 
a idia de poder perder Rory.
        - No vejo problema algum - declarou finalmente Webster. - Tratamos disso amanh.
        - Costumo ter uma enfermeira a auxiliar-me - explicou no dia seguinte, quando se dirigiam para a clnica -, mas numa interveno to simples no vejo necessidade.
        - J agora, d tambm um toque aqui - recomendou Eva, pousando os dedos numa pequena adiposidade no pescoo.
        - Sem dvida, querida. Vou anestesiar-te, para que no sintas o mnimo desconforto.
        Uma vez na sala de operaes, ela viu-o encher uma seringa hipodrmica e dar-lhe uma injeo com uma suavidade que quase no lhe permitiu sentir a picada. 
De qualquer modo, no se importaria que se registrasse dor, pois sujeitava-se quilo por Rory. Antes de adormecer, evocou o seu corpo escultural e viril, sempre 
disposto a satisfazer-lhe o apetite.
        Quando acordou, encontrava-se deitada num quarto particular da clnica, com o marido sentado  cabeceira da cama.
        - Como correu? - perguntou em voz dbil.
        - O melhor possvel - foi a resposta, acompanhada de um sorriso.
        Eva inclinou a cabea com satisfao e voltou a adormecer.
        Webster continuava presente, quando tornou a despertar, transcorridas algumas horas.
        - Vamos manter as ligaduras por uns dias. Continuars internada, para receberes assistncia mais cuidada.
        - Pois sim.
        Examinava-a diariamente e exibia invariavelmente uma expresso de agrado devida ao que se lhe deparava.
        - Perfeito.
        - Quando posso espreitar?
        - L para sexta-feira, quando tiver sarado por completo.
        Ela pediu  enfermeira que instalasse uma extenso telefnica junto da cama, e a primeira chamada que efetuou foi para Rory.
        - Onde diabo ests? - inquiriu ele. - Tenho uma fome danada.
        - Tambm eu, mas este congresso de cirurgies na Florida s termina na sexta-feira. Espero regressar no princpio da prxima semana. Tens saudades minhas?
        - No so coisas que se perguntem...
        A seguir, Eva telefonou a Alexandra e escutou enfastiada as consideraes desta acerca da gravidez. No entanto, afirmou com simulado entusiasmo:
        - Estou ansiosa por esse momento. Sempre desejei ser tia.
        Entretanto, raramente via a av, pois estabelecera-se entre ambas uma frieza que Eva no entendia. "H-de passar-lhe..." acabava sempre por pensar.
        Kate nunca perguntava por Keith, e Eva no a censurava por isso, pois tratava-se de um insignificante. Talvez um dia conversasse com Rory para se livrarem 
dele. Afigurava-se-lhe incrvel trair o marido quase diariamente sem que denunciasse a mnima suspeita. Por sorte, ele possua talento para alguma coisa de que ela 
podia beneficiar.
        Na sexta-feira, Eva acordou cedo e aguardou com impacincia a visita habitual de Webster.
        -  quase meio-dia - queixou-se, quando finalmente o viu surgir. - Onde diabo estiveste metido?
        - Desculpa, querida, mas passei toda a manh na sala de operaes e...
        - Estou-me nas tintas para isso. Tira-me as ligaduras de uma vez. J tenho saudades de me ver ao espelho.
        - Muito bem.
        Sentou-se na cama e conservou-se imvel, enquanto o marido a libertava das ligaduras, aps o que a contemplou com satisfao.
        - Perfeito, no haja dvida.
        - Vai buscar um espelho.
        Ele apressou-se a compraz-la, com um sorriso de orgulho. Eva ergueu-o  altura do rosto e observou a imagem com ansiedade.
        No instante imediato, soltava um grito de horror.



EPLOGO



                Kate 1982


        Captulo XXXVI



        Kate tinha a impresso de que a roda do tempo comeava a mover-se mais rapidamente, acelerando a sucesso dos dias, das semanas, dos meses e dos anos, at 
que se mesclavam numa confuso obscura. Tinha j oitenta e tal anos. Oitenta e quantos? Por vezes, esquecia-se da idade exata. No se importava de envelhecer, mas 
custava-lhe encarar a perspectiva de vir a apresentar um aspecto desmazelado, pelo que consagrava particular ateno a esse pormenor. Assim, quando consultava o 
espelho, via uma figura de mulher irrepreensvel, aprumada, altiva e indomvel.
        Continuava a comparecer no escritrio todos os dias, mas tratava-se de um gesto simblico, uma artimanha para afugentar a morte. Embora estivesse presente 
em todas as reunies da administrao, o que se passava nelas no se lhe afigurava to claro como antes. As pessoas que a rodeavam pareciam exprimir-se demasiado 
depressa. O que, porm, mais a preocupava era o fato de a mente lhe pregar partidas, de vez em quando. O passado e o presente confudiam-se constantemente. O seu 
mundo contraa-se, tornando-se cada vez mais pequeno.
        Se existia um salva-vidas a que se agarrava, uma fora motriz que a mantinha viva, era a convico irresistvel de que algum da famlia teria, um dia, de 
assumir o comando da Kruger-Brent. Kate no estava disposta a permitir que estranhos se apoderassem daquilo que Jamie McGregor, Margaret, ela prpria e David haviam 
construdo com tanto esforo ao longo dos anos. Eva, na qual chegara a depositar todas as esperanas, convertera-se numa assassina. E num ser grotesco. No necessitara 
de a castigar. Aquilo que o marido lhe fizera constitua uma punio suficiente.
        No dia em que vira o seu novo e definitivo rosto no espelho, Eva tentara pr termo  vida. Tragara todo o contedo de um frasco de barbitricos, mas o marido 
procedera a uma imediata lavagem ao estmago e levara-a para casa, onde a mantinha sob vigilncia permanente. Quando tinha de trabalhar no hospital ou na clnica, 
era substitudo por enfermeiras, dia e noite.
        - Deixa-me morrer - suplicava ela. - No quero continuar a viver assim.
        - Agora, pertences-me completamente - replicava ele. - Amar-te-ei sempre.
        A imagem do seu semblante atual achava-se gravada indelevelmente no esprito de Eva, que conseguiu convencer Webster a dispensar as enfermeiras, pois no 
queria que a olhassem com repulsa mal dissimulada.
        Alexandra procurava-a com insistncia, mas ela negava-se a receb-la. Por outro lado, todos os gneros encomendados eram deixados do lado de fora da porta, 
para que ningum lhe visse o rosto. A nica pessoa que desfrutava desse discutvel privilgio era o marido, no fundo o nico ente que lhe restava. Constitua o seu 
elo solitrio com o mundo, e apavorava-a a possibilidade de a abandonar, ficando s com a sua insuportvel fealdade.
        Ele levantava-se todas as manhs s cinco, a fim de seguir para o hospital ou para a clnica, e Eva antecipava-se sempre, para lhe preparar o pequeno-almoo. 
 noite, ocupava-se igualmente do jantar e, se o marido se atrasava, ficava apreensiva.         "Talvez encontrasse outra mulher. E se nunca mais aparecesse?"
        Quando ouvia a chave na fechadura, precipitava-se para a porta e lanava-lhe os braos ao pescoo. Nas ocasies em que faziam amor, afigurava-se-lhe que 
era alvo de uma bondade maravilhosa.
        Uma vez, perguntou timidamente:
        - No achas que j me castigaste o suficiente, querido? Porque no me restituis o rosto ao aspecto primitivo?
        Ele olhou-a por um momento e declarou com orgulho:
        - No  possvel.
         medida que o tempo passava, Webster tornava-se mais exigente, mais peremptrio, at que Eva acabou por se converter completamente em sua escrava, empenhada 
em lhe satisfazer o mnimo capricho. A fealdade unia-a ao marido, mais fortemente que correntes de ferro.
        Alexandra e Templeton tinham um filho, Robert, que fazia Kate pensar em Tony na infncia. O bisneto contava j oito anos e mostrava-se particularmente precoce. 
"Muito precoce, mesmo", envaidecia-se ela. "Um garoto realmente notvel!"
        Todos os membros da famlia receberam os convites no mesmo dia.
        MRS. KATE BLACKWELL SOLICITA A HONRA DA SUA PRESENA PARA CELEBRAR O NONAGSIMO ANIVERSRIO EM CEDAR HILL, DARK HARBOR, MAINE, A 24 DE SETEMBRO DE 1982. 
S OITO DA NOITE. TRAJE DE RIGOR.
        Quando leu o seu, Webster voltou-se para Eva e decidiu:
        - No podemos faltar.
        - Como queres que aparea com?...
        - No podemos faltar - reiterou com firmeza.
        Tony Blackwell encontrava-se no jardim da clnica diante do cavalete, quando uma enfermeira se aproximou.
        - Uma carta para si.
        Tony abriu o sobrescrito e desenhou-se-lhe um sorriso nos lbios.
        - timo - murmurou. - Sempre gostei de festas de anos.
        Peter Templeton fixava o olhar no convite, com uma expresso de admirao.
        - Custa a crer que a velhota faa noventa anos.  uma mulher realmente extraordinria.
        - Sem dvida - e Alexandra acrescentou pensativamente: - Sabes uma coisa, querido? Robert tambm recebeu um convite, dirigido a ele.

















        Captulo XXXVII



        Os convidados h muito que se haviam retirado no ferry-boat ou no avio, e a famlia estava reunida na biblioteca de Cedar Hill. Kate contemplava os parentes 
um a um, e identificava-os com clareza surpreendente. Tony, o vegetal sorridente e vagamente cordial que tentara mat-la, o filho que se apresentara to pleno de 
promessas e esperanas. Eva, a assassina, que podia ter possudo o mundo, se no albergasse a semente do mal nas entranhas. Era irnico que o seu terrvel castigo 
partisse das mos de um indivduo aparentemente insignificante e dcil. Havia, depois, Alexandra, bonita, afetuosa e gentil, a maior decepo de todas, que colocara 
a felicidade pessoal acima dos interesses da Kruger-Brent. No manifestara a mnima preocupao pela companhia e escolhera um marido que se negava a enveredar pelos 
negcios. Na realidade, um par de traidores. Seria possvel que todas as provaes do passado redundassem em pura perda? "No permitirei que tudo termine assim. 
Alguma coisa se aproveita dos esforos e sacrifcios. Constru uma dinastia orgulhosa. H um hospital na Cidade do Cabo com o meu nome. Fundei escolas e bibliotecas 
e auxiliei o povo de Banda". Comeava a doer-lhe a cabea. A sala enchia-se lenta e gradualmente de fantasmas. Jamie McGregor, Margaret - bela como sempre - e Banda 
sorriam-lhe. E o querido e maravilhoso David apertava-a nos braos. Kate sacudiu a cabea para desanuviar o esprito. Ainda no se achava preparada para se lhes 
reunir. "Em breve", admitia. "Dentro de pouco tempo..."
        Havia mais um membro da famlia na sala, e ela voltou-se para o neto.
        - Vem c, meu filho.
        Robert aproximou-se e pegou-lhe na mo.
        - Foi uma festa de anos de arromba, bisav.
        - Obrigada, Robert. Alegra-me que te agradasse. Como vais na escola?
        - Obtenho as melhores classificaes, como recomendaste. Estou no primeiro lugar do quadro de honra.
        Kate virou-se para Templeton.
        - Devem mand-lo para o Colgio Wharton, quando tiver idade suficiente.  o melhor...
        - Nunca desiste, hem? - atalhou o psiquiatra, rindo. - Ele far exatamente o que preferir. Revela inclinao extraordinria para a msica e quer tornar-se 
intrprete de peas clssicas. Escolher a sua prpria vida.
        - Assim  que deve ser - redarguiu ela, imperturbvel. - Uma velha como eu no tem o direito de interferir. Se quer tornar-se msico, faam-lhe a vontade 
- concentrou-se de novo no garoto, os olhos dominados por um claro de afeto. - Embora no possa prometer nada, tentarei ajudar-te. Conheo uma pessoa amiga ntima 
de Zubin Mehta...

          


































        ? Conhea um pouco mais sobre o autor Sidney Sheldon:


        Sidney Sheldon nasceu em 11 de fevereiro de 1917 em Chicago, no estado de Illinois, EUA. Como seu pai era um vendedor que viajava com freqncia, Sidney 
morou em vrias cidades. Segundo ele, isso o transformou em uma pessoa tmida e um pouco solitria. Aos 12 anos, escreveu sua primeira pea, que ele tambm produziu, 
dirigiu e estrelou. Freqentou a Northwestern University, em Chicago, aonde participava ativamente de debates. Depois de terminar a faculdade, aos 22 anos, Sidney 
Sheldon se mudou para Hollywood com a esperana de entrar no show business. Ele escreveu alguns roteiros e enviou para diversos estdios, e s no obteve resposta 
de um deles.Comeou a trabalhar at que chegou aos estdios 20th Century-Fox, onde impressionou a todos com seu talento e logo conseguiu um emprego de roteirista. 
Escreveu diversos filmes de sucesso, at chegar a TV onde produziu "The Patty Duke Show" em 1963. Essa srie fez muito sucesso e duraram 3 anos. A partir da, Sidney 
adquiriu experincia para a sua grande obra televisiva: "Jeannie  Um Gnio". Depois, ele ainda criou duas outras sries: "Nancy", nos anos 70, e "Hart to Hart", 
nos anos 80. Sidney Sheldon conta que enquanto trabalhava na TV, ele no tinha a menor vontade de escrever um livro. Ele nem se achava capaz de fazer isso. Mas, 
em 1969, algumas idias comearam a surgir em sua mente, e ele acabou escrevendo seu primeiro livro, "The Naked Face". Hoje ele diz que adora escrever livros pois 
no h colaboradores, e ele pode fazer tudo exatamente do jeito que quer. "Ningum sabe de onde vem a inspirao," ele fala. "Eu acho que a criatividade  um dom. 
Ns devemos trabalhar muito para desenvolv-lo." Pelos seus trabalhos como escritor, ele recebeu um Oscar (por "The Bachelor and The Bobby-Soxer"), um prmio Tony 
(de teatro) e uma indicao para o Emmy pelo seu trabalho em "Jeannie". Oito de seus livros se transformaram em minissries de sucesso nos EUA. Hoje, Sidney e sua 
terceira esposa, Alexandra Kostoff, vivem entre a Califrnia e um apartamento em Londres. Seu primeiro casamento, com Jane Harding Kaufman em 1945, terminou em divrcio 
dois anos depois. Ele tem uma filha, Mary, do seu segundo casamento, com a atriz Jorja Curtright, que morreu em 1985. Sua atitude em relao  vida  simples: "As 
pessoas geralmente so negativas e sem coragem. Lembre-se disso: Nada pode impedi-lo quando voc estabelece um objetivo. Ningum pode impedi-lo, a no ser voc mesmo. 
Eu acredito nisso." Sidney Sheldon j vendeu mais de 275 milhes de livros em todo o mundo.  o nico escritor que recebeu trs dos mais cobiados prmios da indstria 
cultural americana: o Oscar (cinema), o Tony (teatro) e o Edgar (literatura de suspense).  atualmente o autor mais traduzido em todo o planeta.



         ? Procure conhecer outros de seus livros:


    * 1969 A Outra Face
    * 1974 O Outro Lado da Meia-Noite
    * 1976 Um Estranho no Espelho
    * 1977 A Herdeira
    * 1980 A Ira dos Anjos
    * 1982 O Reverso da Medalha
    * 1986 Se Houver Amanh
    * 1987 Um Capricho dos Deuses
    * 1988 As Areias do Tempo
    * 1990 Lembranas da Meia-Noite
    * 1991 Juzo Final
    * 1992 Escrito nas Estrelas
    * 1994 Nada Dura para Sempre
    * 1994 A Perseguio
    * 1994 Corrida pela Herana
   
    * 1995 O Ditador
    * 1995 Manh, Tarde e Noite
    * 1995 Os Doze Mandamentos
    * 1995 O Fantasma da Meia-Noite
    * 1997 O Plano Perfeito
    * 1998 Conte-me Seus Sonhos
    * 2000 O Cu Est Caindo
    * 2001 O Estrangulador  
    * 2004 Quem Tem Medo do Escuro??
    * 2006 O Outro Lado de Mim
    * 2009 A Senhora do Jogo








[*Nota feita pela revisora. Feita com a inteno do leitor conhecer mais sobre o autor. No existe essa nota no livro original. A formatao do livro  personalizada.]






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O Reverso da Medalha
  Sidney Sheldon





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